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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Cidades 'planejadas’: mito e realidade - notas


As 'cidades planejadas' constituem um capítulo obrigatório, de grande interesse para o estudo da conturbada relação entre o planejamento urbano e o mercado de bens e serviços urbanos. Com edições e acréscimos, esta postagem reúne textos e passagens já aqui publicados sobre o assunto, agrupados em quatro subtemas a serem desenvolvidos e multiplicados na medida do tempo disponível.
Fonte: RUBIRA FG [*]
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A cidade ex novo como núcleo histórico

O estudo das cidades ex novo da época capitalista importa menos pela fama que carregam de ‘cidades planejadas’ - no sentido moderno do termo elas não são nem mais nem menos planejadas do que quaisquer outras cidades - do que pelo testemunho que nos dão das possibilidades, limites e contradições envolvidas no processo de planejamento urbano.

Uma dessas contradições diz respeito à natureza singular de seu ‘núcleo histórico’. Abrangendo o Centro propriamente dito e o perímetro urbano definido no projeto de urbanização original, ele não costuma ser valorizado, às vezes sequer reconhecido, como tal, pelos munícipes e suas instituições. Sendo ‘moderno’, não pode ser ‘histórico’.

Em textos acadêmicos e não acadêmicos, 'cidade planejada' quase sempre se refere a alguma urbe construída 'do zero' - quer sobre um autêntico vazio rural, quer sobre algum núcleo rural ou litorâneo pré-existente. Sua marca distintiva é a existência de um traçado.

Na verdade, o ‘plano’ de uma cidade nova pode tanto consistir em pouco mais do que um simples tabuleiro, como no caso de Teresina e Aracaju - disputadas como "mais antiga cidade planejada do Brasil" - quanto, no outro extremo, em um conjunto urbano totalmente edificado e rigidamente regulado, como no caso de Brasília. O mais das vezes, no entanto, verificam-se situações intermediárias: um trama projetada de vias e praças públicas, acompanhada de um conjunto de regulações básicas relativas ao zoneamento, ocupação do solo e preservação de áreas verdes - o caso de Maringá.

O certo é que, na proporção de sua importância na economia regional, o crescimento da cidade ex novo transborda o limite originalmente estabelecido e novos ciclos regulatórios e de obras públicas - viárias, principalmente - têm início, para dar conta, antes de mais nada, do próprio processo de expansão urbana.

Não raro, esse transbordamento é concomitante à execução do projeto original, pela via do assentamento não devidamente programado dos trabalhadores envolvidos em sua construção; e na virtual totalidade dos casos, os novos ciclos de planejamento se dão nas circunstâncias observadas por Benevolo:

De modo geral, a técnica urbanística aparece com atraso relativamente aos acontecimentos que tem por missão controlar e tem um caráter curativo. [Benevolo L, Le Origini dell’Urbanistica Moderna, 1963]

É assim que as "cidades planejadas", independentemente de sua posição na escala da modernidade, se convertem em núcleos históricos de suas próprias transfigurações metropolitanas, caracterizados não pela antiguidade dos conjuntos edificados remanescentes - geralmente reciclados, lá onde existem, para uso geral sob a tutela de programas especiais de proteção e conservação - mas pelos atributos técnicos, funcionais e artísticos de componentes ainda plenamente operacionais como o traçado, os parques e áreas verdes, os centros cívico e administrativo etc., mais ou menos bem adaptados aos primeiros ciclos de sua vida útil.

Estou postulando que o núcleo planejado de uma metrópole fundada no século XX pode ser tão 'histórico' e prenhe de significados e tradições quanto qualquer Centro Histórico declarado Patrimônio da Humanidade pelas Nações Unidas! Depende, talvez, do que o observador entende por “história” e do que busca no qualificativo que lhe corresponde.


Cidades ex novo x Grandes Projetos Urbanos

Diria o senso comum que a construção de uma nova capital é, por definição, um grande projeto urbano. Mas pode não sê-lo na acepção que o urbanismo contemporâneo dá ao termo, grafado o mais das vezes com iniciais maiúsculas ou referido pela sigla GPU/GUP.

Em geral, os modernos GPUs são intervenções - como prefere Garay [1] - de grande escala e elevada complexidade nas cidades existentes. Grandes Projetos Urbanos constroem, ou reconstroem, pedaços de cidade dentro da grande cidade, quase sempre incorporando acréscimos de valor do solo gerados pela própria intervenção à equação de seu financiamento.

Não se trata de filigrana conceitual: os Grandes Projetos Urbanos contemporâneos são importantes condutores do circuito financeiro global, precipuamente destinados, na maioria dos casos, a gerar oportunidades de negócios imobiliários e seus acessórios por meio da urbanização e comercialização de solo público com potencial de valorização derivado das qualidades intangíveis da própria metrópole. A reivindicação da urbanização autofinanciada com recursos da renda do solo, mesmo quando mais publicitária que real, é um sinal inequívoco de que as motivações estratégicas geralmente associadas, inclusive a de “incentivar a economia”, não lhes bastam como fonte de legitimação e enraizamento no ideário coletivo.

Cidades ex novo, embora relativamente comuns à escala dos séculos, são excepcionalidades no campo do urbanismo, resultantes de processos de colonização de natureza diversa, de políticas estatais de desenvolvimento territorial, do enfrentamento de catástrofes naturais e sociais e do que poderíamos chamar de 'repaginação' do poder político em situações, reais e imaginárias, de clivagem histórica. Ou de combinações dessas circunstâncias.

Cidades ex novo também podem, com certeza, surgir como empreendimentos explicitamente comerciais, como no caso da rede urbana do Noroeste paranaense (Londrina, Apucarana, Maringá etc.). E não está excluído, muito ao contrário, que a construção de uma nova capital, ainda que por sólidas 'razões de Estado', seja terreno fértil para a proliferação de operações especulativas. Veja o leitor essa esclarecedora passagem literária:

"Confesso nunca ter visto lugar tão deprimente. Partes do Capitólio e da mansão presidencial ainda em construção e nada mais. Trabalhadores morando em barracos que, quando da minha última visita à cidade, em 1806, estavam ainda intactos - e ocupados. Eu especulei com terras como todo mundo, incluindo o general Washington, que acabara de comprar dois lotes perto do Capitólio. Adquiri um terreno próximo à Casa Branca. Uma loucura! Homens a cavalo na escuridão da mata, com mapas nas mãos, apontando para chão e dizendo: "Aqui fica a esquina da rua tal com a rua tal. Pertinho do Capitólio. Vou construir aí uma casa - não, um hotel”. No final, quem investiu nesses pântanos ganhou rios de dinheiro." VIDAL, Gore, Burr: A Novel (Vintage International) (English Edition). [Tradução PJ]

Contudo, e apesar de que pode ser às vezes difícil distinguir, na governança da classe proprietária dominante, o interesse geral das ambições particulares, não há que duvidar que a construção de uma cidade é, em qualquer caso, um evento muito mais complexo, historicamente significativo e carregado de contradições do que a renovação de um perímetro urbano. 
Ao passo que aqui predomina o binômio engenharia financeira / arquitetura urbana, com eventuais elementos de preservacionismo edilício e proteção social, lá se impõe uma matriz infinitamente mais ampla de aspectos envolvidos e problemas por resolver, como são a justificação histórica, econômica e política da proposta, o processo de decisão, a disputa pelo lugar, a seleção do plano urbanístico, a mobilização de recursos financeiros, materiais e humanos, o soerguimento de uma nova economia urbana, a construção da estrutura de administração e governo etc., culminando no nó górdio do próprio assentamento: um novo bairro internacional no Centro da metrópole pode não ter uma única moradia 'sub-mercado', ou mesmo residência alguma de caráter permanente; uma nova capital jamais, ainda que o projeto não a tenha previsto e a construção não a tenha realizado. Na 'cidade planejada' estarão todos, inclusive os 'sem cidade'.


Cidades ex novo, centralidade e vantagens de aglomeração

A despeito das sólidas evidências proporcionadas pelo espetacular crescimento das grandes cidades dos EUA, nos projetos de urbanização de fins do século XIX a noção de ‘centro urbano’ ainda é basicamente governada pela ideia barroco-tardia de ‘centro cívico’, local de agrupamento das edificações ligadas às principais instituições dos poderes temporal e religioso: no ‘urbanismo dos traçados’, devidamente embrulhado na racionalidade geométrica puramente abstrata da organização espacial positivista; nas cidades-jardins, organizado ao redor do parque central howardiano. 

Quer seja por conservadorismo, reformismo ou vanguardismo, constitui uma característica do urbanismo dedicado ao projeto da cidade ex novo a negação do centro comercial e bancário como aspecto chave, incontornável, da organização espacial e dinâmica expansiva da cidade capitalista.

A localização do centro comercial e bancário é um aspecto crítico da cidade ex novo. Ele raramente se estabelece no lugar preconizado, e em nenhum caso da forma como imaginada, pelo projetista da ‘cidade planejada’, em parte porque essa localização depende de movimentos históricos pouco previsíveis como a evolução da tecnologia e da economia dos transportes - tipicamente a obsolescência da estação ferroviária central -, em parte porque os projetistas tendem a desconsiderar o fato de que, como já explicava o economista- avaliador estadunidense Richard Hurd em 1903, "o centro se forma ao redor do ponto de contato com o mundo exterior e se expande, ou desdobra, na direção determinada pela preferência de localização residencial das camadas de alta e média renda". [2] 

Salvo quando rigidamente imposto pelo ‘projeto de cidade’, como em Brasília, na urbanização de mercado o centro comercial e bancário há de ocupar o lugar mais adequado aos negócios, não aos critérios técnicos, pretensões estéticas e ideais filosóficos do projetista.

A contradição mais notória entre a racionalidade arquitetônica das cidades ex novo e as leis da economia urbana capitalista envolve a rede de acessibilidade: ao passo que a ‘economia da ocupação do solo’ tende à generalização da rede local reticulada, a ‘economia da localização’ comanda a formação de um sistema radial-concêntrico de artérias urbanas e meios de transporte. Não por outra razão encontramos, nos projetos de cidades ex novo e planos de reurbanização de grande escala, avenidas radiais que convergem para o centro cívico, tido pelos projetistas como a forma mais elevada, ou funcionalmente relevante, da centralidade urbana.

Uma segunda contradição, mais sutil mas não menos relevante, é a que opõe o padrão de compacidade da rede de ruas residenciais às vantagens de aglomeração esperadas pelos negócios no centro comercial urbano. Nas palavras de Hurd:

"Há quem pense que quanto mais larga mais valorizada é a rua, devido à maior capacidade de tráfego. Mas em uma rua comercial, a largura é praticamente irrelevante (..). A pouca largura facilita o intercâmbio entre os dois lados, o que é de alguma forma vantajoso para os negócios quando não implica em limitação à altura dos edifícios". [2]

A história da formação das metrópoles capitalistas indica que a ‘desordem’ do centro não planejado - onde prevalece o máximo grau de concentração espacial dos negócios - é sensivelmente mais eficiente do ponto de vista da economia urbana do que a ordem urbana determinada pelos ‘projetos de cidade’, com ruas largas, canteiros centrais, quadras regulares e lotes relativamente grandes. Uma hora de caminhada pelo centro comercial de uma cidade de crescimento ‘orgânico’ permite ao residente percorrer uma quantidade e uma variedade substancialmente maiores de lojas e prestadores de serviços do que nas ‘cidades planejadas’.

Ainda que o crescimento das cidades esteja determinado, no essencial, por fatores relacionados à economia regional e nacional, parece razoável supor que a dispersão espacial determinada pelo projeto da cidade planejada seja um fator inibidor da formação e desenvolvimento de seu centro urbano.



Cidades ex novo, expansão e planejamento urbano

Quaisquer que sejam o traçado e as normas urbanísticas da ‘cidade planejada’ capitalista, sua geografia há de derivar da dinâmica expansiva centro-periférica que a estrutura em termos sócio-espaciais.

A configuração centro-periférica, que na linguagem do século XVIII seria o ‘plano urbanístico da mão invisível do mercado’, provém do advento histórico, nas cidades da Europa setentrional de fins daquele século, de uma dinâmica espacial qualitativamente distinta de tudo o que existira até então, baseada na compra-venda generalizada de mercadorias, serviços e força de trabalho entre agentes em busca de localizar-se, na medida de seu poder de preempção, à menor distância-custo uns dos outros, mais exatamente de seus pares na interdependência econômico-espacial capitalista: residências x empregos; residências x varejo e serviços pessoais; negócios em geral x serviços técnicos, comerciais e financeiros.

Contudo, ainda que as leis da ‘economia da localização urbana’ sejam as mesmas em todas as cidades capitalistas em vias de expansão, a forma final de cada uma dependerá da resistência que lhe ofereçam, por um lado, as exigências da ‘economia da ocupação do solo’, vale dizer a propensão dos parcelamentos privados para o traçado ortogonal, e, por outro, as suas contingências fisiográficas e históricas.

Em 1903, Hurd se referiu a essas contingências nos seguintes termos: as cidades crescem em todas as direções a partir do ponto de origem salvo quando obstaculizadas pela topografia ou pela estrutura da propriedade fundiária pré-existente. Na década de 1920, Burgess reafirmou o postulado acrescentando, como fatores de resistência, eventuais elementos construídos (ferrovias, aquedutos) e, muito importante, as próprias comunidades previamente assentadas no território. Somam-se a esses um aspecto capital: os planos reguladores em geral, e os traçados das ‘cidades planejadas’ em particular.

Quando confrontada com um traçado urbano preexistente, a expansão radial da cidade capitalista há de começar pelo prolongamento e readequação das ruas que atendam, por um lado, ao tráfego regional de mercadorias, e, por outro, às preferências de localização residencial das camadas sociais mais abastadas. 

Em Porto Alegre, por exemplo, que não é uma ‘cidade planejada’ mas se expandiu a partir do traçado ortogonal original sobre o promontório à beira-rio, as primeiras radiais do processo de expansão metropolitana foram a Rua Voluntários da Pátria, base do corredor regional formado pela ferrovia implantada em 1874, pelo porto e suas estruturas de apoio e pelos nascentes bairros industriais, e as ruas que comunicavam o recinto colonial às partes altas de seu entorno, em especial a Avenida Independência, continuação do ‘passeio’ de consumo das famílias desafogadas (Rua da Praia, mais tarde Andradas) onde, entre 1900 e 1930, as famílias tradicionais da cidade construíram seus palacetes.

Quando confrontadas com um plano regulador de urbanismo excepcionalmente rígido, como em Brasília, as leis da economia da localização impor-se-ão à metrópole em expansão como coroa exterior de cidades satélites.

À parte o fato, sobejamente conhecido, de que o planejamento urbano é tanto mais visível e eficaz quanto mais rica é a cidade como um todo e, nas demais, quanto mais abastadas ou promissoras para os negócios são as regiões urbanas, o certo é que ele não tem o poder de se sobrepor às leis fundamentais da urbanização capitalista, pela razão elementar de que a economia que constrói a cidade não é ela própria, por definição, planejada.

A expansão contínua e virtualmente ilimitada das cidades modernas é a expressão mais direta da potência autorreprodutiva do capital que as constrói. Não por acaso, assim se pronunciou a Comissão do Plano de Copenhagen, mais conhecido como Finger Plan, em 1947, aurora do planejamento urbano à escala mundial:

O Finger Plan partiu da premissa de que a expansão do parque comercial e habitacional era inevitável e impossível de deter. [4]


2026-02-18

______
NOTAS

[*] RUBIRA Felipe Gomes, “Análise multitemporal da expansão urbana de Maringá-PR durante o período de 1947 a 2014 envolvendo o Parque Municipal do Cinquentenário e as principais áreas verdes do município”. Caderno de Geografia, v.26, n.46, 2016 DOI 10.5752/p.2318-2962.2016v26n46p333

[1] Garay, Alfredo, “El Montaje de una gran intervención urbana”, em Lungo, Mario (comp), Grandes Proyectos Urbanos, San Salvador: UCA Editores, 2004, p. 76

[2] HURD R M, Principles of City Land Values. New York, Record and Guide 1903
https://archive.org/.../principlesofcity.../page/n4/mode/1up

[3] Idem.

[4] SØRENSEN E e TORFING J, “The Copenhagen Metropolitan ‘Finger Plan’”. Em HART P e COMPTON M, Great Policy Successes, Oxford Scholarship Online: October 2019. Tradução livre PJ.
https://oxford.universitypressscholarship.com/view/10.1093/oso/9780198843719.001.0001/oso-9780198843719-chapter-12

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Apontamentos: Derntl 2024 e o planejamento de Brasília nos anos 1970

Estes apontamentos são parte de um processo de estudo compartilhado. À beira do urbanismo está à disposição dos autores cujo trabalho aqui se comenta para suas considerações.

DERNTL M F, “Brasília, capital ou metrópole? - O planejamento do Distrito Federal e de sua região na década de 19701”. RISCO - revista de pesquisa em arquitetura e urbanismo, iau-usp V22 - 2024.
https://revistas.usp.br/risco/article/view/218379


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Magnífico trabalho de pesquisa sobre a história do planejamento urbano em uma situação excepcional: a metropolização, já na segunda metade do século XX, da capital nacional ex novo de um país de dimensões continentais com mais de 70 milhões de habitantes.

O relato dos debates institucionais dos anos 70 sobre a questão "capital vs. metrópole" tem um valor inestimável. Ao passo que o Programa Especial da Região Geoeconômica de Brasília (Pergeb, 1975) vê a capital como "uma cidade administrativa por excelência", assoberbada pelo afluxo de migrantes e o crescimento periférico, o ponto de vista contrário, defendido de uma ou outra forma por vários planejadores da época, é bem resumido por um coordenador de sessão, 
não identificado, do Seminário de Planejamento Governamental SEPLAG 1976, para o qual "a acentuada urbanização de áreas periféricas a um núcleo principal era fenômeno clássico de áreas metropolitanas" (p.12).

Chama a atenção, como forte indício da alienação constitutiva do urbanismo modernista face às leis do processo urbanizador capitalista, a posição expressa por Lucio Costa no I Seminário de Estudos dos Problemas Urbanos de Brasília, em agosto de 1974 (p. 11):

Ainda assim, para Lúcio Costa, o principal interesse era mesmo o Plano Piloto, pois, nas suas palavras, "o resto é grande demais para mim" (COSTA, 1974, p. 78).

Saltando à conclusão do trabalho, destaco a afirmação de que "o caráter ímpar de capital nacional planejada segundo um ideário modernista moldou sua expansão e impôs peculiares desafios a seu planejamento". 

Tal afirmação aponta, ao meu ver, para um aspecto crucial do problema, que transcende o escopo da contribuição mas é decisivo para a compreensão da trajetória e vicissitudes do planejamento urbano, na capital da República como em qualquer grande cidade: a interação permanente, mais ou menos conflituosa, entre os esforços de planejamento urbano e os fatos da urbanização de mercado, incluída a sua total ausência no âmbito da moradia popular, que o mercado habitacional brasileiro só muito mais tarde alcançaria, em alguma medida, com a criação do Minha Casa Minha Vida em março de 2009. 

Minha hipótese é que o planejamento modernista de Brasília de fato "moldou a sua expansão", mas pela negativa, isto é, relegando a priori para a periferia do Plano Piloto não apenas a população trabalhadora empregada na construção da capital e os migrantes pobres que a ela afluíram, objeto da expressa preocupação dos planejadores adeptos da "capital essencialmente administrativa", mas também a urbanização de mercado a ser presumivelmente gerada, com toda a sua cadeia de negócios derivados, pelo considerável potencial econômico constituído por uma burocracia estatal numerosa e excepcionalmente bem remunerada para os padrões nacionais, em todos os níveis de qualificação.

O urbanismo modernista teria, assim, obrigado as instituições de planejamento urbano e regional de Brasília e do Distrito Federal a se debruçar sobre o embaraçoso problema de como organizar a inexorável metropolização de uma capital nacional ex novo que não fora concebida para, e resistia a, expandir-se.
 
Diria, pois, para melhor apreciação num estudo futuro, que "o caráter ímpar de capital nacional planejada segundo um ideário modernista" impôs à metrópole uma forma peculiar de expansão e os desafios de planejamento que lhe correspondem.  

2024-06-26

PS: Um estudo comparado Brasília / Belo Horizonte, focado na dualidade plano x mercado, poderá ser bastante instrutivo. Ofereço a ideia para quem queira nela se aventurar.

domingo, 26 de março de 2023

Nova cidade, velho problema

Folha de S Paulo 10-03-2023
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/03/indonesia-avanca-no-projeto-de-construcao-de-nova-capital.shtml

Montagem: Àbeiradourbanismo
(..) Mais de 7.000 trabalhadores atualmente trabalham na futura capital com a construção de um novo palácio presidencial. O progresso no local chegou a apenas 8%, segundo o vice-gerente do projeto de construção do edifício, Budi Kurniawan. (..)

A decisão de mudar a capital para o coração da selva de Borneo se deve ao fato de que a superlotada e poluída Jacarta, localizada na ilha de Java, está afundando rapidamente. Previsões indicam que, em 2050, um terço da cidade poderá estar submersa. A capital, com cerca de 10 milhões de habitantes, ainda é propensa a severos terremotos.

Ambientalistas, no entanto, criticam o projeto. Segundo um relatório da Forest Watch Indonesia, organização não governamental que monitora a questão ambiental do país, "florestas produtivas" compõem a maioria da área em que será construída a nova capital, o que significa que licenças poderiam ser concedidas para atividades extrativas que levariam a mais desmatamento.

A região, lar de orangotangos, leopardos e diversos outros animais selvagens, também é ocupada por indígenas da etnia Balik. Pelo menos cinco aldeias com mais de cem indígenas estão sendo realocadas por causa da construção, e há a expectativa de que mais comunidades percam seus territórios com a expansão das obras. (..)

2023-03-26

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Desenvolvimentismo mais-que-tardio

The New York Times 08-10-2022
https://www.nytimes.com/2022/10/08/world/middleeast/egypt-new-administrative-capital.html
Sprawled across a patch of desert four times the size of Washington, D.C., a showy new capital is rising in Egypt, imperial in scale and style, embodying the grandiose ambitions of President Abdel Fattah el-Sisi and his mantle as the country’s unchallenged ruler.
The ministries area of Egypt’s new capital last month. Credit...Khaled Elfiqi/EPA/NYT via Shutterstock
Montagem: Àbeiradourbanismo
The new administrative capital just outside Cairo encompasses Africa’s tallest building, a crystal pyramid and a vast, disc-shaped palace for Mr. el-Sisi inspired by the symbols for an ancient Egyptian sun god. Six years in the making at an estimated cost of $59 billion, it is the grandest in a slew of megaprojects being built by a president determined to reshape Egypt.

Eight-lane highways swoop across the crumbling streets of Cairo, skirting ancient tombs and the pyramids of Giza. Giant bridges, freshly built, span the Nile. A new summer capital gleams on the Mediterranean coast, just outside the city of Alexandria. (..)


2022-10-19

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

O traçado de Belo Horizonte: uma nota

Avenida Afonso Pena em Belo Horizonte MG. Em primeiro plano, a Rodoviária da capital.
Foto Gustavo Simões/Aboutripics 


Considerando que as direções principais de um plano de urbanização são dadas pela orientação geral das quadras, temos que em Belo Horizonte quase todas as grandes avenidas são diagonais, a começar pela principal, a Afonso Pena, que aqui temos em perspectiva.

A disposição de uma miríade de esquinas em ângulo agudo, com interseções viárias de até oito aproximações, se por um lado impõe uma interessante variedade arquitetônica aliás muito apropriada ao estilo decô, por outro torna muito mais complexa a engenharia dos cruzamentos e complicado o mais elementar dos movimentos urbanos - atravessar a rua. Eu, que pouco frequento o "Contorno" de BH, invariavelmente me confundo e me perco nessa singular superposição de tabuleiros.

Faz todo sentido associar o plano de Belo Horizonte, Brasil (Aarão Reis 1897) ao de La Plata
, Argentina (Pierre Benoit 1882), até porque são produtos da mesma época, de um mesmo tipo de demanda - a criação de uma capital provincial - e da mesma cultura urbanística. 

Contudo, embora não conheça a cidade arrisco dizer que o grid de La Plata é mais claro para o transeunte porque mais monumental, isto é, inequivocamente comandado pelo duplo eixo SW-NE para cujo ponto médio, que é também o centro do tabuleiro, convergem as duas grandes diagonais; as demais, nitidamente secundárias, convergem por sua vez para outros tantos pontos de destaque do eixo principal, definindo, ou pretendendo definir, a centralidade urbana. Princípio parecido foi adotado por Torres Gonçalves em Erechim, na primeira década do século XX.

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Embora primos-irmãos da família de planos urbanísticos que alguns - como o português Nuno Portas - chamam “dos traçados” e outros tantos de “positivistas”, vistos com atenção os planos de Belo Horizonte e La Plata apresentam uma importante distinção. 

Ao passo que o de La Plata tem um substrato cientificista a serviço de um ideal barroco, comandado, como um grande jardim francês, por um eixo monumental que é também de simetria, e arrematado por uma perimetral que define o recinto, o de Belo Horizonte segue um princípio modular precocemente modernista em que, a despeito da monumentalidade da  diagonal principal (Av. Afonso Pena) com direção determinada pela perspectiva da Serra do Curral, a acessibilidade urbana é homogeneamente distribuída em todo recinto, os focos de centralidade multiplicados pelos cruzamentos da malha diagonal e a Avenida do Contorno um limite irregular e circunstancial da urbanização que não integra a arquitetura do traçado.

Chama a atenção o fato de os cidadãos de Belo Horizonte não terem nunca adotado um nome para designar a área urbana definida pelo Plano Aarão Reis, que é, do ponto de vista urbanístico, radicalmente distinta de seu próprio entorno e, do ponto de vista histórico, nada menos que a matriz da atual metrópole. Faz-me lembrar que o arquiteto Luís Paulo Conde, meu ex-professor e ex-chefe na Prefeitura do Rio de Janeiro não perdia nunca a chance, em suas aulas inaugurais, de fazer troça de quem achava que o Plano Piloto de Brasília trazia esse nome devido ao formato de avião.

2022-08-11

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Cidades novas no Brasil: Palmas, TO

BOTTURA Roberto e VARGAS Heliana C, “O projeto de Palmas TO frente as teorias urbanas revisionistas pós 1945”. Vitruvius / Arquitextos, ano 21, out. 2020
https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/21.245/7923


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Todo estudo que se debruce sobre uma cidade nova tem diante de si a oportunidade de observar alguns fenômenos em um contexto que evidencia de forma mais latente as contradições entre o projetado (desejado) e o realizado (materializado). Aqui, o objeto de análise é Palmas, capital do então recém-criado estado brasileiro do Tocantins, concebida por arquitetos e inaugurada no final do século 20 a toque de caixa em um movimento de ocupação da região norte do país.

Seu projeto é formado por um Plano Básico / Memória a cargo do escritório goiano GrupoQuatro, cujos responsáveis costuram diversos discursos na busca de certa originalidade urbanística, que resultou numa proposta de cidade que nos instiga a decifrá-la. Considerando o ano de projetação/inauguração, 1989, junto aos objetivos com que os arquitetos a idealizaram, Palmas se insere cronologicamente e teoricamente em um contexto de revisão dos dogmas funcionalistas da Carta de Atenas.

(..)

Parte-se da hipótese de que o projeto de Palmas representa um interessante paradoxo, ao reforçar paradigmas da cidade modernista, embora no discurso do plano a negasse plenamente. Conforme descrito em seu memorial, buscava-se revogar atitudes radicais racionalizadoras, bem como setorizações e imposições contra a natureza. No entanto, o traçado, o arranjo das funções e as espacialidades construídas resultaram numa cidade de uma tediosa quadrícula cartesiana em que a falta de usos combinados, a monotonia da repetição, a negação da rua e da calçada e a total priorização do transporte motorizado individual terminaram por moldar o inverso do que se pretendia.

Desta forma, o objetivo do presente trabalho é avaliar o projeto urbano de Palmas a partir das contradições entre as teorias funcionalistas do urbanismo moderno e as respectivas teorias revisionistas que emergem pós 1945. (..)

2022-07-01

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Apontamentos: Bianchini et al 2008 - Erechim, o plano e a vida

Estes apontamentos são parte de um processo de estudo compartilhado. À beira do urbanismo está à disposição dos autores cujo trabalho aqui se comenta para suas considerações.

BIANCHINI G M et alii, “Erechim: A trajetória de Formação Urbana do Município”. 1º Congresso Internacional de Tecnologias para o Meio Ambiente, Bento Gonçalves – RS, Outubro de 2008
https://siambiental.ucs.br/congresso/getArtigo.php?id=36&ano=_primeiro

Esse artigo é emblemático das atribulações a que estão sujeitas, tanto quanto quaisquer outras, as cidades que se costumam chamar de “planejadas” sob as circunstâncias de sua implantação, ocupação, adensamento e expansão para além da área contida no projeto de urbanização original.
Impelida pela construção da Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande, Erechim foi fundada por volta de 1910 por iniciativa do governo do Rio Grande como Sede da Colônia Paiol Grande, no marco da política de colonização da terras limítrofes ao Rio Uruguai, fronteira com o atual estado de Santa Catarina.
“Única cidade planejada em termos de urbanismo no Rio Grande do Sul”, nas palavras dos autores, Erechim foi traçada com um padrão geométrico de matriz francesa pelos engenheiros e agrimensores da Comissão de Terras sob a direção do engenheiro Carlos Torres Gonçalves, um assumido adepto da filosofia positivista.
Do exame da conturbada relação entre o plano fundacional da cidade, sua expansão física e sociodemográfica sob impulso do desenvolvimento econômico e regulações urbanas instituídas ao longo do século XX, os autores concluem que
“O processo de urbanização da cidade, movido pela especulação imobiliária e com a participação do poder público, acabou por fragmentar a configuração inicialmente sonhada para esta cidade. A memória urbana vem sendo abandonada esquecida e desrespeitada, em prol do rápido crescimento e desenvolvimento despreocupado, sem considerações ao indivíduo, ao meio ambiente, a cultura e à história local.”

A crítica dos autores à dificuldade do município de proteger seu mais valioso legado urbanístico é justificada - um problema que se estende a todas as grandes cidades ditas "planejadas" do país, à exceção, talvez, de Brasília, que já nasce destinada ao Livro do Tombo. Mas a ideia - implícita - de que "a configuração inicialmente sonhada para esta cidade" pudesse sobreviver às leis da urbanização de mercado me parece um tanto ingênua e, no limite, despropositada.   

Tornarei ao tema numa próxima postagem.    

Praça da Bandeira


Erechim: mapa dos bairros 2020
Fonte: saite da Prefeitura Municipal

2020-11-24

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Apontamentos: Losano 2006 - percalços do plano de La Plata

Estes apontamentos são parte de um processo de estudo compartilhado. À beira do urbanismo está à disposição dos autores cujo trabalho aqui se comenta para suas considerações.

LOSANO G, “La Plata: de la ciudad apreciada a la ciudad ignorada”. Geograficando año 2, no. 2, 2006, p. 201-223
http://www.memoria.fahce.unlp.edu.ar/art_revistas/pr.360/pr.360.pdf


Relativamente comuns à escala dos séculos, cidades ex novo são excepcionalidades no campo do urbanismo, resultantes de processos de colonização de natureza diversa, de políticas estatais de desenvolvimento territorial, do enfrentamento de catástrofes naturais e sociais e do que poderíamos chamar de 'repaginação' do poder político em situações, reais e imaginárias, de clivagem histórica. Ou de combinações dessas circunstâncias.

La Plata foi construída para ser capital da Província de Buenos Aires, posto vacante com a elevação da cidade de Buenos Aires a capital da República Argentina em 1880. Seu projeto, elaborado por um grupo técnico do Departamento de Ingenieros liderado por por Pedro Benoit, “causou forte impressão nos âmbitos nacional e internacional como expressão da pujança de um país novo e vigoroso”.

Este artigo de Gabriel Losano, geógrafo e docente da UNLP, sobre o aviltamento do plano original de La Plata, me conduz a um tema favorito: o conflito entre os critérios projetuais das cidades ex-novo e suas tendências de adensamento e expansão. Embora Losano atribua, com razão, boa parte do histórico de agruras urbanísticas de La Plata a más decisões político-administrativas, não é menos certo que elas traduzem as exigências do mercado de terras, bens e serviços urbanos, fenômeno identificado pelo próprio autor, com palavras distintas, já nas primeiras décadas de existência da nova capital provincial [1882-1912].

Losano alega que “planificar e preservar não implica prejudicar nenhum segmento social”, e que não se trata de “impedir a construção de torres, mas de fazê-las em outros lugares”, de modo a não sacrificar as singulares características arquitetônicas do projeto original. De fato, o projeto de La Plata é um dos mais célebres exemplos mundiais do urbanismo dos traçados e precisa ser protegido. O problema é que essa batalha é tanto mais árdua quanto mais rigidamente a cidade é concebida como “obra concluída, acabada, perfeita”, e mais acirrada é a competição pelos ganhos econômicos que ela pode proporcionar. 

As palavras chaves para este artigo, de apenas 20 páginas, são: modelos urbanos, percepção social, rentabilidade, transformações.

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As frases entre aspas são do autor do artigo. 

A fonte do mapa de valores do solo à direita é FREDIANI J C, “La expansión residencial en áreas periurbanas del partido de La Plata : Las modalidades expansivas formal cerrada e informal aberta”. Proyecciones (9), 131-165, Memoria Académica UNPL-FaHCE

2020-08-18

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Para os que ficam, tchau!

Correio do Povo 26-08-2019

Indonésia vai construir capital política para substituir Jacarta, ameaçada pelo aquecimento global

Cidade afunda cerca de 25 centímetros por ano 
| Foto: Bay Ismoyo / AFP / CP
A capital política da Indonésia em breve deixará de ser Jacarta, megalópole congestionada e ameaçada pelas mudanças climáticas. O presidente do país, Joko Widodo, anunciou na segunda-feira que um local na ilha de Bornéu Oriental, “com baixo risco de desastre natural, como inundação, terremoto, tsunami ou erupção vulcânica”, foi selecionado para realocação. A nova cidade será construída entre as cidades de Balikpapan e Samarinda, em meio a uma área de floresta tropical com alta biodiversidade.

(..) O anúncio surge no momento em que as preocupações crescem sobre o futuro de Jacarta. A megalópole, que se desenvolveu no local da antiga capital Batávia, estabelecida pelos colonizadores holandeses há quase 500 anos, vê parte de seu território afundar na água. No ritmo atual, um terço da cidade pode acabar no mar até 2050, segundo especialistas em meio ambiente.

Lar de cerca de 30 milhões de pessoas, a cidade é enfraquecida pelo planejamento urbano deficiente e pelo fato de que grande parte da população não tem rede de abastecimento de água e se baseia nas águas subterrâneas, o que leva ao colapso de bairros inteiros.(..) O novo local deve funcionar como o centro política, enquanto Jacarta continuará sendo o centro econômico e de negócios do país.

2019-08-26



quarta-feira, 17 de julho de 2019

Financeland

The Guardian 08-07-2019, por Oliver Wainwright

'The next era of human progress': what lies behind the global new cities epidemic? 
Fonte: à beira do urbanismo set 2014
(..) The escapist urge to build cities from scratch is nothing new. At the turn of the 19th century, the Garden City Movement saw a generation of bucolic communities planned in reaction to the grime and overcrowding of rapidly industrialising cities, driven by a powerful campaign for social reform. Half a century later, the New Town movement developed these ideas, promising a brave new world of modern, self-sufficient municipalities rising from the ruins of the second world war, and focused on building an inclusive, democratic society. 
Now, in the first decades of a new millennium, a surge in global population growth and a sense of impending environmental armageddon have spurred an epidemic of planned cities of a very different kind. This time they are being conceived by private multinational corporations as gilt-edged gated communities and tax-exempt free-trade hubs, each branded as the ultimate techno-eco-utopia. (..) 

2019-07-17

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Cidades ex novo vs. Grandes Projetos Urbanos

Plano Aarão Reis para 
Belo Horizonte 1895

Diria o senso comum que a construção de uma nova capital nacional ou estadual / provincial é, por definição, um grande projeto urbano. Mas pode não sê-lo na acepção que o urbanismo contemporâneo dá ao termo, grafado o mais das vezes com iniciais maiúsculas ou referido pela sigla GPU/GUP.

Em geral, os modernos GPUs são intervenções - como prefere Garay [*] - de grande escala e elevada complexidade nas cidades existentes. Grandes Projetos Urbanos constroem, ou reconstroem, pedaços de cidade dentro da grande cidade, quase sempre incorporando acréscimos de valor do solo gerados pela própria intervenção à equação de seu financiamento.

Não se trata de filigrana conceitual: os Grandes Projetos Urbanos contemporâneos são importantes condutores do circuito financeiro global, precipuamente destinados, na maioria dos casos, a gerar oportunidades de negócios imobiliários e seus acessórios por meio da urbanização e comercialização de solo público com potencial de valorização derivado das qualidades intangíveis da própria metrópole. A reivindicação da urbanização autofinanciada com recursos da renda do solo, mesmo quando mais publicitária que real, é um sinal inequívoco de que as motivações estratégicas geralmente associadas, inclusive a de “estimular a economia” regional ou nacional, não lhes bastam como fonte de legitimação e enraizamento no ideário coletivo.

Cidades ex novo , embora relativamente comuns à escala dos séculos, são excepcionalidades no campo do urbanismo, resultantes de processos de colonização de natureza diversa, de políticas estatais de desenvolvimento territorial, do enfrentamento de catástrofes naturais e sociais e do que poderíamos chamar de "repaginação" do poder político em situações, reais e imaginárias, de clivagem histórica. Ou de combinações dessas circunstâncias.

Cidades ex novo também podem, com certeza, surgir como empreendimentos explicitamente comerciais, como no caso da rede urbana do Noroeste paranaense. E não está excluído, muito ao contrário, que a construção de uma nova capital, ainda que por sólidas “razões de Estado”, seja terreno fértil para a proliferação de operações especulativas. 

Contudo, e apesar de que pode ser às vezes difícil distinguir, na governança da classe proprietária dominante, o interesse geral das ambições particulares, não há que duvidar que  a construção de uma cidade é, em qualquer caso, um evento muito mais complexo, historicamente significativo e carregado de contradições do que a renovação de um perímetro urbano. Ao passo que aqui predomina o binômio engenharia financeira / arquitetura urbana, com eventuais elementos de preservacionismo edilício e proteção social, lá se impõe uma matriz infinitamente mais ampla de aspectos envolvidos e problemas por resolver, como são a justificação histórica, econômica e política da proposta, o processo de decisão, a disputa pelo lugar, a seleção do plano urbanístico, a mobilização de recursos financeiros, materiais e humanos, o soerguimento de uma nova economia urbana, a construção da estrutura de administração e governo etc, culminando no nó górdio do próprio assentamento: um novo bairro internacional no Centro da metrópole pode não ter uma única residência submercado, ou mesmo residência alguma; uma nova capital jamais, ainda que o projeto não a tenha previsto e a construção não a tenha realizado. 

Na cidade estarão todos, inclusive os “sem cidade”. 

2018-04-18

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[*] GARAY Alfredo, “El Montaje de una gran intervención urbana”, em LUNGO Mario (comp), Grandes Proyectos Urbanos, San Salvador: UCA Editores, 2004, p. 76

terça-feira, 20 de junho de 2017

A cidade ex novo como núcleo histórico

Expansão urbana de Maringá - PR
1947 (plano original), 1980 e 2014

Fonte: Rubira 2016 [1]
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O estudo das cidades ex novo da época moderna importa menos pela fama que carregam de "cidades planejadas" do que pelo testemunho que nos dão das possibilidades, limites e contradições envolvidas no processo de planejamento urbano.

Uma dessas contradições, de consequências práticas pouco claras mas culturalmente bem estabelecida, diz respeito à natureza singular de seu "núcleo histórico" - abrangendo o “centro” propriamente dito e o perímetro urbano original -, nem sempre devidamente reconhecido, ou valorizado, como tal pelos munícipes e suas instituições.[2]

Em textos não acadêmicos disponíveis na Internet, o termo cidade planejada quase sempre se refere a alguma cidade construída "do zero" - quer sobre um autêntico vazio rural, quer sobre um núcleo rural ou litorâneo pré-existente. Sua marca distintiva é a existência de um traçado.

Na verdade, o "plano" de uma cidade nova pode tanto consistir em pouco mais do que um simples tabuleiro, como no caso de Teresina e Aracaju - disputadas como "mais antiga cidade planejada do Brasil" - quanto, no outro extremo, em um conjunto urbano totalmente edificado e rigidamente regulado, como no caso de Brasília. O mais das vezes, no entanto, verificam-se situações intermediárias: um trama projetada de vias e praças públicas, acompanhada de um conjunto de regulações básicas relativas ao zoneamento, ocupação do solo e preservação de áreas verdes.

O certo é que, em quase todos os casos, o crescimento da cidade nova transborda o limite originalmente estabelecido e novos ciclos regulatórios e de obras públicas - viárias, principalmente - têm início, para dar conta, dentre outros, do próprio processo de expansão urbana. Não raro, esse transbordamento é concomitante à execução do projeto original, pela via do assentamento não devidamente programado dos trabalhadores envolvidos em sua construção.

É assim que as "cidades planejadas", independentemente de sua posição na escala da modernidade, se convertem, pode-se dizer, em núcleos históricos de suas próprias transfigurações metropolitanas, caracterizados não pela antiguidade dos conjuntos edificados remanescentes - geralmente reciclados, lá onde existem, para uso geral sob a tutela de programas especiais de proteção e conservação - mas pelos atributos técnicos, funcionais e artísticos de componentes ainda plenamente operacionais como o traçado, os parques e áreas verdes, os centros cívico e administrativo etc., mais ou menos bem adaptados aos primeiros ciclos de sua vida útil.  

Estou postulando que o núcleo planejado de uma metrópole fundada no século XX pode ser tão “histórico” e prenhe de significados e tradições quanto qualquer Centro Histórico declarado Patrimônio da Humanidade pelas Nações Unidas! Depende, talvez, do que o observador entende por “história” e do que busca no qualificativo que lhe corresponde.

Em postagens futuras, buscarei examinar sob este prisma os núcleos planejados de quatro importantes cidades novas brasileiras, criadas sob os auspícios do urbanismo moderno em distintas épocas, lugares e circunstâncias: Belo Horizonte (1895), Goiânia (1933), Maringá (1947) e Brasília (1960).

2017-06-20
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NOTAS

[1] Rubira, Felipe G, “Análise multitemporal da expansão urbana de Maringá-PR durante o período de 1947 a 2014 envolvendo o Parque Municipal do Cinquentenário e as principais áreas verdes do município”, em Caderno de Geografia (PUC Minas), v.26, n.46, 2016, pp 334-361. http://periodicos.pucminas.br/index.php/geografia/article/view/P.2318-2962.2016v26n46p333/9513

[2] “Hemos visto que los habitantes de La Plata no demostraron reconocer el valor del patrimonio histórico de fines del siglo XIX y se mostraron indiferentes ante los edificios nuevos y prácticos. ¿Por qué esa cultura de demoler el pasado? ¿Por qué no construir nuevos lugares, nuevos sitios preservando e incorporando lo antiguo?” LOSANO G, “La Plata: de la ciudad apreciada a la ciudad ignorada”. Geograficando año 2, no. 2, 2006, p. 201-223
http://www.memoria.fahce.unlp.edu.ar/art_revistas/pr.360/pr.360.pdf

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Funfgelt 2004: Erechim

FÜNFGELT Karla, História da paisagem e evolução urbana da cidade de Erechim – RS. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina, 2004.
https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/88190/211966.pdf

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2011-02-15

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Azevedo 2010: Cidades novas - Volta Redonda

AZEVEDO Marlice, “Attilio Corrêa Lima (1901/1943): Uma produção moderna em diferentes escalas – do objeto à cidade”. ENANPARQ 2010.
https://www.anparq.org.br/.../simposios/34/34-293-1-SP.pdf

A decisão do presidente Vargas de criar a Usina Siderúrgica Nacional (CSN), com apoio de recursos americanos no período da 2ª Guerra Mundial veio propiciar que o Arquiteto e Urbanista tivesse uma nova oportunidade de participar de projetos de interesse nacional. O fato de Vargas ser intransigente em sua localização no Estado do Rio de Janeiro por injunções políticas e estratégicas deu ao Arquiteto a oportunidade de elaborar o plano de Volta Redonda regional compreendido da cidade de Barra Mansa à vila de Pinheiro (..). O plano definitivo foi apresentado em dezembro de 1941, após o decreto de criação da Companhia Siderúrgica Nacional (9 de abril) e o início imediato da construção da Usina. (..)

A solução dada pelo Arquiteto parece bastante influenciada pela Cidade Industrial de Tony Garnier (Lopes, 1993), ocupando as áreas planas da cidade, entre os morros e a linha ferroviária, que separava a usina siderúrgica da cidade. (..)

O plano regional que se estendia da cidade de Barra Mansa à vila de Pinheiro (..) compreendia uma área de 25 km² em Barra Mansa, previa uma série levantamentos e projetos no município, incluindo o plano da cidade operária de Volta Redonda. Representava este contrato uma visão regional estendida à área de influência da Cia. Siderúrgica Nacional. (..)

2010-12-21

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Cidades novas no Brasil: J de Macedo Vieira

BONFATO A C, “O orgânico e o geométrico na prática urbana (1920-1960)”. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, 5 (2), 75.
https://rbeur.anpur.org.br/rbeur/article/view/98/82

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RESUMO (do autor)

Este artigo discute a aplicação de modelos urbanos consagrados interna-cionalmente e suas ressonâncias em projetos desenvolvidos no Brasil, durante a primeira metade do século XX, focalizando a contribuição do engenheiro-civil Jorge de Macedo Vieira(1894-1978) para a história do urbanismo brasileiro, entre as décadas de 1920 e 1960. Os projetos elaborados por ele para as cidades ex novo de Águas de São Pedro (SP) e Maringá (PR) servem como exemplo de seu trabalho. Macedo Vieira, planejador ainda pouco estudado, se revela um dos mais aplicados seguidores de modelos urbanos importados. Seja na implantaçãode loteamentos, seja na de cidades novas, a utilização exaustiva do modelo orgânico, aliado ao seu pragmatismo, revela uma excelência no desenho urbano dificilmente alcançada por outroplanejador de cidades.

PALAVRAS-CHAVES
Planejamento urbano; cidades-jardins; bairros-jardins; Jorge de Macedo Vieira; Águas de São Pedro; Maringá

2010-09-24