Mostrando postagens com marcador metropolização. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador metropolização. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de março de 2026

Minha Favela Minha Vida

Agência Brasil 04-03-2026, por Fabíola Sinimbú
https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-03/area-ocupada-por-favelas-quase-triplicou-em-40-anos-no-brasil

Área ocupada por favelas quase triplicou em 40 anos no Brasil

Tânia Rêgo/Agência Brasil
As favelas brasileiras cresceram e ocuparam uma área de 92,3 mil hectares nos últimos 40 anos, aponta o Mapeamento Anual das Áreas Urbanizadas no Brasil, do Mapbiomas, divulgado nesta quarta-feira (4). De acordo com o estudo, as favelas quase triplicaram de tamanho em quatro décadas, e se tornaram 2,75 vezes maiores, enquanto as cidades, de forma geral, cresceram 2,5 vezes. O aumento foi observado entre os anos de 1985 e 2024, quando a área urbana de favelas saltou de 53,7 mil hectares para 146 mil hectares.

O estudo revelou ainda que a dinâmica de crescimento das favelas foi mais intensa nas regiões metropolitanas do país, que em 2024, abrigavam 82% das áreas urbanizadas em favelas. O geógrafo e coordenador do Mapiomas, Júlio Pedrassoli, considera que o crescimento mais acelerado das áreas de favelas em comparação com a média nacional e sua forte concentração em regiões metropolitanas sugerem uma tendência conhecida e preocupante. "As metrópoles concentram muita riqueza, mas também intensificam problemas estruturais. (..)

Apesar da surpreendente dificuldade de se obterem, na Internet, dados atualizados e consistentes da evolução da distribuição de rendimentos familiares no Brasil, alguma pesquisa que acabo de fazer indica que as chamadas classes D e E - grosso modo as faixas 1 e '1,5' do programa Minha Casa Minha Vida - constituem há 10 anos uma proporção aproximada de 50% das famílias brasileiras, vale dizer, um número crescente a despeito da substancial redução recente da pobreza extrema e da pobreza.
[1]

No que se refere à moradia, a imensa maioria dessas famílias só tem, portanto, duas opções: conseguir uma vaga na faixa 1 do MCMV, que regra geral quer dizer uma residência de qualidade duvidosa em algum conjunto habitacional distante de quaisquer facilidades urbanas, ou alugar moradia numa favela dos morros e periferias metropolitanas. À parte a (in)capacidade do MCMV de ofertar apartamentos em quantidade suficiente nessa faixa, quero crer que, nas favelas, a despeito da moradia e da urbanização precárias, as famílias se beneficiam não apenas das redes sociais de apoio comunitário, mas também de uma economia às vezes fervilhante
[2] [3] - o “circuito inferior” de Milton Santos: comércio, indústria e prestação de serviços, ainda que amplamente informais, precários e, às vezes, como também acontece em muitos bairros 'nobres' da cidade, ilegais. 

Ao contrário da maioria dos conjuntos habitacionais da Faixa 1 do MCMV, a favela também é, à sua maneira
, cidade [4], locus de produção e circulação de riqueza na economia de mercado - com suas virtudes e aleijões - razão pela qual os recentes sucessos no combate à pobreza não são, em minha opinião, suficientes para o fim, ou mesmo a redução substancial, da informalidade. 

Isto que nós, urbanistas, chamamos de “o direito à cidade”, vale dizer à cidade formal adequadamente urbanizada e regida pelas instituições do Estado de direito, tem um preço em dinheiro: a capacidade que tenha a família de ofertar renda por um imóvel numa boa localização e de arcar com as demais despesas dessa opção. Embora totalmente favorável a programas de urbanização e regularização fundiária nas favelas, sou de opinião que a solução da moradia informal não está na ‘redução da desigualdade’: está na elevação radical e sustentada - isto é, não sujeita aos retrocessos das crises econômicas recorrentes - do padrão de vida da imensa maioria trabalhadora da nação, com tudo que isso possa implicar no plano da organização econômica da sociedade. Um problema, claro está, que transcende em muito o âmbito do urbanismo, ainda que necessariamente o inclua.

2026-03-15
______
NOTAS

[1] “Brasil chega aos menores níveis de pobreza e extrema pobreza da série histórica do IBGE”, G1 GLOBO 03/12/2025, por Micaela Santos
https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/12/03/brasil-extrema-pobreza-da-serie-historica-do-ibge.ghtml 


[2] Segundo o Instituto Data Favela, a renda das favelas brasileiras somou cerca de R$300 bilhões em 2025, maior que a de 22 estados da federação e que o PIB do Uruguai e do Peru. Ver "Pesquisa revela que favelas têm renda de R$ 300 bilhões ao ano". EBC Radioagência 27-07-2025, por Madson Euler.
[4] CARVALHO Camila L S, “Escalas da Desigualdade Urbana: a Cidade do Rio de Janeiro e as Favelas”. Cadernos do Desenvolvimento Fluminense No. 11 (2016)
https://www.e-publicacoes.uerj.br/.../view/35870/25569

domingo, 11 de janeiro de 2026

Morrison: os bondes no Rio de Janeiro

"Rio de Janeiro - História dos bondes em 75 Fotografias", por Allen Morrison
http://www.tramz.com/br/rj/th/thp1.html

O Rio de Janeiro foi o campo de prova dos bondes no Brasil: a cidade teve sua primeira linha de bondes de tração animal em 1859, a primeira linha a vapor em 1862, a primeira linha elétrica em 1892, etc. No fim das contas, a cidade teve mais companhias de bondes, bondes em si, tipos de bondes, bitolas diferentes e quilômetros de trilhos do que outra cidade qualquer. (..)

Imagem e texto: A. Morrison
Montagem: À beira do urbanismo
O desenvolvimento inicial foi internacional. Thomas Cochrane era um médico homeopata escocês (primo do herói naval homônimo). Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, era um empresário, industrial, banqueiro, político e o homem mais rico do Brasil. Charles Greenough foi anteriormente o engenheiro-chefe e gerente de uma linha de bondes nos Estados Unidos da América.

O Barão de Mauá construiu e inaugurou a primeira seção da primeira ferrovia intermunicipal do Brasil, em 1854. Thomas Cochrane fundou a Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boa-Vista na Tijuca, em 1856, e construiu a primeira ferrovia urbana do Brasil: o comprimento era de 7 km, com início na Praça Tiradentes, percorrendo as ruas da Constituição, Visconde de Itaúna, Machado Coelho, Haddock Lobo e terminando na rua Conde de Bonfim, no bairro da Tijuca. (..) Renomeada para Estrada de Ferro da Tijuca, em 26 de março do mesmo ano o imperador D. Pedro II batizou esta que foi a primeira ferrovia de rua do Brasil.

Dois carros puxados a cavalo em um trajeto de 7 km não proporcionavam bom serviço, e receitas minguadas não permitiam manter a linha em bom estado. O Barão de Mauá assumiu a companhia em 1861 e substituiu os animais por máquinas a vapor, em 1862. (..) Mas todas as quatro descarrilavam frequentemente nos frágeis trilhos e a linha fechou em 28 de novembro de 1866. (..)

Entrementes, Mauá adquiriu o privilégio para construir uma linha de bondes até o Jardim Botânico, e constituiu a Companhia do Caminho de Carris de Ferro do Jardim Botânico, em 1862. (..) Charles Greenough, engenheiro e gerente da companhia Bleecker Street & Fulton Ferry Rail Road, de Nova Iorque, (..) soube das oportunidades no Brasil, viajou até o Rio de Janeiro, comprou o contrato de Mauá e fundou a Botanical Garden Rail Road Co., em 1866. (..) em 9 de outubro de 1868, em pleno decorrer da Guerra do Paraguai, o imperador D. Pedro II presidiu à inauguração da segunda ferrovia de rua: uma linha de 3 km que partia da rua do Ouvidor e fazia seu trajeto ao longo das ruas Gonçalves Dias, da Guarda Velha (atual 13 de Maio), da Ajuda, do Passeio, da Lapa, da Glória e do Catete, findando no Largo do Machado. (..) Em seis meses o trajeto foi estendido até Botafogo, e em julho de 1869 havia 19 bondes circulando no Rio de Janeiro, todos eles construídos pela firma John Stephenson Co., de Nova Iorque. (..)

A Botanical Garden Rail Road (BGRR) passou a usar bondes abertos em 1870, estabelecendo o padrão para as demais companhias no Rio de Janeiro e na maior parte do Brasil. Em 1º de janeiro de 1871 a linha atingiu o Jardim Botânico, a 10 km do centro da cidade, e em 1875 havia 600 animais puxando 71 bondes – 36 abertos, 33 fechados e 2 mistos (para passageiros e carga). Em 1879 a companhia inaugurou comunicação telefônica entre suas estações. Como o sistema de bondes era bem construído, bem gerenciado e servia bairros ricos da Zona Sul da cidade, ele se tornou a menina dos olhos no Brasil. (..)

Logo a seguir, outro norte-americano, Albert Hager, fundou a Rio de Janeiro Street Railway em Nova Iorque, e abriu em 25 de novembro de 1869 a terceira linha no Rio, entre o centro da cidade e os jardins da Quinta da Boa Vista. (..)

Um brasileiro, João Batista Viana Drummond, inaugurou em 29 de novembro de 1873 o quarto sistema: a Ferro-Carril da Vila Isabel (..). Quatro outras companhias entraram em operação nos anos 1870: a Companhia Locomotora em 1872, a Companhia Ferro Carril Fluminense em 1873, a Empreza de Carris de Ferro de Santa Theresa em 1875, e a Companhia Ferro Carril Carioca e Riachuelo em 1877. (..) A companhia Santa Teresa, de 1875, operava apenas na parte baixa da cidade. A companhia Carioca e Riachuelo, de 1877, construiu um funicular e uma linha isolada e separada do resto, na parte elevada de Santa Teresa, e que evoluiu até o atual sistema de bondes ainda sobrevivente naquele bairro.

A maioria das primeiras companhias de bonde do Rio compraram carros da John Stephenson Co., de Nova Iorque. Mas houve exceções. Em 23 de julho de 1874, o diretor gerente da Cia Ferro Carril Fluminense encomendou 26 bondes – 20 abertos e 6 fechados! – para um fabricante carioca de carruagens chamado Röhe Irmãos.(..) Não sabemos se a Röhe copiou o modelo da Stephenson ou se apenas usou-o com fins de publicidade. Mas os bondes parecem ter sido construídos – e podem ter sido os primeiros bondes construídos na América do Sul. 
(Continua)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Precariápolis nigeriana

Fonte: https://www.facebook.com/groups/2142240399343434 em 30-12-2025

Clique na imagem para ampliar


Ou as coisas mudaram radicalmente nos últimos cinco anos ou a ONU HABITAT está greenwashing a dura realidade, e a crise de perspectivas, de Lagos, Nigéria, por conta de dois ou três programas ambientais. Considerem este artigo da Money Times / Bloomberg de dezembro de 2019:


Money Times / Bloomberg 22-12-2019
https://www.moneytimes.com.br/nigeria-com-ate-26-milhoes-de-pessoas-lagos-vive-crise-habitacional/

Nigéria: com até 26 milhões de pessoas, Lagos vive crise habitacional

(..) Com menos de 1,5 milhão de habitantes em 1970, Lagos cresce tão rápido que até as estimativas da população variam em mais de 10 milhões.

O centro local de estatísticas afirma que são 26 milhões, o governo federal diz que são 21 milhões e instituições internacionais projetam de 15 a 16 milhões. (..)

Hoje, com um déficit de 2,5 milhões de moradias, mais de dois terços das pessoas em Lagos vivem em favelas que estão entre as piores do mundo, segundo Leilani Farha, relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU).

“As pessoas estão vivendo em algumas das piores, senão as piores, condições que já vi no mundo e eu já estive em todas as grandes favelas na Índia, Quênia e África do Sul , disse Farha durante visita ao país em setembro. Os governantes concordam que a escassez de moradias populares constitui uma crise, mas não sabem como reagir.

“O objetivo de disponibilizar prontamente moradias acessíveis às pessoas de baixa ou média renda que representam a maioria dos nossos cidadãos sempre foi desafiado pelo crescimento cada vez maior da população do estado”, disse Moruf Akinderu-Fatai, comissário estadual de Lagos para habitação, em discurso em 8 de dezembro. (..)

Com vastas riquezas minerais e petróleo, a Nigéria tem a 29ª maior economia do mundo, logo atrás da Noruega. O país também tem o maior número de pessoas na extrema pobreza, que vivem com até US$1,90 e representam 87 milhões dos 200 milhões de habitantes, de acordo com a Brookings Institution. (..)


2026-01-07


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Fix e Arantes 2022: mercado de terras em São Paulo c.1900

FIX M e ARANTES P F, “São Paulo, cem anos de máquina de crescimento urbano”. Estudos Avançados no. 36 (105), 2022 pp. 185-209

Clique na imagem para ampliar

Este artigo atravessa diferentes camadas históricas na metrópole paulistana, recolhendo pistas sobre operações imobiliárias de grande envergadura decisivas para o padrão de acumulação e segregação socioespacial que se constituiu em São Paulo, a partir do início do século XX. (..) 


Nosso ponto de partida é a operação imobiliária realizada pelo capital financeiro internacional em associação com agentes públicos e privados locais, em terras que correspondiam a mais de um terço da área da cidade, sob liderança da Companhia City. Essa ação, que se iniciou na década de 1910 e atingiu seu auge entre 1920 e 1930, transformou qualitativamente os processos de apropriação, produção e consumo do espaço urbano em São Paulo. Entre as ações esparsas de loteadores avulsos e operações monopolistas transnacionais, passando por diversos outros arranjos, constituíram-se novas frentes de valorização do capital, com regras, agentes e dinâmicas próprias, na transição de São Paulo de cidade à metrópole. Essas frentes abarcam, além de loteamentos e edificações, obras públicas e sistemas de transporte, energia, comunicação, saneamento, drenagem urbana etc.


A produção do espaço urbano em sua complexidade e diversidade de atores e processos é, sem dúvida, um capítulo relevante do avanço da mercantilização das esferas da vida, da importação de padrões de consumo e da disseminação da forma-mercadoria. Por meio de estratégias monopolistas ou concorrenciais, articulando terras e capitais em circunstâncias mais ou menos reguladas ou alavancadas pelo Estado, o urbano converte-se no imobiliário. O economista Carlos Lessa, em texto do início dos anos 1980, alertou seus colegas sobre a importância da temática “circuito imobiliário” para colaborar na compreensão do desenvolvimento capitalista no Brasil, que não se explicaria apenas pela óptica da industrialização (Lessa, 1981). (..)

Nos anos anteriores a 1922, esboçava-se uma virada na forma de atuação do mercado imobiliário em São Paulo. Até então, os incipientes mercados de terras e da construção avançavam sobre chácaras lindeiras ao centro histórico, com loteamentos avulsos e fragmentados. Com desenho de ruas em grelha, mesmo em terrenos irregulares, tratava-se, em geral, da iniciativa de capitalistas individuais, sem urbanistas contratados. O crescimento urbano por multiplicação de loteamentos desconexos ainda é ainda um protomercado imobiliário, [3] um circuito pouco estruturado, sem plano, sem articulação com crédito e com uma baixa presença de agentes especializados. (..)

Um dos loteadores convencionais até então mais conhecidos de São Paulo e vereador por quatro mandatos era o pai de Oswald de Andrade, o Sr. José Nogueira de Andrade, que abria desde 1890 bairros na zona oeste sobre chácaras e sítios, na região de Pinheiros e Cerqueira César. O filho, Oswald, não apenas acompanhava os negócios do pai, mas tornou-se ele mesmo proprietário de terras e imóveis, dos quais obtinha boa parte da sua renda. Entretanto, sem a mentalidade de empreendedor, era capaz de “queimar” um quarteirão inteiro de lotes para abrir uma praça, como ocorreu em 1919, quando a seu pedido a Câmara Municipal aprovou a criação da famosa praça de Pinheiros, que depois seria batizada em homenagem ao pintor Benedito Calixto (CMSP, 2018).

A era dos loteadores tradicionais e dos negócios imobiliários restritos ao comando da burguesia local iria ser radicalmente transformada nas décadas de 1910 e 1920, com o surgimento da Cia. City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Limited, fundada em 1911 com sede em Londres por iniciativa do banqueiro franco-belga Edouard Fontaine de Lavelaye, em sociedade com banqueiros ingleses, os irmãos Bolton (Souza, 1988, p.36). (..)


_____
NOTA
[3] Odette Seabra comenta diversos desses loteamentos e destaca a presença da City como dado importante para refletir sobre “o volume de negócios que tinham na terra a sua principal forma de ganhos”. Sobre a “promoção fundiária surgida em São Paulo a partir de fins da década de 1870”, dinamizada após 1889, com a mudança no regime político, integrando investimentos no fundiário e transportes, ver Bueno (2016, p.147), entre outros.


2025-12-31

domingo, 21 de dezembro de 2025

Wikipedia 2025: a era dos bondes em S Paulo

WIKIPEDIA, “Bondes de São Paulo”
https://pt.wikipedia.org/wiki/Bondes_de_S%C3%A3o_Paulo

(..) Os primeiros registros do transporte por bondes em São Paulo datam de 1872, quando a cidade contava com um serviço de bondes puxados por tração animal, chamados de bonde a burro, operados por diferentes empresas. A primeira viagem desse modal foi feita entre a Rua do Carmo e a
Estação da Luz, facilitando o transporte de pessoas e mercadorias entre o interior do estado e o Porto de Santos. Os primeiros veículos, importados dos Estados Unidos, eram pequenos, abertos e rapidamente se popularizaram. (..) 

Em 7 de agosto de 1890, foi inaugurada a linha de bonde de tração animal da Empresa de Bondes de Sant'Ana que ligava o alto do bairro homônimo, fazendo a ligação entre a região e a Ponte Grande. [1] A linha durou até o mês de maio do ano de 1907 após revolta popular devido ao mau serviço prestado, sendo a última linha de bonde de tração animal a circular na cidade. [2] [3]


O Tramway de Santo Amaro foi inaugurado como linha de bonde a vapor em 1886, ligava o então município de Santo Amaro (1832-1935) ao centro de São Paulo. Em 1913, foi eletrificado, tornando-se um dos principais eixos de integração metropolitana. A linha foi fundamental para a urbanização e o crescimento econômico de Santo Amaro, que posteriormente foi incorporado à cidade de São Paulo. [4] Ligava o centro da metrópole à Zona Sul, passando por diversos bairros que hoje são bastante conhecidos e valorizados. O trajeto incluía regiões como Vila Mariana, Ibirapuera, Indianópolis, Alto da Boa Vista, até chegar ao centro do município extinto.[5] (..)


Em 1892, a cidade já possuía linhas para o Ipiranga, e em 1897, as estações dos bondes de tração animal e suas ramificações já cobriam grande parte da cidade, com horários das 6h às 23h. Ao longo de 30 [?]  décadas, o sistema expandiu-se, com linhas para bairros como Brás, Santa Cecília, Consolação e Mooca. [8]


Com a fundação da São Paulo Tramway, Light and Power Company, em 1899, iniciou-se a transição para o sistema elétrico. A Light encampou algumas dessas empresas de bondes de tração animal, consolidando o controle sobre o transporte coletivo e promovendo a modernização da infraestrutura urbana. [9]


A virada do século XX marcou uma revolução tecnológica no transporte público paulistano. Em 7 de maio de 1900, a Light inaugurou a primeira linha de bondes elétricos, ligando o Largo de São Bento ao bairro da Barra Funda. Ainda em 1900, a rede já contava com 9 linhas, 25 bondes e 24 km de trilhos, transportando 3,4 milhões de passageiros em seu primeiro ano. Em 17 de junho de 1900, o serviço já alcançava as avenidas Paulista, São João e Rua Augusta consolidando essas vias como eixos de mobilidade e crescimento urbano. A cidade foi a quarta do país a ter bonde elétrico, após Rio de Janeiro (1892), Salvador (1897) e Manaus (1899). (..)


2025-12-21


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Urbanização capitalista no Brasil 1870-1930: o nascimento das metrópoles - preâmbulo


Do estudo da formação da estrutura espacial urbana de Porto Alegre, publicado em
À beira do urbanismo sob o título “Porto Alegre cidade radiocêntrica 2” [1], deduzi que o ‘centro urbano’ é um objeto de existência relativamente recente, produto de transformações datadas, no Brasil - como também propõe Abreu [2] - do período compreendido entre os anos 1870 e 1930.

Até então, nas regiões urbanas que hoje chamamos ‘Centro’ existiam no Brasil as ‘cidades’ mercantis-escravistas, ditas ‘metrópoles’ quando se tratava de uma sede político-administrativa, espacialmente organizadas, porém, segundo a dinâmica e as necessidades de uma monarquia feudal-senhorial enriquecida pelo comércio de longa distância e, logo, pela monocultura colonial escravista e pela extração aurífera; cidades originalmente instaladas em sítios de acessibilidade restrita por motivos de proteção e defesa, que só muito mais tarde iriam transitar para uma nova espacialidade baseada na compra-venda generalizada - portanto na circulação livre e desimpedida - de mercadorias, serviços e força de trabalho.

A hipótese de ser o que hoje chamamos de ‘centro urbano’ um fenômeno sócio-histórico relacionado e concomitante, ainda que de maneira desigual, à expansão capitalista global no transcurso do século XIX, deu origem a duas linhas de investigação estreitamente relacionadas, cujos progressos, limitados e incertos como é de se imaginar fora do ambiente acadêmico, vêm sendo paulatinamente registrados nas postagens deste blog e agrupados, sob um critério lógico, em páginas específicas. 

*
A primeira linha, de cunho teórico e epistemológico, traz o título autoexplicativo “A revolução da centralidade - por uma teoria histórico-estrutural da espacialidade urbana capitalista”.

Resumidamente, nela eu postulo que a cidade capitalista não é a mera ‘continuação modernizada’ da cidade feudal e de sua forma transitória, a cidade mercantilista: é um tipo radicalmente distinto de cidade, que descrevo como um torvelinho de efeitos de aglomeração gerados pela necessidade imperiosa, característica da formação social capitalista, de redução da distância-custo entre as principais categorias de agentes envolvidos na compra-venda generalizada de mercadorias, serviços e força de trabalho: as famílias para maximizar o poder de consumo dos rendimentos do trabalho e aumentar as oportunidades de emprego, as firmas para baratear o custo da mão de obra e maximizar as vendas, portanto os lucros, do comércio e da indústria. Dentre todos os efeitos de aglomeração gerados, no transcurso do tempo, pela busca incessante da redução das distâncias entre os agentes da cidade-mercado, o mais generalizado e historicamente estável, e por isso mais importante, é a dinâmica expansiva tendencialmente radioconcêntrica e desigual da urbanização - muitas vezes referida como 'modelo centro-periferia' -, que pode ser dita a lei fundamental da organização espacial urbana capitalista. Manifestação espacial historicamente mais desenvolvida da dinâmica expansiva do próprio capital, o crescimento simultaneamente 'central' e 'axial' [3] da metrópole moderna opera, independentemente de qualquer plano e da vontade dos indivíduos que o criaram e reproduzem no seu dia-a-dia [4], como um mecanismo de economia socioespacial a seu serviço.

*
A segunda linha de investigação, intitulada “Urbanização capitalista no Brasil 1870-1930 - o nascimento das metrópoles”, tem o caráter de estudo de caso - mais exatamente seis casos brasileiros - destinado a pôr à prova a validade geral da conclusão sacada do estudo de Porto Alegre no âmbito nacional. 

Ainda que também uma homenagem ao precocemente falecido mestre, a escolha das mesmas seis metrópoles brasileiras estudadas por Flávio Villaça em sua obra magna Espaço Intra-urbano no Brasil, de 1998, tem um caráter assumidamente prático: o livro de Villaça contém a mais ampla, bem documentada e competentemente desenvolvida investigação urbanística e geográfica até hoje produzida sobre as metrópoles brasileiras.

Proponho-me aqui a interpretar o material secundário disponível em uma farta quantidade de trabalhos acadêmicos e não acadêmicos dedicados à história, geografia e urbanismo dessas cidades como manifestação (a) do fenômeno que chamo “a formação das metrópoles capitalistas” em terras brasileiras, (b) da ruptura, ou salto qualitativo, que a urbanização de mercado impôs às capitais mercantis-escravistas sobre as quais nossas metrópoles, à exceção de Belo Horizonte, se constituíram e (c) da dinâmica econômico-espacial que presidiu tal ruptura, distinta de tudo o que tais cidades experimentaram no passado.

*
É somente com o advento, no Brasil imperial da segunda metade do século XIX, das relações capitalistas de produção consolidadas na Inglaterra em fins do século XVIII, que nossas cidades começam a passar da condição de entrepostos de exportação da agricultura escravista e importação de bens de consumo da aristocracia governante e seus agentes para a de mercado generalizado de bens, serviços e força de trabalho à margem do qual a imensa maioria de seus habitantes, apartados da posse da terra rural, não teria como subsistir.

Contudo, a transição da urbanização feudal-mercantilista para a urbanização de mercado é - ouso dizer - um aspecto tão importante quanto pouco estudado dessa revolução, haja vista o caráter axiomático e a-histórico da centralidade urbana capitalista naquele que é, desde a década de 1960, o paradigma científico da moderna organização espacial urbana: o modelo alonso-thuneniano da distribuição espacial dos usos e densidades baseada no princípio preemptivo da maior oferta de renda por m2 de terreno.


A relevância contemporânea do modelo de Von Thunen reside na sua adaptação à economia urbana, que permitiu o estudo da renda urbana e suburbana e da localização das famílias e atividades econômicas nas cidades. (..) A característica fundamental da economia urbana refletida no modelo é a necessidade que têm as famílias de ir ao centro para trabalhar usando um sistema radial de transportes. (..) Uma falha dessa abordagem é pressupor algo que está por ser explicado: a existência do centro comercial urbano. [5]

O fato das metrópoles capitalistas terem surgido, aqui e em toda parte, como ‘desenvolvimento’, ou ‘modernização’, de cidades pré-existentes não invalida a hipótese de que estejamos lidando com um objeto qualitativamente distinto: o amadurecimento das relações de produção capitalistas foi um furacão civilizacional que tudo subordinou à sua dinâmica e suas necessidades. Dadas as circunstâncias adequadas à acumulação do capital, onde já havia cidades ele as revolucionou; onde não havia, ele as criou.

Exemplifico com uma comparação. 

Embora o bonde de tração elétrica tenha chegado a Salvador, pela mão do capital estrangeiro, apenas três anos antes de São Paulo (1897 e 1900, respectivamente), a sede do Governo-Geral do Brasil colonial de 1549 a 1763 era, em 1959, na visão de Santos, “a metrópole de uma economia agrícola comercial antiga que ainda hoje subsiste; (..) embora penetrada pelas novas formas de vida, devidas à sua participação aos modos de vida do mundo industrial, [Salvador] mostra, ainda, na paisagem, [muito mais claramente do que as capitais do Sudeste] aspectos materiais de outros períodos” [6]. 

São Paulo, por seu turno, um “núcleo provinciano de segunda categoria antes de 1870” [7] e uma “cidade insignificante até fins do século XIX” [8], já nos anos 1930-40 era referida em relatos de visitantes estrangeiros como a Chicago brasileira / sul-americana / tropical por conta de suas fábricas, arranha-céus, anúncios luminosos, ruas e calçadas congestionadas, residências suburbanas luxuosas e um enorme contingente de imigrantes europeus e asiáticos. [9]

A despeito de suas notáveis diferenças internas - de estatuto político-administrativo, de base econômica e de ritmo de crescimento - é significativo que as seis maiores cidades brasileiras do Segundo Império e Primeira República tenham iniciado a operação de seus sistemas de bondes urbanos de tração elétrica não muito depois de suas congêneres europeias, mais exatamente entre 1892 e 1914 [10], não por acaso o terço médio do período descrito por Abreu como aquele "em que os processos capitalistas modernos firmaram-se solidamente nas cidades brasileiras”.

A metamorfose das urbes mercantis-escravistas brasileiras em metrópoles capitalistas - tão rápida à escala do tempo histórico quanto radical à vista de suas próprias tradições - pode ser dita completa, no sentido de pronta para novos ciclos de transformações quantitativas, quando as cidades-sedes da Colônia e Primeiro Império se convertem em Centros das novas metrópoles radiadas da República Velha. Como dito no já citado estudo sobre Porto Alegre:

É a indústria da urbanização, ou urbanização de mercado, que dá conteúdo e forma à urbe radiocêntrica. É ela que converte as chácaras semi-rurais em bairros residenciais, os antigos caminhos rurais em vetores radiais de expansão, os aldeamentos satélites estrategicamente situados em embriões de futuros subcentros e, finalmente, a própria “cidade” em “centro”! - uma mudança geográfica radical e meteórica na escala temporal da modernidade urbana, portadora de uma percepção coletiva do espaço inteiramente renovada ainda que pouco acessível aos hábitos mentais das antigas gerações: sua transposição para a linguagem corrente levaria ainda algumas décadas para se completar. [11]

Daí em diante nossas grandes cidades passam a ser, nas palavras de Herce Vallejo, "produtos em si mesmas", complexos de mercadorias imobiliárias e serviços urbanos cuja construção e operação se tornaram um campo de negócios de vital importância para o desenvolvimento econômico do país e para a multiplicação dos capitais, de quaisquer origens, aqui investidos. [12]

2025-11-05

______
NOTAS

[1] "Porto Alegre cidade radiocêntrica (2)". À beira do urbanismo (blog), 21-05-2020, por Pedro Jorgensen
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2020/05/porto-alegre-cidade-radiocentrica-2_30.html

[2] ABREU M, “Cidade brasileira: 1870-1930”
https://pt.scribd.com/document/162723437/62

[3] HURD R M, Principles of City Land Values. New York: Record and Guide, 1903.
https://archive.org/.../principlesofcity.../page/n4/mode/1up

[4] “(..) a história faz-se de tal modo que o resultado final provém sempre de conflitos de muitas vontades individuais, em que cada uma delas, por sua vez, é feita aquilo que é por um conjunto de condições de vida particulares; (..) o resultado pode (..) ser encarado como o produto de um poder que, como um todo, actua sem consciência e sem vontade”. ENGELS F, “Carta a Josepf Bloch” 21.09.1890.
https://www.marxists.org/portugues/marx/1890/09/22-1.htm

[5] CORREIA DA SILVA J , “Space in Economics – A Historic Perspective”, em Backhouse R, History of Economic Thought, Programa de Doutoramento em Economia, Faculdade de Economia do Porto, Universidade do Porto
https://www.fep.up.pt/docentes/joao/material/space.pdf

[6] SANTOS M (1959), O Centro da Cidade do Salvador 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Salvador: Edufba, 2008, p. 199
https://pt.scribd.com/doc/83594926/O-Centro-Da-Cidade-de-Salvador

[7] CAMPOS, Candido Malta. Os rumos da cidade – urbanismo e modernização em São Paulo. São Paulo: Editora Senac, 2002

[8] PRADO JR C (1953), A cidade de São Paulo - Geografia e História. São Paulo: Editora Brasiliense 2012, p. 76

[9] PETRONE P (1955), “A cidade de São Paulo no século XX: São Paulo transforma-se em metrópole industrial”. Revista de História v. 6, n. 21/22 jan-jun 1955, pp. 127-170

[10] Rio de Janeiro 1892, Salvador 1897, São Paulo 1900, Belo Horizonte 1902, Porto Alegre 1908, Recife 1914

[11] "Porto Alegre cidade radiocêntrica (2)". À beira do urbanismo (blog), 21-05-2020, por Pedro Jorgensen
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2020/05/porto-alegre-cidade-radiocentrica-2_30.html

[12] HERCE VALLEJO M, "Las infraestructuras en la construcción de la ciudad capitalista". Café de las Ciudades Abril 2021.
https://cafedelasciudades.com.ar/sitio/contenidos/ver/459/las-infraestructuras-en-la-construccion-de-la-ciudad-capitalista.html

domingo, 28 de setembro de 2025

Monbeig 1953: O crescimento de São Paulo

MONBEIG P, “La croissance de la ville de Sào Paulo”. Revue de Géographie Alpine 1953 41-1 pp. 59-97
https://www.persee.fr/doc/rga_0035-1121_1953_num_41_1_1083

Pierre Monbeig [1] 
“(..) Abertura de avenidas e ruas, construções, loteamentos, tudo isso atesta o crescimento repentino de São Paulo. Mas procuraríamos em vão um plano de conjunto, uma perspectiva clara ou um poder administrativo central capaz de impor a sua vontade, de traçar as linhas mestras da nova cidade e de legislar de maneira eficaz. A expansão do assentamento urbano ocorreu sem ordem e no interesse imediato dos indivíduos, exatamente como a expansão do povoamento rural. O que eram esses loteamentos e quem foram os loteadores? Em geral, os novos bairros nasciam ao azar. Ao falecerem os proprietários das antigas chácaras, os herdeiros, ao invés de mantê-las mais ou menos intactas ou reparti-las entre si, preferiam loteá-las e vendê-las. Constituíam, assim, pequenas sociedades com capitais provenientes das heranças. Às vezes optavam por vendê-las em bloco para agrimensores brasileiros ou estrangeiros. Havia casos em que a decisão de desmembrar e vender era tomada pelo proprietário ainda em vida. Era costume dar o nome do antigo proprietário à rua mais importante do loteamento: Avenida Angélica, Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, Rua Barão de Itapetininga. E assim se faz desde então, o que demonstra claramente a natureza familiar desses empreendimentos. (..)” [2]
[Tradução PJ]

2025-09-28
______
NOTAS
[1] Géographe, spécialiste de l'Amérique du Sud. - Directeur de l'Institut des hautes études de l'Amérique latine, Paris. - Directeur des "Cahiers des Amériques latines". - Agrégé d'histoire et de géographie (1929). - Pensionnaire de la Casa Velasquez, Madrid (1939-1931). - Professeur, titulaire de la chaire de géographie, Université de São Paulo (1935-1946). - Président de l'association des géographes brésiliens (à partir de 1936). - Professeur, titulaire de la chaire de géographie économique (industrielle et commerciale), CNAM - Conservatoire national des Arts et Métiers, Paris (1952-1961) (Source DataBNF)

[2] "(..) Ouvertures d'avenues et de rues, constructions, lotissements, tout cela témoigne suffisamment de la croissance subite de Saint-Paul. Mais on chercherait en vain un plan d'ensemble, une volonté bien arrêtée ou une direction administrative centrale capable d'imposer sa volonté, de tracer les lignes maîtresses de la nouvelle ville et de légiférer utilement. L'expansion du peuplement urbain s'est faite sans ordre et au mieux des intérêts immédiats des particuliers, exactement comme l'expansion du peuplement rural. Qu'étaient em effet ces lotissements et qui étaient les lotisseurs ? La plupart du temps, les nouveaux quartiers sont nés du hasard. A la mort d'um des propriétaires des vieilles chacaras, ses héritiers au lieu de la conserver en commun ou, en tous cas, à peu près intacte, décidaient de la diviser en parcelles mises en vente. Ils constituaient une petite société dont le capital provenait de l'héritage. Parfois les héritiers trouvèrent plus commode de vendre en bloc à des arpenteurs brésiliens ou étrangers. Parfois aussi la décision de morceler et de vendre était prise par le propriétaire, de son vivant. On donnait ou on a donné par la/ suite le nom du vieux possesseur à la rue la plus importante du lotissement : avenida Angelica, avenida Brigadeiro Luiz Antonio, rua do Barào de Itapetininga. L'habitude s'est conservée depuis lors. Elle témoigne bien du caractère familial de ces entreprises. (..)”


domingo, 16 de fevereiro de 2025

Escudero 2008: metropolização da Cidade do México 1880-1930

ESCUDERO Alejandrina 2008, “La ciudad postrevolucionaria en tres planos”. Cd. De México: IIE-UNAM.
https://www.scielo.org.mx/pdf/aiie/v30n93/v30n93a4.pdf

(..)
Hacia una gran metrópoli 

Otro factor importante fue la expansión de la mancha urbana ocurrida entre las dos últimas décadas del siglo xix y las tres primeras del xx, al asentarse “colonias” y fraccionamientos que empezaron a ligar la ciudad con los pueblos, ya entonces convertidos en delegaciones (como San Ángel y Tlalpan), o al flanquear calzadas (como Reforma y Tlalpan), debido a lo cual desaparecieron ranchos, haciendas, ejidos, ríos y canales. A algunas de esas colonias se las dotó de infraestructura de primer nivel, pero la mayoría de ellas se fraccionaron sin servicios básicos.

La traza virreinal se transformó con la demolición o cambio de uso de bienes eclesiásticos, lo que trajo la apertura de calles que afinaron su forma de damero. En la periferia, el trazo de algunos fraccionamientos adoptó una forma cerrada (elíptica) de acuerdo con su topografía (Las Lomas de Chapultepec) o con su diseño original (Hipódromo Condesa) con influencias extranjeras.

Independientemente de la desigual dotación de infraestructura urbana y el crecimiento azaroso, se empezó a enfrentar y solucionar los problemas de una forma integral, es decir, considerando la ciudad de México y el Distrito Federal en relación con la cuenca de México. Entonces surgieron las primeras estrategias y estudios de planificación total. Se crearon organismos especializados y se promulgaron algunas leyes, como la ya mencionada Ley Orgánica del Distrito y la Ley de Planificación y Zonificación del Distrito Federal y Territorios de la Baja California. Asimismo, se creó la Comisión de Planificación del Distrito Federal y se mantuvo un programa de obras públicas iniciado en la primera década del siglo xx y continuado hacia 1934.

Ciertamente, entre las dos últimas décadas del siglo xix y las tres primeras del xx —periodo de poco más de medio siglo—, se empieza a definir el perfil moderno de la ciudad, que al inicio de 1930 cuenta ya con una identidad urbana y arquitectónica, a pesar de que esto no resulta así según Manuel Toussaint, quien afirma lo siguiente: “Un estudio especial debe hacerse del periodo comprendido entre 1857 y nuestros días, pues desde entonces viene a ser México casi una nueva ciudad que pierde personalidad para afrancesarse y ayancarse [sic], sin plan definido; al despojarse de muchas de sus características”. Si bien en ese lapso la capital había perdido algunos rasgos coloniales y lacustres, además de crecer de manera desordenada, había cierta estabilidad en su desarrollo, pues sus singulares asentamientos (colonias y fraccionamientos) y su amplia red circulatoria le confirieron una identidad urbana reconocida a lo largo del siglo xx. (..)"

2025-02-16

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Andrade 1998: Barry Parker, a Cia City e a metropolização de São Paulo


ANDRADE, C. R. M. de (1998), "2.2. Grandes negócios urbanísticos”. Em Barry Parker: um arquiteto inglês na cidade de São Paulo, Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, pp. 179-98.
https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16131/tde-31102022-164103/publico/Andrade_Carlos_Roberto_Monteiro_de_1998_DO.pdf


2.2 Grandes negócios urbanísticos
Clique na imagem para ampliar

Nesse rápido processo de transformação da paisagem urbana paulistana, uma companhia imobiliária inglesa - a City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Limited - teve um papel decisivo. Por sua vez, também será de grande importância - como pretendemos demonstrar -, a atuação junto a essa empresa imobiliária e de melhoramentos urbanos do Arq. Barry Parker, que nela trabalhará, junto à sua sede paulistana, de fevereiro de 1917 a janeiro de 1919. Portanto, se pretendemos, em um primeiro momento, reconstituir - ainda que parcial e fragmentariamente - a fisionomia urbana da Capital de São Paulo quando da estadia de Parker, por outro lado procuraremos mostrar como sua atuação - e aqui incluímos tanto o que construiu, quanto o que deixou apenas projetado - foi fundamental na reforma dessa paisagem, bem como na concepção de São Paulo como uma metrópole.

Concorreram para o fenômeno de rápida metropolização de São Paulo diversos fatores sócio-econômicos que já vinham se estabelecendo desde o último quartel do século XIX, dentre eles, o fato de ser um centro ferroviário que articulava, através de suas redes, as principais regiões econômicas do país. É dessa caraterística determinante para efetivar a vocação metropolitana da capital que partiu o conjunto de ações que confluíram no sentido da transformação do velho burgo estudantil em uma grande cidade. As estradas de ferro no Estado tinham em São Paulo o principal nó articulador de uma vasta rede e, em Santos, o único porto escoador da produção de todo o Estado e mesmo de outras regiões do país, como nos mostram os dados da tabela abaixo, retirados de Barbosa (1987:31). 
(..)

2024-04-24

domingo, 3 de março de 2024

Campos 2008: São Paulo no século XIX

CAMPOS Eudes, “São Paulo antigo: plantas da cidade”. Informativo Arquivo Histórico Municipal, 4 (20): set/out.2008
Clique na imagem para ampliar
A planta de 1897 (..) registra a verdadeira explosão urbana ocorrida na cidade durante a última década do século XIX, quando a população saltou de 65.000, em 1890, para 240.000 habitantes em 1900.

Como vimos anteriormente, desde o final dos anos 1850 se vinha desenvolvendo em São Paulo uma forte tendência especulativa, em razão da iminente construção da primeira ferrovia paulista (Santos-Jundiaí). Mais tarde, tornaram-se comuns os loteamentos particulares, sobretudo em consequência da crise inflacionária de 1875. E por essa mesma época, fizeram-se igualmente frequentes as manobras executadas pelas elites para atrair o desenvolvimento urbano para suas terras. (..)

Em virtude de todo esse processo especulativo, foi-se configurando em São Paulo uma nova estrutura urbana. A área central, chamada Triângulo, agora quase totalmente dominada pelo comércio e serviços, adensava-se e era tomada por nova tipologia arquitetônica: construções de três pavimentos que começavam a se alastrar pelo Centro a partir dos últimos anos 1880 – sedes de instituições bancárias e prédios com lojas no térreo e apartamentos residenciais ou salas de escritórios nos andares superiores. Concomitantemente, iam os loteamentos particulares tomando o lugar das antigas chácaras. Com suas ruas ortogonalmente dispostas, esses empreendimentos imobiliários, desde então, passaram a ser a forma característica de criação do espaço urbano paulistano.

Os terrenos mais procurados para a expansão da Capital eram os de melhor localização, encontráveis ao longo dos antigos caminhos que percorriam as terras altas, preferentemente os situados ao norte e a oeste, atuais bairros da Luz, Santa Ifigênia, Campos Elísios e, pouco mais tarde, nos anos 1890, Vila Buarque e Higienópolis (em geral bairros residenciais ocupados pelas camadas mais altas da sociedade). Os mais desfavoráveis eram os situados em regiões ribeirinhas, inundáveis durante o período das chuvas, em parte adquiridos pelas companhias ferroviárias que por aí estenderam suas linhas. A presença de linhas férreas nessas regiões desocupadas atrairia as primeiras indústrias e, consequentemente, as moradias da massa trabalhadora, sempre em constante aumento. Isso ocorreu no Brás, no Pari, na Mooca (cujas datas pantanosas já estavam sendo distribuídas a imigrantes em 1876) e no Bom Retiro, que segundo Raffard vinha sendo ocupado por operários desde 1890. Aos poucos, São Paulo adquire uma conformação tentacular, com grandes vazios em seu interior (compostos de glebas reservadas para a especulação e vales profundos de difícil acesso e ocupação), praticamente inexistindo ligações viárias entre suas diferentes partes.

Com a crescente atuação da iniciativa privada, deixa o Estado de ser o agente da produção do espaço da cidade, como ainda acontecia em meados do século XIX. Passa agora a atuar apenas normativamente, ou quando se torna necessário estabelecer a interligação entre os vários loteamentos esparsos, na busca de conferir alguma coesão à colcha de retalhos a que se reduz daí por diante a estrutura urbana paulistana.

Um relatório encaminhado em 1891 ao governo estadual descrevia muito bem a situação vivida por uma cidade submetida a um processo de intensa e descontrolada expansão. Embora fundada havia três séculos, São Paulo podia ser considerada uma cidade nova. (..)

2024-03-03