segunda-feira, 1 de abril de 2013

Julio Delamare e Célio de Barros: NÃO à destruição dos bens do patrimônio desportivo e educacional brasileiro

Parque Aquático Júlio Delamare 
Para qualquer administrador público atento, a contiguidade do complexo esportivo do Maracanã (Estádio do Maracanã, Ginásio do Maracanãzinho, Parque Aquático Júlio Delamare e Estádio de Atletismo Célio de Barros) com os campi da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Escola Técnica Federal Celso Suckow da Fonseca (CEFET), constitui uma circunstância singularmente interessante e promissora.

Do outro lado da via férrea, eleva-se o maior parque do Rio de Janeiro, a histórica Quinta da Boa Vista, onde ainda dominam o Museu Nacional (URFJ) e o Zoológico da cidade.    

Estádio de Atletismo Célio de Barros
Para um projeto olímpico identificado com o progresso da educação esportiva e cidadã, esse conjunto de circunstâncias, combinado ao fato de estarmos no coração da metrópole, com abundante oferta de todas as modalidades de transporte público, seria – como diria o ex-presidente Lula – uma “oportunidade extraordinária”.

Ora, se a estratégia urbanística do projeto olímpico de 2004 era “urbanizar” a Cidade Universitária (UFRJ), na Ilha do Fundão, a do projeto olímpico de 2016, sobretudo depois dos vultosos gastos feitos em todo o complexo do Maracanã para os Jogos Panamericanos de 2007, bem poderia ter sido potencializar esse investimento mediante a criação de um grande complexo desportivo-educacional UERJ-Maracanã-CEFET integrado a uma “nova centralidade" urbana na região da Praça da Bandeira, abrangendo a Quinta da Boa Vista e o Museu Nacional (UFRJ) e multiplicando as oportunidades de inserção econômica e social da comunidade da Mangueira. 

A elaboração de um projeto urbano que materializasse tal estratégia seria uma justa homenagem a várias gerações de urbanistas cariocas, que, há décadas, percebem na lenta e caótica justaposição das infraestruturas do corredor rodo-ferro-metroviário da Avenida Radial Oeste a formação de um território profundamente fragmentário, inóspito e desumano – numa palavra,  antiurbano – a exigir um projeto de renovação e integração.



"Cidade Universitária" do Maracanã 

Algum pesquisador  da história do urbanismo do Rio de Janeiro poderia, quem sabe, reunir um tesouro de preciosidades caso se dedicasse a desencavar, nos arquivos da municipalidade e nas gavetas de escritórios de arquitetura, idéias para a reurbanização desse segmento da cidade.

O último desses projetos, é preciso dizer, foi o de uma consultoria francesa contratada pelo ex-prefeito César Maia, que apresentou publicamente suas propostas para um ambicioso programa de desenvolvimento urbanístico e imobiliário da área no exato dia do ano de 2008 em que – ironia do destino! – começava a desmoronar, nos Estados Unidos, a pirâmide financeira mundial construída sobre a securitização das hipotecas imobiliárias. Consumada a eleição de Eduardo Paes, atira-se na lata do lixo o projeto francês – que, entre outras coisas, cometia a heresia de propor uma indispensável cota de habitação social no Porto Maravilha – e inicia-se um novo ciclo de “urbanismo olímpico” focado na convergência de todos os equipamentos, infraestruturas e oportunidades imobiliárias na Barra da Tijuca e no Porto Maravilha e na delegação de todos os planos e projetos da cidade aos escritórios das grandes empreiteiras. No complexo esportivo do Maracanã, tudo o que constitui obstáculo à privatização escandalosamente facilitada e dirigida da nova arena de 1,5 bilhão de reais é condenado à demolição – a começar pelo Museu do Índio e Aldeia Maracanã e terminar pelo Parque Aquático Julio Delamare e pelo Estádio de Atletismo Célio de Barros. 

Para vislumbrar o imenso potencial social, educacional e urbanístico do complexo esportivo do Maracanã seria necessário que os governantes de todas as esferas fossem movidos pela tradicionalíssima ideia de que o esporte, antes que um lucrativo ramo de negócios, é uma dimensão da cultura cidadã baseada na escola.

E seria necessário também que as administrações Lula e Dilma, governos comprovadamente interessados na  melhoria das condições de vida da maioria dos brasileiros, tivessem tido, como fiadores e financiadores de primeira e última instância dos projetos Copa do Mundo FIFA 2014 e Rio Olímpico 2016, uma postura radicalmente diferente em relação às exigências da FIFA e do COI - entidades controladoras dos direitos econômicos dessa marcas (como podem não ser Patrimônio da Humanidade?) e seus respectivos eventos.

UERJ, EA Célio de Barros, Maracanã e Maracanãzinho 
Há vinte anos, quando as grandes metrópoles brasileiras eram o palco principal da devastação econômica imposta pelas medidas de austeridade do FMI, curvar-se ante as tirânicas exigências dessas entidades parecia ser o preço a pagar pela chance de poder disputar uma fração das receitas da indústria do turismo e dos grandes eventos  internacionais.

Mas, e hoje, quando o nosso governo alardeia pelo mundo as suas façanhas econômicas e bate no peito a ditar cátedra desenvolvimentista aos antigos credores, prostrados pelas perdas sofridas na roleta imobiliário-financeira mundial?  


Como pode a FIFA nos obrigar à construção de uma penca de estádios de futebol sabidamente inviáveis, elefantes brancos fadados, a exemplo do já ocorrido na Grécia, Portugal, China, África do Sul e Ucrânia, a sangrar indefinidamente as finanças locais a ponto de ter cogitada a sua inglória demolição?         


Como pode o projeto olímpico de um país cuja renda per capita equivale a ¼ da dos países ricos, e onde são dolorosamente escassos a infraestrutura em geral e os equipamentos desportivo-educacionais em particular, exigir a demolição de unidades desportivas completas, recém reformadas e plenamente operacionais como o Parque Aquático Júlio Delamare e Estádio de Atletismo Célio de Barros, situadas quase dentro dos compactos campi urbanos da UERJ e do FECET?


CEFET, PA Júlio Delamare, Maracanã e Maracanãzinho 

Como pode o projeto olímpico Rio 2016 exigir o descarte como inúteis, quando não o abandono e a destruição, de instalações construídas e reformadas com dinheiro público para os Jogos Panamericanos de 2007, como no o caso do velódromo da Barra da Tijuca e do Parque Aquático Maria Lenk?

Como pode o projeto olímpico Rio 2016 descartar a recuperação do CD Caio Martins, em Niterói, para apoio aos Jogos Olímpicos e posterior uso de seus cidadãos em geral e sua juventude estudantil em particular?

Como esquecer o vergonhoso silêncio de todas as esferas de governo ante a cínica bazófia dos promotores e patrocinadores da Copa do Mundo FIFA 2014 e dos Jogos Olímpicos 2016 a dizer que “tudo ser[ia] feito com recursos privados”?

Como entender e aceitar o aval dos governos reformadores de Lula e Dilma à transformação da Copa do Mundo FIFA 2014 e Jogos Olímpicos Rio 2016 numa orgia de destruição de bens públicos para a construção de outros tantos bens e equipamentos economicamente inviáveis com recursos públicos (isenções fiscais incluídas) invariavelmente a salvo de qualquer controle social a pretexto de "urgência de prazos" e garantidos pelos contratos draconianos firmados com os promotores?

“Empreiteiras, locupletai-vos” - parece até que foi esta a palavra de ordem transmitida de boca em boca em meio à ruidosa celebração dos anúncios "O país sede da Copa do Mundo FIFA 2014 é... o Brasil"; "A cidade-sede dos Jogos Olímpicos 2016 é... o Rio de Janeiro!”

UERJ
A iminente demolição do Parque Aquático Júlio Delamare e do Estádio de Atletismo Célio de Barros é um crime contra a educação e o esporte brasileiros, em nome das necessidades comerciais da FIFA e do COI. 

Ela traz à tona, de um modo particularmente doloroso para os amantes do futebol e dos esportes olímpicos, a verdadeira natureza da Copa do Mundo da FIFA e dos Jogos Olímpicos na era da finança globalizada: uma transação incontrolável entre capitais transnacionais sedentos de valorização com baixo investimento e governos nacionais enfeitiçados pelo potencial de publicidade e prestígio das marcas esportivas mais populares do planeta.




2013-04-01