quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Aluguel sem teto multiplica os sem-teto

Deu no Terra
26-08-2019, por RC/rtr/afp/dpa
Berlim avalia impor teto aos aluguéis
Para conter explosão de aluguéis, (..) Berlim avalia a possibilidade de impor um teto para os valores dos aluguéis na cidade. A secretária estadual de Planejamento Urbano, Katrin Lompscher, planeja limitar a 7,97 euros por metro quadrado (cerca de 36,51 reais) o preço cobrado na locação de imóveis construídos até 2013.
Berlinenses sem-teto
Imagem: http://mymolo.de/en/2017/11/05/homeless-berlin/
(..) A possível aprovação da proposta gerou preocupação no setor imobiliário. Desde então, as ações das empresas do setor imobiliário vêm sofrendo os efeitos no mercado de valores.

Com mais de 115 mil apartamentos em Berlim, a empresa Deutsche Wohnen se tornou o maior proprietário de imóveis no país, seguido da Vonovia, que possui 42 mil unidades. Desde junho, as ações da Deutsche Wohnung perderam um terço do valor e as da imobiliária Ado Proprieties apresentaram perdas de 30%. A Vonovia confirmou a redução de 10% em suas metas para 2019.

(..) Apesar dos aluguéis ainda serem mais baratos do que em Londres ou Paris, Berlim tem taxas de desemprego e pobreza relativamente mais altas, além de uma média salarial baixa, o que dificulta para muitos encontrar uma moradia pagável.


A Alemanha precisa construir pelo menos 350 mil novas residências por ano para suprir a escassez de moradia, que atinge principalmente grandes centros urbanos como Berlim, Hamburgo, Munique e Frankfurt.
2019-08-27


terça-feira, 27 de agosto de 2019

Arapuca à vista, panela a prazo

Deu no Metrojornal
26-08-2019, por Metrojornal/BandNews

Caixa já oferece novo crédito imobiliário com linha de financiamento corrigida pela inflação
Marcos Silvestre, economista e colunista da BandNews FM, fez uma simulação com um imóvel no valor de R$ 360 mil, pelo prazo máximo, de 30 anos.
Pelo sistema corrigido pela TR, com juro mínimo na Caixa de 8,5% ao ano, ou 0,68% ao mês, cada parcela sairia pelo valor de R$ 3.450, somando amortização e os juros. Já no sistema novo, a taxa cai para pelo menos 2,95%, e 0,24% ao mês, e a primeira parcela fica em R$ 1.860. Mas, cuidado! É preciso levar em conta a correção monetária.
Silvestre explica que a TR tem em seu cálculo um redutor muito forte. Isso faz com que taxa zere quando a inflação está de 4,5% ao ano para baixo. “É a nossa situação atual, a TR em 2019 vai ficar totalmente zerada. TR zerada, na modalidade anterior, no financiamento do sistema financeiro de habitação, significa que as parcelas não têm correção, elas ficam sempre com o mesmo valor”, afirma.
Já no sistema novo, as correções monetárias podem subir e muito! Na nova modalidade, afirma o economista, a Caixa oferece uma taxa mais baixa, mas as prestações serão corrigidas por um índice de inflação, o IPCA, que deve fechar este ano em 3,80%. “Daí você fala: essa é uma correção pequena. Mas estou falando de um financiamento de muitos anos, de 3,80% sobre 3,80% sobre 3,80%….”, diz Silvestre.
Pelos cálculos do economista, em 14 anos, a prestação do novo sistema iguala a da atual. Por isso, o novo modelo é vantajoso se a pessoa pretende quitar a compra do imóvel antes da metade do prazo e para quem acha que a inflação não vai disparar, ficando abaixo dos 4,5% ao ano ao longo do financiamento.
“Vai quitar antes? O novo sistema pode te beneficiar. Agora, tem um risco no novo sistema. É o risco da inflação disparar”, afirma.
Se a inflação superar 4,5% ao ano, explica, o novo sistema passa a ser desvantajoso porque as parcelas serão corrigidas pelo que der a inflação. Silvestre lembra que em 2015, por exemplo, a inflação superou os 10%. “E no sistema anterior, a TR continuaria zerada? Não, mas ela daria uns 3%, não daria nem 4%”, conclui o economista.

 2019-08-27



segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Para os que ficam, tchau!

Deu no Correio do Povo
26-08-2019, por Redação
Indonésia vai construir capital política para substituir Jacarta, ameaçada pelo aquecimento global
Cidade afunda cerca de 25 centímetros por ano 
| Foto: Bay Ismoyo / AFP / CP
A capital política da Indonésia em breve deixará de ser Jacarta, megalópole congestionada e ameaçada pelas mudanças climáticas. O presidente do país, Joko Widodo, anunciou na segunda-feira que um local na ilha de Bornéu Oriental, “com baixo risco de desastre natural, como inundação, terremoto, tsunami ou erupção vulcânica”, foi selecionado para realocação. A nova cidade será construída entre as cidades de Balikpapan e Samarinda, em meio a uma área de floresta tropical com alta biodiversidade.
(..) O anúncio surge no momento em que as preocupações crescem sobre o futuro de Jacarta. A megalópole, que se desenvolveu no local da antiga capital Batávia, estabelecida pelos colonizadores holandeses há quase 500 anos, vê parte de seu território afundar na água. No ritmo atual, um terço da cidade pode acabar no mar até 2050, segundo especialistas em meio ambiente.
Lar de cerca de 30 milhões de pessoas, a cidade é enfraquecida pelo planejamento urbano deficiente e pelo fato de que grande parte da população não tem rede de abastecimento de água e se baseia nas águas subterrâneas, o que leva ao colapso de bairros inteiros.(..) O novo local deve funcionar como o centro política, enquanto Jacarta continuará sendo o centro econômico e de negócios do país.
2019-08-26



sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Indústria de créditos podres

Deu no UOL Notícias 
21-08-2019, por Circe Bonatelli e Aline Bronzati
https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2019/08/21/credito-imobiliario-com-ipca-reduz-parcela-e-ajuda-bancos-mas-divida-sobe.htm
Crédito imobiliário com IPCA reduz parcela e ajuda bancos, mas dívida sobe
O uso do Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPCA) para corrigir os contratos de financiamento imobiliário reduzirá o valor da parcela na largada, mas custará ao mutuário uma dívida maior no final quando comparado com os contratos corrigidos pela Taxa Referencial (TR). Por outro lado, a modalidade deve facilitar a venda desses créditos no mercado financeiro, desenvolvendo a chamada securitização, e, de quebra, adicionar mais recursos para a compra da casa própria no país. Estudo realizado pela equipe de análise de mercado imobiliário do JPMorgan mostra que a dívida total do mutuário pode subir, o que serve como contraponto à propaganda do governo federal de que o crédito ficará mais barato. (Continua)

2019-08-21

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Barato que sai caro (2)

Deu no UOL Notícias 
21-08-2019, por Circe Bonatelli e Aline Bronzati
https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2019/08/21/credito-imobiliario-com-ipca-reduz-parcela-e-ajuda-bancos-mas-divida-sobe.htm
Crédito imobiliário com IPCA reduz parcela e ajuda bancos, mas dívida sobe
Fonte: Internet
O uso do Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPCA) para corrigir os contratos de financiamento imobiliário reduzirá o valor da parcela na largada, mas custará ao mutuário uma dívida maior no final quando comparado com os contratos corrigidos pela Taxa Referencial (TR). Por outro lado, a modalidade deve facilitar a venda desses créditos no mercado financeiro, desenvolvendo a chamada securitização, e, de quebra, adicionar mais recursos para a compra da casa própria no país. Estudo realizado pela equipe de análise de mercado imobiliário do JPMorgan mostra que a dívida total do mutuário pode subir, o que serve como contraponto à propaganda do governo federal de que o crédito ficará mais barato. (Continua)

2019-08-21


domingo, 18 de agosto de 2019

Chicago, século XIX: em busca do Grid (1)

Chicago em 1857 
Litogravura C. Inger, c/ base 
em desenho de I.T. Palmatary 
Encyclopedia of Chicago / Historical Society 
Clique na imagem para ampliar 
Uma incursão pela Encyclopedia of Chicago à procura das origens do Grid, trama urbana reticulada que é um dos aspectos característicos da cidade, levou-me a uma cadeia de fatos e desenvolvimentos urbanos bastante anteriores à entrada em cena do urbanismo e do planejamento tal como geralmente os referimos, de seus colaterais no âmbito da sociologia e da geografia [1] e da fama que eles, com justificada razão, agregaram à grande metrópole estadunidense. 

As três postagens previstas para este título são um breve resumo dessa peregrinação pelas fontes de informação, não acadêmicas em sua maior parte e todas disponíveis na Internet. Para obter o texto compacto que exigem as postagens, optei por colocar os muitos adendos explicativos, quase todos livremente redigidos com base nas fontes citadas, como notas de rodapé - culpa, por certo, da minha síntese pouco competente, mas em alguma medida também da própria Chicago, cuja vertiginosa história não se deixa resumir em poucos parágrafos sem um boa quantidade de atalhos, ramificações e... loops

O leitor poderá optar pelo sistema expresso ou pelo parador. Se tiver tempo, será interessante experimentar os dois.

Uma excepcional combinação de circunstâncias


De town de 350 almas reconhecida em 1933 a city de 4.170 habitantes instituída em 1937, Chicago emergiu à beira do Lago Michigan como uma bolha urbana em meio ao tropel colonizador do Meio-Oeste norte-americano. 

Segundo a maior parte dos relatos, o motor dessa transformação foi o início da construção, em 1836, do Canal Illinois & Michigan, ponta de linha do complexo hidroviário que serviu, até o amadurecimento da rede ferroviária norte-americana na década de 1880, de principal rota de transporte de mercadorias entre as férteis terras agrícolas virtualmente inexploradas do médio-alto Mississippi e a Nova Inglaterra já em acelerado processo de urbanização e industrialização.[2]

Contudo, uma grande obra de infraestrutura regional e um novo fluxo de riquezas não criam por si sós, em seu caminho, uma nova metrópole, e em nenhuma hipótese como o que se deu aqui [3a]: em pouco mais de 70 anos, um pequeno povoado lacustre de 350 habitantes [3] se transformou em metrópole nacional de mais de 2 milhões. Uma combinação excepcional de circunstâncias há de estar envolvida. 

Duas dessas circunstâncias foram, sem dúvida, a venda massiva de terras federais recém tomadas aos nativos - parte delas cedidas ao novo estado de Illinois a cargo da Comissão do Canal I&M para o financiamento da obra [4] - e a vigorosa onda migratória Leste-Oeste que incluiu, a partir de 1840, grandes contingentes de trabalhadores e colonos europeus em busca de oportunidades no Novo Mundo. [5][6]  O resultado foi a transformação da região, quase que da noite para o dia, em um paraíso especulativo. 

Abundante oferta de terras férteis para cultivo e criação em pequenas e médias propriedades com escoamento assegurado; um sólido mercado de consumo estabelecido na Nova Inglaterra; legiões de migrantes [7] com níveis de qualificação convenientemente distribuídos; fortunas meteóricas, portanto capital de investimento ávido por oportunidades de valorização, nascidas da especulação em larga escala dos preços do solo [8]; uma extraordinária massa crítica de progressos tecnológicos; enorme demanda de  gastos públicos na construção da infraestrutura regional e urbana [9]; e, muito importante apesar de pouco citada, a localização estratégica de Chicago para o esforço ianque na Guerra de Secessão (1961-65) [10] - foram os ingredientes dessa mistura explosiva.

Projetado pelo arquiteto-engenheiro 
William Le Baron Jenney, o 
Home Insurance Building, 
inaugurado em 1885, é tido 
como um dos primeiros arranha-céus, 
com 42m de altura e 10 pavimentos, 
mais 2 acrescidos em 1891.  Foi o 
primeiro de seu gênero a utilizar 
elementos estruturais em aço, embora
a maior parte da estrutura fosse em 
ferro fundido e forjado. Pesava um 
terço do que teria um equivalente em 
alvenaria. As autoridades ficaram tão 
apreensivas que fizeram suspender a 
obra para investigar a sua segurança. 
Foi demolido em 1931.
O turbilhão econômico foi de tal ordem que, em retrospecto, as crises recessivas de 1837-43 e 1873-78 [11] são lembradas como meros contratempos e o devastador incêndio de 1871 [12] um acidente de percurso, aliás muito bem aproveitado, no building boom que o sucedeu, como oportunidade de inversão de capitais na construção do mais moderno centro de negócios do planeta.[13] 

Em 1893, sessenta anos depois de sua instituição como um "povoado pobre e mal-ajambrado, de futuro duvidoso", Chicago exibiu-se ao mundo na Exposição Internacional que ela mesma organizou [14], se não na função de quartel-general, que cabia com exclusividade a Nova York, seguramente como casa de força da imparável expansão do capitalismo norte-americano.

Urbanismo antes do urbanismo

Como qualquer grande cidade na época moderna, Chicago foi obrigada a enfrentar uma série de problemas que hoje dizemos “urbanos” desde muito antes da consolidação, nas primeiras décadas do século XX, do urbanismo e do planejamento como disciplinas técnicas, profissões reconhecidas e áreas especializadas da administração pública.

E o fez, como era de se esperar, no ritmo das urgências e necessidades de uma agressiva classe proprietária dominante em meteórica ascensão - com todas as consequencias sociais e políticas daí derivadas. Não por acaso, deu-se em Chicago em 1886 o acontecimento que os trabalhadores do mundo inteiro até hoje rememoram a Primeiro de Maio: a morte, sob a fuzilaria da polícia, de manifestantes em luta pela jornada de 8 horas no dia da Greve Geral convocada pela Federação dos Trabalhadores dos EUA e Canadá.

Os agudos conflitos de classe se estenderam, como não podia deixar de ser, ao plano da habitação e dos serviços urbanos. A reconstrução subsequente ao grande incêndio de 1871 foi ela própria um ponto de inflexão no processo de segregação espacial. Boa parte dos mais de 100 mil desabrigados, um terço da população total, se viu forçada a sair de seus lugares de residência na região central para cortiços no setor pericêntrico sudoeste, onde se concentravam instalações industriais altamente poluentes, juntando-se aí às levas de migrantes de baixa qualificação que afluíam sem cessar. Reforçada e estendida na direção sul pela Migração Afro-Americana a partir de 1916, essa distribuição sócio-espacial perduraria até os dias atuais.

Foi somente a partir da década de 1890 que, tal como no restante do mundo norte-atlântico, as lutas proletárias e as ações de higienistas e moralistas burgueses, grandes e pequenos, confluíram e se amalgamaram, de maneira mais ou menos pacífica, em uma etapa de reformas sociais e urbanas conhecida nos Estados Unidos como Progressive Era - marco temporal e cultural do que um autor estadunidense chama de “nascimento do planejamento urbano organizado” em seu país.[15]

De todo modo, ainda que muito limitadas relativamente ao maquinário institucional construído ao longo do século XX, as manifestações da esfera pública na vida da cidade entre a instituição da Vila, em 1833, e a apresentação do Plano Burham, em 1909, quando já contava mais de 2 milhões de habitantes, foram significativas e produziram efeitos duradouros, quer no plano das obras, equipamentos e serviços, quer no da regulação dos usos do solo. Ela será resumidamente descrita na segunda parte desta série em quatro vertentes principais: saneamento, edificações, transportes e parques. 

A todas essas manifestações subjaz, onipresente, o Grid, vasto arruamento em tabuleiro guiado pela malha topográfica [16] que definiu, desde os primórdios da cidade, o parcelamento do solo. Ele é a origem, o objeto principal e o arremate dessa contribuição. (Continua)

___
NOTAS

[1]
Refiro-me, em ordem cronológica, ao Plano Burnham-Bennet, de 1909, às realizações escola de sociologia urbana de Chicago, muito especialmente o estudo de Burgess/1924 sobre o impacto dos processos de desterritorialização resultantes do crescimento urbano, e aos estudos de geografia urbana sintetizados nos modelos de organização espacial de Hoyt/1939 e Harris-Ullman/ 1945.

[2] “À beira do Lago Michigan, no coração do Meio-Oeste, Chicago tinha um enorme potencial de localização estratégica. Era a porta de entrada da melhor rota para o Vale do Mississippi, local de escoamento de sua produção agrícola e de desembarque de pessoas e mercadorias oriundas do Leste.” [ROBERTS I] "O Canal Illinois & Michigan tornou rentável uma agricultura que, até meados do século XIX, se limitava à subsistência". [WIKIPEDIA]


[3] "Por ocasião de sua instituição, em 1833, Chicago não passava de um pobre e mal-ajambrado povoado de 350 habitantes, de futuro duvidoso - 'umas poucas cabanas e barracos perdidos num caos de lama, lixo e confusão'. O lugar, poucos metros acima do nível do Lago Michigan, era quase todo cercado de pântanos e pradarias que ficavam quase intransitáveis após o degelo da primavera e nos períodos de chuvas fortes." [ROBERTS I]

[3a] Começar pequena e se multiplicar várias vezes em poucas décadas não era raro no século XIX: Detroit se expandiu 13 vezes, de 9.000 para 116.000, entre 1840 e 1880; e St. Louis, 22 vezes, de 16.000 a 351.000. Mas Chicago, passando de 4.000 para 503.000 nos mesmos 40 anos, multiplicou-se 126 vezes. [NUGENT]

[4] A Comissão do Canal recebeu 115 mil hectares de terras, colocadas à venda por $1.25/acre para financiar sua construção. Foram necessários, não obstante, empréstimos de investidores privados da Nova Inglaterra e da Grã-Bretanha para a conclusão das obras, ocorrida em 1848. A venda de terras e o sistema de pedágio permitiram à Comissão quitar todos os débitos do Canal em 1871. Com a concorrência das ferrovias, o serviço comercial de passageiros foi extinto em 1853; o de mercadorias teve seu ápice em 1882 e foi encerrado em 1933. [LAMB]

[5] O canal foi construído por imigrantes irlandeses que viviam e trabalhavam em acampamentos provisórios ao longo do percurso. [LAMB]

[6] Em 1850, dos 850 mil habitantes de Illinois, 60% eram norte-americanos oriundos de outros estados, principalmente Nova York, e 19% estrangeiros, principalmente alemães e irlandeses. Em 1860, da população total de 1,7 milhões, 60% eram migrantes nacionais e 32% alemães e irlandeses; em Chicago, mais da metade da população era nascida no estrangeiro. Em 1910, cerca de 40% dos 5,6 milhões de habitantes eram migrantes, sendo mais de 20% estrangeiros, com grande incidência de suecos. [GREGORY / FRAZER / MEYER] 


[7] Não confundir com a “Grande Migração”, ou “Migração Afro-Americana”, de quase 7 milhões de afro-americanos do sul e sudeste rurais para os centros urbanos do nordeste, centro-oeste e oeste, entre 1916 e 1970, dos quais cerca de 500 mil para a a cidade de Chicago. Até então, somente 2% da população de Chicago era negra. [GROSSMAN]

[8]  Na década de 1830, a especulação imobiliária eclipsou o comércio de peles como a principal atividade econômica na região de Chicago. (..) Especuladores da Europa e do nordeste dos Estados Unidos enviaram seus representantes, que se uniram a residentes antigos e migrantes recentes na busca dos imóveis comercialmente mais promissores [KEATING/MARCUS].
A milha quadrada limitada pelas ruas Madison, State, 12a (hoje Roosevelt Road) e Halsted, adquirida em 1830 por $1.25/acre, foi vendida em outubro de 1833 por $60/acre - uma valorização de 4.700% em 3 anos! [MARTIN] Segundo o historiador Donald Miller, em 1832 uma pequena parcela em Clark Street custava 100 dólares. Dois anos depois, a mesma propriedade valia 3 mil. No ano seguinte, era vendida por 15 mil. Um jornalista escreveu: “Quem tinha um pedaço de terra ficava de cabeça virada, se achando um milionário” [BAER]

[9] O estado de Illinois aplicou milhões oriundos da venda de solo para abrir o Canal I&M nas décadas de 1830 e 1840 e outros 3 milhões no fim da década de 1860 para aprofundá-lo. Chicago já havia gasto cerca de 11 milhões de dólares em saneamento até 1890, quando Illinois iniciou o Chicago Sanitary and Ship Canal, obra de 60 milhões de dólares que chegou a empregar 8.500 homens ao mesmo tempo. “As encomendas do governo foram, desde muito cedo, a principal área de negócios das empreiteiras de Chicago”. [WILSON]

[10] A guerra civil (1861-65) afastou dos mais importantes rivais urbanos de Chicago o fluxo de produtos alimentares vitais. Demasiado próximas das linhas de frente, St. Louis perdeu o status de centro nacional de distribuição de grãos e Cincinnati o de capital do processamento de carne. Chicago emergiu como novo centro logístico, comercial e industrial, fornecendo à União o material ferroviário indispensável ao transporte de tropas e suprimentos e à expansão para o Oeste. Em 1870, o número de fábricas em Chicago era o triplo do início da guerra. E como era de esperar, vieram também os bancos: em 1863 foi fundado o First National Bank of Chicago; no fim da guerra, a cidade sediava 13 bancos nacionais, mais do que qualquer outra no país. [KARAMANSKI]

[11] 
A construção do canal começou em 1836. O “Pânico de 1837”, uma “devastadora recessão econômica nacional que durou sete anos e levou o estado de Illinois à beira da insolvência, acarretou a suspensão das obras em 1841. Com a reestruturação administrativa e financeira de 1845, as obras foram concluídas em 1848. O “Pânico de 1873” foi a crise financeira que desatou a depressão econômica de 1873-1877 no mundo norte-atlântico. Na Grã-Bretanha, em especial, foram duas décadas de estagnação que enfraqueceram a liderança econômica do país. Nos Estados Unidos, o episódio foi chamado de "Grande Depressão" até a crise dos anos 1930. [WIKIPEDIA]

[12] O incêndio matou cerca de 300 pessoas e destruiu cerca de 17.450 edificações numa área de quase 9 km2, com danos materiais estimados em 200 milhões de dólares. Cerca de um terço da cidade foi destruída, deixando desabrigada igual proporção da população urbana - quase 100.000 pessoas. A devastação atingiu as áreas centro e norte da cidade, deixando intactos os currais e depósitos de madeira ao sul e oeste. A reconstrução foi rápida. Em 1880, a população atingiu meio milhão de habitantes. [BRITANNICA I]

[13] “Na Chicago do fim do século (..) afirma-se outro exemplo de tipo edilício (..). O arranha-céu fornece uma função espetacular ao edifício para escritórios, novo protagonista do cenário urbano, tornando-se sede de bancos, seguros, sociedades comerciais e financeiras. O processo é alimentado por um incremento decisivo das atividades terciárias, muitas vezes unidas ao propósito de associar o nome da companhia a sedes e localizações de prestígio.” [ZUCCONI, p. 151]

[14] A Exposição Internacional de 1893 foi organizada pela cidade de Chicago, superando a concorrência de Nova York, Washington D.C. e St. Louis, por ocasião do 400º aniversário da chegada de Colombo ao Novo Mundo. Foi um evento social e cultural de grande impacto, autêntica celebração do otimismo industrial americano, com enorme repercussão nas áreas da arquitetura, engenharia e artes em geral. Com representação de 46 países, ocupou uma área de 2,8 km2, com cerca de 200 edifícios novos, temporários, de arquitetura predominantemente neoclássica. O projeto, que incluía canais e espelhos d’água, seguiu os princípios da arquitetura neoclássica francesa: simetria, equilíbrio e esplendor. A cor do material usado nas fachadas dos edifícios rendeu ao conjunto o epíteto que o imortalizou: Cidade Branca. [WIKIPEDIA]

[15] PETERSON J A. “The Birth of Organized City Planning in the United States, 1909–1910” (2009), Journal of the American Planning Association, 75:2, 123-133,
http://fliphtml5.com/wgak/uihy

[16] A Land Ordinance (Lei do Solo) de 1785 estabeleceu um sistema [de divisão padronizada do solo] por meio do qual colonos podiam comprar, à distância, títulos de terras agrícolas no oeste subdesenvolvido. Como o Congresso, na época, não tinha poder de tributação direta, a venda de terras proporcionou um importante fluxo de receita. O sistema veio a abranger mais de 3/4 da área continental dos Estados Unidos. [WIKI LO1875]

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REFERÊNCIAS


BAER G. “The History of the Chicago River”, WTTW / The Chicago River Tour

BRITANNICA. “Chicago Fire of 1871”. Encyclopedia Britannica
https://www.britannica.com/event/Chicago-fire-of-1871

GREGORY, James. “Illinois Migration History 1850-2010”, America’s Great Migrations Project

GROSSMAN James. “Great Migration”. Encyclopedia of Chicago.

ILLINOIS DEPARTMENT OF NATURAL RESOURCES [IDNR]. “Exploring the History of the Illinois and Michigan Canal”. Acquatic Illinois 2016

KARAMANSKI T. “Civil War”. Encyclopedia of Chicago

KEATING A D e MARCUS S S. “Global Capitalism and Chicago Real Estate”, Encyclopedia of Chicago

LAMB John. “Illinois and Michigan Canal”. ENCYCLOPEDIA OF CHICAGO 2004

MARTIN L. “The Grid”. Encyclopedia of Chicago

MEYER D K. “Foreign Immigrants Illinois 1850”. Immigrants

MILLS E S e SIMMONS C S. “Evolution of the Chicago Landscape: Population Dynamics, Economic Development, and Land Use Change”, em Growing Popuations, Changing Landscapes: Studies from India, China and the United States (2001), The National Academies Press
https://www.nap.edu/read/10144/chapter/20

NUGENT Walter. “Chicago as a Modern City”. Encyclopedia of Chicago 2004

ROBERTS, M. “Early Cook County Roads -- Part One”. Nature Bulletin No. 738 January 11, 1964, Forest Preserve District of Cook County

ROBERTS, M. “Early Cook County Roads -- Part Two: The Plank Road Era”. Nature Bulletin No. 739 January 18, 1964, Forest Preserve District of Cook County

THE EDITORS. “Illinois and Michigan Canal”. Wikipedia

THE EDITORS. “World’s Columbian Exposition”. Wikipedia.

WILSON M R. “Construction”. Encyclopedia of Chicago.

ZUCCONI, Guido. A Cidade do Século XIX [2001]. São Paulo: Perspectiva 2009.


2019-08-15


sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Broadacre City: atualizando o debate

Publicado em Café de las Ciudades 
Agosto 2019, por Marcelo Corti
Nueva visita a Broadacre City - Una relectura ideológica por Jennifer Gray.

En la edición del pasado invierno boreal de Perspective, revista editada por la Frank Lloyd Foundation, la curadora Jennifer Gray publica una interesante relectura de Broadacre City, el proyecto wrightiano de célula organizativa territorial para Estados Unidos. Este modelo de asentamiento que hoy llamaríamos “rururbano” es el contrapunto exacto de la otra propuesta de tipología urbana de origen arquitectónico en el siglo XX, la Ville Radieuse de Le Corbusier. Gray, de todos modos, omite referirse a esta “interna” de grandes maestros y se concentra en las interpretaciones contemporáneas de Broadacre City. La nota presenta y analiza algunas respuestas que en su momento el proyecto de Wright proponía a preguntas que nuestra época vuelve a enfrentar: “¿cómo podemos abordar la brecha cada vez mayor entre ricos y pobres? ¿Cómo podemos reformar al gobierno para cumplir mejor con nuestros objetivos colectivos? ¿Cómo podemos superar nuestras diferencias para crear comunidades justas e inclusivas?”.
El proyecto de Broadacre City fue presentado por Wright en abril de 1935 en pleno corazón de la Babilonia neoyorquina, el Rockefeller Center (contradicción o provocación, el lugar elegido es en todo caso otro episodio más de la zigzagueante relación entre el arquitecto y la ciudad). Para Gray, “Wright nunca tuvo la intención de construir Broadacre City sino que lo utilizó como un vehículo para abordar problemas sociales, económicos y ambientales urgentes, muchos de los cuales tienen relevancia contemporánea”. (Continua)

Acesse o artigo completo pelo link
http://www.cafedelasciudades.com.ar/sitio/contenidos/ver/253/nueva-visita-a-broadacre-city.html

2019-08-18


sábado, 10 de agosto de 2019

Animal sensível

Em tempos de economia estagnada e rápida concentração da renda familiar, a sina de toda e qualquer terra urbana bem localizada é se tornar alvo de empreendimentos cujos produtos e serviços apelem aos que consintam em pagar, por aquela vantagem, uma parte de seu cobiçado excedente orçamentário.

O fato de um imóvel bem situado estar construído sobre, ou ser  ele próprio, terra pública é quase irrelevante: caçadores de oportunidades especulativas sempre podem justificar a iniciativa como "parceria público-privada visando a manutenção e melhoria do equipamento". Dependendo do tamanho do negócio, a parceria pode implicar um simples "patrocínio" ou reivindicar um prospecto socialmente grandioso, como “legado olímpico".

Esse efeito se aplica a logradouros, praças e parques públicos, bens tombados, aeroportos e até para a estação ferroviária mais famosa do mundo - a Gare du Nord, de Paris. O princípio é o mesmo. Mas nem sempre dá certo, por múltiplas razões: a espiral de valorização do solo é um animal altamente sensível. 

Não será fácil aos eventuais interessados no Jardim de Alah, que acaba de ser oferecido pela Prefeitura do Rio de Janeiro à iniciativa privada, fazer o negócio acontecer e prosperar. 

Ainda que estrategicamente situado entre os bairros de Ipanema e Leblon, os mais valorizados do Rio de Janeiro e do Brasil, o Jardim de Alah é também uma área estigmatizada pelos ofertantes de excedentes orçamentários como endereço - e parque público adjacente - de pelo menos 1.000 famílias de baixa renda e pouca escolaridade, majoritariamente negras, residentes na Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional construído na década de 1950 sob a égide da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e o patrocínio de Dom Helder Câmara para receber população oriunda das favelas da Zona Sul em processo de erradicação - sendo esta, com toda certeza, a verdadeira razão da prefeitura "não ter dinheiro para a sua manutenção".

Entre os que querem, mas não têm poder de exigir um parque público decente na porta de seu condomínio; os que podem, mas não fazem questão porque seus apartamentos já dão para ruas, calçadas e calçadões muito mais chiques e bem tratados; e os que governam mais preocupados em agradar os financiadores de suas campanhas eleitorais, o Jardim de Alah acabou virando uma "terra de ninguém" no coração da Zona Sul.

Transformá-lo num negócio rentável dependerá da capacidade que tenham seus promotores de gentrificá-lo, segregando-o mediante barreiras físicas e econômicas. Vale dizer, de torná-lo "exclusivo". Outra solução, não sei se mais ou menos economicamente viável, seria fazer o oposto: convertê-lo num grande parque popular de diversões mecânicas e eletrônicas - o velho e bom mafuá. 

Na minha opinião, melhor seria deixar o lugar como está e mandar o Departamento de Parque e Jardins, a COMLURB e o policiamento regular fazerem cada um o seu respectivo serviço. É o bastante para que todos possam compartilhá-lo, nem mais nem menos democraticamente do que já ocorre nas orlas da Praia e da Lagoa - das quais o Jardim de Alah é, não esqueçamos, o inestimável espaço de conexão.

Jardim de Alah e Lagoa Rodrigo de Freitas, Leblon, 1960 - O conjunto habitacional Cruzada de São Sebastião (em primeiro plano) visava abrigar famílias removidas da favela do Pinto, cujos resquícios podem ser vistos à esquerda da saída do canal, criado na década de 20 para sanear a Lagoa. À direita do canal, na Lagoa, está o Clube dos Caiçaras. Ao fundo, também à direita, a favela da Catacumba
















2019-08-10


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Bens públicos, negócios privados

Deu no Extra online
07-08-2019, por Gustavo Goulart
Sem dinheiro, prefeitura vai privatizar Jardim de Alah, que ganhará restaurantes e outros empreendimentos
A prefeitura divulgou o termo de referência para ara concessão do Jardim de Alah à iniciativa privada (..). No documento, a justificativa apresentada para adoção da medida é a falta de recursos nos cofres municipais para investir e manter o espaço, constantemente tomado por pessoas em situação de rua e objeto de ações judiciais desde que funcionou como canteiro de obras da linha 4 do metrô.
A ideia da prefeitura é ocupar a área com restaurantes e outros empreendimentos comerciais. Na Praça Almirante Saldanha da Gama, identificada pela prefeitura como D1, está prevista a instalação de um ponto comercial de 70 metros quadrados "mais um terraço efêmero". (Continua)

2019-08-08


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O turismo pede passagem

Deu no La Vanguardia
05-08-2019, por Redação
Bélgica derrumba un puente medieval para dar paso a los cruceros
Bélgica ha empezado a derribar un puente del siglo XIII. El Puente de los Agujeros [Pont des Trous], situado sobre el río Escalda, en la ciudad de Tournai, había protegido la ciudad y en su momento sirvió como puerta de entrada. Tras resistir 700 años, ahora las autoridades locales han considerado que había que derribarlo para dar paso a cruceros.
A finales de enero, el Ayuntamiento de Tournai tomó la decisión de reformar el puente para que pudieran pasar embarcaciones más grandes, aunque la polémica se remonta a un plan de 2015, que ya estudiaba reemplazar la estructura por una más moderna.
Hasta ahora por el río podían transitar barcos de hasta 1.500 toneladas. Cuando finalicen las obras, esta cifra aumentará hasta 2.000.
Más de 20.000 personas firmaron una petición para paralizar las obras, pero de nada ha servido. Hasta el consejo internacional de Monumentos y Sitios había pedido informar a la UNESCO de esta decisión. (Continua)

Leia também

“Grave menace sur le pont médiéval de Tournai”, por Didier Rykner, La Tribune de l’Art 21-01-2019 

WIKIPEDIA. “Pont de Trous”.

2019-08-05


sábado, 3 de agosto de 2019

Cem anos de segregação

Deu no New York Times
03-08-2019, por Adam Green (prof de História da Universidade de Chicago)
https://www.nytimes.com/2019/08/03/opinion/how-a-brutal-race-riot-shaped-modern-chicago.html 
How a Brutal Race Riot Shaped Modern Chicago
Chicago Tribune historical photo
http://galleries.apps.chicagotribune.com/chi-vintage-1919-race-riot-photos-20140819/
(..) If the 1920s saw an upsurge in black culture and awareness, it also saw a sustained, violent backlash by whites, from the rebirth of the Klan to an epidemic of lynching to housing segregation.
That backlash was on stark display in Chicago. The city’s white real estate agents helped pioneer new tactics in segregation. By 1927 the Chicago Real Estate Board had drafted its own version of a restrictive covenant, a binding contract enjoining white homeowners from selling property to nonwhites. Within a decade, such contracts governed three-fourths of Chicago’s residential property. Upheld routinely by municipal judges, restrictive covenants carried the force of law until overturned by the Supreme Court in 1948.
Other measures, including redlining, contract selling, mortgage discrimination and steering, maintained racial exclusion across much of Chicago long after the passage of national civil rights laws in the 1960s.
Together with continued discrimination against black renters, and an expansive public housing system dedicated to shifting poorer African-Americans out of the general housing market, these policies deepened racial separation in the city with each passing decade. By 1970, census data certified Chicago as a hyper-segregated municipality, a designation it would retain until the start of the new millennium. The collateral effects of this separation consigned blacks to grossly unequal resources and outcomes related to employment, education, housing, health and safety that inform the stark social problems of the city today. (Continua)

Ver também
BYRNES, Mark. “40 Years of Chicago's Rising Inequality, in One GIF”, CityLAb 02-04-2014

Chicago 1970-2012 - Renda familiar média como % da média metropolitana 
Por Daniel Hertz, masters student at the 
Harris School of Public Policy at the University of Chicago

2019-08-03