segunda-feira, 29 de abril de 2013

Remédio milagroso

Deu no Económico em 29/04/13*

Mercado imobiliário anima Wall Street

Os mercados norte-americanos abriram hoje em alta com os investidores optimistas em relação ao dados do mercado imobiliário nos EUA, que vão ser divulgados hoje, e com a possibilidade de o Banco Central Europeu anunciar uma descida da taxa de juro directora. (..)

Os investidores acreditam que o número de contratos de promessa de compra e venda de casas aumentou quase 1% em Março, mais um sinal de que o sector da construção está a recuperar nos EUA. (..)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Outorga Onerosa em números: uma comparação Niterói-São Paulo

Caro leitor,

A certa altura deste artigo, está dito:
"Na ausência de dados da prefeitura de São Paulo (é muito difícil obter dados administrativos da aplicação da OODC nas cidades brasileiras), utilizarei os parâmetros das simulações de aplicação de OODC descritas pelo professor Paulo Sandroni em seu blog.(2) Caso eu venha a obter dados da prefeitura e eles me demonstrem a inconveniência desse procedimento, terei prazer em corrigir-me."
É disso que trata esse pequeno prólogo. Hoje, de posse de uma planilha completa de dados da Outorga Onerosa do Direito de Construir na cidade de São Paulo, devo admitir que os valores aqui estimados para a capital paulista são muito maiores do que os reais. Isto se deve ao uso dos valores de contrapartida extraídos dos exemplos puramente hipotéticos do Prof. Sandroni, cuja finalidade não era mostrar a ordem de grandeza dos valores arrecadados, mas apenas exemplificar a aplicação das fórmulas de cálculo. O erro, portanto, é exclusivamente meu. 

Sustento, entretanto, que o método por mim utilizado nesta comparação, baseado no princípio do "valor residual da terra", é válido, e que os dados da mencionada planilha me permitem estimar preliminarmente que os valores de OODC cobrados em São Pauo, são, de fato, bem maiores que os cobrados em Niterói, o que buscarei demonstrar em um próximo artigo. 

Em 12-07-2015, o blogueiro


Para um exame mais atualizado e completo do tema, leia também, neste blog:

"CEPAC e Outorga: primo rico, prima pobre - notas sobre as modalidades de recuperação de mais-valias do solo resultantes de acréscimos de edificabilidade"





Niterói é uma das cidades pioneiras na aplicação da Outorga Onerosa do Direito de Construir no Brasil. 

Não é pouca coisa num país cuja segunda maior metrópole, o Rio de Janeiro, há mais de 20 anos a prevê em seus Planos Diretores, mas nunca encontra o momento e o lugar certo de aplicá-la.

Justiça seja feita, portanto, aos profissionais urbanistas de Niterói, que há anos se dedicam a pôr em prática, divulgar, defender e aperfeiçoar esse relevante instrumento de financiamento urbano baseado na recuperação da renda da terra. 


(Este reconhecimento não é extensível aos prefeitos e maiorias parlamentares da cidade, que vejo como responsáveis pelo que a OODC niteroiense tem de pífio e até de enganoso; penso que eles a têm usado como conveniente cobertura para uma política de adensamento construtivo que só beneficia proprietários e incorporadores)




Este breve artigo tem por finalidade estimar, com base no método de cálculo da valorização por acréscimo de edificabilidade discutido na postagem anterior e numa “curva de renda” por mim desenvolvida, em caráter experimental (um avaliador o faria, certamente, com muito mais segurança e competência), a dimensão dos valores cobrados por Outorga Onerosa em Niterói.

Analisaremos dois casos de cobrança de OODC em empreendimentos multifamiliares recém entregues nos bairros de Jardim Icaraí e Santa Rosa, comparando-os entre si e com informações disponíveis para a cidade de São Paulo. Os empreendimentos são o Tour de Renoir, à rua Vereador Duque Estrada 39, Santa Rosa, e o Orchestra, à rua João Pessoa 95, Jardim Icaraí. 

 

Clique na imagem para ampliar


Além dos indispensáveis dados de mercado dos dois empreendimentos, por mim recolhidos e temporalmente ajustados, faremos uso de dados coletados pelo professor Fernando Valverde Salandia junto à prefeitura de Niterói, disponíveis em sua apresentação "A experiência de Niterói, RJ, com a Outorga Onerosa do Direito de Construir". (1)

Na ausência de dados da prefeitura de São Paulo (é muito difícil obter dados administrativos da aplicação da OODC nas cidades brasileiras), utilizarei os parâmetros das simulações de aplicação de OODC descritas pelo professor Paulo Sandroni em seu blog.(2) Caso eu venha a obter dados da prefeitura e eles me demonstrem a inconveniência desse procedimento, terei prazer em corrigir-me.

Os fatos

Na mencionada apresentação, o professor Fernando Valverde nos oferece os seguintes dados sobre a aplicação da OODC nos empreendimentos em análise: 



Clique na imagem para ampliar

Temos, portanto, para cada caso, o valor total da contrapartida aplicada e o valor da contrapartida por m2 excedente ao Coeficiente Básico. 


Como podemos, agora, apreciar o significado dessas contrapartidas por Outorga Onerosa do Direito de Construir como aplicação da política de recuperação da valorização / renda do solo?

A teoria 

Clique na imagem para ampliar
Recapitulemos o esquema de repartição da renda do solo na indústria da incorporação imobiliária, discutida em postagem anterior deste mesmo blog. A renda total gerada no empreendimento, a ser repartida entre o proprietário do solo e o incorporador segundo o poder de barganha de cada um, é o resíduo da subtração, à receita total (Valor Geral de Vendas - VGV), dos custos totais de construção e comercialização e do custo de capital representado pela Taxa Mínima de Atratividade – TMA. Contudo, em um mercado onde vige a Outorga Onerosa do Direito de Construir, a repartição do valor residual entre proprietário e incorporador só poderá ser feita após a dedução do valor da contrapartida - que é a parte da coletividade na repartição da renda do solo. (É claro que se o incorporador adquiriu o terreno antes da introdução da OODC ou da fixação do valor da contrapartida, terá de arcar sozinho com o "prejuízo" - um justificado ônus sobre a prática de manter lotes de "engorda").

Do esquema teórico da repartição da renda decorre a pergunta óbvia: a que proporção da renda total do solo correspondem as contrapartidas cobradas pela municipalidade de Niterói nos dois casos em discussão? 

A análise  

É para estimar essa proporção que vimos desenvolvendo uma metodologia baseada no método residual dedutivo de avaliações imobiliárias – que não é senão o “espelho” da estrutura econômica dos empreendimentos. Essa estimativa tem duas dimensões inseparáveis: a OODC como proporção da renda excedente ao coeficiente básico, que é aquela que o Estatuto da Cidade define como passível de cobrança de contrapartida; e a OODC como proporção da renda total, que, devido aos diferentes tamanhos de empreendimento, preços de venda médios do m2 privativo e coeficientes máximo e básico estabelecidos pelas legislações, reputo como o único termo possível de comparação entre as políticas municipais de recuperação da valorização por acréscimo de edificabilidade e, por isso mesmo, o verdadeiro “preço” da Outorga Onerosa do Direito de Construir.  

Clique na imagem para ampliar
Para o cálculo da contrapartida como proporção da renda excedente e da renda total, já havíamos deduzido as expressões algébricas ao lado. 

Para estimar o valor residual, desenvolvemos, em caráter experimental, uma “curva de renda”
Clique na imagem para ampliar
baseada em pesquisa de preços do m2 privativo em lançamentos recentes na Região Metropolitana do Rio de Janeiro e numa combinação/ adaptação / atualização de parâmetros propostos pelo engenheiro-avaliador Milton Mandelblatt.(3)


A aplicação dessa metodologia aos casos escolhidos em Niterói nos fornece os seguintes resultados: 

Clique na imagem para ampliar
  

Qualquer leitor minimamente familiarizado com a OODC – assim como o leigo interessado na matéria – há de se perguntar: por que a recuperação da renda nos dois casos é tão díspar se os dois empreendimentos são tão similares em termos do produto imobiliário, do seu preço de venda por m2 privativo e da cota de terreno que esse preço contém?

Esta é uma questão inteiramente pertinente, uma vez que levanta o problema crucial da confiabilidade do método de determinação de OODC utilizado em Niterói. Os dados coligidos pelo professor  Valverde mostram inequivocamente que a disparidade de valores de contrapartida é uma das características dominantes da aplicação da OODC na cidade. A outra é, precisamente, o seu baixíssimo valor relativo, objeto desta postagem.

Consideremos agora, portanto, o quadro resultante dessa mesma metodologia aplicada sobre os parâmetros das simulações de Outorga Onerosa na cidade de São Paulo, apresentadas pelo professor Paulo Sandroni no artigo "Captura de Mais Valias Urbanas em São Paulo através do binômio Solo Criado/Outorga Onerosa: análise do impacto do coeficiente de aproveitamento básico como instrumento do Plano Diretor de 2002", disponível em seu blog.(2)

Os preços médios de m2 privativo para os dois bairros foram por mim deduzidos de pesquisa na Internet e ajustados para março de 2012. A quantidade de m2 privativos foi tomada como igual ao de m2 brutos construídos, com base na hipótese simplificadora de que as taxas m2 construído/m2 privativo e m2 computáveis/m2 construído se compensam. Assumo, também, que a "curva de renda" da Região Metropolitana do Rio de Janeiro se aplica à de São Paulo. Esse inevitável conjunto de simplificações (produto da falta de dados da própria municipalidade) exige que consideremos os valores resultantes como meras ordens de grandeza! 
Clique na imagem para ampliar


As proporções encontradas nesta “simulação da simulação” da OODC de São Paulo são verdadeiramente surpreendentes para os padrões brasileiros e - por que não admitir - para  as expectativas deste blogueiro também. Porém, a julgar pelo conjunto de informações aduzidas pelo prof. Sandroni no artigo "CEPACS: Certificates of Additional Construction Potential: A New Financial Instrument of Value Capture in São Paulo", também encontrável em seu blog (4), essas proporções são inteiramente compatíveis com a tradição paulistana oriunda das extintas Operações Interligadas, cuja lei determinava que à administração pública deveria caber um mínimo de 50% do incremento de valor criado pelo benefício concedido - no nosso caso, aumento de edificabilidade - ao empreendedor. Essa proporção é mantida na Operação Urbana Água Espraiada e chega a 60% no caso da Operação Urbana Água Branca.

Os por quês 

Por que a recuperação da renda em Niterói é tão flagrantemente menor do que aquela que se pratica na cidade de São Paulo? Por que Niterói se contenta com fatores de recuperação da valorização e taxas de recuperação da renda de até 1/10 de suas homólogas paulistanas


Clique na imagem para ampliar


É  difícil responder a essa pergunta. Não pretendo argüir que o problema está nas fórmulas de cálculo – embora haja, a meu juízo, sérios problemas teóricos e práticos com a maioria das fórmulas de cálculo em uso no Brasil, inclusive a de São Pauloque não apenas são "cegas" para a relação entre a contrapartida e a renda como podem gerar valores absurdamente elevados quando despidas de seus "fatores de ajuste" - como mostra, aliás, o professor Valverde em seu estudo da OODC em Niterói. Voltarei ao tema, com mais detalhes, em algum momento futuro.

Na verdade, a fórmulas têm um papel relativamente secundário na questão do valor da contrapartida, precisamente porque não são exatamente fórmulas de cálculo: são como algoritmos de determinação do valor da contrapartida, usados para atingir ordens de grandeza que satisfaçam à decisão política que tenha tomado a municipalidade a respeito de quanta renda pretende recuperar. 

Dito em outras palavras, o valor da contrapartida por OODC não se "calcula" como o volume de um cilindro ou a velocidade final de um corpo em queda livre. Ele é uma decisão de política urbana que pode representar qualquer fração entre 0% e 100% da renda da terra gerada nos empreendimentos imobiliários (valor residual do terreno), a totalidade da qual não tem nada a ver com remuneração do investimento produtivo privado, mas é puro valor de localização, isto é, criação coletiva baseada na disponibilidade de infraestrutura, equipamentos e serviços públicos.

Não existe, tampouco, explicação econômica para a disparidade de valores cobrados por OODC nas cidades brasileiras. O lucro imobiliário (isto é, o lucro excedente ao retorno de capital esperado) não é mais crucial para as empresas fluminenses, mineiras e potiguares do que para as paulistanas – todas, aliás, cada vez mais "nacionais", quando não "internacionais".

Embora a crise de 2008 e suas sequelas tenham deixado claro que o papel da renda imobiliária é cada vez mais crítico nas economias nacionais e mundial - razão pela qual a resistência empresarial às políticas de recuperação da renda tende, a meu ver, a crescer, não a diminuir -, a não arrecadação, ou a baixa arredação da OODC no âmbito das cidades explica-se, antes de tudo, pelo surrado chavão: a (falta de) vontade política dos governos municipais. 

De todo modo, São Paulo é a prova empírica de que uma OODC de valor equivalente a 50% da valorização sobre o coeficiente básico 1 não afeta em nada o ritmo da incorporação imobiliária, que funciona à base de sobrelucros só limitados pela capacidade de endividamento da população adquirente de imóveis

Se todas as cidades brasileiras convergissem para a recuperação de 50% do valor acrescido pela edificabilidade excedente ao Coeficiente Básico =1, como advoga a tradição paulistana, estariam dando um grande passo em favor do autofinanciamento de suas infraestruturas básicas.


Critérios alternativos para a cobrança de OODC em Niterói


Para dar uma dimensão do potencial de recuperação de renda do solo por OODC em Niterói, proponho agora utilizar o método de estimação da valorização e da renda para traçar critérios alternativos de determinação do valor da contrapartida. 

Nas tabelas abaixo, indico os valores de OODC por m2 construído excedente e total, que, nos casos analisados, resultariam de distintas políticas de recuperação da valorização.  A coluna assinalada em cinza contém os parâmetros da OODC efetivamente aplicada. As demais contêm os valores de OODC por m2 contruído excedente que teriam resultado de distintas combinações de parâmetros de política urbana: fatores de recuperação da valorização variando entre 20% e 50% com Cb =2 e, finalmente, o critério "paulistano": coeficiente básico = 1 e fator de recuperação da valorização = 50%. 

Clique na imagem para ampliar


Clique na imagem para ampliar


No caso do Orchestra, a diferença estimada entre o efetivamente arrecadado e a receita que teria resultado da aplicação do critério "50% da valorização acrescida ao coeficiente básico = 1"  (em termos de renda total atualizada, que é o preço de venda da terra aos adquirentes dos novos apartamentos, não de parte da renda, como é o caso do valor de mercado do terreno - 50% , em tese - ou, ainda pior, da representação desatualizada deste último que é o valor venal para fins de IPTU) monta a quase inacreditáveis R$ 8.436.000,00

No caso do Tour de Renoir, um empreendimento mais representativo da média dos lançamentos em Jardim Icaraí, a receita total poderia alcançar a marca dos R$ 3.000.000,00. Para cada 50 empreendimentos anuais, a aplicação deste critério - que propomos como "critério de convergência para as cidades brasileiras" - teria representado um aporte da ordem de R$ 150.000000,00 ao Fundo Municipal de Desenvolvimento Urbano (o equivalente a 2.173 apartamentos do programa Minha Casa Minha Vida para famílias com rendimentos até 3 salários mínimos) contra cerca de R$ 25.000.000,00 arrecadados na cidade de 2004 a outubro de 2011 - segundo nos informa o professor Valverde.


Este valor, à primeira vista estratosférico para os padrões de OODC em uso no Brasil, pode ser, no entanto, perfeitamente compatível com a imensa sobrecarga  que os coeficientes de aproveitamento de terreno de Niterói impõem à sua infraestrutura e redes de serviços urbanos. (5)


É claro, cada administração municipal tem a sua circunstância política. Mas, dentro de certos limites, sempre é possível escolher. As tabelas acima mostram que a pior opção não é necessariamente a única factível.



2013-04-22
Editado em 2014-12-28



NOTAS

(1) Valverde Salandia, Luis Fernando, “A experiência de Niterói, RJ, com a Outorga Onerosa do Direito de Construir”, Curso de Regulamentação e Implementação de Operações Urbanas Consorciadas e Outorga Onerosa do Direito de Construir, governo Federal do Brasil e Lincoln Institute of Land Policy, São Paulo, 25 de novembro de 2011


(2) Sandroni, Paulo, "Captura de Mais Valias Urbanas em São Paulo através do binômio Solo Criado / Outorga Onerosa: análise do impacto do coeficiente de aproveitamento básico como instrumento do Plano Diretor de 2002". http://sandroni.com.br/?page_id=301 

(3) Abuhnaman, Sergio, Curso Básico de Engenharia Legal e Avaliações, Pini, 1999

(4) Sandroni, Paulo, "CEPACS: Certificates of Additional Construction Potential. A New Financial Instrument of Value Capture in São Paulo",  http://sandroni.com.br/?page_id=310, também publicado em “Municipal Revenues and Land Policies”, Ed. Gregory Ingram and Yu-Hung Hong. Lincoln Institute of Land Policy, Cambridge, Mass. 2010

(5) Convido o leitor a ver imagens e dados impressionantes da atual superintensificação do uso do solo urbano nas cidades brasileiras em
http://oglobo.globo.com/pais/verticalizacao-altera-paisagens-de-cidades-do-norte-do-nordeste-8174401



sábado, 13 de abril de 2013

Modernismo anônimo em Santa Rosa, Niterói


Mais do que de arquitetura, parece neste caso mais apropriado falar de um modesto, porém interessante exemplo de estética modernista aplicada a uma edificação tradicional, colada nas divisas do lote e dotada de apartamento térreo.

Estamos numa pequena rua de Santa Rosa, ilhada por um tsunami de renovação imobiliária. A conservação do edifício não é das melhores, e sua valorização provavelmente fica abaixo das expectativas devido à incompatibilidade entre a área dos imóveis e a ausência de vagas de garagem.

Na onda de verticalização residencial das décadas de 1950 e 1960, os edifícios residenciais, inapelavelmente espremidos entre as duas empenas vizinhas, prestavam o inevitável tributo mercadológico ao modelo modernista tentando comunicar-se com o espaço público por meio de “pilotis” – expediente que consistia em soltar os pilares do pavimento térreo e preencher os espaços com vagas para automóveis, plantas em profusão e escadas de acesso à portaria principal.

Aqui temos algo bem mais interessante: o uso de uma estética sobriamente modernista na composição da fachada e tratamento da área de afastamento frontal, a serviço de uma implantação caracteristicamente pré-modernista.

Seus principais elementos são:

A composição rigorosamente retilínea da fachada dos pavimentos-tipo, modulada, porém, por uma sutil alternância de planos – varandas “embutidas”, elementos estruturais ligeiramente salientes e claramente demarcados, painéis vazados das varandas e molduras das janelas levemente recuadas.



O uso de elementos vazados para obter o efeito de separação espacial sem ruptura de continuidade: nas varandas dos apartamentos-tipo, por meio de painéis de semi-fechamento em quadrados generosos; no pavimento térreo, por meio de um muro de tijolos maciços alternados, em curva, à meia-altura, que demarca o acesso à porta principal e o separa do jardim fronteiro ao apartamento térreo. As janelas com folhas externas em venezianas de madeira participam, à sua maneira, desse esforço de continuidade-descontinuidade espacial.

O destacado recuo da fachada revestida em pedra do pavimento térreo, o pátio fronteiro e o muro recurvo vazado produzem o duplo efeito de dar ao apartamento ao rés-do-chão a intimidade própria de uma casa e à caixa de pavimentos-tipo o pleno aspecto de edificação multifamiliar. Acentua-se, assim, a ambigüidade entre a estética modernista e a implantação pré-modernist
a deste singelo edifício de apartamentos.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

G.R.E.S. Império das Empreiteiras II: privataria aliada não dói

Deu n`O Globo online de 11-04-2013
por Carolina Oliveira Castro  
http://oglobo.globo.com/esportes/dois-consorcios-disputam-licitacao-para-privatizacao-do-maracana-8085772#ixzz2QCEFOz5o

Dois consórcios disputam licitação para privatização do Maracanã
De um lado, IMX, de Eike Batista, e Odebrecht juntos
De outro lado, OAS e empresas da Holanda e da França
Vencedor da licitação vai gerir complexo esportivo por 35 anos

E, do lado de cá, os idiotas que pagaram para reconstruir o estádio pela segunda  vez em 10 anos, e que o encamparão daqui a outros 10, quando o negócio deixar de ser interessante.   

Há quem chame isso de "economia de mercado". Eu não vejo mercado algum. Vejo duas sociedades financeiras transnacionais associadas a empreiteiras nominalmente nacionais num negócio de exploração de direitos sobre terras, bens e equipamentos pilhados ao patrimônio público brasileiro - com a participação direta do governo estadual, a cumplicidade do municipal e o beneplácito (patrocínio? conivência amiga? distanciamento hipócrita?) do federal.   

Agora, cá entre nós, leitor: você acredita que são, de fato, dois consórcios ou desconfia, como eu, que é um só convenientemente  dividido em dois?

PS: Só de olhar para essa cobertura, eu antevejo muitos milhões mais sendo gastos em "reparos" num futuro bem próximo. Duvido mesmo que ela chegue incólume aos Jogos Olímpicos de 2016.    



  

sexta-feira, 5 de abril de 2013

G.R.E.S Império das Empreiteiras: "Pão, Circo e Gastança - Prodígios da Gestão Privada dos Recursos Públicos"

Deu n'O Globo online 05-04-2013
http://oglobo.globo.com/
Novo Maracanã já tem cara de estádio

Deu no espn.com.br 05-04-2013 por Por Gabriela Moreira
http://www.espn.com.br/noticia/320968_reformado-para-a-copa-por-r-1-bilhao-maracana-precisara-ser-reformado-para-olimpiada
Copa do Mundo FIFA
Reformado para a Copa por R$ 1 bilhão, Maracanã precisará de novos reparos para Olimpíada
Ofícios enviados pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos Rio 2016 ao governo do Estado do Rio revelam que o Maracanã que está sendo reformado para a Copa do Mundo, ao custo de R$ 1 bilhão, não atende a exigências da Olimpíada. Ao todo, de acordo com os documentos aos quais o ESPN.com.br teve acesso, o Rio 2016 pediu a alteração de 39 pontos, entre modificações nas obras e mudanças na licitação. A maior parte, no entanto, não foi contemplada no edital cujo vencedor será conhecido na próxima semana.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Julio Delamare e Célio de Barros: NÃO à destruição dos bens do patrimônio desportivo e educacional brasileiro

Parque Aquático Júlio Delamare 
Para qualquer administrador público atento, a contiguidade do complexo esportivo do Maracanã (Estádio do Maracanã, Ginásio do Maracanãzinho, Parque Aquático Júlio Delamare e Estádio de Atletismo Célio de Barros) com os campi da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Escola Técnica Federal Celso Suckow da Fonseca (CEFET), constitui uma circunstância singularmente interessante e promissora.

Do outro lado da via férrea, eleva-se o maior parque do Rio de Janeiro, a histórica Quinta da Boa Vista, onde ainda dominam o Museu Nacional (URFJ) e o Zoológico da cidade.    

Estádio de Atletismo Célio de Barros
Para um projeto olímpico identificado com o progresso da educação esportiva e cidadã, esse conjunto de circunstâncias, combinado ao fato de estarmos no coração da metrópole, com abundante oferta de todas as modalidades de transporte público, seria – como diria o ex-presidente Lula – uma “oportunidade extraordinária”.

Ora, se a estratégia urbanística do projeto olímpico de 2004 era “urbanizar” a Cidade Universitária (UFRJ), na Ilha do Fundão, a do projeto olímpico de 2016, sobretudo depois dos vultosos gastos feitos em todo o complexo do Maracanã para os Jogos Panamericanos de 2007, bem poderia ter sido potencializar esse investimento mediante a criação de um grande complexo desportivo-educacional UERJ-Maracanã-CEFET integrado a uma “nova centralidade" urbana na região da Praça da Bandeira, abrangendo a Quinta da Boa Vista e o Museu Nacional (UFRJ) e multiplicando as oportunidades de inserção econômica e social da comunidade da Mangueira. 

A elaboração de um projeto urbano que materializasse tal estratégia seria uma justa homenagem a várias gerações de urbanistas cariocas, que, há décadas, percebem na lenta e caótica justaposição das infraestruturas do corredor rodo-ferro-metroviário da Avenida Radial Oeste a formação de um território profundamente fragmentário, inóspito e desumano – numa palavra,  antiurbano – a exigir um projeto de renovação e integração.



"Cidade Universitária" do Maracanã 

Algum pesquisador  da história do urbanismo do Rio de Janeiro poderia, quem sabe, reunir um tesouro de preciosidades caso se dedicasse a desencavar, nos arquivos da municipalidade e nas gavetas de escritórios de arquitetura, idéias para a reurbanização desse segmento da cidade.

O último desses projetos, é preciso dizer, foi o de uma consultoria francesa contratada pelo ex-prefeito César Maia, que apresentou publicamente suas propostas para um ambicioso programa de desenvolvimento urbanístico e imobiliário da área no exato dia do ano de 2008 em que – ironia do destino! – começava a desmoronar, nos Estados Unidos, a pirâmide financeira mundial construída sobre a securitização das hipotecas imobiliárias. Consumada a eleição de Eduardo Paes, atira-se na lata do lixo o projeto francês – que, entre outras coisas, cometia a heresia de propor uma indispensável cota de habitação social no Porto Maravilha – e inicia-se um novo ciclo de “urbanismo olímpico” focado na convergência de todos os equipamentos, infraestruturas e oportunidades imobiliárias na Barra da Tijuca e no Porto Maravilha e na delegação de todos os planos e projetos da cidade aos escritórios das grandes empreiteiras. No complexo esportivo do Maracanã, tudo o que constitui obstáculo à privatização escandalosamente facilitada e dirigida da nova arena de 1,5 bilhão de reais é condenado à demolição – a começar pelo Museu do Índio e Aldeia Maracanã e terminar pelo Parque Aquático Julio Delamare e pelo Estádio de Atletismo Célio de Barros. 

Para vislumbrar o imenso potencial social, educacional e urbanístico do complexo esportivo do Maracanã seria necessário que os governantes de todas as esferas fossem movidos pela tradicionalíssima ideia de que o esporte, antes que um lucrativo ramo de negócios, é uma dimensão da cultura cidadã baseada na escola.

E seria necessário também que as administrações Lula e Dilma, governos comprovadamente interessados na  melhoria das condições de vida da maioria dos brasileiros, tivessem tido, como fiadores e financiadores de primeira e última instância dos projetos Copa do Mundo FIFA 2014 e Rio Olímpico 2016, uma postura radicalmente diferente em relação às exigências da FIFA e do COI - entidades controladoras dos direitos econômicos dessa marcas (como podem não ser Patrimônio da Humanidade?) e seus respectivos eventos.

UERJ, EA Célio de Barros, Maracanã e Maracanãzinho 
Há vinte anos, quando as grandes metrópoles brasileiras eram o palco principal da devastação econômica imposta pelas medidas de austeridade do FMI, curvar-se ante as tirânicas exigências dessas entidades parecia ser o preço a pagar pela chance de poder disputar uma fração das receitas da indústria do turismo e dos grandes eventos  internacionais.

Mas, e hoje, quando o nosso governo alardeia pelo mundo as suas façanhas econômicas e bate no peito a ditar cátedra desenvolvimentista aos antigos credores, prostrados pelas perdas sofridas na roleta imobiliário-financeira mundial?  


Como pode a FIFA nos obrigar à construção de uma penca de estádios de futebol sabidamente inviáveis, elefantes brancos fadados, a exemplo do já ocorrido na Grécia, Portugal, China, África do Sul e Ucrânia, a sangrar indefinidamente as finanças locais a ponto de ter cogitada a sua inglória demolição?         


Como pode o projeto olímpico de um país cuja renda per capita equivale a ¼ da dos países ricos, e onde são dolorosamente escassos a infraestrutura em geral e os equipamentos desportivo-educacionais em particular, exigir a demolição de unidades desportivas completas, recém reformadas e plenamente operacionais como o Parque Aquático Júlio Delamare e Estádio de Atletismo Célio de Barros, situadas quase dentro dos compactos campi urbanos da UERJ e do CEFET?


CEFET, PA Júlio Delamare, Maracanã e Maracanãzinho 

Como pode o projeto olímpico Rio 2016 exigir o descarte como inúteis, quando não o abandono e a destruição, de instalações construídas e reformadas com dinheiro público para os Jogos Panamericanos de 2007, como no o caso do velódromo da Barra da Tijuca e do Parque Aquático Maria Lenk?

Como pode o projeto olímpico Rio 2016 descartar a recuperação do CD Caio Martins, em Niterói, para apoio aos Jogos Olímpicos e posterior uso de seus cidadãos em geral e sua juventude estudantil em particular?

Como esquecer o vergonhoso silêncio de todas as esferas de governo ante a cínica bazófia dos promotores e patrocinadores da Copa do Mundo FIFA 2014 e dos Jogos Olímpicos 2016 a dizer que “tudo ser[ia] feito com recursos privados”?

Como entender e aceitar o aval dos governos reformadores de Lula e Dilma à transformação da Copa do Mundo FIFA 2014 e Jogos Olímpicos Rio 2016 numa orgia de destruição de bens públicos para a construção de outros tantos bens e equipamentos economicamente inviáveis com recursos públicos (isenções fiscais incluídas) invariavelmente a salvo de qualquer controle social a pretexto de "urgência de prazos" e garantidos pelos contratos draconianos firmados com os promotores?

“Empreiteiras, locupletai-vos” - parece até que foi esta a palavra de ordem transmitida de boca em boca em meio à ruidosa celebração dos anúncios "O país sede da Copa do Mundo FIFA 2014 é... o Brasil"; "A cidade-sede dos Jogos Olímpicos 2016 é... o Rio de Janeiro!”

UERJ
A iminente demolição do Parque Aquático Júlio Delamare e do Estádio de Atletismo Célio de Barros é um crime contra a educação e o esporte brasileiros, em nome das necessidades comerciais da FIFA e do COI. 

Ela traz à tona, de um modo particularmente doloroso para os amantes do futebol e dos esportes olímpicos, a verdadeira natureza da Copa do Mundo da FIFA e dos Jogos Olímpicos na era da finança globalizada: uma transação incontrolável entre capitais transnacionais sedentos de valorização com baixo investimento e governos nacionais enfeitiçados pelo potencial de publicidade e prestígio das marcas esportivas mais populares do planeta.




2013-04-01

#Cinejá

"As obras do Centro Petrobrás de Cinema começaram em 2004 e ainda estão inacabadas. Por intermédio do Diretório Acadêmico de Cinema da UFF e do Movimento #Cinejá, solicitamos esta proposta para a realização de uma Audiência Pública sobre o tema, por acreditar que o rumo a ser tomado no uso deste Centro é importante para o cinema e audiovisual em Niterói, incluindo as iniciativas de ensino de produção acerca desta pauta. A iniciativa do livre debate com a sociedade civil se legitima, já que esta está diretamente envolvida. Existe uma carência no que se refere a alternativas salas de cinema em Niterói e a população deve participar das decisões pertinentes na contemplação de mais um espaço cultural do município".



Centro Petrobrás de Cinema, Cine Arte UFF, Cinema Icaraí, Mergulhão, CD Caio Martins a cargo a UFF... o que há de errado com esta cidade que nenhuma iniciativa se conclui? 

Niterói - capital das metarrealizações?