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Inadvertidamente, o autor do texto desta ótima página virtual dedicada aos bondes do Rio de Janeiro deixou-se trair pela noção largamente disseminada de que o centro da cidade é uma entidade supra-histórica. Na linguagem característica do século XX, ele diz ao leitor que a primeira linha regular de bondes, inaugurada em março de 1859, ligava “o centro da cidade ao Alto da Boa Vista”. Contudo, segundo ele mesmo, o serviço fora concedido em 1856 à Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boavista. [Destaques PJ]
Significa que para o inglês Thomas Cochrane, concessionário do serviço, a noção de “centro da cidade”, ou simplesmente “Centro”, não era relevante nem esclarecedora. E se havia em 1859 algum “centro da cidade” no sentido moderno, ele certamente não chegava ao Rossio (Praça da Constituição, hoje Praça Tiradentes), de onde partia o bonde: estaria mais para o percurso do Largo do Paço à Rua da Quitanda e daí à Rua do Ouvidor.
Inexistia ainda, em minha opinião - por pouco tempo, é verdade - o que hoje chamamos de Centro, que supõe o(s) subúrbio(s) nascidos do mercado de lotes urbanizados e por urbanizar e o correspondente movimento pendular casa-trabalho secundado pelo tráfego regular subúrbios-cidade por motivos de consumo, serviços em geral e entretenimento. Daí resulta o crescimento simultâneo e reciprocamente determinado dos subúrbios e da própria cidade, de onde agora saem famílias de todos os estratos sociais - as que têm meios para os arrabaldes mais próximos, as que não têm para cortiços situados na borda do recinto urbano - de modo a dar lugar aos negócios.
(..) Entretanto, como a antiga casa de Meneses era no centro da cidade, e ficava-lhe, portanto, mais perto, Marques resolveu ir lá. (..) [Machado de Assis, Obra Completa, Edição do Kindle locais 126875-126877]
Ainda no terreno da literatura, muito esclarecedora da conversão do que até pouco tempo era a ‘cidade’ em ‘centro’ de sua nova existência metropolitana é a seguinte passagem do romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto, concluído em 1922:
(..) Nesse dia, [Cassi] despertou cedo, banhou-se cuidadosamente, escolheu bem a roupa branca, viu bem se a meia não estava furada, escovou o terno cintado e, cuidadosamente, meteu mão à obra de vestir-se com apuro, para vir à “cidade”. Raramente, vinha ao centro. Quando muito, descia até o Campo de Sant’Ana e daí não passava. Não gostava mesmo do centro. Implicava com aqueles elegantes que se postavam nas esquinas e nas calçadas. (..) [Lima Barreto, “Clara dos Anjos”. Em Lima Barreto Completo I: Sátiras e Romances. Edição do Kindle p. 1174.] [Destaques PJ]
As aspas da palavra "cidade" são do original de Lima Barreto, referidas ao modo de falar do personagem - que foi ainda, durante algumas décadas, o de boa parte das famílias urbanas cariocas e brasileiras. Para LB, que vivia no subúrbio e o analisou em sua obra, com riqueza de detalhes, dos pontos de vista geográfico e sociológico, o que Cassi chamava de "cidade" já era, claramente, "centro": na passagem "Raramente vinha ao centro. Quando muito descia ao Campo de Santana e daí não passava", ele nos diz que, em 1920, não via o Campo de Santana como parte dele, mas como uma espécie de limite relativamente à urbanização circundante.
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| Rio de Janeiro em 1858. Fonte: ImagineRio. Legendas e traçado aproximado EFCB: PJ |









