sexta-feira, 8 de março de 2019

Andrade e Cordovil: Maringá entre o projeto e a vida

Porção norte da cidade de Maringá com 
parte do plano inicial ao sul, mostrando o 
Novo Centro, a  Universidade Estadual de 
Maringá – UEM  e o Jardim Alvorada 
(expansão para o norte).
Fonte: Andrade e Cordovil
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O anúncio do início das obras do novo Eixo Monumental de Maringá, nos termos da proposta vencedora do Concurso Nacional para Requalificação do Espaço Público [*], é ocasião propícia para o resgate da contribuição "A Cidade de Maringá, PR. O Plano Inicial e as 'Requalificações Urbanas'", de Carlos Roberto Monteiro de Andrade (USP) e Fabíola Castelo de Souza Cordovil (UEM), apresentada ao X Colóquio Internacional de Geocrítica - Barcelona, maio de 2008.

Construída ex novo na década de 1940 pela Companhia de Terras Norte do Paraná, a cidade de Maringá foi projetada pelo engenheiro paulistano Jorge de Macedo Vieira sob influência das ideias urbanísticas sintetizadas pelo engenheiro-arquiteto inglês Raymond Unwin em sua obra Town planning in practice: an introduction of the art of designing cities and suburbs, de 1909: a cuidadosa adaptação ao ambiente natural expressa no plano geral de implantação e na organicidade dos arruamentos residenciais - aqui habilmente sobreposta à arte dos traçados geométricos -, mesclada ao rigor formal do conjunto cívico central axiforme, tendendo ao monumental

É este "conjunto cívico central" do projeto de Macedo Vieira, que se estende da Praça da Catedral à Vila Olímpica, o objeto do concurso recém realizado.

Maringá em fins dos anos 1960
E são as escolhas urbanísticas resultantes do conflito entre a expansão da cidade para o Norte e o traçado da estrada de ferro, elemento chave do plano original que secciona o eixo cívico central marcando-o com a estação ferroviária e sua generosa retro-área em cruz, o objeto principal do texto aqui apresentado. 

O trabalho de Andrade e Cordovil discute as vicissitudes do plano urbano original em face da voracidade da indústria da incorporação e das idas e vindas do Projeto Ágora, contratado pela municipalidade na década de 1980 ao escritório Oscar Niemeyer para redefinir o uso e o desenho da Praça da Estação liberada pelo enterramento da linha férrea - uma iniciativa não apenas ambiciosa para o tamanho da cidade como extremamente desafiadora do ponto de vista do valor técnico e cultural da criação de Macedo Vieira, autêntico núcleo histórico da Maringá metropolitana. 

Deixo a pergunta: estará a cidade de Maringá sendo bem sucedida na tarefa de proteger e valorizar o seu mais precioso ativo urbanístico? 


Imagem do Projeto Ágora lançado em 1985, alterado em 1991 e 1993,
 quando passou a denominar-se Novo Centro
Fonte: Revista Tradição, ano XI, número 118, agosto de 1991 / Andrade e Cordovil


Av Advogado Horácio Raccanello Filho (Novo Centro),
 construída sobre o rebaixamento da linha férrea
Fonte: Google Maps 


*
A Cidade de Maringá, PR. O Plano Inicial e as 'Requalificações Urbanas'
Andrade, Carlos Roberto Monteiro (USP) Cordovil, Fabíola Castelo de Souza (UEM)
X Coloquio Internacional de Geocrítica, Barcelona, maio de 2008 
http://www.ub.edu/geocrit/-xcol/55.htm

(..) O Projeto Ágora e o Novo Centro
A densificação da cidade e a expansão do perímetro urbano, bem como a consolidação de Maringá como centro regional e a disputa do mercado imobiliário trouxeram a necessidade de se criar soluções para a adequação da infra-estrutura, principalmente a viária, para acomodar o tráfego intenso e garantir o escoamento rápido da produção, de pessoas e serviços. Tais soluções criaram novas áreas de moradia e valorizaram novas parcelas de terras, com acréscimos ao seu plano inicial e transformações. As situações levaram à necessidade de formulação de novos arranjos urbanos. Entre 1970 e 1980, alardeou-se a incompatibilidade entre as manobras ferroviárias na área central com o tráfego urbano entre o norte e o sul da cidade.
O Projeto Ágora, cuja primeira formulação aconteceu em 1985 por Oscar Niemeyer, ilustra bem os mecanismos utilizados para legitimar as alterações. Argumentou-se que seria um novo símbolo de progresso, sobrepujando o lugar da estação ferroviária. A cidade precisava ser eficiente e isso se constatava, principalmente, em relação ao transporte de pessoas e mercadorias.
Como foi dito, o traçado da linha férrea, no sentido leste-oeste, foi preponderante para a definitiva demarcação do traçado inicial da cidade e a estação ferroviária era, na época, um símbolo de progresso de uma cidade regional, responsável pelo escoamento das safras oriundas de diversos centros menores.
Os meios de comunicação exploravam enfaticamente a situação que se constatava no cotidiano da cidade. Colocava-se, como única possibilidade viável, a necessidade de um novo arranjo urbano para a área da estação ferroviária, a linha férrea e o seu pátio de manobras. Enalteceu-se a grandiosidade do Projeto Ágora, o seu caráter espetacular e a sua importância para a cidade. A relação com a Capital Federal fez-se novamente presente e o discurso, publicado nos principais jornais da cidade, enfatizou o autor do projeto, Oscar Niemeyer, o “arquiteto que projetou a Capital Federal” (Jornal O Diário 11 jun. 1985 apud Grzecorczyc, 2000, p. 79-80).
O Projeto Ágora propunha um novo conceito urbano, arquitetônico e de ocupação para a área da estação ferroviária e para o seu pátio de manobras. O programa previa três superquadras e destinou a superquadra central para a área pública, mantendo a antiga estação rodoviária (ver figura 4).
O projeto foi revisto pela primeira vez em 1990. No final de 1992, inaugura-se, de forma bastante singular, o prolongamento das avenidas que cortam o antigo pátio de manobras da ferrovia, integrando a gleba de 206.600m2 à malha urbana (Dias, 1994). Houve, também, o aumento de oferta dos lotes, ao diminuir a largura da avenida longitudinal ao projeto, entre outras. Em 1993, as alterações foram ainda maiores, pois atenderam, ainda mais, às pressões do mercado imobiliário. Entre elas, observamos a diminuição do tamanho dos lotes (de 4.000 m2 para 700m2 a 1.100m2), com alteração do coeficiente de aproveitamento de 4,5 para 6,0, a transferência da rodoviária para outra área da cidade e, finalmente, a alteração do nome de “Projeto Ágora” para “Novo Centro” (Grzecorczyc, 2000).
Por fim, o que verificamos hoje, no Novo Centro de Maringá, é uma série de edifícios que pouco se diferenciam do restante da cidade. O espaço público, que inicialmente teve a alcunha de “Ágora”, hoje se reduz a uma praça inóspita e sem vida onde há apenas um elemento que nada contribui para uma efetiva referência para a cidade. O nome de Oscar Niemeyer foi incorporado ao discurso para as reformulações urbanas de Maringá. Os empreendimentos imobiliários se dão de forma cada vez mais acelerada. Aceita-se uma imagem urbana que se produz na imagem publicitária e ambas podem ser mudadas sistematicamente (ver figura 5).
O resultado do Projeto Ágora foi a retirada do pátio de manobras e da linha férrea da superfície, o prolongamento das avenidas Herval e Duque de Caxias e o loteamento das duas quadras para a venda ao mercado imobiliário. De área pública, o que restou do Projeto Ágora foi uma quadra central, sem nenhum tipo de uso e equipamentos. (Continua)
Acesse o artigo completo pelo link http://www.ub.edu/geocrit/-xcol/55.htm
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*(Natureza Urbana, São Paulo – SP, Arqs. Pedro Paes Lira / Manoela Muniz Machado e colaboradores) 



2019-03-08