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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Palmas et cetera

Terra Trend

Vista do alto, Palmas entrega imediatamente sua origem: grandes eixos se cruzam, quadras regulares se repetem e o centro político ocupa uma posição cuidadosamente escolhida dentro da malha urbana. (..)

O projeto foi desenvolvido pelos arquitetos e urbanistas Luiz Fernando Cruvinel Teixeira e Walfredo Antunes de Oliveira Filho. A Avenida Teotônio Segurado tornou-se o grande eixo Norte-Sul, enquanto a Avenida JK estruturou a ligação Leste-Oeste. No encontro dos dois eixos foi organizado o coração institucional da nova capital. (..)

O problema apareceu quando a cidade real começou a avançar mais rapidamente que a ocupação planejada.

Em vez de preencher progressivamente o núcleo projetado, Palmas desenvolveu áreas distantes enquanto ainda mantinha grandes vazios dentro da malha central. Regiões ao sul ganharam importância, e documentos municipais posteriores reconheceram problemas como fragmentação urbana, grandes deslocamentos e necessidade de aproveitar melhor a infraestrutura já instalada.

Assim, Palmas se tornou um raro laboratório urbano brasileiro: uma capital desenhada praticamente junto com o nascimento de seu estado, mas que demonstra como nenhum traçado consegue controlar completamente as forças sociais e econômicas que constroem uma cidade. 


O plano continua perfeitamente visível do espaço. A história de Palmas está justamente nas partes em que a cidade real escapou dele. 
[destaque PJ]

*

Muito interessante e instrutivo, diria mesmo objeto de estudo obrigatório para as novas gerações de planejadores, mas não penso que Palmas seja um “raro laboratório urbano brasileiro”. Na verdade, nem o autor pensa, pois ele mesmo afirma que “nenhum traçado consegue controlar completamente as forças sociais e econômicas que constroem uma cidade.”

De fato, o mesmo aconteceu em Erechim, Maringá, Goiânia, Belo Horizonte, Brasília e, se quisermos flexibilizar o conceito de “plano”, em Salvador, Aracaju e Teresina. Na América hispânica isto pode ser dito de todas as capitais formadas ao redor do damero colonial, de várias vilas rurais criadas no Pampa bonaerense em meados do século XIX, e, é claro, da capital provincial La Plata, construída na década de 1880. Nos EUA, cito os casos ilustres de Washington DC e Filadélfia.

Como já sugeri em outro lugar, “(..) o amadurecimento das relações de produção capitalistas foi um furacão civilizacional que tudo subordinou à sua dinâmica e suas necessidades. Dadas as circunstâncias adequadas à acumulação do capital, onde já havia cidades ele as revolucionou; onde não havia, ele as criou.”

E em outro: “(..) Tampouco o planejamento urbano, avatar tecnocrático do urbanismo alçado ao primeiro plano da governança pública na segunda metade do XX, aventurou-se a construir uma urbanologia que lhe desse suporte, balizas e - muito importante - consciência de seus limites. (..)”

2026-08-19

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Apontamentos: Bottura & Vargas 2020 - o projeto de Palmas e a crítica do urbanismo modernista

Estes apontamentos são parte de um processo de estudo compartilhado. À beira do urbanismo está à disposição dos autores cujo trabalho aqui se comenta para suas considerações.

BOTTURA Roberto e VARGAS Heliana C, “O projeto de Palmas TO frente às teorias urbanas revisionistas pós-1945”. Vitruvius / Arquitextos, ano 21, out. 2020
https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/21.245/7923

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Todo estudo que se debruce sobre uma cidade nova tem diante de si a oportunidade de observar alguns fenômenos em um contexto que evidencia de forma mais latente as contradições entre o projetado (desejado) e o realizado (materializado). Aqui, o objeto de análise é Palmas, capital do então recém-criado estado brasileiro do Tocantins, concebida por arquitetos e inaugurada no final do século 20 a toque de caixa em um movimento de ocupação da região norte do país. (..)

Parte-se da hipótese de que o projeto de Palmas representa um interessante paradoxo, ao reforçar paradigmas da cidade modernista, embora no discurso do plano a negasse plenamente. Conforme descrito em seu memorial, buscava-se revogar atitudes radicais racionalizadoras, bem como setorizações e imposições contra a natureza. No entanto, o traçado, o arranjo das funções e as espacialidades construídas resultaram numa cidade de uma tediosa quadrícula cartesiana em que a falta de usos combinados, a monotonia da repetição, a negação da rua e da calçada e a total priorização do transporte motorizado individual terminaram por moldar o inverso do que se pretendia. (..)

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Ótimo artigo. Primeiro por apontar a contradição entre a crítica aos princípios urbanísticos modernistas contida na Memória e a sua adoção, da pior maneira (porque não assumida), no Projeto. Segundo por trazer, de maneira resumida, mas eficaz, um pouco de história e teoria da crítica ao urbanismo modernista na segunda metade do século XX.

Embora nunca tenha me dedicado ao tema, eu trago comigo há algum tempo a noção de que o urbanismo modernista é, ao contrário da sua arquitetura, um fracasso histórico, devido à evidente contradição entre o indivíduo e a vida urbana por ele idealizados e a potência autorreprodutiva da urbanização de mercado - que, gostemos ou não, constrói a cidade moderna e conduz a sua operação com a ajuda, não o comando, da mão amiga do Estado.

É precisamente por essa razão que, se concordo com a crítica de Jacobs & Alexander ao
 urbanismo modernista por oposição à dinâmica espacial dos centros metropolitanos dos EUA da década de 1960, também a considero defeituosa por absoluta falta de perspectiva histórica - a começar pelo fato de que, àquela altura, a maior parte da classe média estadunidense, que nunca ouvira falar de Ebenezer Howard, Le Corbusier e Patrick Geddes, já se encontrava voluntariamente segregada em seus baluartes unifamiliares suburbanos.
 
Num plano mais geral, vejo a “cidade diversa” de Jacobs como um recorte espaço-temporal bastante específico da metrópole contemporânea, inexoravelmente prisioneiro do desenvolvimento desigual e combinado da economia de mercado planetária. Já em fins do século XX se lhe opunham, de um lado, o crescimento imparável, principalmente nos países médios e pobres, mas também nas periferias metropolitanas europeias, de grandes manchas de pobreza intercaladas de concentrações do que Milton Santos chamou de “circuito inferior da economia"; de outro, a irreversível tendência ao encastelamento sócio-espacial dos novos abastados da riqueza financeira, aos quais Saskia Sassen, admiradora confessa das ideias de Jacobs, assim se referiu num artigo do ano de 2015:

“(..) hoje, ao invés de espaços de inclusão de pessoas de origens e culturas diversas, nossas cidades globalizadas estão expulsando as pessoas e a diversidade. Seus novos proprietários, muitas vezes habitantes de tempo parcial, são bastante internacionais - o que não significa que representam culturas e tradições diversas, mas sim a nova cultura global do sucesso. Eles são incrivelmente homogêneos, não importa quão diversos em termos de nacionalidade e idioma. Não são os cidadãos que nossas cidades grandes e diversificadas produziram historicamente. São, acima de tudo, cidadãos do “mundo corporativo” global.” (“Who owns our cities - and why this urban takeover should concern us”. The Guardian online 24-11-2015, por Saskia Sassen) (*)

Recomendo a leitura.

2023-08-25

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(*)  https://www.theguardian.com/cities/2015/nov/24/who-owns-our-cities-and-why-this-urban-takeover-should-concern-us-all

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Cidades novas no Brasil: Palmas, TO

BOTTURA Roberto e VARGAS Heliana C, “O projeto de Palmas TO frente as teorias urbanas revisionistas pós 1945”. Vitruvius / Arquitextos, ano 21, out. 2020
https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/21.245/7923


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Todo estudo que se debruce sobre uma cidade nova tem diante de si a oportunidade de observar alguns fenômenos em um contexto que evidencia de forma mais latente as contradições entre o projetado (desejado) e o realizado (materializado). Aqui, o objeto de análise é Palmas, capital do então recém-criado estado brasileiro do Tocantins, concebida por arquitetos e inaugurada no final do século 20 a toque de caixa em um movimento de ocupação da região norte do país.

Seu projeto é formado por um Plano Básico / Memória a cargo do escritório goiano GrupoQuatro, cujos responsáveis costuram diversos discursos na busca de certa originalidade urbanística, que resultou numa proposta de cidade que nos instiga a decifrá-la. Considerando o ano de projetação/inauguração, 1989, junto aos objetivos com que os arquitetos a idealizaram, Palmas se insere cronologicamente e teoricamente em um contexto de revisão dos dogmas funcionalistas da Carta de Atenas.

(..)

Parte-se da hipótese de que o projeto de Palmas representa um interessante paradoxo, ao reforçar paradigmas da cidade modernista, embora no discurso do plano a negasse plenamente. Conforme descrito em seu memorial, buscava-se revogar atitudes radicais racionalizadoras, bem como setorizações e imposições contra a natureza. No entanto, o traçado, o arranjo das funções e as espacialidades construídas resultaram numa cidade de uma tediosa quadrícula cartesiana em que a falta de usos combinados, a monotonia da repetição, a negação da rua e da calçada e a total priorização do transporte motorizado individual terminaram por moldar o inverso do que se pretendia.

Desta forma, o objetivo do presente trabalho é avaliar o projeto urbano de Palmas a partir das contradições entre as teorias funcionalistas do urbanismo moderno e as respectivas teorias revisionistas que emergem pós 1945. (..)

2022-07-01