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domingo, 9 de março de 2025

Apontamentos: Marshall 1897 e as economias de aglomeração

MARSHALL Alfred, "Industrial organization, continued. The concentration of specialized industries in particular localities". Em Principles of Economics - An introductory volume.  Fourth Edition. MacMillan & Co., Limited. St Martin's Street, London. New York The MacMillan Company, 1908., pp 267-77.

https://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.460749/mode/1up   



1
Alfred Marshall (1842-1924)
Para os economistas de nossa época, Alfred Marshall é o pioneiro do estudo das economias, ou efeitos, de aglomeração, “uma das mais importantes áreas da economia urbana” segundo o verbete da Wikipedia, “geralmente tratada do ponto de vista da firma, mas também explicativa de fenômenos sociais como a concentração populacional nas cidades e grandes centros urbanos”. [1]

O texto em questão se intitula “A concentração de certos ramos da indústria em localidades específicas” - o termo ‘economias de aglomeração’ ainda não fora inventado -, Capítulo X do Livro IV de sua obra magna “Principles of Economics - An introductory volume”, publicado em Londres no ano de 1897.

Marshall o introduz explicando, nos dois últimos parágrafos do capítulo anterior, que as economias resultantes do aumento da escala de produção industrial são de dois tipos: internas, que dependem da eficiência organizacional e gerencial da própria firma, e externas, que dependem do desenvolvimento geral da indústria e provêm, muitas vezes, “da concentração de pequenas empresas de caráter semelhante em localidades específicas ou, como se costuma dizer, da localização da indústria.”[2]

Do ponto de vista empresarial, economias de aglomeração são, essencialmente, ganhos privados resultantes das vantagens proporcionadas pela vizinhança de outras empresas, tipicamente os modernos shopping-centers onde empresas se agrupam para, dentre outras coisas, dividir os custos dos serviços comuns - tal como ocorre com as famílias residentes em um condomínio de apartamentos.

No âmbito da produção, contudo, essas vantagens podem se manifestar de maneiras muito distintas, como resultado de "movimentos deliberados de grande escala", por certo, mas, de um ponto de vista histórico, como processos não planejados que, à base de “progressos quase imperceptíveis”, geram relações de complementaridade e interdependência espacial capazes de "fixar as empresas por muito tempo no mesmo lugar". [3]

Segundo Krugman, "a maior parte da literatura segue a cartilha marshalliana na questão da localização industrial". Remetendo a Hoover (1848) [3a], ele destaca três tipos de vantagens: a formação de um mercado para trabalhadores com qualificações industriais específicas; a produção de insumos especiais não comercializáveis; e a obtenção de funções de produção melhores do que as das firmas isoladas. [4] Nas palavras de Puga:

Nos últimos 30 anos, economistas urbanos puderam documentar e quantificar essas vantagens (..) relatos das causas das economias de aglomeração são tão antigas quanto a percepção de sua existência. As obras citadas de Smith e Marshall contêm discussões frequentemente citadas sobre as vantagens derivadas da maior especialização propiciada por mercados mais amplos, pelo compartilhamento de fornecedores, pela maior oferta de mão de obra e pela transmissão localizada de ideias. [4a]


2
De particular interesse para os urbanistas nesse capítulo é a notável descrição marshalliana - curiosamente nunca destacada pelos economistas, urbanos inclusive - do processo de substituição, nas grandes cidades inglesas de meados do século XIX, das fábricas até então localizadas 'centralmente', isto é, no recinto ou imediações da cidade pré-capitalista, por firmas de importação e exportação (trading houses), que constituem uma espécie de extensão da atividade fabril na esfera da circulação:
 
As vantagens combinadas da variedade de empregos e da localização em algumas de nossas cidades industriais é uma das principais causas de seu crescimento contínuo. Contudo, o valor das localizações centrais das grandes cidades para o comércio atacadista permite-lhes ofertar rendas fundiárias muito mais elevadas do que podem pagar as fábricas, mesmo levando-se em conta aquela combinação de vantagens. Competição similar se dá, entre empregados do setor atacadista e trabalhadores fabris, pelo espaço residencial. O resultado é que as fábricas agora se concentram não mais nas próprias cidades, mas em suas periferias e distritos industriais vizinhos. [5]

Aqui, Marshall não trata da complementaridade entre distintos ramos da indústria, mas da competição entre indústria e comércio atacadista pelos lugares urbanos onde se contrata a distribuição das mercadorias e se materializa o seu movimento espacial. Pela via da oferta de renda e facilitado pelo recente desenvolvimento dos meios de transporte urbano, o comércio atacadista reclama à manufatura o seu lugar no lugar urbano mais acessível aos transportes de cargas, junto ao porto 
no caso de Londres.

Marshall não o explicita, mas é evidente que “o valor que os lugares centrais de uma grande cidade têm para a atividade comercial”, e que “lhes faculta pagar rendas fundiárias muito mais elevadas do que as fábricas”, não pode provir senão de uma forma nova e ainda mais complexa de vantagem econômica de vizinhança - vale dizer de ‘economia de aglomeração’ -, que associa espacialmente o porto e / ou pátio ferroviário, as trading houses, as bolsas de mercadorias, as firmas de contabilidade e advocacia, os prestadores de todo tipo de serviços e, é claro, os bancos. Está pronto o cenário para um novo surto aglomerativo, nas imediações desse conjunto, do comércio de varejo de produtos manufaturados e serviços pessoais.

A hipótese que se pode inferir dessa notável passagem de Marshall é: o deslocamento dos trabalhadores fabris para a periferia urbana e distritos industriais e a correspondente aglomeração dos trabalhadores do comércio atacadista neste novo cluster de atividades econômicas fazem surgir um tipo novo e revolucionário de centralidade urbana.


3
Esse processo coincidiu com uma mudança radical na composição da população urbana da Inglaterra de meados do século XIX, também descrita por Marshall na seção final do capítulo, dedicada ao exame da redução da força de trabalho agrícola.

Para Marshall, essa redução foi acompanhada, nas cidades, não tanto pelo correspondente aumento do emprego fabril, a essa altura já limitado pela intensa mecanização, quanto pela formação de um novo e significativo contingente de empregados públicos e privados, nacionais e locais - no ensino, saúde, administração, segurança, forças armadas - além de um exército de profissionais da medicina, advocacia, contabilidade, artes, engenharia em geral etc.

Dito de outra forma, uma nova classe média urbana surgiu, gerada pelo rápido aumento da riqueza do qual a exportação de capitais e o comércio com as colônias não são aspectos secundários, como se depreende, até pelo menos o ano de 1910, das áreas "Other domestic capital" e "Net foreign capital" no gráfico abaixo, extraído de Piketty. [6]


Pode-se inferir, portanto, do próprio Marshall, que a instalação central das trading houses por ele mencionada é parte de um processo muito mais amplo, que envolve a proliferação, ao seu redor, do comércio de varejo, trazendo consigo um novo contingente de trabalhadores urbanos, uma copiosa coleção de agências bancárias e uma ampla cadeia de serviços profissionais - contábeis, advocatícios, administrativos - demandados pelo atacado, pelo varejo e pelos próprios prestadores de serviços entre si; e coroando tudo isso, as bolsas de mercadorias e valores e as sedes das grandes instituições financeiras - que nas grandes cidades como Londres, Manchester e Liverpool vieram a formar hipercentros altamente especializados.

Em Hurd (1903), encontramos uma interessante descrição do caráter "derivado" da formação dos hipercentros financeiros :

Em muitas modalidades de negócios, a concentração espacial daqueles que os conduzem acaba por cristalizar-se em bolsas de mercadorias e valores, que se convertem em centro do setor [comercial] urbano. Dado que as bolsas são o resultado, não a causa, dos distritos especiais onde estão situadas, devemos olhar para trás em busca das causas da localização das diversas atividades urbanas. [7]


4
Não é outro o fenômeno histórico-geográfico que chamo de ‘revolução capitalista da centralidade urbana’, cuja matriz é a Inglaterra marshalliana, seguida de perto por outras regiões urbanas do mundo norte-atlântico (França, Países Baixos e Estados Unidos).

Aqui, a cidade capitalista se apresenta não como pano de fundo, ou cenário, deste ou daquele ‘efeito econômico de aglomeração’ associado à lucratividade de tal ou qual ramo da indústria, mas como uma nuvem, ou novelo, mais exatamente um torvelinho ela própria, de efeitos econômicos de aglomeração

Entrelaçados e superpostos no tempo e no espaço, esses efeitos se apresentam como reciproca, ainda que assimetricamente, vantajosos para os agentes individuais envolvidos na teia de interações espaciais da compra-venda generalizada de mercadorias, serviços e força de trabalho que distingue radicalmente a cidade capitalista da cidade feudal.

O capitalismo não inventou a indústria, o comércio, a renda urbana e os efeitos econômicos de aglomeração, tampouco a centralidade em geral e a urbana em particular, mas os revolucionou em benefício de sua consolidação e expansão.


5
Focados na lucratividade da empresa, os economistas em geral, a começar do próprio Marshall, parecem desconsiderar o fato de que as economias externas às empresas não poderiam existir se não resultassem em vantagens recíprocas - ainda que assimétricas, isto é, proporcionais à condição de capitalista e trabalhador / consumidor - para os agentes individuais envolvidos.

Como exemplo do caráter recíproco dos efeitos econômicos de aglomeração podemos citar, nos distritos industriais mencionados por Marshall, e por Hobson antes dele, a complementaridade entre os ramos fortemente dependentes da mão de obra masculina, como metalurgia e mineração, e o têxtil, típico empregador de mulheres e crianças, cuja ausência resultaria em “maiores custos de mão de obra para indústria pesada e menores rendimentos para as famílias trabalhadoras”. [8] [8a]

De modo análogo, a primeira das três razões identificadas por Marshall para a concentração espacial de certo tipo de empresas é, segundo Krugman, “a criação de um mercado para trabalhadores com as qualificações necessárias, reduzindo as chances de desemprego [para os trabalhadores] e de escassez de mão de obra [para as empresas]. [9]

Ainda segundo Marshall, “regiões dependentes de uma única indústria ficam mais sujeitas a crises resultantes das flutuações da demanda e do fornecimento de matérias primas”, ao passo que, nos grandes distritos industriais, “as indústrias em dificuldades momentâneas se beneficiam indiretamente da presença das outras enquanto seus empregados continuam se abastecendo no comércio local”. [10]

É significativo que Marshall, ao descrever a ‘substituição competitiva’ das indústrias centralmente localizadas pelas trading houses, não se refira às vantagens da concentração do comércio atacadista nesta parte da cidade, obviamente relacionada aos serviços aduaneiros e portuários, além dos financeiros. E também que não relacione o fato desse comércio trazer consigo uma nova camada de trabalhadores urbanos mais bem remunerados que os fabris às vantagens espaciais recíprocas da oferta de emprego para os trabalhadores e da abundância de mão de obra para as firmas.


6
Significativa, também, da contradição entre o caráter recíproco das vantagens de aglomeração e sua persistente abordagem do ponto de vista exclusivo da empresa industrial, é a ambiguidade que se observa no brevíssimo resumo marshalliano do que já dissera Hobson sobre o comércio varejista:

Até aqui discutimos a localização do ponto de vista da economia da produção. Mas há que considerar também a conveniência do consumidor. Para uma compra rotineira ele irá à loja mais próxima; mas para uma compra importante, ele optará por se dirigir a qualquer lugar da cidade onde existam lojas especializadas. Ou seja, as lojas que vendem artigos caros e opcionais tendem a se aglomerar; as que suprem as necessidades do dia-a-dia, não. [11]

À parte o fato de que as lojas que vendem bens de consumo diário também tendem a se aglomerar - em esquinas estratégicas e vias coletoras dos bairros residenciais - observe-se que Marshall, depois de assumir ter discutido até aqui a localização [da indústria] do ponto de vista da economia da produção, trata da localização do comércio varejista não do ponto de vista da 'economia do varejo', mas… da “conveniência do consumidor”.

No entanto, todo o parágrafo é marcado pela sugestão - não explicitada nem desenvolvida - de uma relação inextricável, como dois lados de uma única moeda, entre a localização do comércio varejista e de seus consumidores.

Muito mais sugestiva, me parece, dos efeitos econômicos derivados da interação espacial reciprocamente vantajosa entre a aglomeração do varejo e o parque residencial ao seu redor, portanto de sua relevância na estruturação da centralidade capitalista, é a explicação aportada pelo economista-avaliador estadunidense Richard Hurd em 1903:

Lojistas não se aglomeram para fazer negócios entre si, mas para a conveniência dos fregueses. O principal fator de atração do núcleo varejista parece ser assegurar aos fregueses que não deixarão de encontrar o que precisam. A variedade de produtos à disposição nesse núcleo é normalmente maior do que em todo o resto da cidade, poupando aos consumidores o tempo, o trabalho e a incerteza de buscar em lojas dispersas pela cidade. E ainda que uma loja atraia o freguês e outra realize a venda, no final o intercâmbio de fregueses se compensará. [12]

Essa visão parece adequadamente resumida na abordagem do também economista Hoover, em 1948:

“as cidades (..) devem grande parte de seu crescimento às vantagens do estreito contato entre diferentes tipos de produtores e consumidores.” [13]


7
A vantagem de localização para o varejista consiste, antes de mais nada, em estar no ponto mais acessível, isto é, de menor distância-custo total de deslocamento relativamente aos potenciais demandantes, quer seja num assentamento pré-existente ou em formação. A probabilidade de vendas nesse ponto é maior do que em qualquer outro lugar. A vantagem de localização do varejista individual aparece, aqui, como um efeito econômico de aglomeração procedente da concentração espacial não dos próprios varejistas, mas de seus recíprocos na interação espacial - as famílias ao seu redor.

Essa modalidade de efeito econômico de aglomeração, que chamo de 'primária', aparece descrita, como que em estágios sucessivos de desenvolvimento, nas citações seguintes, a primeira de fonte literária, a segunda de origem técnico-científica:

“Depois chegaram os americanos (..). As fazendas proliferaram, primeiro pelos vales e depois subindo pelos contrafortes, pequenas casas de madeira com telhados de sequóia, currais de estacas partidas. (..) Caminhos para as carroças substituíram as picadas, plantações de milho, cevada e trigo expulsaram a mostarda amarela. A cada 15 quilômetros, ao longo das rotas mais percorridas, surgiram um armazém e uma oficina de ferreiro, que se tornaram núcleos de pequenas cidades - Bradley, King City, Greenfield.” [13a]

“O princípio da aglomeração nasce nas aldeias rurais e povoados que vivem dos camponeses ou agricultores da região. Por isso, aos domingos, dia de descanso, o comércio e praças de mercado desses povoados se abrem para que os habitantes rurais venham comprar alimentos, insumos agrícolas e buscar serviços de saúde ou mecânica automotriz. À medida que se amplia o mercado da região, a população oferecerá mais serviços comerciais e produtos importados da grande cidade. (..) Assim se desenvolve uma cidade a partir de um pequeno povoado dotado de certa dinâmica econômica.” [13b]

Dado, porém, que a vantagem de localização para um ou dois varejistas seminais vale para outros tantos, dá-se a concentração de varejistas nesse ponto da rede urbana, que lhes proporciona dois outros tipos de benefício: (1) o incremento das vendas por assegurar às famílias que suas viagens não serão perdidas (Hurd, nota 12); e (2) o aumento da oferta de força de trabalho com o mínimo custo de deslocamento e respectivo impacto sobre o nível dos salários.

Além de baratear o suprimento de mercadorias, a aglomeração do comércio de varejo e serviços pessoais cria, por sua vez, um mercado para prestadores de serviços empresariais que lhes acrescenta um novo tipo de vantagem locacional em forma de economia de custos de contabilidade, advocacia, operações bancárias, manutenção predial etc.


A tais vantagens econômicas de sua própria concentração espacial no que agora é um centro urbano, a aglomeração de varejistas em conjuntos comerciais exclusivos ou compartilhados com escritórios pode acrescentar também o rateio dos custos de infraestrutura e serviços, próprio dos arranjos condominiais.

Combinados, todos esses efeitos econômicos de aglomeração não-industrial resultam na intensa verticalização dos grandes centros urbanos capitalistas desde fins do século XIX.


8
Dentre todos os efeitos econômicos de aglomeração, ouso dizer que o mais generalizado e duradouro, e por isso mais importante, é justamente aquele que nunca mereceu tal distinção: a tendência expansiva radioconcêntrica (desigual) da cidade capitalista.

Esse efeito, cuja generalidade e duração me sugerem classificá-lo como a lei fundamental da organização urbana capitalista, deriva do fato elementar de que   

o lugar da rede urbana [em formação - ou transformação, no caso da cidade herdada do passado feudal/colonial -] que mais convém ao [comércio atacadista], ao comércio / serviços de varejo e à indústria leve é aquele que minimiza o custo agregado, direto e indireto, de deslocamento da população residente para encontrar meios de vida (mercadorias, serviços e empregos) e, por isso mesmo, barateia relativamente os salários ao mesmo tempo que promove o seu poder de compra, em quantidade e velocidade, consequentemente as vendas e os lucros. [14]

A estabilidade temporal desse efeito de aglomeração estruturador do espaço urbano contemporâneo tem, a meu juízo, relação direta com os benefícios que ele proporciona à formação capitalista como um todo, por mim descritos em um texto anterior da seguinte maneira:

Dado que a produção de riqueza na formação social capitalista supõe, e é tanto maior quanto maior for o consumo de mercadorias, materiais e imateriais, segue-se que a aglomeração radial-periférica dos residentes urbanos ao redor da aglomeração central dos varejistas e prestadores de serviços ou, mais simplesmente, a configuração tendencialmente radioconcêntrica das cidades em expansão, é, em si mesma, um dispositivo espacial facilitador e acelerador do processo de acumulação do capital em geral, uma máquina de economia social a seu serviço, sobre a qual irá se desdobrar, diversificar e expandir - a ponto de, a partir de certo tamanho, produzir o seu contrário: vultosas deseconomias sociais - a organização espacial intrinsecamente desigual da grande metrópole contemporânea. [15]

Não fosse assim, como se explicaria a sobrevivência secular desse arranjo espacial numa formação econômica em que "tudo o que é sólido desmancha no ar"? [15a]


É no marco desse efeito de aglomeração de caráter generalizado, consideravelmente estável do ponto de vista histórico, que se desenvolve o autêntico caleidoscópio de efeitos parciais não planejados estudados pelos economistas do século XX. [15b]

Marshall considera que a longevidade de cada um desses efeitos depende das transformações mais ou menos rápidas da tecnologia das comunicações, que traduzo como elevação da força produtiva do trabalho e consequente aumento da riqueza social e dos padrões de consumo pela via da redução das distâncias:

Tudo o que promove o barateamento da comunicação, ou que facilita o livre intercâmbio de ideias entre lugares distantes, modifica a ação das forças determinantes da localização das indústrias. [16]

E ele me parece ter aqui total razão, para bem e para mal. 
Para bem, como indicado acima, acelerando o ciclo da reprodução do capital, portanto a sua acumulação e o aumento generalizado da riqueza social nas etapas iniciais do desenvolvimento capitalista. Para mal, trazendo consigo as manifestações urbanas das forças contraditórias, quando não  autodestrutivas, do capitalismo dos séculos XX e XXI.

Nós, urbanistas, observamos hoje com inquietude que as novas tecnologias não modificam somente “as forças determinantes da localização das indústrias”, no sentido estrito, mas também, e principalmente, as forças determinantes da localização do comércio e dos serviços, portanto do dinamismo dos centros urbanos e, com eles, das próprias cidades tais como as concebemos.

A transformação das economias em deseconomias urbanas de aglomeração não é um fenômeno novo: há muitas décadas ela se manifesta, nas grande metrópoles, como aumento exponencial do preço da terra bem localizada e urbanizada, das distâncias e do tempo perdido em deslocamentos pela população trabalhadora, do custo total dos transportes urbanos e da coleta e destinação dos resíduos sólidos, da poluição do ar e das águas etc.

Contudo, embora ainda distantes de um juízo definitivo sobre o real impacto do trabalho remoto e do comércio digital sobre a vida das metrópoles, o chamado ‘efeito donut’ [17] se nos apresenta como um novo tipo de ameaça - o abandono pelas empresas, e consequente degradação, de um significativo número de edificações comerciais de grande porte, de altíssimo valor fiscal, inaproveitáveis para a habitação em geral e menos ainda para a habitação social; ameaça, numa palavra, de desertificação ou, no melhor dos casos, de precarização em larga escala dos centros das grandes metrópoles.

O esvaziamento dos grandes centros urbanos foi uma hipótese bastante difundida com a chegada, na última década do século XX, da economia digital - que cresceu desde então em ritmo exponencial. Contudo, o "efeito donut" só foi percebido 30 anos depois por força da epidemia de Covid-19, uma circunstância catastrófica externa à vida das cidades. O que me leva a concluir com três indagações. 

Estaríamos no limiar de uma crise generalizada da centralidade urbana capitalista? Seria a crise atual o efeito de vantagens econômicas de desaglomeração para empresas imersas na economia digital? Estarão os grandes centros urbanos irremediavelmente condenados à “síndrome de Detroit”?

2025-03-09
____
[1] WIKIPEDIA, "Economies of Agglomeration" 08-02-2025.
https://en.wikipedia.org/wiki/Economies_of_agglomeration

[2] MARSHALL A, Principles of Economics - An introductory volume. Fourth Edition. MacMillan & Co., Limited. St Martin's Street, London. New York The MacMillan Company, 1908., pp 267-77.
https://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.460749/mode/1up

[3] Idem. 

[3a] HOOVER E M (1948), The Location of Economic Activity. New York: McGraw-Hill, 1948. Chapter 8. The Economic Structure of Communities, p. 116-144
https://docs.google.com/document/d/1MYIFm6SNi-8PEQkdem1cgTB3wxyfT7NeiG4R1QY7ggc/edit?usp=sharing

[4] KRUGMAN P, "Increasing Returns and Economic Geography". The Journal of Political Economy, Vol. 99, No. 3. (Jun., 1991), pp. 483-499.
https://www.jstor.org/stable/2937739

[4a] PUGA D, “The magnitude and causes of agglomeration economies”. Journal of Regional Science Vol. 50, No. 1, 2010, pp. 203–219
https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/36847516/the_magnitude_and_causes_of_agglomeration_economies-libre.pdf

[5] MARSHALL A, op.cit.

[6] PIKETTY T, O Capital no Século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca 2014, p 118 

[7] HURD R M, Principles of City Land Values. New York: Record and Guide, 1903, p. 83
https://archive.org/details/principlesofcity00hurd

[8] MARSHALL A, op.cit.

[8a] O pequeno aumento dos rendimentos familiares em troca do significativo aumento da taxa de exploração do trabalho, neste caso, faz lembrar o atualíssimo barateamento da habitação centralmente localizada em troca da redução da metragem, que aumenta substancialmente o preço / aluguel da fração ideal correspondente a cada m2 privativo, portanto a rentabilidade do negócio.

[9] KRUGMAN P, op. cit.

[10] MARSHALL A, op.cit.

[11] MARSHALL A, op.cit.

[12] HURD R M, op.cit. Cap VI

[13] HOOVER E M, op. cit.

[13a] STEINBECK J (1952), A Leste do Éden - V. 1. São Paulo: Abril Cultural 1984, p.17

[13b] BORRERO OCHOA O, Economía Urbana y Plusvalia del Suelo. Bogotá: Bhandar Editores 2018, p. 65.

[14] “A renda da terra e a organização espacial urbana: notas”. À beira do urbanismo (blog) 14-08-2024, por Pedro Jorgensen (editado 09-03-2024)
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2024/08/

[15] “Distância, aglomeração, centralidade: uma hipótese (2)”. À beira do urbanismo (blog) 28-01-2024, por Pedro Jorgensen.
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2024/01/distancia-aglomeracao-centralidade-uma.html


[15a] Título do livro de Marshall Berman, de 2007, inspirado na frase “Tudo que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado, e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas.”, do Manifesto do Partido Comunista escrito por K Marx e F Engels em 1848.

[15b] Assim como todos aqueles nascidos de "movimentos deliberados de grande escala" antecipados por Marshall, como os modernos distritos industriais, os shopping centers e as 'novas centralidades' urbanas do terceiro quarto do século XX, tão bem exemplificadas por La Défense, em Paris, e Canary Wharf, em Londres.

[16] MARSHALL A, op.cit.

[17] “Donut effect”, ou “efeito rosquinha”, é o nome atribuído pelos economistas Arjun Ramani e Nicholas Bloom, da Universidade de Stanford, à notável queda dos preços do solo nos grandes centros dos Estados Unidos, e correspondente aumento dos preços suburbanos ocasionados, primordialmente, pela maré do trabalho remoto durante a epidemia de Covid-19. Ver RAMANI A e BLOOM N, “The donut effect: How COVID-19 shapes real estate”. Institute for Economic Policy Research, January 2021.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Apontamentos: HURD 1903 - crescimento urbano axial e central

"Crescimento axial e central: excertos". Extraído de HURD R M, Principles of City Land Values, New York: Record and Guide 1903
https://docs.google.com/document/d/15g10RjkDmqBxl9onF5OPYvHBRrmGiE1A6McoKzBeSeE/edit?usp=sharing


O que aqui apresento aos leitores é uma compilação de seções e passagens de Richard Hurd (Principles of City Land Values, 1903) sobre sua concepção de “crescimento urbano axial e central”.

Para além da imensa riqueza de observações históricas, geográficas, urbanísticas e até arquitetônicas que este profundo estudioso do parque imobiliário das grandes cidades estadunidenses de inícios do século XX tem a oferecer, e que justifica por si só a leitura atenta do material aqui reunido, o postulado de que o crescimento das cidades se dá necessariamente sob aquelas duas formas combinadas e interdependentes é, provavelmente, a mais instigante e profícua contribuição de Hurd ao estudo da organização espacial urbana.

Vejo-o como uma promissora pista para avançar no entendimento da relação entre “centro” e “periferia”, ou da estrutura tendencialmente radioconcêntrica da cidade moderna e contemporânea, cronicamente obscurecida pela noção intuitiva e geralmente aceita de que a cidade se expande a partir de um centro axiomaticamente estabelecido. 

Em sua obra magna de 1998 Espaço Intra-Urbano no Brasil [1] (Cap. 10, Os centros principais), Villlaça observou a impossibilidade lógica e histórica de um centro que pré-existe à sua própria periferia, e vice-versa, contradição que se apresenta já em 1925 na descrição feita por Burgess daquele que veio a ser conhecido como “o modelo de estrutura urbana em círculos concêntricos”:

Esta figura é uma representação ideal da tendência que tem toda cidade de se expandir radialmente a partir de seu distrito central de negócios – no esquema, ‘The Loop’ (I). [2] 

O problema reaparece, na década de 1960, no modelo alonso-thuneniano da economia espacial, tal como apontado pelo professor Correia da Silva, da Universidade do Porto, num trabalho de doutoramento do ano de 2004 intitulado “Space in Economics — A Historical Perspective”:

A relevância contemporânea do modelo de Von Thunen reside na sua adaptação à economia urbana, que permitiu o estudo da renda urbana e suburbana e da localização das famílias e atividades econômicas nas cidades. (..) A característica fundamental da economia urbana refletida no modelo é a necessidade que têm as famílias de ir ao centro para trabalhar usando um sistema radial de transportes. (..) Um defeito [fault] dessa abordagem é pressupor [it assumes] algo que está por ser explicado [we want to explain]: a existência do centro comercial urbano [urban central market].[3]

Com uma redundância que talvez não seja casual, Batty assim expressa, em recente artigo aqui divulgado sobre as cidades lineares, a fórmula geral de Burgess nos termos da economia espacial alonso-thuneniana:

“As cidades tendem a crescer ao redor de algum centro, em zonas concêntricas de uso do solo ordenadas de acordo com sua capacidade de pagar aluguel [ofertar renda], ligadas ao núcleo por meio de rotas radiais bem definidas que convergem para o centro”.[4]

Em contraste, e ainda que não se pretenda uma teoria da configuração radial-concêntrica da cidade moderna, o crescimento urbano simultaneamente “axial” e “central” a partir do ponto de origem postulado e descrito por Hurd em 1903 estabelece uma clara relação de reciprocidade e interdependência espacial, não valorada por ele em termos monetários mas inegavelmente econômica, entre o comércio de varejo e os residentes urbanos que dele dependem para se prover de bens e serviços. Trata-se, para os varejistas, antes de mais nada, de se agrupar no “lugar que mais convém aos clientes” para "assegurar-lhes que não deixarão de encontrar aquilo de que precisam".

O ponto de vista das firmas de varejo, neste caso, aponta para o que veio mais tarde a ser batizado na teoria econômica como “economia de aglomeração”, porém com um conteúdo distinto. Não se trata de externalidades positivas da concentração geográfica para as firmas individualmente consideradas, mas de benefícios coletivos diretos para o comércio de varejo agrupado no lugar mais conveniente ao conjunto das famílias do assentamento urbano: "os lojistas não se aglomeram para transacionar uns com os outros, mas para poupar aos seus potenciais fregueses os inconvenientes [custos diretos e indiretos] de buscar o que precisam em lojas dispersas pela cidade. O fato de uma loja atrair o freguês e outra fazer a venda tende a ser compensado, no longo prazo, pelo intercâmbio de fregueses”.

Significa que as famílias precisam residir o mais próximo possível do comércio tanto quanto as firmas precisam se estabelecer à menor distância agregada possível das famílias.

O assentamento dos residentes ao longo dos eixos radiais e suas adjacências, sempre o mais próximo possível do centro da rede, e a aglomeração dos varejistas no assentamento original e segmentos radiais contíguos aparecem, portanto, como manifestações economicamente interrelacionadas do mesmo fenômeno quintessencialmente urbano da aglomeração em geral. Toda a cidade é aglomeração.

Vale recuperar aqui a noção hurdiana de “crescimento urbano simultaneamente axial e central, em todas as direções a partir do ponto de origemnão do centro da cidade, que ainda está por se formar. A formação do centro urbano como desdobramento histórico do assentamento resulta de um processo de “contínua especialização nos negócios e diferenciação nas classes sociais”, que começa com “a separação de comércio e residência”, originalmente unidos em edificações de altos e baixos agrupadas junto aos elementos primordiais: embarcadouros, encruzilhadas, travessias fluviais etc. Ao passo que “mesmo nos menores povoados é vantajoso para as poucas lojas existentes estar aglomeradas”, as novas residências buscam a periferia imediata do assentamento, "onde os preços do solo são mais baixos", porém à menor distância possível dos comércios “para que os lojistas possam se deslocar a pé até o trabalho”. "Com o crescimento da cidade, a tendência é a concentração dos negócios no núcleo comercial e a dispersão periférica das residências ao longo dos eixos radiais. Toda expansão periférica será acompanhada de uma correspondente adaptação do centro de negócios."

Esses fragmentos reunidos compõem uma razoável descrição de como se dá o processo de especialização espacial pelo qual as residências formam a(s) periferia(s) urbanas e os negócios o centro e os subcentros. 

Aqueles dois tipos interrelacionados de economia de aglomeração poderiam, consequentemente, ser ditos primários, de natureza 100% social, explicativos da configuração geral e da dinâmica expansiva das cidades modernas, ao passo que as economias de aglomeração descritas e estudadas no âmbito da economia neoclássica, como os benefícios privados do agrupamento de fábricas em distritos especializados, do varejo em shopping centers e dos bancos no centro financeiro, seriam formas específicas que poderíamos considerar secundárias, ou derivadas. A metrópole capitalista não surgiu da fábrica, do shopping center, nem da Bolsa: tipicamente, ela expandiu e reconstruiu, de acordo com suas necessidades, a própria "cidade moderna", definida por Park como sendo, antes de tudo, um “lugar de trocas, que nasceu e cresceu ao redor do mercado”. [5]

A propósito, cabe registrar aqui a forma como Borrero Ochoa (2018), com base em Camagni, descreve a relação entre o "princípio da aglomeração" e o desenvolvimento das cidades: 

“O princípio da aglomeração nasce nas aldeias rurais e povoados que vivem dos camponeses ou agricultores da região. (..) aos domingos, dia de descanso, o comércio e praças de mercado desses povoados se abrem para que os habitantes rurais venham comprar alimentos, insumos agrícolas e buscar serviços de saúde ou mecânica automotriz. (..) Assim se desenvolve uma cidade a partir de um pequeno povoado dotado de certa dinâmica econômica. [6]

A hipótese de uma relação quantitativa, vale dizer monetária, entre aqueles dois tipos interdependentes de economias de aglomeração teria, naturalmente, de levar em conta a parte dos rendimentos das famílias e do lucro das firmas de varejo que a propriedade da terra reclama como renda de aluguel, aquela tanto maior quanto menor a distância ao núcleo varejista, portanto inversamente proporcional ao custo de deslocamento, e esta tanto maior quanto menor a distância agregada ao conjunto das famílias residentes, vale dizer mais próximo do centro geométrico da rede. Não tenho a pretensão de desenvolvê-la. Basta-me aqui referir que a redução do poder de consumo dos residentes por aumento de distância ao centro comercial, e consequente gasto de transporte, além de imediatamente dedutível dos efeitos de curto prazo das políticas contemporâneas de “tarifa zero” nos transportes urbanos, é uma restrição logicamente inquestionável da teoria dos lugares centrais de Christaller (1933):

"Assim, um consumidor que tenha de se deslocar a um lugar central para adquirir um bem terá menos dinheiro disponível do que um que viva no próprio lugar central, porque tem de pagar o custo do transporte. Ficará, assim, sujeito a comprar menos. Este efeito de fricção da distancia, causado pelo custo do transporte (pressuposto 1) provoca o decréscimo da procura com a distância ao lugar central." [7]

O postulado hurdiano do “crescimento urbano em todas as direções, simultaneamente axial e central”, parece reforçar a hipótese, avançada em artigo já publicado neste blog, [8] de que a estrutura da grande cidade moderna é um arranjo sócio-espacial derivado da disputa incessante entre consumidores e fornecedores por vantagens individuais de localização, sim, de tal maneira, porém, que à economia coletiva do “crescimento residencial axial regulado pelo princípio da [máxima] acessibilidade”, que traduzo como mínimo custo generalizado de deslocamento ao(s) aglomerados(s) comercial(is), corresponde, descontado o montante pago em aluguéis, o benefício coletivo do “crescimento central dos negócios regulado pelo princípio da [máxima] contiguidade [proximity]", que se traduz em menor distância agregada ao conjunto das famílias.

Das vantagens recíprocas, indicadas por Hurd, da localização relativa das famílias e firmas na cidade em expansão, vale dizer do crescimento urbano simultaneamente “axial” e “central”, podemos derivar a hipótese de que a configuração tendencialmente radial-concêntrica das cidades modernas resulta de um princípio de economia de aglomeração generalizado e socialmente construído, algo como o yin-yang da cidade capitalista, em que o “crescimento axial” é a forma de aglomeração própria dos residentes, que minimiza os custos coletivos de deslocamento, e o “crescimento central” a forma de aglomeração própria das firmas, que converte a economia coletiva das famílias em lucros comerciais (e industriais), primeiro sob a forma elementar da maximização das vendas de varejo e, logo, sob a forma complexa da maximização da mão de obra disponível ao mínimo custo de transportes, vale dizer do barateamento relativo da força de trabalho.

fundamento da configuração tendencialmente radio-concêntrica da cidade capitalista madura não é, portanto, a renda do solo, mas o próprio processo de produção-distribuição-consumo de bens e serviços. As famílias se aglomeram o mais próximo possível dos fornecedores e empregadores, e estes o mais próximo possível do conjunto das famílias, para obter o maior benefício, respectivamente, de seu trabalho e de seu capital - sujeitando-se, por conseguinte, a pagar mais aluguel. Espécie de imposto privado sobre o privilégio de ocupar as localizações urbanas mais centrais e proveitosas, a renda, ou preço, da terra urbana opera, como eficazmente demonstrado pelo modelo alonso-thuneniano da distribuição dos distintos usos, como dispositivo de medição 
de sua escassez constitutiva e arbitragem do direito à ocupação

Dado que a produção de riqueza na formação social capitalista supõe, e é tanto maior quanto maior for o consumo de mercadorias, materiais e imateriais, segue-se que a aglomeração radial-periférica dos residentes urbanos ao redor da aglomeração central dos varejistas e prestadores de serviços ou, mais simplesmente, a configuração tendencialmente radioconcêntrica das cidades em expansão, é, em si mesma, um dispositivo espacial facilitador e acelerador do processo de acumulação do capital em geral, uma máquina de economia social a seu serviço, sobre a qual irá se desdobrar, diversificar e expandir - a ponto de produzir o seu contrário, vultosas deseconomias sociais - a organização espacial intrinsecamente desigual da grande metrópole contemporânea. 

2023-03-15

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NOTAS

[1] VILLAÇA Flavio, Espaço Intra-Urbano no Brasil. FAPESP São Paulo 2001

[2] BURGESS E W, “The Growth of the City: An Introduction to a Research Project", em PARK R E, BURGESS E W e MCKENZIE R D, The City: Suggestions for Investigation of Human Behavior in the Urban Environment, The University of Chicago Press, 1984: Chicago e Londres, p. 50.
http://shora.tabriz.ir/Uploads/83/cms/user/File/657/E_Book/Urban%20Studies/park%20burgess%20the%20city.pdf

[3] CORREIA da SILVA J (2004), "Space in Economics — A Historical Perspective".
https://www.fep.up.pt/docentes/joao/material/space.pdf

[4] BATTY M, "The Linear City: illustrating the logic of spatial equilibrium". Comput.Urban Sci. 2, 8 (2022)
https://link.springer.com/article/10.1007/s43762-022-00036-z

[5] PARK R E, “The City: Suggestions for Investigation of Human Behavior in the Urban Environment”, em  PARK R E, BURGESS E W e MCKENZIE R D, The City. The University of Chicago Press, 1984: Chicago e Londres, p.12.
http://shora.tabriz.ir/Uploads/83/cms/user/File/657/E_Book/Urban%20Studies/park%20burgess%20the%20city.pdf

[6] BORRERO OCHOA O, Economía Urbana y Plusvalia del Suelo. Bogotá: Bhandar Editores 2018, p. 65.

[7] [BRADFORD M G e KENT W A, Geografia Humana e Suas Aplicações (Tradução do Departamento de Geografia e Planeamento Regional da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Supervisão de Raquel Soeiro de Brito e Paula Bordalo Lema)

[8] JORGENSEN P, “Distância, aglomeração, centralidade: uma hipótese”. À beira do urbanismo  (blog) 08-03-2021

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Sobre este mesmo tema, leia também neste blog: “Distância, aglomeração, centralidade: uma hipótese” (08-03-2021)

quarta-feira, 1 de março de 2023

Traçado ortogonal, expansão radial

The Economist 20-12-2022
https://www.economist.com/interactive/christmas-specials/2022/12/20/the-decline-of-the-city-grid

Montagem: Abeiradourbanismo
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O artigo aqui referido, como tantos outros dedicados ao tema fascinante da urbanização em grade ortogonal, também chamada malha hipodâmica, discute o seu objeto como se as estruturas espaciais urbanas fossem meras opções projetuais: “no último século a quadrícula saiu de moda”.

Um loteador poderá optar, de acordo com a preferência e o poder de compra de seus clientes, entre diversos tipos de traçado. Mas as circunstâncias que geraram o grid de Chicago nada têm a ver com critérios projetuais de urbanismo, preferências do consumidor ou modismos, embora o confirmem como o sistema mais simples e rentável de parcelamento e comercialização do solo: para financiar o Estado recém-criado, a Lei de Terras estadunidense de 1785 (Land Ordinance) dividiu os territórios do Oeste, ainda nem bem conquistados e essencialmente desconhecidos, em townships de 6x6 milhas, subdivididas em 36 sections parceláveis e renegociáveis de 1x1 milha, de modo a facilitar a venda de propriedades agrícolas a colonos nacionais e estrangeiros. Com referência ao uso urbano, que veio a se tornar um maná especulativo, diz a Britânnica de 1963: “Sua vantagem particular era que uma nova cidade podia ser planejada nos escritórios das imobiliárias do Leste e as terras vendidas sem que nem comprador nem vendedor tivessem nunca visto o lugar". [1]

Apesar de generalizado nos Estados Unidos desde o início do século XIX, o uso da malha urbana ortogonal pela indústria da urbanização tem raízes mais antigas e menos plebeias. Em seu clássico La Ciudad en la Historia, Mumford observa que
Stuttgart 1794, Edimburgo 1773, Berlim 1789
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El único hecho que lo hace [este tipo de trazado urbano] más notorio en los Estados Unidos que en el Viejo Mundo es la ausencia, excepto en zonas como las de los establecimientos iniciales de Boston y Nueva York, de tipos anteriores de planificación urbana. A partir del siglo XVII, las extensiones de ciudades occidentales, tanto en Stuttgart y Berlín como en Londres y Edimburgo, se hicieron del mismo modo, excepto donde antiguos cursos de agua, caminos o límites de campos habían establecido líneas que no era fácil anular. (..) Estos planos servían únicamente para una rápida división de la tierra, una rápida conversión de solares en lotes y una rápida venta. La carencia misma de adaptaciones más específicas al paisaje o a las necesidades humanas solo aumentaba, por su misma imprecisión e indeterminación, su utilidad general para el mercado. [1a] 

O que, por outro lado, não se pode deixar de observar, e que os textos sobre a grade ortogonal em geral desconsideram, é o fato de que a 'economia da ocupação do solo', tão bem descrita pelo articulista [1b], que fez da grade ortogonal o traçado padrão da moderna urbanização de mercado, é obrigada por essa mesma urbanização de mercado a coexistir com estruturas de acessibilidade urbana de tipo radial-concêntrico derivadas da “economia da localização” - como representada, por exemplo, no modelo geral da distribuição dos usos do solo na metrópole contemporânea, sintetizado por William Alonso na década de 1960 [1c] e materializada nos sistemas de circulação viária e transportes de qualquer grande metrópole.

Imagem: Àbeiradourbanismo

Essa relação nem sempre amigável entre as estruturas espaciais da apropriação/ocupação do solo para fins urbanos - que remontam aos primórdios das cidades e variam significativamente conforme a época e o lugar - e da moderna acessibilidade urbana - que são essencialmente as mesmas em todo o planeta - constitui a meu juízo um aspecto capital e inescapável do urbanismo de nosso tempo. 
Em artigo recente, escrevi:

 “(..) As forças que regem a organização sócio-espacial das metrópoles modernas não se subordinam, apenas se adaptam na medida da necessidade, aos traçados pré-existentes. A "economia da localização" se sobrepõe mais ou menos despoticamente à "economia da ocupação" segundo regras que lhe são próprias. As leis da organização sócio-espacial urbana são as mesmas, e seus efeitos análogos, na cidade radiocêntrica de Porto Alegre e nos vastos reticulados de Barcelona e Chicago. (..)” [2]


Corrijo-me, agora: as leis da “economia da localização urbana” são as mesmas em todas as cidades modernas, vale dizer construídas pela economia de mercado, mas os efeitos de sua coexistência com as regras da "economia da ocupação do solo” variam - segundo a resistência que esta última lhes ofereça. Em 1903, Hurd postulou tal relação nos seguintes termos: as cidades crescem em todas as direções a partir do ponto de origem salvo quando obstaculizadas pela topografia ou pela estrutura da propriedade fundiária pré-existente. [3] Na década de 1920, Burgess reafirmou o postulado acrescentando, como fatores de resistência, eventuais elementos construídos (ferrovias, aquedutos) e, muito importante, as próprias comunidades previamente assentadas no território. [4] 
Falta acrescentar um aspecto capital: os planos reguladores.

Se defrontadas por um rígido plano regulador de urbanismo, como em Brasília, as leis da economia da localização impor-se-ão à metrópole em expansão como coroa exterior de cidades satélites. 
Brasília - Plano Piloto e cidades satélites
Montagem: Àbeiradourbanismo
  

Montagem: Àbeiradourbanismo
Em face de uma grade parcelária pré-estabelecida, como no caso de Chicago, o arruamento e o reparcelamento do solo para fins urbanos acompanharão a grade e a preferência locacional dos usos residenciais recairá, como observou Burgess num texto de 1929,[5] sobre as principais artérias ortogonais de acesso ao centro de negócios, com a desvalorização relativa dos lotes urbanos situados nas direções diagonais. 
Por esse exato motivo, observou Burgess no mesmo texto, as manchas urbanas de cidades de planície do Meio-Oeste dos EUA tenderam a se expandir em forma de cruz de malta. Nos dois casos citados, Ft. Worth e Columbus, o próprio grid parece ter sido ajustado para deixar aos obstáculos geográficos as direções diagonais. 

Esse efeito é particularmente nítido na expansão das cidades argentinas nascidas do processo de colonização agrícola do Pampa Bonaerense na segunda metade do século XIX, como Chivilcoy, situada a 160km de Buenos Aires. Como mostra o mapa de Qualidade da Vida Urbana de DICROCE et al, [5a] Chivilcoy, com cerca de 56 mil habitantes em 2010, se expande ao longo das ortogonais principais de acesso ao Centro muito mais rapidamente do que nas direções diagonais, inclusive no que tange às quadras de maior qualidade de urbanização, consequentemente de maior rendimento familiar. A expansão da urbanização de melhor qualidade ao norte deriva,
Acréscimos e montagem: Àbeiradourbanismo
provavelmente, da proximidade da Estação Rodoviária, que desde 1975 dá acesso à capital em substituição à Estação Ferroviária Norte. Para as camadas empobrecidas, a acessibilidade ao centro urbano proporcionada pelos prolongamentos das ortogonais principais aparece aqui como determinante absoluto, a despeito da maior distância. A concentração de quadras de urbanização precária a sudeste, por sua vez, estaria relacionada à presença da Estação Ferroviária Sul, que serve a um ramal destinado ao transporte de cargas. 
Na ilustração acima, construída sobre o mapa original de DICROCE et al, são perceptíveis dois aspectos da expansão tendencialmente radio-concêntrica da cidade contemporânea: (1) a distribuição decrescente dos padrões de urbanização e rendimento familiar por coroas circulares e gradientes de preços da terra resultantes; (2) a formação de um “cone de altos rendimentos” [5b] para além do núcleo fundacional na direção norte. A singularidade que distingue Chivilcoy das cidades de crescimento "orgânico" é a ocupação da totalidade (360 graus) do núcleo fundacional pelas famílias de mais altos rendimentos, produto da enorme diferença histórica de padrão de urbanização relativamente ao seu entorno.

Na Barcelona de Cerdà, a comunicação direta e projetualmente privilegiada da cidade medieval-renascentista com a Vila de Gràcia determinou tanto 
Montagem: àbeiradourbanismo
a formação do corredor principal de acesso ao novo centro de negócios (Plaça de Catalunya / Portal de l'Àngel) quanto
 a preferência da localização residencial: o Passeig de Gràcia e a Rambla de Catalunya eram os endereços das mais importantes residências burguesas da primeira metade do século 20. Décadas mais tarde, a cidade radial-concêntrica se manifestaria em sua plenitude, como em todas as demais metrópoles, na configuração de seu sistema de Metrô.

Tal como as redes ferroviária e metroviária, o sistema rodoviário principal da grande metrópole também tende a apresentar a disposição radial-concêntrica determinada pelo princípio geral da menor distância, ou, mais exatamente, da maior acessibilidade das localizações residenciais ao centro urbano principal - superposto, por meio de obras públicas de grande envergadura, ao arruamento legado pelos ciclos de parcelamento e ocupação privada do solo que o precederam. [6]
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Na ausência de ocupação prévia, de obstáculos físicos naturais e construídos, de grandes propriedades e de institutos reguladores, a urbanização de mercado imporá o princípi
Porto Alegre 1928 - linhas de bonde
geral
dos gradientes de custo-distância na forma “pura” da expansão radial-concêntrica – caso clássico da Porto Alegre de inícios do século XX. Abrindo-se em leque para ocupar toda a “coroa de 180 graus de terra firme disponível para a expansão urbana” [6a], a capital pós-colonial formou uma rede orgânica de vias radio-circunferenciais que ensejou a criação, no terceiro quarto do século XX, tanto de seu sistema de vias perimetrais quanto da região de planejamento batizada “cidade radiocêntrica”.

*
Um caso singular de adaptação da estrutura radial-concêntrica às redes urbanas herdadas do passado é o centro comercial e de negócios. Devido às vantagens econômicas da aglomeração, os negócios tendem a se beneficiar da ocupação dos arruamentos pré- ou proto-modernos, mais ou menos irregulares, mas altamente concentrados. Nas palavras de Hurd: 

"Há quem pense que quanto mais larga mais valorizada é a rua, devido à maior capacidade de tráfego. Mas em uma rua comercial, a largura é praticamente irrelevante (..). A pouca largura facilita o intercâmbio entre os dois lados, o que é de alguma forma vantajoso para os negócios quando não implica em limitação à altura dos edifícios". [7]
Boston 1814 (esq, acima), Boston CBD 1896 (esq abaixo) e Devonshire St atual (dir)
Essa propriedade dos arruamentos herdados do passado pré- ou proto-capitalista das metrópoles contemporâneas suscita uma interessante questão: serão os traçados regulares das cidades ex novo, com amplas avenidas centrais, ruas largas e baixa densidade construída um fator historicamente inibitivo do desenvolvimento de suas aglomerações comerciais e, por extensão, da própria economia urbana? 

Cruzamento da Av Soárez com Alvear, centro comercial de Chivilcoy, Argentina
Imagem Google 07-2023 

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Em sua forma ‘pura’, vale dizer determinada pelos imperativos fundamentais da 'economia da ocupação do solo' e 'da economia da localização urbana’, a estrutura físico-espacial da metrópole capitalista pode ser descrita como uma malha viária radial-concêntrica ‘preenchida’ por uma colcha de retalhos de parcelamentos reticulados de distintos tamanhos e padrões projetuais, tendo ao centro, ou em área contígua ao centro de negócios, o tecido remanescente das cidades pré- e proto-capitalistas. 

Nas metrópoles reais, essa estrutura impõe a sua soberania, que procede do capital em geral, de maneiras infinitamente diversas, amoldando-se aos fatores de resistência geográfica, econômica, social, cultural e política herdados do passado próximo ou distante.

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*
Retornando ao artigo que deu origem a essa postagem, a ideia de que “o grid está em declínio” me parece uma dedução meramente circunstancial relacionada, se tanto, às práticas correntes da indústria estadunidense dos loteamentos suburbanos - que orientam a parte final do texto. Relativamente a qualquer outro país, o grid não pode estar em declínio nos EUA: ele é o marco regulador, indelével e indestrutível até onde alcança a perspectiva histórica, de seu singular processo de urbanização, simbolizado nas icônicas imagens de aglomerados de arranha-céus em meio a vastos reticulados urbanos de baixíssima densidade.

Ft. Worth, Texas, década de 1950
2023-03-01
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NOTAS

[1] Britannica 1963 V 5 p 816, “City Planning”

[1a] MUMFORD L (1961), “Capítulo XIV - Expansión Comercial y Disolución Urbana, 4. Los especuladores y el trazado de la ciudad”. La Ciudad en la Historia, Logroño (Esp): Pepitas de calabaza Ed., pp.701-709. [300-304 no link abaixo]
https://istoriamundial.files.wordpress.com/2013/11/la-ciudad-en-la-historia_lewis-mumford.pdf

[1b] "The benefits of building streets in uniform grids are clear to anyone who has ever played SimCity. Roads are expensive to build. Laying them out in grids allows more buildings to sit alongside them, which can more easily be linked to sewage lines, electricity connections and gas pipes. Square lots hold rectangular buildings which are filled with rectangular rooms holding rectangular tables, beds and desks. “All of these rectangles combine and give us this efficiency of geometry,” says Paul Knight, an architect who works for Historical Concepts, a firm based in Atlanta and New York. And grids are easy to navigate. In London cab drivers have to spend up to four years learning the street network before they can get around without a map. Chicago or New York taxi drivers can achieve much the same thing in a day. Pedestrians can walk in a fairly direct route anywhere they need to go, without worrying about dead ends or impassable barriers between roads. (..)

[1c] ABRAMO P (2001) Mercado e Ordem Urbana: do caos à teoria da localização residencial. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil 2001, pp. 65-87

[2] JORGENSEN P, “Porto Alegre cidade radiocêntrica (1)”. À beira do urbanismo (blog) 09-04-2019. https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2019/04/porto-alegre-cidade-radiocentrica-1.html

[3] HURD R M, Principles of City Land Values. New York, Record and Guide 1903
https://archive.org/.../principlesofcity.../page/n4/mode/1up

[4] BURGESS E W, “The Growth of the City: An Introduction to a Research Project", em BURGESS, E W e PARK R E, The City:Suggestions for Investigation of Human Behavior in the Urban Environment, The University of Chicago Press, 1984: Chicago e Londres
http://shora.tabriz.ir/Uploads/83/cms/user/File/657/E_Book/Urban%20Studies/park%20burgess%20the%20city.pdf

[5] BURGESS E W, "Urban Areas", em SMITH e WHITE, Chicago, An Experiment in Social Sciences Research, Chicago: University of Chicago Press 1929, pp 113-138

[5a] DICROCE L et al 2008, “Implementación de un Modelo de Calidad de Vida Urbana (MCVU). Caso de estudio: Chivilcoy”. IDEHAB, Universidad Nacional de La Plata.
http://sedici.unlp.edu.ar/handle/10915/94194

[5b] SABATINI F (2003),”La segregación social del espacio en las ciudades de América Latina”. Documentos del Instituto de Estudios Urbanos y Territoriales, Serie Azul Nº 35, Julio 2003, p. 25.

[6] JORGENSEN P, “Porto Alegre cidade radiocêntrica (1)”. À beira do urbanismo (blog) 09-04-2019. https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2019/04/porto-alegre-cidade-radiocentrica-1.html

[6a] [4] VILLAÇA F, Espaço Intra-Urbano no Brasil Cap 5 “A estrutura urbana básica”, p. 132.

[7] HURD R M, Principles of City Land Values. New York, Record and Guide 1903
https://archive.org/.../principlesofcity.../page/n4/mode/1up