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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Fictitious capital, real estate

Times Brasil 05-02-2026, por Cauê Rigmonti
https://timesbrasil.com.br/brasil/investigacao-revela-uso-de-terras-de-ronaldinho-para-inflar-ativos-do-banco-master/

Investigação revela uso de terras [*] para inflar ativos do Banco Master

(..) As investigações indicam que o Banco Master atuava por meio do Fundo City 02 — veículo no qual era o único cotista — para conceder empréstimos a empresas. Na sequência, essas companhias transferiam a maior parte dos recursos para fundos geridos pela Reag Investimentos, instituição que, assim como o Master, foi posteriormente liquidada pelo Banco Central.


Uma parte relevante dessas operações tinha início com a emissão de CRIs, títulos bastante utilizados no mercado de capitais. Esses papéis são estruturados a partir de créditos do setor imobiliário, como financiamentos ou receitas futuras de aluguel, que são agrupados e transformados em instrumentos de renda fixa.

Na prática, o mecanismo permite antecipar recursos para projetos imobiliários. As empresas recebem o capital imediatamente para viabilizar obras, enquanto os investidores que compram os CRIs são remunerados com juros ao longo do tempo.

Em agosto de 2023, a Base Securitizadora — citada nas investigações envolvendo o Banco Master — estruturou uma emissão de R$ 330 milhões em CRIs em favor da S&J Consultoria. Como garantia, foram apresentadas notas comerciais vinculadas ao desenvolvimento de áreas em Porto Alegre (..)

No sistema financeiro, o volume de ativos é um dos principais indicadores de solidez e capacidade de alavancagem. Ao registrar esses títulos como parte do patrimônio de seus fundos, o grupo elevava artificialmente seus números, apresentando ao mercado e aos reguladores uma estrutura patrimonial mais robusta do que a sustentada por ativos reais ou de alta qualidade.

Para os investigadores, o objetivo da estratégia seria fortalecer os indicadores do Banco Master, ampliando sua atratividade junto a investidores e reforçando sua imagem de solidez, ainda que os recursos circulassem internamente, sem impacto concreto na economia. Nesse contexto, os terrenos funcionariam apenas como elemento formal para viabilizar a captação.

Enquanto os CRIs eram negociados no mercado financeiro e inflavam os balanços da instituição, as áreas permaneciam sem obras ou qualquer tipo de desenvolvimento.

As empresas citadas nas apurações são alvo de investigações da Polícia Federal e foram atingidas por mandados autorizados pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o magistrado, o volume total de CRIs emitidos pela Base Securitizadora sob suspeita alcança aproximadamente R$ 1 bilhão. (..)

____
[*] As referências ao ex-atleta Ronaldinho Gaúcho foram aqui propositalmente omitidas para que o sensacionalismo não desvie o foco do assunto - uma relevante descrição das engrenagens da indústria de produtos financeiros e sua relação com os imóveis em geral e a renda do solo urbano em particular.

2026-02-22

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Sopa no mel

Caos Planejado 09-01-2026, Curso "Do Planejamento ao Caos"
https://www.tiktok.com/@caosplanejado/video/7593314996088622348


É comum ouvir que a solução para as favelas seria “acabar com elas” e realocar as pessoas. Mas essa ideia ignora como e por que esses territórios surgiram.

As favelas não são um erro isolado. Elas são uma resposta direta à ausência do Estado e ao fracasso das políticas habitacionais no Brasil. Ao longo da nossa história urbana, milhões de pessoas foram empurradas para a informalidade porque o acesso ao solo bem localizado se tornou caro, restrito e excludente.

Enquanto isso, políticas públicas e legislações limitaram o potencial construtivo de áreas com boa infraestrutura e incentivaram conjuntos habitacionais distantes, reforçando a segregação e o isolamento.


Hoje, favelas são bairros consolidados. São territórios com laços sociais, trabalho, comércio e história. Tratar esses espaços como algo provisório é ignorar que ali também é cidade.

É preciso reconhecer essa realidade e garantir a presença do Estado com infraestrutura, saneamento, transporte, segurança e serviços públicos de qualidade. Urbanizar esses territórios é uma urgência do planejamento urbano brasileiro. (..)
[Destaque: À beira do urbanismo]

*

Um texto da Caos Planejado tão 'urbanisticamente correto' só pode ter alguma pegadinha. E tem, camuflada numa ordem causal invertida e atenuada por um “enquanto isso”.

Na ordem devida e despojada da etiqueta, a passagem acima destacada nos sugere que milhões de pessoas foram empurradas para a informalidade e segregadas em conjuntos habitacionais distantes... porque o planejamento urbano e suas legislações limitadoras do potencial construtivo tornaram caro, restrito e excludente o acesso ao solo bem localizado.

Ou seja, o livre mercado imobiliário promove a formalidade urbanística, o barateamento do solo e a diversidade social e o planejamento governamental a informalidade, a terra cara e a segregação!

Pergunto: inexistindo as “políticas públicas e legislações [que] limitaram o potencial construtivo de áreas com boa infraestrutura”, teriam “milhões de pessoas" deixado de ser “empurradas para a informalidade”? Teria o planejamento logrado, em comum acordo com a indústria da incorporação, destinar “áreas [centrais e pericentrais] com boa infraestrutura” em quantidade suficiente e preços ao alcance das “milhões de pessoas [que] foram empurradas (..) para conjuntos habitacionais distantes”?

Não me surpreende que a tese, hoje em voga em alguns círculos progressistas, de que a segregação urbana é produto das leis urbanísticas, não das leis do mercado, venha conquistando os liberais adeptos da verticalização travestida de adensamento urbano - vale dizer os paladinos da liberação do potencial construtivo nos nichos locacionais de interesse da incorporação, onde os preços relativos, e com eles a rentabilidade dos empreendimentos, só aumentam!

Na página do curso se lê:

Esse caos que você vê na sua cidade não é um acidente.
Ele foi planejado assim.
Com regras que segregam.
Com leis que afastam moradia, trabalho e serviços.

2026-01-14

domingo, 4 de janeiro de 2026

Case 2007: o valor do solo edificado nos EUA

CASE Carl E, “The Value of Land in the United States: 1975–2005”. In Ingram G K e Hong Y (Eds), Land Policies and Their Outcomes. Toronto: Lincoln Institute of Land Policy 2007, pp. 127-148
https://www.lincolninst.edu/app/uploads/legacy-files/pubfiles/2119_1441_LP2006-ch06-The-Value-of-Land-in-the-United-States-1975-2005_0.pdf

Clique na imagem para ampliar

(..) Table 6.10 shows that in 2005 the value of real estate in the United States was roughly $34.7 trillion excluding farms and $35.8 trillion including farmland. The value of farm assets and land was obtained using U.S. Department of Agriculture data and subtracting the FOF number for structures on farms. In 2005 the value of land alone in the United States was $10.8 trillion excluding farmland and $11.9 trillion including farmland.

The amazing fact is that the value of real estate as a whole increased by $12.7 trillion from 2000 to 2005 (see table 6.10). Of that amount, over $5.1 trillion was an increase in land value. After 1995 just less than $20 trillion in new real estate assets was created, with land increasing by $7.8 trillion. Figures 6.6 and 6.7 show the pattern of real and nominal real estate and land values from 1975 to 2005.

Montagem: Àbeira do urbanismo

Although these results are an approximation from imperfect data sources, they are quite sufficient to reveal several things to an order of magnitude. First, $35 trillion is a very substantial portion of national wealth and a substantial asset on the household balance sheet. The financial wealth held by households is about $40 trillion. Second, the data reveal substantial upward movement on the part of land price and real estate holdings that began around 1995 and continued into 2005. Finally, the time series on total real estate and land values both show a very steady upward movement, except in the early 1990s. The aggregate data reveal little volatility, except for the substantial decline in the value of real nonresidential property during the 1990s. 


Overall during the period, land value increased at a steady rate in real terms from 1975 through 1989. From 1989 through 1995, land value fell sharply as a result of the collapse of commercial real estate nationally and the softening of real estate markets in the Northeast and California. Since 2000, real estate markets, again particularly in the Northeast and on the West Coast, have seen a substantial rise in value in all segments of the market, and land values have soared. Table 6.1 summarizes the results since 1990. 
(..)

2026-01-04

domingo, 28 de dezembro de 2025

Capitalismo de rendas

Vida Imobiliária / Notícias 23-12-2025, por Felipe Ribeiro https://vidaimobiliaria.com/noticias/investimento/investimento-imobili%C3%A1rio-global-dever%C3%A1-aumentar-15-no-pr%C3%B3ximo-ano/

Investimento imobiliário global deverá aumentar 15% no próximo ano
Em 2026, o investimento imobiliário global deverá voltar a ganhar escala, ultrapassando novamente a fasquia de um bilião de dólares, o equivalente a cerca de 850 mil milhões de euros, o que representa um crescimento de 15% face a 2025. De acordo com o mais recente outlook da
Savills World Research, divulgado na publicação Impacts, este nível de investimento será alcançado pela primeira vez desde 2022.

A região EMEA [Europa, Oriente Médio e África] deverá assumir um papel de destaque nesta recuperação, com um crescimento estimado de 22%, para um volume de 300 mil milhões de dólares. Ainda assim, as Américas mantêm-se como o principal motor do investimento global, com um total projetado de 570 mil milhões de dólares, dos quais 530 mil milhões concentrados nos Estados Unidos.

No recorte setorial, os escritórios deverão regressar ao centro das decisões de investimento. A Savills antecipa que cerca de um quarto do volume global em 2026 seja canalizado para este segmento, sinalizando uma inversão de ciclo após vários anos marcados por incerteza. (..)

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*CASE Karl E, “The Value of Land in the United States: 1975–2005”. In Ingram G K e Hong Y (Eds) Land Policies and Their Outcomes. Toronto: Lincoln Institute of Land Policy 2007, pp. 127-148
https://www.lincolninst.edu/app/uploads/legacy-files/pubfiles/2119_1441_LP2006-ch06-The-Value-of-Land-in-the-United-States-1975-2005_0.pdf

2025-12-28

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Imposto de Rendimentos da Pessoa Física

Valor / Globo 06-12-2025, por Ana Luiza Tieghi
https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/12/06/mcmv-aumenta-acesso-a-imvel-em-sp-mas-renda-ainda-insuficiente-mostra-pesquisa.ghtml

Preço na cidade de São Paulo caiu, mas ainda é 2,2 vezes maior do que a renda domiciliar média da população

Na chamada desta matéria, onde está escrito 'renda', deve-se ler 'rendimentos'. Faz tempo que eu me pergunto se não cairia bem um esforço para melhorar essa terminologia. Em Portugal, 'rendas' significa 'aluguéis'. No Brasil, o termo 'imposto de renda' designa o imposto sobre os rendimentos, do qual estarão isentos, a partir de 2026, os que recebem até R$ 5 mil mensais. Os rendimentos de uma família podem provir, por exemplo, de salários e rendas de aluguel. Impostos sobre a renda são aqueles que incidem sobre os ganhos de monopólio, muito especialmente os que provêm da propriedade da terra urbana, como é o caso do IPTU, do ITBI e do imposto sobre o lucro imobiliário, comumente chamado IRPF GC (Imposto de Renda Pessoa Física sobre Ganho de Capital). Se nosso Imposto de Renda passasse a se chamar Imposto de [sobre os] Rendimentos da Pessoa Física, a sigla continuaria sendo IRPF - ainda que precisássemos de três gerações para deixar de dizer 'imposto de renda'. Admito, por outro lado, que talvez não convenha ao mundo dos negócios, hoje mais do que nunca, distinguir a ‘renda’ como um tipo específico de rendimento. 


2025-12-10


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Vem aí o CPF dos imóveis

Imobi Report 04-11-2025
https://imobireport.com.br/news-do-imobi/receita-federal-aperta-o-cerco-contra-a-informalidade-nos-imoveis/

Receita Federal aperta o cerco contra a informalidade nos imóveis

A partir de 2026, a Receita Federal implementará o Cadastro Imobiliário Brasileiro (CIB), o “CPF dos Imóveis”, que integrará dados de cartórios, prefeituras e órgãos federais para cruzar informações e combater sonegação e informalidade no mercado imobiliário. O sistema permitirá multas de até 150% por omissão de rendimentos e trará impacto na base de cálculo de tributos como IPTU, ITBI e ITCMD. Além disso, vendas recorrentes de imóveis poderão ser tributadas pelo IBS e CBS, exigindo replanejamento financeiro das imobiliárias.

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Provavelmente a mais importante medida governamental jamais tomada no Brasil, e talvez na América Latina, em favor da recuperação de mais-valias do solo urbano, não por acaso atacada por grande parte da imprensa de negócios imobiliários como 'política de aumento de impostos'. Tema obrigatório para futuras investigações de mestrado e doutorado em políticas urbanas. Mais informações nas passagens abaixo, constantes da matéria do Imobi Report.

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A Receita Federal vai redesenhar as regras fiscais para proprietários e investidores do mercado imobiliário a partir de 2026. A peça central dessa nova estrutura é o Cadastro Imobiliário Brasileiro (CIB), apelidado de “CPF dos Imóveis”, uma ferramenta que, combinada às novas diretrizes da Reforma Tributária, vai auxiliar no combate à informalidade e à sonegação. Seu principal objetivo é acabar com a fragmentação de dados que historicamente permitiu brechas na fiscalização de aluguéis, heranças e transações de compra e venda. Em outras palavras, é um revés para a sonegação e enfraquece a locação direta pelos proprietários. (Gazeta do Povo)

O “CPF dos Imóveis”, regulamentado pela Instrução Normativa RFB nº 2.275/2025, funcionará como um identificador nacional único para cada imóvel, seja ele urbano ou rural. Na prática, o sistema integrará informações que hoje estão dispersas entre cartórios (matrículas de RGI), prefeituras (inscrições de IPTU) e órgãos federais como o Incra. Essa centralização de dados permitirá à Receita Federal um cruzamento automático e em tempo real do patrimônio imobiliário dos contribuintes, identificando com precisão quem omite rendimentos de aluguel ou declara valores de transação abaixo do mercado. (Terra)

A partir de 2026, a omissão de rendimentos de aluguel poderá resultar em multas de até 150% sobre o valor do imposto devido, além da cobrança retroativa dos últimos cinco anos. A fiscalização será potencializada pela definição de um “valor de referência” oficial para cada imóvel, calculado anualmente com base em dados de mercado. Em artigo para o Estadão, a advogada especialista em Direito Imobiliário Samira de Mendonça Tanus Madeira comenta que, embora a Receita afirme que o CIB não vai criar novos tributos, esse valor de referência servirá como parâmetro para a fiscalização e poderá, indiretamente, aumentar a base de cálculo de impostos como IPTU, ITBI e ITCMD, especialmente para proprietários com imóveis subavaliados ou com registros desatualizados. (Estadão)

Este movimento de rigor fiscal também trará mudanças na venda de imóveis. A venda de imóveis por empresas, como construtoras e incorporadoras, passará a ser tributada pelo novo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). Para pessoas físicas, a atenção deve ser redobrada: quem vender mais de três imóveis em um mesmo ano, ou mais de um imóvel construído por conta própria nos últimos cinco anos, será equiparado a uma pessoa jurídica e também passará a ser tributado pelo IBS e pela CBS, além do já existente Imposto de Renda sobre ganho de capital. (E-Investidor)

Todas essas mudanças vão exigir um replanejamento financeiro das imobiliárias, sendo este o tema central da live “Reforma Tributária: como preparar financeiramente a sua imobiliária”, transmitida gratuitamente no dia 6 de novembro, às 11h. O conteúdo vai reunir o conhecimento de Dioner Segala (CUPOLA) e Franciele Rocha (Contimob) para esclarecer como os novos tributos vão impactar o caixa, o repasse de aluguéis, a estrutura contábil e a precificação das imobiliárias. Eles vão compartilhar ações necessárias para manter a rentabilidade e orientar clientes, com foco nas decisões financeiras que precisam ser tomadas ainda em 2025. (Live Financeiro Essencial)

2025-12-03

domingo, 30 de novembro de 2025

Financeirização ou capitalismo de rendas?

Público 18-09-2025, por Bruna Santos
https://www.publico.pt/2025/09/18/p3/cronica/bolha-imobiliario-nao-vai-rebentar-2145996

A bolha do imobiliário não vai rebentar

O anúncio de Luís Montenegro sobre 1300 milhões de euros para habitação acessível parece responder à lógica elementar da crise habitacional: mais procura que oferta exige mais construção. Esta abordagem aparentemente óbvia ignora uma transformação fundamental: a habitação deixou de ser um bem de primeira necessidade para se tornar um activo financeiro no sentido estrito. (..)

Os dados portugueses são absolutamente devastadores: nos últimos dez anos, o preço médio das casas mais do que duplicou, enquanto os salários cresceram marginalmente, frequentemente abaixo da inflação real. Esta disparidade não é acidental nem temporária — é o resultado directo da financeirização do mercado de habitação. (..)

A habitação tornou-se uma reserva de valor global, equiparável a acções, obrigações ou ouro. As nossas cidades competem agora directamente com outras capitais europeias pelos fluxos de investimento internacionais. Um apartamento vale o que vale não porque os portugueses conseguem pagar esse preço, mas porque investidores internacionais consideram esse preço competitivo face às alternativas de investimento globais. (..)

*

"Financeirização" vem se tornando um mantra, uma palavra-ônibus que explicaria por si só o drama das famílias que não encontram moradia minimamente próxima às fontes de emprego ao alcance do seu nível de rendimentos. 

Para a autora do artigo acima, o aumento de mais de 100% do preço da moradia em Portugal nos últimos dez anos, em face de "um crescimento apenas marginal dos salários", se explicaria por ter a moradia deixado de ser um "bem de primeira necessidade" para se tornar "um ativo financeiro em sentido estrito". Segundo ela,

"um apartamento vale o que vale não porque os portugueses conseguem pagar esse preço, mas porque investidores internacionais consideram esse preço competitivo face às alternativas de investimento globais".

Eu pergunto: quando foi que a habitação "deixou de ser um bem de primeira necessidade"? Não me consta que o acesso à moradia em Portugal tenha sido, algum dia, garantido pelo Estado a todos os cidadãos que não pudessem, ou não quisessem, obtê-lo pela via do mercado.
 
quem são os "investidores internacionais" que consideram competitivos preços da moradia que a maioria dos portugueses não consegue pagar? Obviamente, os grandes proprietários, ou controladores, estrangeiros de imóveis residenciais em Portugal.

E por quê esses preços seriam "competitivos"? Porque outros demandantes de moradias portuguesas que não os trabalhadores portugueses estão econômica e juridicamente aptos e dispostos a pagá-los; são eles, com suas ofertas, não os "investidores ", que determinam esse preços.

E quem são esses demandantes? Segundo uma enxurrada de artigos da própria imprensa portuguesa e até mesmo um relatório da União Europeia, um considerável contingente de estrangeiros endinheirados - do Brasil e norte da Europa, principalmente - interessados em comprá-las para seu uso, ou para alugar e vender a outros estrangeiros endinheirados para os quais Portugal é uma magnífica opção de aposentadoria longe dos rigores do inverno norte-europeu, de férias de verão, turismo em geral, estadia de curta duração e nomadismo digital.

Artigo publicado na Veja em junho de 2024 [1] nos diz que as políticas de atração de imigrantes dos anos precedentes geraram um contingente de 800 mil estrangeiros residentes no país, “desencadeando uma espiral de alta de preços como nunca se viu”: aluguel médio de 2.500 euros em Lisboa, o mais alto da Europa naquele momento segundo a multinacional Housing Anywhere. E mesmo com as limitações impostas pelo governo (extinção dos incentivos fiscais para estrangeiros e do Golden Visa, que concedia cidadania a quem investisse no país; regulação e taxação do aluguel rotativo), os preços continuaram nas alturas, com seus típicos efeitos: deslocamento das famílias de baixos rendimentos para as periferias, multiplicação da população de rua e aumento expressivo da ‘geração canguru’ - adultos que moram com os pais. 

E onde, afinal, entra a "financeirização"? 

Em postagem anterior deste blog, escrevi:

A moradia – assim entendo - é financeirizada desde que passou a ser produzida para o mercado, pela simples razão que são poucos os que podem comprá-la sem financiamento ao menos parcial de seu preço. Tradicionalmente, os contratos de hipoteca preveem que o próprio imóvel é a garantia do empréstimo para a sua aquisição. (..)

A financeirização da moradia deu um salto de qualidade quando, com a desregulamentação de fins do século passado, generalizou-se nos EUA e Inglaterra a prática dos empréstimos bancários garantidos pelo imóvel residencial para a compra de bens de consumo, viagens, universidade etc. Famílias com rendimentos estagnados, e até decrescentes, passaram a consumir… o valor futuro de suas casas!

E uma vez re-hipotecados os imóveis em troca de liquidez a curto prazo, os título de dívida passaram a ser vendidos pelos bancos a credores de que os devedores nunca tinham ouvido falar, nos mais diversos países – a pirâmide financeira que desmoronou em 2007, levando milhões de pequenos investidores, boa parte deles trabalhadores cooptados para a mítica 'república dos pequenos proprietários’, à perda de seu capital, isto é, de suas próprias moradias que, afinal, eram o lastro de tudo! [2]

Acrescentaria agora que, depois da II Guerra Mundial - bem antes, portanto, do 'salto' acima mencionado - o emprego dos imóveis residenciais também como ativos financeiros tornou-se uma prática social generalizada nos países ricos, e mais tarde até nos intermediários, como o Brasil, respondendo pela ascensão dos trabalhadores qualificados ao status de 'classe média'. A valorização da casa própria a longo prazo e seu legado aos descendentes como bem de capital estão na base do Sonho Americano, do Estado do Bem-Estar europeu - ainda que em menor medida [3] - e, já no século XXI, de uma parte cada vez mais significativa do programa brasileiro Minha Casa Minha Vida.

O que se está chamando, porém, de "financeirização" na história recente de Portugal é o fato de que, depois da crise de 2008 e da consequente queda abrupta dos juros, a oferta de moradia para estrangeiros endinheirados e portugueses enriquecidos tornou-se um negócio lucrativo o suficiente para atrair o interesse tanto de grandes imobiliárias sediadas no EUA, Europa e Ásia quanto de capitais de investimento - o capital 'em estado puro' - que circulam pelo mundo à espera de oportunidades de valorização. [4] 

Até a explosão da crise habitacional, Portugal vinha desfrutando, mesmo sob governos social-democratas, de uma lufada tão bem recebida quanto temerária de enriquecimento à base de rendas estrangeiras - aliás registrada com alguma constância neste blog. 

Ainda que favoreça a especulação de preços pela via da retenção da oferta, e que deva por isso ser combatida pelos sindicatos e movimentos de moradia no âmbito da União Europeia, não é a concentração da propriedade imobiliária em mãos de um pequeno número de capitalistas a causa dos fabulosos aumentos de preços de que estamos falando. Foi o incentivo português à captura de rendas pagas por estrangeiros, sob a forma, por exemplo, dos Vistos Gold, e de uma legislação correspondentemente permissiva, que tornou as moradias dos país um alvo preferencial das grandes imobiliárias e dos capitais de risco.    

Não se trata de que a moradia em geral é tratada, em Portugal como em todos os países do mundo, como "ativo financeiro", deixando de ser - como já li em algum lugar - "valor de uso"; pois se a moradia deixa de ser "valor de uso", não pode se tornar "ativo financeiro": qual imobiliária ou especulador compraria um apartamento que seus potenciais clientes não possam usar? 

Apartamentos bem conservados e bem localizados - relativamente às expectativas da demanda - se tornaram ativos privilegiados na economia contemporânea porque, ao passo que a rentabilidade do investimento em produtos industriais não portadores de qualidades ‘exclusivas’, reais ou imaginárias, tende mais ou menos rapidamente, por força da concorrência, à taxa média de lucro do segmento, o solo que ancora os bens imobiliários os 'condena' a aumentos automáticos de preços, de compra-venda e de aluguel, resultantes de externalidades socialmente criadas como o crescimento do PIB e dos rendimentos familiares, a expansão continuada que torna urbanas as terras suburbanas e periféricas, o aumento da escassez relativa das melhores localizações e, vale lembrar, a própria concentração da riqueza nacional e planetária a puxar para cima, o tempo todo, as ofertas de preço de compra e aluguel de parte substancial do estoque.

Imóveis não encarecem na escala hoje registrada em Portugal por terem se tornado ativos financeiros da classe média ou propriedade de capitalistas do ramo imobiliário. Capitalistas do mundo inteiro passaram a adquiri-los em grande quantidade por duas razões. A primeira, de ordem geral: imóveis são bens duráveis que, a depender da localização, mesmo  depois de totalmente amortizados  continuam a gerar lucro excedente (renda) ao investimento em conservação - e tanto mais renda quanto mais valorizada e escassa a terra-localização. O que nos leva à segunda razão: a notável discrepância, no âmbito da União Europeia, de características climáticas e níveis de rendimento familiar entre países setentrionais e mediterrâneos, notadamente Portugal.    

Quanto à crítica, com a qual compartilho, de que a moradia não vem sendo tratada como "bem de primeira necessidade", considero que os últimos governos portugueses não cuidaram, como deveriam, de - no mínimo - dirigir a proporção que fosse necessária do arrecadado com as rendas estrangeiras para a construção, em terrenos centrais e pericentrais das grandes cidades legalmente reservados para tal fim, de moradias ao alcance dos rendimentos do trabalhadorado português. Afinal, que outra coisa poderia significar, em se tratando do direito à habitação, o termo "social-democracia"?

*

Em suma, a restrição de acesso à moradia urbana pela via do mercado compreende dois tipos: absoluta e relativa. A absoluta - fenômeno típico dos países pobres e intermediários - consiste na incapacidade das famílias de poucos rendimentos de ofertar o preço abaixo do qual não interessa a nenhum proprietário urbano alugar seu imóvel - que dirá aos incorporadores produzi-los -, restando-lhes a moradia 100% social a cargo do Estado ou a informalidade. A relativa consiste na sujeição compulsória das famílias de rendimentos suficientes à “filtragem” da competição pelos imóveis / localizações urbanas disponíveis, restando às menos afortunadas as moradias suburbanas com algum espaço ou os apartamentos de dimensões mínimas e/ou estado precário nas áreas centrais ‘degradadas’.

Não é a 'financeirização', vale dizer o seu emprego como ativo financeiro, que encarece a moradia. Parte substancial do estoque de moradias formais nas grandes cidades já desempenha, aliás, há muitas décadas, o duplo papel de residência da família proprietária e seu principal ativo financeiro de longo prazo. É a inexorável valorização relativa desse estoque, derivada da disputa - local, regional, nacional e internacional - das camadas sociais sociais mais abonadas pela terra-localização urbana, exacerbada pela própria concentração dos rendimentos das famílias, que converte as moradias em ativos, digamos, para-financeiros de importância crucial na economia global contemporânea. Em outras palavras, é o permanente escasseamento relativo, e consequente encarecimento, do suporte material das moradias urbanas - o solo urbanizado e bem localizado - nas metrópoles capitalistas que as tornam cada vez mais cobiçadas como bem de capital e ativo financeiro.

A 'financeirização da moradia' é o sintoma, não a doença.

*

PS: A edição deste domingo do jornal La Vanguardia publica matéria intitulada “Catalunya inicia los trabajos sobre la prohibición de la compra de vivienda para invertir”. [5]

'Aquisição de residências para fins de investimento' me soa como um bem-sucedido esforço de interpretação do jargão urbanístico 'financeirização da moradia'. No entanto, ainda que a extinção da compra-venda de residências para fins de investimento capitalista faça sentido como horizonte de política urbana - medidas socializantes são urgentes, creio, em todos os âmbitos da vida econômica global -, há que considerar: 

(1) que além de fonte de rendimentos regulares para muitos pequenos proprietários, a moradia, na condição de 'casa própria', se torn0u a forma mais difundida de capitalização, vale dizer de 'investimento', da classe média como um todo, aí incluído um enorme contingente de trabalhadores qualificados, no futuro de suas famílias

(2) que a proposta implica uma intervenção na economia de mercado muito mais profunda que o mero controle dos alugueis, com repercussões sobre toda a cadeia produtiva da construção civil e seus derivados, além do financiamento bancário. 

Medidas dessa natureza teriam de ser implantadas num âmbito geopolítico muito maior, com amplo apoio político e conhecimento de causa da sociedade organizada, de maneira progressiva para fins de controle de impactos e, o mais importante, de cima para baixo economicamente falando. Seria um erro crasso empurrar para o mesmo balaio os grandes capitalistas imobiliários nacionais e estrangeiros e a pequena-burguesia em geral - no caso, os pequenos proprietários catalães. 

Não há que ter ilusões: nenhuma medida econômica que afete significativamente o funcionamento de qualquer segmento do mercado mundial, vale dizer dos oligopólios que o controlam - e o imobiliário é hoje, indiscutivelmente, um dos mais importantes - poderá estabilizar-se a curto e médio prazos. A 'desfinanceirização da moradia' supõe a 'desmercantilização do solo urbano', somente concebível como uma de um conjunto de medidas transitórias à socialização da economia planetária, algo que está acima das forças de cada cidade, e mesmo cada país, isoladamente - e que transcende, como tema, o escopo deste blog. 

Cuidemos, por ora, de entender os efeitos das políticas de controle dos alugueis já aplicadas em muitas cidades para, quem sabe, expandi-las com mais conhecimento de causa e apoio político; de aplicar limites nacionais à concentração da propriedade imobiliária residencial; de taxar as rendas fundiárias excedentes aos ganhos de capital 'normais', ou 'médios', da propriedade imobiliária; e, tão importante quanto tudo isso, de criar, em caráter de urgência, a Associação Internacional da Moradia Social!

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Para ilustrar os pontos de vista desta postagem, reproduzo abaixo trechos de matérias recentemente publicadas sobre o tema na imprensa portuguesa de negócios.

Portugal é o país da União Europeia (UE) onde os preços das casas estão mais sobrevalorizados e onde o turismo mais contribuiu para essa sobrevalorização. A conclusão é de um relatório da Comissão Europeia que estima que os preços da habitação em Portugal estão sobrevalorizados em 35%. (..) O relatório aponta vários motivos para o aumento dos preços das casas na UE, desde logo o êxodo urbano e o abrandamento da construção de novas habitações. (..) Em contrapartida, há um indicador que tem contribuído para a subida dos preços das casas em Portugal - o turismo. Segundo o relatório, “a nível nacional há indícios de que Portugal é o país onde o turismo teve o maior impacto nos preços das habitações”, designadamente com o crescimento de plataformas de partilha de casas, que tem pressionado os preços de arrendamento e de compra de imóveis “em algumas localizações privilegiadas, como os centros históricos”. [“Portugal é o país com as casas mais sobrevalorizadas da UE - e dar benefícios fiscais 'alimenta o aumento dos preços'". CNN Portugal 16-10-2025, por BCE] https://cnnportugal.iol.pt/habitacao/habitacao-em-portugal/portugal-e-o-pais-com-as-casas-mais-sobrevalorizadas-da-ue-e-dar-beneficios-fiscais-alimenta-o-aumento-dos-precos/20251016/68f0e59ed34ee0c2fed15173
 

 “Notícias recentes têm referido estudos em que o preço das casas sobe mais em zonas de maior aumento de construção. (..) A explicação, longe de ser um mistério, reside numa força económica muito simples e poderosa: a procura. E, neste momento, a procura é uma maré que levanta todos os barcos, até os que ainda estão no estaleiro. (..) Ainda que menos vigorosa do que há uns anos, também assistimos à pressão do turismo e Alojamento Local (AL). O sucesso do turismo transformou milhares de habitações em unidades de curta-duração, retirando-as do mercado de arrendamento (..) especialmente nos centros urbanos. (..) Os programas de Regime de Residentes Não-Habituais e Vistos Gold, embora revistos, atraíram um fluxo significativo de investidores e reformados com alto poder de compra, segmentando uma parte do mercado para um nível de preços superior. (..) o mercado não pode servir apenas o segmento de luxo. (..) Uma abordagem interessante poderia ser o modelo 1/3+1/3+1/3 em novos empreendimentos de média/grande  dimensão, com incentivos para que 1/3 da área seja destinada a habitação acessível (com preços controlados), 1/3 a preços de mercado intermédios, e 1/3 ao segmento superior. Isto evitaria a segregação social e garantiria que o crescimento beneficia todos. ["Mais cimento, mais confusão? A procura é que manda no Mercado Imobiliário". Observador 14-11-2025, por Rute Xavier] https://observador.pt/opiniao/mais-cimento-mais-confusao-a-procura-e-que-manda-no-mercado-imobiliario/

Foi fundada há quase 120 anos nos EUA e tem mais de 3.000 agências espalhadas por mais de 45 países. Falamos da rede imobiliária Coldwell Banker (CB), que aterrou em Portugal em 2017 e tem atualmente uma operação de 12 agências e cerca de 250 colaboradores. Em entrevista ao idealista/news, Frederico Abecassis, CEO da CB Portugal, revela que o seu “portefólio diversificado no segmento residencial de luxo” tem valorizado. (..) “Entre os principais mercados emissores no segmento prime e ultra-luxo destacam-se os EUA (…), o Brasil, países do Norte da Europa como Países Baixos, Suécia e Dinamarca, bem como o Reino Unido (…). [“Segmento de luxo em Portugal continua a demonstrar grande dinamismo”. Idealista 19-11-2025, por Frederico Gonçalves] https://www.idealista.pt/news/imobiliario/habitacao/2025/11/19/72227-segmento-de-luxo-em-portugal-continua-a-demonstrar-grande-dinamismo


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NOTAS

[1] “Por que explodiu a procura por imóveis em Portugal, elevando as cifras”, Veja 04-06-2024, por Paula Freitas

[2] "Financeirização da moradia ou concentração da propriedade?" À beira do urbanismo 16-08-2023, por Pedro Jorgensen
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2023/08/financeirizacao-da-moradia-ou.html

[3] “Habitação na Europa: é maior o número de proprietários ou de arrendatários?”. Euronews 13-05-2024
https://pt.euronews.com/business/2024/05/13/habitacao-na-europa-e-maior-o-numero-de-proprietarios-ou-de-arrendatarios

[4] “Residential demand shifts mainly with demography and is less buffeted by the business cycle. People will still need somewhere to sleep: you can’t digitalise a bed. And in an era of low interest rates, steady rental income becomes more attractive.” [“Big British companies are entering the rental market”. The Economist 28-08-2021]
https://www.economist.com/britain/2021/08/28/big-british-companies-are-entering-the-rental-market

[5] “Catalunya inicia los trabajos sobre la prohibición de la compra de vivienda para invertir”. La
 Vanguadia 30-11-2025, por Maite Gutierrez
https://www.lavanguardia.com/economia/20251125/11300809/catalunya-inicia-trabajos-sobre-prohibicion-compra-vivienda-invertir.html

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Capitalismo de rendas

Monitor Mercantil 18-11-2025, por Redação
https://monitormercantil.com.br/setor-imobiliario-no-mercado-de-capitais-cresce-75-em-9-meses/

Setor imobiliário no mercado de capitais cresce 7,5% em 9 meses

Imagem: Freepik
Em nove meses, o volume financeiro do setor imobiliário dentro do mercado de capitais foi de R$ 697 bilhões (dezembro/2024 a setembro/2025), crescimento de 7,5%. Os fundos de investimento imobiliário (FII) tiveram aumento de 5,9% e um patrimônio líquido de R$ 370 bilhões.

Enquanto o mercado de certificados de recebíveis imobiliários (CRI) apresentou aumento de 9,6% no período (R$ 245 bilhões). O volume financeiro total do mercado de capitais variou 12% em 2025, saindo de R$ 15,3 trilhões para R$ 17,2 trilhões.

Composição da carteira: 60% das necessidades de liquidez estão em fundos de renda fixa; 60% do total investido estão em bens imóveis; em segundo lugar aparecem os CRI e CRA, com 19% do total; do total investido em bens imóveis, 86% estão em bens imóveis para renda.

Os dados citados estão na 2ª edição do Boletim Setor Imobiliário da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O relatório é produzido pela Superintendência de Securitização e Agronegócio (SSE) da autarquia e publicado trimestralmente. Detalha a evolução da participação do setor imobiliário no mercado de capitais, com destaque para o desempenho dos FIIs e dos CRIs. As informações são coletadas a partir de dados do Portal de Dados Abertos da CVM, do Sistema Fundos.NET e dos relatórios internos de ofertas cadastradas no Sistema SRE da autarquia. A data-base da primeira edição do Boletim é junho/2025.


2025-11-18

domingo, 2 de novembro de 2025

Quem souber me corrija, por favor!

Metrópoles 22-10-2025, por Jessica Bernardo
https://www.metropoles.com/sao-paulo/maioria-dos-imoveis-his-financiados-por-bancos-foi-para-investidores

Clique na imagem para ampliar

Significa que o município de São Paulo está subsidiando renda do solo para os investidores imobiliários e - acreditem - para o AirBnb. 

Eu me pergunto um vez mais se o mesmo não estaria acontecendo com os imóveis financiados pelo Minha Casa Minha Vida no Porto Maravilha, Rio de Janeiro.  Ainda não consegui apurar se a Caixa Econômica Federal faz esse controle. 

Dado que a pesada aposta do governo federal no financiamento habitacional tem, obviamente, como um de seus mais importantes objetivos, os efeitos multiplicadores desse mercado na economia como um todo, não me espantaria que a CEF fizesse vista grossa para essa mesma distorção verificada em São Paulo, que já vem dando o que falar há algum tempo. 

Espero estar equivocado. Se estiver, terei prazer em admiti-lo.

2025-11-02

domingo, 26 de outubro de 2025

Data venia

Veja Negócios 13-10-2025, por Camila Pati
https://veja.abril.com.br/economia/os-5-bairros-com-aluguel-mais-caro-na-cidade-de-sao-paulo/

Montagem: À beira do urbanismo
Com todo respeito, não creio tratar-se, aqui, da “transformação do conceito de moradia em São Paulo”.

Já faz pelo menos um século e meio que, para significativos contingentes das populações urbanas de todo o mundo e por motivos de economia doméstica, “um espaço menor, mas localizado em regiões próximas a polos de emprego e com acesso facilitado ao transporte, vale muito mais do que um apartamento maior e mais afastado”. 

A propósito, vale lembrar uma relevante  passagem de Mumford:

(..) Lo que las compañías navieras descubrieron en el siglo xix, con su explotación de los pasajeros de proa, ya lo habían descubierto mucho antes los propietarios de terrenos: las ganancias máximas no se obtenían facilitando comodidades de primera clase para los que podían pagarlas a buen precio, sino hacinando en tugurios a aquellos cuyos peniques eran más escasos que las libras para un rico. (..)” MUMFORD Lewis [1961], La Ciudad em la Historia. Logroño: Pepitas de Calabaza Ed 2012, p. 695

A regra geral é: quanto menor a unidade, maior é a proporção do aluguel / preço derivada do direito ao solo-localização, que, salvo situações excepcionais, tem, ao contrário da benfeitoria, a prodigiosa capacidade de valorizar-se com a passagem do tempo, e tanto mais quanto maior e mais rica é a metrópole e mais privilegiada a localização.

O que muda é o poder que têm os incorporadores de compactar os apartamentos a limites inimagináveis para as gerações anteriores, resultante de dois aspectos principais, compostos de maneira distinta segundo o nível do rendimento familiar: a diminuição significativa do tamanho da própria família e o desenvolvimento das tecnologias aplicadas a todo tipo de equipamentos de uso doméstico. [*]

2025-10-26

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[*] A propósito, sugiro a leitura, neste mesmo blog, da postagem “O traseiro da TV e o lucro imobiliário”, de 07-06-2011.
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2011/06/o-traseiro-da-teletela-e-o-lucro_07.html

sexta-feira, 25 de julho de 2025

O MCMV e o subsídio público à renda - de incorporação e de aluguel

O Estado de S Paulo 25-07-2025
https://www.estadao.com.br/economia/localizacao-tamanho-do-imovel-interessa-ao-mais-jovem-nprei/

Montagem: Àbeiradourbnanismo
Mesmo sabendo que o Minha Casa Minha Vida está longe de resolver o problema do imenso contingente de trabalhadores cujos rendimentos só lhes dá acesso à moradia informal, julgo que o programa é um sucesso no que tange à ampliação da demanda solvável de incorporações imobiliárias, portanto do acesso de trabalhadores qualificados à casa própria, pelo qual já foi dito, por gente da própria incorporação, a “salvação do setor imobiliário brasileiro”.

Há que considerar, porém, dois aspectos.

Primeiro, o inevitável - a conversão, por intermédio do adquirente, do subsídio ao juro fornecido pela CEF em renda imobiliária nos cofres das incorporadoras - objeto do negócio da incorporação sem o qual não haveria a sua participação no MCMV. Isso torna a cobrança da Outorga Onerosa do Direito de Construir nas faixas superiores da demanda habitacional, para além da elementar ‘obrigação de urbanizar’, uma incontornável política compensatória do subsídio federal (CEF) à renda de incorporação, ainda que em favor dos municípios.

Segundo, o inaceitável - o uso de uma parte substancial do subsídio da CEF aos juros imobiliários para a produção de unidades destinadas ao aluguel rotativo nas regiões centrais das grandes metrópoles, sob a confortável cobertura do adensamento planejado dos corredores de transporte a da “preferência dos jovens por apartamentos compactos em lugares onde as coisas acontecem” - o que significa a conversão (aparentemente descontrolada) do subsídio ao juro destinado às famílias adquirentes em renda apropriada por investidores em moradia de aluguel.

2025-07- 27

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

A renda da terra é a alma do negócio (rewind)

MARX K, “Renda dos Terrenos Destinados à Construção. Renda de Mineração. Preço da Terra” (Excerto). Em O Capital, Vol III Livro Terceiro, p. 238). São Paulo: Abril Cultural 1983 

The Final Plan for Tyburnia: What is Now the Hyde Park Estate
Paddington Map, k1266639 (Collage 30361), The London Archives: Main Print Collection
The London Metropolitan Archives
Montagem: Àbeiradourbanismo

(..) Que nas cidades em crescimento rápido, especialmente onde a construção é feita, como em Londres, em escala industrial, o objeto principal da especulação não é o imóvel, mas a renda fundiária, demos um exemplo no Livro Segundo, cap. XII, p. 215 e 216,* com as declarações de um grande especulador imobiliário londrino, Edward Capps, perante a Comissão Bancária de 1857. Ele afirma aí, nº 5435:

“Creio que um homem que queira progredir neste mundo dificilmente pode esperar progredir atendo-se a negócios sólidos (fair trade) (...) necessariamente ele precisa, além disso, construir com base na especulação, e isso em larga escala, pois o empresário só consegue muito pouco lucro dos próprios prédios; obtém seu lucro principal das rendas fundiárias acrescidas. Ele assume, digamos, um terreno pagando por ano 300 libras esterlinas; se, depois de um cuidadoso plano de construção, erige aí a classe certa de casas, é possível que obtenha delas 400 ou 450 libras esterlinas por ano, e seu lucro consistiria muito mais na renda fundiária acrescida de 100 ou 150 libras esterlinas por ano do que no lucro obtido com os prédios, o qual, em muitos casos, ele quase não leva em consideração”.

Não se deve esquecer que depois de expirar o contrato de arrendamento, em geral de 99 anos, a terra, com todas as construções que nela se encontram e com a renda fundiária, que nesse ínterim geralmente dobrou ou triplicou, retorna do especulador imobiliário ou de seus sucessores legais para o último proprietário da terra original. (..)
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* (..) Nos estágios menos desenvolvidos da produção capitalista, empreendimentos que requerem longo período de trabalho, portanto grande gasto de capital por tempo mais longo, particularmente só podem ser executados em larga escala, ou não são realizados ao todo em base capitalista, como por exemplo estradas, canais etc., construídos à custa da comunidade ou do Estado (em tempos antigos feitos mormente por meio de trabalhos forçados no que tange à força de trabalho). Ou, então, aqueles produtos cuja feitura exige período mais longo de trabalho somente são fabricados com proporção mínima da fortuna do próprio capitalista. Por exemplo, na construção de casas, a pessoa para a qual a casa é construída paga parceladamente adiantamentos ao empreiteiro. De fato paga, portanto, a casa em parcelas, à medida que o processo de produção dela avança.

Na era capitalista desenvolvida, em que, por um lado, capitais enormes estão concentrados em mãos de indivíduos e, por outro, aparece, ao lado do capitalista individual, o capitalista associado (sociedades por ações) e, ao mesmo tempo, o sistema de crédito está desenvolvido, um empreiteiro capitalista só excepcionalmente constrói por encomenda para pessoas individuais. Seu negócio é construir séries de casas e bairros para o mercado, assim como o negócio de capitalistas individuais é construir estradas de ferro por contrato.

Como a produção capitalista revolucionou a construção de casas em Londres dão-nos conta as declarações de um empreiteiro de obras perante a Comissão Bancária de 1857. Em sua juventude, disse ele, casas eram geralmente construídas por encomenda, sendo o montante pago em prestações ao empreiteiro durante a construção, ao se completarem determinados estágios. Para especular só se construía pouco; os empreiteiros só entravam nisso principalmente para manter seus trabalhadores regularmente ocupados e, assim, reunidos. Nos últimos 40 anos tudo isso mudou. Por encomenda só se constrói muito pouco. Quem precisa de uma nova casa escolhe entre as construídas por especulação ou ainda em construção. O empreiteiro já não trabalha para o cliente, mas para o mercado; exatamente como qualquer outro industrial, é obrigado a ter mercadoria pronta no mercado. Enquanto antigamente um empreiteiro tinha talvez, ao mesmo tempo, para especulação, 3 ou 4 casas em construção, agora ele precisa comprar um terreno extenso (isto é, em termos do continente, arrendá-lo geralmente por 99 anos), edificar sobre ele 100 ou até 200 casas e, assim, meter-se num empreendimento que supera 20 a 50 vezes sua fortuna. Os fundos são arranjados mediante a tomada de hipotecas, e o dinheiro é posto à disposição do empreiteiro à medida que a construção das casas individuais progride. Se vem, então, uma crise que paralisa o pagamento das prestações do adiantamento, todo o empreendimento normalmente fracassa; no melhor dos casos, as casas ficam inacabadas até os tempos melhorarem; no pior, são postas em leilão e alienadas pela metade do preço. Sem construção especulativa, e isso em larga escala, nenhum empreiteiro pode ir em frente. O lucro obtido da própria construção é extremamente pequeno; seu ganho principal consiste na elevação da renda fundiária, na hábil escolha e exploração do terreno da construção. Por esse caminho da especulação, que antecipa a demanda de casas, foram construídas quase toda a Belgravia e Tyburnia e os inúmeros milhares de vilas ao redor de Londres. (Abreviado do Report from the Select Committee on Bank Acts. Parte Primeira, 1857. “Evidence”, perguntas 5413-5418, 5435-5436.)”


2025-01-26

domingo, 19 de janeiro de 2025

A renda da terra é a alma do negócio

Exame 13-07-2023
https://exame.com/mercado-imobiliario/microapartamentos-inundam-sao-paulo-a-maior-metropole-da-america-latina/

Clique na imagem para ampliar
“(..) Embora seja comum em outras capitais pelo mundo, em São Paulo, o boom dos apartamentos de até 30m² é mais recente: entre 2016 e 2022, a oferta saltou de 461 unidades para 16.261, o que representa 21% do total, segundo o Secovi-SP, sindicato de empresas do setor imobiliário do estado. 

A "inundação" de micromoradias é explicada, além disso, pelas taxas de juros, que registraram uma queda entre 2018 e 2021 (de 6,75% para uma mínima histórica de 2% devido à pandemia), diz José Armenio, secretário adjunto da Secretaria Municipal de Urbanismo de São Paulo. Esses níveis elevaram o capital no setor imobiliário e estimularam investidores a comprar imóveis para alugar. (..)

Porém, o resultado foi diferente: "Os apartamentos de até 30m² têm o metro quadrado mais caro da cidade", detalha Campos. (..)

*

Esta matéria da Exame, de julho de 2023, ainda me parece atual.

As publicações do mercado imobiliário brasileiro vêm dizendo há algum tempo que a incorporação não está construindo para a ‘classe média’. 

Alegam os juros altos. É certo. Mas não menos certo é que

a) uns estão permanentemente ocupados em construir para o ‘alto padrão’, onde o número de unidades por empreendimento é pequeno, o custo de construção relativamente alto, mas a fração ideal caríssima e a rentabilidade garantida por uma demanda imune às taxas de juros e crises econômicas; 

b) outros em construir para o Minha Casa Minha Vida, onde a fração ideal é barata, mas multiplicada por centenas de unidades com custo de construção relativamente baixo, juro subsidiado e demanda garantida, pré-aprovada pelo próprio Estado; 

c) e os que construíam para a classe média descobriram a mina de ouro da moradia rotativa pericentral aos velhos e novos núcleos de negócios, que, como bem observa a própria matéria, apesar do tamanho (<30m2) tem o metro quadrado privativo mais caro da cidade - portanto também uma enorme rentabilidade em frações ideais, vale dizer em solo-localização, que é a alma do negócio da incorporação. 

Desconfio que a classe média que demanda moradia permanente terá de esperar o esgotamento do filão.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Bijuteria de mau gosto

G1 Globo Especial publicitário 30-12-2024
https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/especial-publicitario/imobiliaria-skyline/noticia/2024/12/30/por-que-o-mercado-imobiliario-de-balneario-camboriu-nao-para-de-crescer.ghtml

Balneário Camboriú, a jóia do litoral catarinense, tem experimentado um crescimento exponencial em seu mercado imobiliário, transformando-se em um dos destinos mais cobiçados do Brasil para investimentos. Mas o que impulsiona esse crescimento contínuo?

Resposta: a própria fama, ou mais exatamente, a expectativa de valorização. Porque de resto, vamos combinar: é feia de dar dó.


2025-01-15