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domingo, 15 de março de 2026

Minha Favela Minha Vida

Agência Brasil 04-03-2026, por Fabíola Sinimbú
https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-03/area-ocupada-por-favelas-quase-triplicou-em-40-anos-no-brasil

Área ocupada por favelas quase triplicou em 40 anos no Brasil

Tânia Rêgo/Agência Brasil
As favelas brasileiras cresceram e ocuparam uma área de 92,3 mil hectares nos últimos 40 anos, aponta o Mapeamento Anual das Áreas Urbanizadas no Brasil, do Mapbiomas, divulgado nesta quarta-feira (4). De acordo com o estudo, as favelas quase triplicaram de tamanho em quatro décadas, e se tornaram 2,75 vezes maiores, enquanto as cidades, de forma geral, cresceram 2,5 vezes. O aumento foi observado entre os anos de 1985 e 2024, quando a área urbana de favelas saltou de 53,7 mil hectares para 146 mil hectares.

O estudo revelou ainda que a dinâmica de crescimento das favelas foi mais intensa nas regiões metropolitanas do país, que em 2024, abrigavam 82% das áreas urbanizadas em favelas. O geógrafo e coordenador do Mapiomas, Júlio Pedrassoli, considera que o crescimento mais acelerado das áreas de favelas em comparação com a média nacional e sua forte concentração em regiões metropolitanas sugerem uma tendência conhecida e preocupante. "As metrópoles concentram muita riqueza, mas também intensificam problemas estruturais. (..)

Apesar da surpreendente dificuldade de se obterem, na Internet, dados atualizados e consistentes da evolução da distribuição de rendimentos familiares no Brasil, alguma pesquisa que acabo de fazer indica que as chamadas classes D e E - grosso modo as faixas 1 e '1,5' do programa Minha Casa Minha Vida - constituem há 10 anos uma proporção aproximada de 50% das famílias brasileiras, vale dizer, um número crescente a despeito da substancial redução recente da pobreza extrema e da pobreza.
[1]

No que se refere à moradia, a imensa maioria dessas famílias só tem, portanto, duas opções: conseguir uma vaga na faixa 1 do MCMV, que regra geral quer dizer uma residência de qualidade duvidosa em algum conjunto habitacional distante de quaisquer facilidades urbanas, ou alugar moradia numa favela dos morros e periferias metropolitanas. À parte a (in)capacidade do MCMV de ofertar apartamentos em quantidade suficiente nessa faixa, quero crer que, nas favelas, a despeito da moradia e da urbanização precárias, as famílias se beneficiam não apenas das redes sociais de apoio comunitário, mas também de uma economia às vezes fervilhante
[2] [3] - o “circuito inferior” de Milton Santos: comércio, indústria e prestação de serviços, ainda que amplamente informais, precários e, às vezes, como também acontece em muitos bairros 'nobres' da cidade, ilegais. 

Ao contrário da maioria dos conjuntos habitacionais da Faixa 1 do MCMV, a favela também é, à sua maneira
, cidade [4], locus de produção e circulação de riqueza na economia de mercado - com suas virtudes e aleijões - razão pela qual os recentes sucessos no combate à pobreza não são, em minha opinião, suficientes para o fim, ou mesmo a redução substancial, da informalidade. 

Isto que nós, urbanistas, chamamos de “o direito à cidade”, vale dizer à cidade formal adequadamente urbanizada e regida pelas instituições do Estado de direito, tem um preço em dinheiro: a capacidade que tenha a família de ofertar renda por um imóvel numa boa localização e de arcar com as demais despesas dessa opção. Embora totalmente favorável a programas de urbanização e regularização fundiária nas favelas, sou de opinião que a solução da moradia informal não está na ‘redução da desigualdade’: está na elevação radical e sustentada - isto é, não sujeita aos retrocessos das crises econômicas recorrentes - do padrão de vida da imensa maioria trabalhadora da nação, com tudo que isso possa implicar no plano da organização econômica da sociedade. Um problema, claro está, que transcende em muito o âmbito do urbanismo, ainda que necessariamente o inclua.

2026-03-15
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NOTAS

[1] “Brasil chega aos menores níveis de pobreza e extrema pobreza da série histórica do IBGE”, G1 GLOBO 03/12/2025, por Micaela Santos
https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/12/03/brasil-extrema-pobreza-da-serie-historica-do-ibge.ghtml 


[2] Segundo o Instituto Data Favela, a renda das favelas brasileiras somou cerca de R$300 bilhões em 2025, maior que a de 22 estados da federação e que o PIB do Uruguai e do Peru. Ver "Pesquisa revela que favelas têm renda de R$ 300 bilhões ao ano". EBC Radioagência 27-07-2025, por Madson Euler.
[4] CARVALHO Camila L S, “Escalas da Desigualdade Urbana: a Cidade do Rio de Janeiro e as Favelas”. Cadernos do Desenvolvimento Fluminense No. 11 (2016)
https://www.e-publicacoes.uerj.br/.../view/35870/25569

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Conta que não fecha é metrópole capitalista sem periferia

Estadão 18-01-2026, por J C Rodrigues Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção – CBIC

A conta que não fecha nos centros urbanos


Rejeitar o adensamento significa optar pela expansão periférica, uma escolha ambientalmente predatória e socialmente injusta.

O debate sobe as cidades brasileiras precisa urgentemente de lucidez. A maior parte dos problemas urbanos atuais é consequência direta de decisões mal planejadas – ou da completa ausência de políticas públicas - ao longo de décadas. (..)


Confundindo astuciosamente verticalização com adensamento, adeptos do imobiliário desregulado deitam e rolam na tese, hoje em voga em alguns círculos acadêmicos progressistas, de que são as leis do urbanismo, não as do mercado, a causa da segregação espacial e da periferização da pobreza nas grandes metrópoles brasileiras.

2026-01-28

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Sopa no mel

Caos Planejado 09-01-2026, Curso "Do Planejamento ao Caos"
https://www.tiktok.com/@caosplanejado/video/7593314996088622348


É comum ouvir que a solução para as favelas seria “acabar com elas” e realocar as pessoas. Mas essa ideia ignora como e por que esses territórios surgiram.

As favelas não são um erro isolado. Elas são uma resposta direta à ausência do Estado e ao fracasso das políticas habitacionais no Brasil. Ao longo da nossa história urbana, milhões de pessoas foram empurradas para a informalidade porque o acesso ao solo bem localizado se tornou caro, restrito e excludente.

Enquanto isso, políticas públicas e legislações limitaram o potencial construtivo de áreas com boa infraestrutura e incentivaram conjuntos habitacionais distantes, reforçando a segregação e o isolamento.


Hoje, favelas são bairros consolidados. São territórios com laços sociais, trabalho, comércio e história. Tratar esses espaços como algo provisório é ignorar que ali também é cidade.

É preciso reconhecer essa realidade e garantir a presença do Estado com infraestrutura, saneamento, transporte, segurança e serviços públicos de qualidade. Urbanizar esses territórios é uma urgência do planejamento urbano brasileiro. (..)
[Destaque: À beira do urbanismo]

*

Um texto da Caos Planejado tão 'urbanisticamente correto' só pode ter alguma pegadinha. E tem, camuflada numa ordem causal invertida e atenuada por um “enquanto isso”.

Na ordem devida e despojada da etiqueta, a passagem acima destacada nos sugere que milhões de pessoas foram empurradas para a informalidade e segregadas em conjuntos habitacionais distantes... porque o planejamento urbano e suas legislações limitadoras do potencial construtivo tornaram caro, restrito e excludente o acesso ao solo bem localizado.

Ou seja, o livre mercado imobiliário promove a formalidade urbanística, o barateamento do solo e a diversidade social e o planejamento governamental a informalidade, a terra cara e a segregação!

Pergunto: inexistindo as “políticas públicas e legislações [que] limitaram o potencial construtivo de áreas com boa infraestrutura”, teriam “milhões de pessoas" deixado de ser “empurradas para a informalidade”? Teria o planejamento logrado, em comum acordo com a indústria da incorporação, destinar “áreas [centrais e pericentrais] com boa infraestrutura” em quantidade suficiente e preços ao alcance das “milhões de pessoas [que] foram empurradas (..) para conjuntos habitacionais distantes”?

Não me surpreende que a tese, hoje em voga em alguns círculos progressistas, de que a segregação urbana é produto das leis urbanísticas, não das leis do mercado, venha conquistando os liberais adeptos da verticalização travestida de adensamento urbano - vale dizer os paladinos da liberação do potencial construtivo nos nichos locacionais de interesse da incorporação, onde os preços relativos, e com eles a rentabilidade dos empreendimentos, só aumentam!

Na página do curso se lê:

Esse caos que você vê na sua cidade não é um acidente.
Ele foi planejado assim.
Com regras que segregam.
Com leis que afastam moradia, trabalho e serviços.

2026-01-15

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Percalços do rentismo socialista (2)

Público 21-10-2019, por Luísa Pinto

Rendas levam metade do rendimento das famílias na Grande Lisboa

A explosão de preços nas grandes cidades significa que o rendimento das famílias é inundado pelo esforço com o custo da habitação, que chega a taxas de 58% para comprar e de 67% para arrendar, na cidade de Lisboa. Ou de 46% na Área Metropolitana. Uma tendência que agrava os riscos de segregação habitacional.


O patamar dos 35% que é recomendado internacionalmente como limite máximo da taxa de esforço a que devem ser submetidas as famílias para pagarem a sua habitação é largamente ultrapassado, no caso do mercado de arrendamento, em 11 dos 18 concelhos que compõem a Área Metropolitana de Lisboa (AML). (..) 

2019-10-30


sábado, 26 de outubro de 2019

Linha da vida

The Economist 10-10-2019 

A ride along Chicago’s red line

Clique na imagem para ampliar
Life expectancy varies by 30 years from one end to the other

Several passengers in one carriage of an “L” train, rattling south on the underground line to Chicago metro station, are unmistakably bourgeois. A grey-haired woman squints at a book of 501 French verbs. Opposite, a bespectacled man reads a study of Arctic peoples. Some seats on, an artist doodles on his pad.

Many well-heeled occupants get off the Red line—a rail service running north-south for 23 miles—at Streeterville, a district where signs of prosperity abound. As an advertising gimmick, a luxury car adorns the L-station roof. At a farmers’ market, installed beside a contemporary art museum, shoppers browse for micro-greens, organic beef and gluten-free tamales. A violinist there explains she busks to save for college. Dollar bills fill her case.

Streeterville has another distinction. Public-health researchers suggest that a baby born here can expect to live for an average of 90 years, the highest life expectancy in Chicago. That is 30 years longer than an infant born in the most blighted parts of Englewood, farther south along the Red line. No city in America has a bigger gap.

Return to the train and much changes the farther south you ride. Passengers are younger, less ostentatiously set on self-improvement. A guard in a stab-vest, his hand on a canister of pepper spray, steps in. He confides that he is tracking a suspect. Reports of crime on the L system doubled from 2015 to last year; violent cases rose by 89%, to 447. This year is worse, he says, and “you can’t ask why any more.” (..) 

2019-10-26

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Logement, climat, même combat

Le Monde / Logement 07-06-2018, por Isabelle Rey-Lefebvre
https://www.lemonde.fr/societe/article/2019/06/07/quand-la-finance-fait-main-basse-sur-le-logement-social_5473003_3224.html 
Quand la finance fait main basse sur le logement social

Foto: Laurent Paillier / Le Pictorium /Francinter
La plupart des métropoles occidentales, de Paris à Berlin, de New York à Stockholm en passant par Londres, sont confrontées à la flambée des prix des logements, qui chasse les classes moyennes vers les périphéries. Pire, dans la plupart des grandes villes européennes, le nombre de sans-abri explose et sature les centres d’hébergement. « Il y a une crise du logement à l’échelle mondiale. C’est la crise sociale la plus importante du moment, aussi urgente que la crise climatique », a alerté Leilani Farha, rapporteuse de l’ONU pour le logement abordable, dès l’ouverture du Festival international du logement social que Lyon accueille, du 4 au 8 juin. (..) 

2019-06-20

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Paris é pra quem pode

Le Monde / Cities 11-06-2019, por Soazig Le Nevé

A Paris, des classes moyennes en voie de disparition

Gustave Eiffel by Edward L Sambourne 1889
Fonte: Internet
(..) Avec ses 105 km², Paris intra-muros attire des populations aux profils de plus en plus contrastés, les très riches s’établissant dans « l’ancien » et les très pauvres dans des logements sociaux. L’Institut d’aménagement et d’urbanisme (IAU) de la région Ile-de-France note un accroissement significatif des ménages les plus aisés dans les 7e et 8e arrondissements.

L’enrichissement touche également des quartiers proches, «par un effet de diffusion et de consolidation des territoires de la richesse», observe-t-il dans une étude [*] parue début juin consacrée à la gentrification et à la paupérisation en Ile-de-France.

(..) «Paris est en train de devenir un repaire pour super-riches, corrobore Emmanuel Trouillard, géographe chargé d’études sur le logement à l’IAU. Des familles s’en vont, des écoles ferment dans les arrondissements du centre de la capitale… Le problème de Paris, c’est de maintenir l’accès des classes moyennes au logement intermédiaire et au logement social.»

(..) Une nouvelle catégorie de population tire son épingle de ce jeu immobilier : les touristes. A la faveur du succès des plates-formes comme Airbnb ou Abritel, un marché parallèle s’est créé, venant assécher un peu plus l’offre locative privée. « Airbnb tue beaucoup de quartiers. En quatre ans, le marché locatif traditionnel a perdu 20 000 logements », dénonce Ian Brossat, adjoint à la maire de Paris chargé du logement. 
(..)

2019-06-13
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[*] O estudo Gentrification et paupérisation au cœur de l’Île-de-France - évolutions 2001-2015 (pdf 84 pp) pode ser acessado pelo link

terça-feira, 4 de junho de 2019

A desigualdade espacial na Região Parisiense

Le Monde / Logement 03-06-2019, por Denis Cosnard
 https://www.lemonde.fr/societe/article/2019/06/03/ghettos-de-riches-ghettos-de-pauvres-les-inegalites-se-creusent-en-region-parisienne_5470646_3224.html

Região Parisiense (Île-de-France)
Tipologia das comunidades segundo
a renda das famílias 2015
Clique na imagem para ampliar
Ghettos de riches, ghettos de pauvres : les inégalités se creusent en Ile-de-France

Tandis que les quartiers bourgeois s’enrichissent encore, une « paupérisation absolue » frappe des « secteurs urbains entiers », selon une étude.

(..) C’est ce que montre une édifiante étude publiée lundi 3 juin par l’Institut d’aménagement et d’urbanisme (IAU), un organisme qui dépend de la région Ile-de-France. En partant de statistiques sur les revenus, les logements, les types de ménages, etc., elle souligne combien les inégalités se sont creusées depuis une quinzaine d’années dans la région parisienne. 

Inégalités entre individus, mais aussi entre départements, communes et quartiers : malgré tous les efforts, toutes les « politiques de la ville », la mixité sociale recule. Avec des « ghettos de riches » de plus en plus clos sur eux-mêmes, et des « ghettos de pauvres » qui s’enfoncent dans les difficultés. D’un côté, les beaux quartiers de l’Ouest parisien comme le 8e arrondissement, Neuilly-sur-Seine (Hauts-de-Seine) ou Le Vésinet (Yvelines). De l’autre, les cités des Misérables.
L’Ile-de-France est de longue date « la région où les inégalités sont les plus marquées, du fait de la concentration de populations très aisées », rappelle l’étude. (..)
2019-06-04

sábado, 7 de março de 2015

Minha senzala minha vida

O Globo 20-02-2015

Em Nova York, se você ganha pouco, entre pela porta dos fundos 
Edifício de 33 andares que segrega entrada de moradores ricos e pobres causa furor nos Estados Unidos
 
"Trata-se de uma decisão dos administradores do edifício de luxo 40 Riversidena Riverside Drive, em Manhattan. O prédio ultramoderno de 33 andares tem 219 unidades de luxo, onde o apartamento mais barato é de três quartos, vendido a módicos US$ 3,6 milhões. Mas o complexo tem, ainda, 55 apartamentos disponíveis para a locação de “inquilinos de baixa renda”, dispostos a pagar mensalmente US$ 833 por um conjugado — contanto que sua renda familiar não ultrapasse os US$ 50.304 por ano numa família de quatro pessoas." (..)

2015-03-07