quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Entre o martelo e a bigorna


Valor Econômico 22-11-2022
https://valor.globo.com/mundo/noticia/2022/11/22/ocde-descarta-recesso-global-mas-aponta-riscos-significativos.ghtml
A Ásia será o principal motor do crescimento em 2023 e 2024, enquanto a Europa, a América do Norte e a América do Sul ‘verão um crescimento muito baixo’
Devemos lamentar a perspectiva de piora das condições de vida das multidões urbanas ou saudar a redução do ritmo da degradação ambiental planetária?

2022-11-23

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Taxa condominial, essa desconhecida


Portal Loft 08-06-22 Atualizado 08-11-2022
https://portal.loft.com.br/taxa-condominio-rio-dados-loft/

Pesquisa do núcleo de dados Loft Dados realizada em 36 bairros nos últimos dois anos mostra quanto os cariocas estão pagando por mês em taxa de condomínio

Do ponto de vista da economia urbana, a taxa condominial pode ser assimilada a um imposto privado, complementar ao IPTU: o valor do aluguel é o máximo que a demanda está apta e disposta a pagar pelo uso do bem/localização, descontados o IPTU e a taxa condominial – sendo essa a razão pela qual, nas assembleias condominiais, os proprietários-locadores são tão refratários aos aumentos de taxas, ainda que seu pagamento caiba por contrato aos inquilinos. 

Com a “industrialização” da moradia de aluguel nas grandes metrópoles brasileiras[*], a tendência deverá ser a inclusão da taxa no “pacote do aluguel” com pagamento a cargo da empresa locadora, ou a sua internalização como “custo de produção” da empresa proprietária. A vantagem para os inquilinos é o fim da prática proprietária de lhes imputar gastos de investimento nas edificações (reformas) com a conivência das administradoras.

Para fins de estudo, melhor seria um gráfico de taxa condominial por m2 privativo, que é a unidade básica do mercado imobiliário. Pelo valor médio das taxas, o resultado parece corresponder à ordem decrescente dos preços/m2 privativo segundo os bairros, exceção feita, quem sabe, a São Conrado em 1º, Barra da Tijuca em 5º, além de Jacarepaguá, Freguesia e Recreio, devido ao tamanho dos terrenos (menor densidade construída) e respectivas despesas com ajardinamento, instalações e manutenção. 

__
[*] Ver, por exemplo, “Incorporadoras montam primeiro grande negócio de locação residencial no Rio”. O Estado de São Paulo, por Circe Bonatelli 03-11-2022
https://economia.estadao.com.br/blogs/coluna-do-broad/incorporadoras-montam-primeiro-grande-negocio-de-locacao-residencial-no-rio/

2022-11-16

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

É uma riqueza portugueza com certeza


DinheiroVivo 03-11-2022
https://www.dinheirovivo.pt/economia/final-anunciado-dos-vistos-gold-preocupa-promotores-e-investidores-imobiliarios-15313594.html
Montagem: Àbeiradourbanismo
“A declaração que o primeiro-ministro fez na quarta-feira sobre o possível fim dos vistos gold deixou promotores e investidores imobiliários preocupados. Em entrevista ao jornal Eco, o presidente da APII (Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários) critica a possível decisão do Governo, declarando que "é "descabido estar nesta altura a reequacionar o programa de vistos gold, quando todos os países estão a concorrer pela captação de todo o investimento internacional que puderem". Hugo Santos Ferreira diz que as palavras de António Costa são "ruído que vem dar uma grande instabilidade ao mercado imobiliário" e que prejudicam "seriamente a captação de investimento estrangeiro e, portanto, a entrada de riqueza em Portugal", recordando que o programa dos vistos gold já totalizou mais de seis mil milhões de euros de investimento. (..)

2022-11-09

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Percalço abstracionista


The Guardian 28-10-2022
https://www.theguardian.com/artanddesign/2022/oct/28/mondrian-painting-has-been-hanging-upside-down-for-75-years

A painting by abstract Dutch artist Piet Mondrian has been hanging upside down in various museums since it was first put on display 75 years ago, an art historian has found, but warned it could disintegrate if it was hung the right side up now.

The 1941 picture, a complex interlacing lattice of red, yellow, black and blue adhesive tapes titled New York City I, was first put on display at New York’s MoMA in 1945 but has hung at the art collection of the German federal state of North Rhine-Westphalia in Düsseldorf since 1980.

The way the picture is currently hung shows the multicoloured lines thickening at the bottom, suggesting an extremely simplified version of a skyline. However, when curator Susanne Meyer-Büser started researching the museum’s new show on the Dutch avant garde artist earlier this year, she realised the picture should be the other way around. (..)


quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Outorga didática


ArchDaily 25-10-2022
https://www.archdaily.com.br/br/990965/o-que-e-a-outorga-onerosa-do-direito-de-construir-e-como-ela-ajuda-a-tornar-as-cidades-mais-justas-e-sustentaveis

Artigo simples, claro e didático, sem a costumeira bobagem de que “a outorga onerosa permite edificar acima dos índices construtivos estabelecidos em lei”.

A escorregada vem no fim, com a afirmação "o planejamento urbano é a força vital que determina o ritmo, as dinâmicas, o funcionamento de uma cidade” e seu corolário “com Planos Diretores mais robustos e inovadores, as cidades têm nas mãos o poder de traçar seu próprio caminho rumo a um futuro mais humano e sustentável."

O planejamento urbano em geral é indispensável e os Planos Diretores instrumentos necessários de ordenamento urbano. Mas serão tanto mais eficazes quanto menos poderes mágicos lhes atribuamos.

2022-10-26

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Miragem linear


ArchDaily 21-10-2022, por André Sette
https://www.archdaily.com.br/br/990910/the-line-cidades-lineares-nao-fazem-o-menor-sentido

Clique na imagem para ampliar
A discussão proposta por esse artigo é deveras interessante e devo dizer que estou de acordo com o juízo do título, embora com uma ótica distinta. Pena que, como tanta coisa que se publica em Caos Planejado, seja mero gancho para os autores criticarem os esforços de planejamento de Belo Horizonte, São Paulo e outras capitais como prejudiciais à “eficiência de mercado”.

Os protótipos surgidos na primeira metade do século XX - Cité Industrial, Ciudad Lineal, Garden-City, Ville Radieuse, Broadacre City - são meros construtos, modelos ideais baseados na eliminação arbitrária e seletiva de fenômenos e processos constituintes da urbanização contemporânea e, por isso mesmo, irrealizáveis salvo em circunstâncias estritamente controladas pelos governos nacionais, por um período limitado de tempo e, em qualquer caso, com vantagens muito discutíveis: no caso da “cidade linear”, todos teriam rápido acesso ao meio de transporte, mas, como é fácil deduzir, estariam muito mais distantes do conjunto dos demais “lugares urbanos” – porque é precisamente para reduzir o custo direto e indireto do deslocamento que as populações se aglomeram, na medida das suas possibilidades, ao redor dos comércios, serviços e empregadores em geral, e para beneficiar-se dessa economia coletiva que comércios, serviços e empregadores se aglomeram, tanto quanto possível, à menor distância agregada da clientela e dos potenciais trabalhadores em lugares que não por acaso chamamos ‘centros’ e 'subcentros'.

Diz o autor que “hoje, quase 90% da população de Brasília mora em regiões que cresceram em volta do Plano Piloto (..) destino comum [às] cidades planejadas com a forma linear”. Na verdade, esse é o destino comum a todas as cidades, lineares ou não, nascidas de uma urbanização-piloto: vale para Brasília como para Belo Horizonte, Erechim, Maringá, Goiânia, Volta Redonda e tantas quantas queiramos estudar no Brasil e no mundo.

Levada à pratica, a própria cidade linear de Soria y Mata não foi mais do que um “subúrbio-jardim” alongado, com seus correspondentes atributos arquitetônicos, que acabou integrado à expansão suburbana de Madri.

Reitero algo que já disse em outro lugar: 

“Una ciudad en la que no hay ninguna especie de centro solo puede existir en el plan ideal, como en una sociedad desarrollada fictícia donde no hay mercado, o en el plan teórico de una sociedad sobredesarollada igualitaria más allá del mercado. La centralidad es una norma reguladora constitutiva del mercado de suelo, es decir, que no ha sido creada por ningún gobierno; una forma de escasez que yace en el corazón de la economía del espacio socialmente construído, es decir histórico, y es su propio modo de ser.” [*]

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[*] “Centralidad, espacio urbano y renta del suelo – apuntes”, À beira do urbanismo 30-10-2010
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2010/10/centralidad-espacio-urbano-y-renta-del.html

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Redenção vai gerar renda


G1 11-10-2022
https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2022/10/11/porto-alegre-anuncia-propostas-e-consulta-publica-para-concessao-da-redencao-e-outras-areas.ghtml


Montagem: Àbeiradourbanismo

Concessão não é, tecnicamente, privatização, mas é como se fosse. As eventuais obras de infraestrutura – estacionamentos, tipicamente – com que se justifica o regime de concessão de um parque urbano são uma conveniente cobertura para a exploração a longo prazo, por um capitalista ad hoc, da renda da terra urbana de uso público excepcionalmente localizada. 

2022-10-12

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Carter 1983: Formação e estrutura da área central das cidades britânicas


CARTER Harold, An Introduction to Urban Historical Geography – cap 8 The Internal Structure of the City: the central area. Londres: Edward Arnold (Publishers), 1983, pp. 150-170.
https://archive.org/det.../introductiontour0000cart/mode/1up

Uso do solo, Londres século XVIII 
Clique na imagem para ampliar


Many urban geographers would probably consider that the emergence of a distinctive and specialized shopping center is the key process in the patterning of the central area of the city. This is so because the development of the wide range of other specialized areas was functionally related to it, for it was the prime generating influence monopolizing the most valued land at least insofar as its core coincided with peak land values. The priority of the shopping centre is derived from the presumed ability of retailers to pay the highest prices for city-centre locations. Historically, however, that priority lacks conviction for, to use Sjoberg’s categories, it is a feature of the industrial rather than of the pre-industrial city (Sjoberg, 1960). In the latter political and religious elements were predominant in shaping the centre, arrogating the most prestigious locations. It follows that it is impossible historically to retain a constant significance for the role of the retail area and the shopping function. To a degree this echoes Vance’s argument for a pre-capitalist rather than a pre-industrial city (Vance, 1971). Vance contends that before the growth of modern capitalism land was not owned and regarded as a property investment, but rather it was held  and evaluated in terms which were primarily social. In the town in particular it gave access to the guilds which initially had mainly a social and convivial basis and only later became trade associations. In this way participation in city life was a consequence of land-holding. Moreover, given their origins, the location of the guilds within the city was fortuitous and specialized trade areas developed bearing no relationship to any economic order based on a central point or peak land-value intersection which are products of the later capitalist order. If pre-industrial or pre-capitalist cities present a different suite of forces controlling their central area land-uses from those of later cities then it is sensible to divide examination of those uses into two sections. The break point is a matter of some debate for pre-industrial and pre-capitalist refer to different points of inflexion, but in most general terms it is possible to contrast the evolution of retailing with the later evolution of shopping and use it as a preliminary basis.
(Continua)

Acesse o texto completo deste capítulo pelo link

2022-10-05

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

De 'cidade' a 'centro': juntando as peças

Por seres tão inventivo e pareceres contínuo,
Tempo tempo tempo tempo, és um dos deuses mais lindos...
Tempo tempo tempo tempo...
Oração ao Tempo (Caetano Veloso 1979)

Pesquisando a origem do bairro da Cidade Nova, Rio de Janeiro, encontrei na Wikipedia a seguinte afirmação:

Rio de Janeiro 1835
O nome "Cidade Nova" tem registros que remontam ao período do reinado de D João VI. Até o início do século XIX, a região era um alagadiço que servia de rota de passagem entre o Centro e as zonas rurais da Tijuca e São Cristóvão. [1]

Chamou-me a atenção que o autor tenha descrito a Cidade Nova como um lugar situado "entre o Centro e as zonas rurais da Tijuca e São Cristóvão". A pergunta inevitável é: no início do século XIX, quando Tijuca e São Cristóvão eram 'zonas rurais', existia 'o Centro'?

Em busca de respostas, recorri ao testemunho de romances clássicos da segunda metade do século XIX, ambientados no Rio de Janeiro.

Em A Pata da Gazela, de José de Alencar (1870), podemos ler:

“Naquela mesma tarde em que o deixamos na sua casa de Botafogo, terminado o jantar, mandou aprontar o tílburi e voltou à cidade. Seu aparecimento àquela hora na Rua do Ouvidor causou estranheza: um leão de raça, como ele, não passeia ao escurecer, sobretudo no centro do comércio, onde só ficam os que trabalham.” [2]

Em O Cortiço (1890), romance que tinha como cenário uma habitação coletiva em Botafogo, diz Aluísio de Azevedo:

"Uma verdadeira patuscada esse passeio à cidade! (..) Ninguém tomou bonde; e por toda a viagem discutiram e altercaram em grande troça, comentando com gargalhadas e chalaças gordas o que iam encontrando, a chamar a atenção das ruas por onde desfilava a ruidosa farândola. [3]

Em “Maria Cora”, conto de Machado de Assis ambientado no Rio de Janeiro de 1893, o narrador-protagonista Correia, que reside numa casa de pensão no Catete, diz:

“De manhã tinha o relógio parado. Chegando à cidade, desci a Rua do Ouvidor, até a da Quitanda (..)” [4]

Essas passagens literárias me sugerem: (a) que a noção de 'centro' urbano era, se não estranha, ao menos pouco familiar aos autores de obras de ficção passadas no Rio de Janeiro do último quarto do século XIX, portanto muito provavelmente também aos habitantes da cidade; (b) que já existia, a essa altura, uma “urbe exterior à ‘cidade’” formada por lugares como Catete, Botafogo, São Cristóvão, Engenho Velho e Andaraí, vale dizer um processo já em curso de suburbanização; (c) que termo 'cidade', herdado do período colonial, ainda era o designativo preferencial da centralidade metropolitana em gestação; (d) que a expressão 0 'centro do comércio', utilizada por José de Alencar para definir a Rua do Ouvidor, contém uma ambiguidade própria da transição em curso e da pena de um autor de romances históricos impregnados de referências e insaites geográficos - de que logo veremos outro exemplo. 

O surgimento do “Centro” – com maiúscula porque já não se trata de uma entidade geográfica, mas de um lugar urbano - supõe, precisamente, o amadurecimento do processo de suburbanização pela via do mercado de terras, construções e serviços urbanos, muito especialmente os de transportes de passageiros, e sua consolidação em uma nova forma de expansão urbana radiada e tendencialmente concêntrica - ainda que desigualmente distribuída no espaço por força de condicionantes naturais e institucionais -, regulada pelo princípio da acessibilidade.

Tal processo, que identifico com o nascimento da urbanização capitalista em nosso país, está analisado com base em evidências empíricas em meu artigo “Porto Alegre cidade radiocêntrica (2)”, publicado em 21-05-2020 neste blog. Replico a primeira de uma série de generalizações que considero relevantes para esta discussão:

As duas primeiras décadas do século XX marcam, no Brasil, o nascimento das metrópoles capitalistas, cujo traço distintivo é a urbanização de mercado: de um lado as empresas loteadoras, construtoras e prestadoras de serviços públicos urbanos, de outro uma classe média ascendente - comerciantes, militares, funcionários, especialistas, artesãos e trabalhadores qualificados - capaz de arcar com custos de transportes e financiamentos a longo prazo. (..)

É a indústria da urbanização, ou urbanização de mercado, que dá conteúdo e forma à urbe radiocêntrica. É ela que converte as chácaras semi-rurais em bairros residenciais, os antigos caminhos rurais em vetores radiais de expansão, os aldeamentos satélites estrategicamente situados em embriões de futuros subcentros e, finalmente, a própria “cidade” em “centro”! [5]

Isso não significa, em absoluto, que o fenômeno quintessencialmente geográfico da centralidade seja exclusivo da cidade capitalista, mas que o vértice da estrutura radiada da grande metrópole, conhecido na literatura técnico-científica internacional como Central Business District (CBD), é a sua forma mais desenvolvida, símbolo maior de uma ruptura radical nos padrões de adensamento e expansão territorial urbana vigentes, nas capitais brasileiras, pelo menos até o início do Segundo Império, em 1840:

Não se trata de que inexistam tendências radiocêntricas na cidade colonial, isto é, de que sua organização sócio-espacial não manifeste a lei do menor custo-distância, mas de que aqui ela é uma força débil relativamente a outros determinantes - a pré-existência de um traçado fundacional, a pequena extensão dos percursos, o máximo aproveitamento das quadras e parcelas -, materializando-se via de regra como expansão linear ao longo da via principal do assentamento e, em menor medida, como reprodução mais ou menos regular da quadra padrão no sentido transversal. [6]


A forma tipicamente "cartesiana", ou ortogonal, da expansão urbana colonial brasileira corresponde às observações de Hurd em seu "vôo de pássaro" de 1903 sobre as "direções de expansão" das cidades comerciais. Ele observa que, nos assentamentos marítimos, fluviais e lacustres, o crescimento começa ao longo da costa, "seja porque as novas docas e os edifícios fronteiros formam um eixo de tráfego ou porque a própria margem constitui um caminho natural para os assentados". [7] Segue-se a
formação de um feixe de ruas paralelas que, com o tempo, converte-se em malha reticulada mais ou menos regular 'centrada' no ponto de partida das transversais principais, tipicamente a 'praça do mercado'. 

A predominância da organização 'cartesiana' da rede urbana, à base de quadras mais ou menos regulares adaptadas à topografia do terreno, significa que nessa etapa do processo formativo das cidades, em que a distância ainda não tem um papel decisivo na vida econômica da coletividade - salvo, evidentemente, para os negócios diretamente relacionados à atividade portuária -, a 'economia da ocupação' do solo se impõe à 'economia da localização'.  

Essa mesma configuração está presente no relato alencariano do processo expansivo do Rio de Janeiro colonial contido nas crônicas ficcionais reunidas em Alfarrábios, de 1873, mesclada, quero crer, pelo uso da expressão “centro do povoado”, à percepção de um novo padrão de centralidade já em formação na capital à epoca em que foi escrito. Trocando momentaneamente o chapéu de ficcionista pelo de geógrafo, diz Alencar:

"Com o incremento natural da população, foi a cidade descendo das encostas da colina e estendendo-se pelas várzeas que a rodeavam, sobretudo pela orla da praia que cinge o regaço mais abrigado da formosa baía, e corre em face à Ilha das Cobras. Aí, fronteiro ao ancoradouro dos navios, com o fomento do comércio, se ergueram as tercenas e os cais, onde não tardaram a agrupar-se em volta das casas das alfândegas e dos contos as lojas e armazéns dos mercadores. Após essas, embora já mais arredadas da beira-mar, vinham as outras classes trazidas pelo desejo de estarem mais próximas ao centro do povoado, onde é mais ativo o tráfego." [8] [destaques meus]  

Direções de expansão do Rio de Janeiro colonial
e republicano, lançadas sobre mapa do ano 1935


A começar pela separação de comércio e residência, o advento da urbanização de mercado modifica radicalmente a dinâmica espacial da expansão urbana, e com ela a sua geometria, à qual o núcleo reticular herdado do período colonial é obrigado a se adaptar - o que, em se tratando da cidade, é um processo secular. Para além de seus aspectos estritamente urbanísticos, e da ideologia subjacente tantas vezes assinalada, o conjunto de obras modernizadoras executadas no Rio de Janeiro ao longo do século XX - abertura das avenidas Mem de Sá (1906), Beira-Mar (1906), Rodrigues Alves (1910), Presidente Vargas (1944), Av. Chile (1960) e Parque do Flamengo (1960) - são intervenções destinadas a consolidar a estrutura radiada de acesso ao Centro da metrópole.     

Um importante marco da transição de uma a outra modalidade de expansão no Rio de Janeiro é a inauguração, em 1858, do primeiro trecho da Estrada de Ferro D. Pedro II, que "permitiu, a partir de 1861, a ocupação acelerada das freguesias suburbanas por ela atravessadas" - o que supõe o advento de um mercado de terras periféricas à 'cidade', uma nova classe média capaz de adquiri-los e uma estrutura empresarial capaz de financiá-los -, seguida, em 1868, da implantação das primeiras linhas de bondes de tração animal, que vieram a "facilitar a expansão da cidade em direção aos bairros das atuais zona sul e zona norte". [9] 

A mudança da matriz espacial da expansão urbana, de ortogonal a radial, e a consequente transformação da 'cidade' em 'Centro', é, portanto, um problema tanto de forma quanto de conteúdo. Aqui vale a pena recuperar, do mesmo texto sobre Porto Alegre, a discussão sobre a ideia de 'centro' na transição da cidade colonial-imperial para metrópole capitalista tal como interpretada por Villaça. Ele nos diz:

Quando, nos primeiros vinte anos deste século, o quadro imobiliário do centro de nossas cidades foi totalmente renovado com a demolição do colonial e a implantação do neoclássico e do ecletismo, não houve alteração na estrutura urbana, pois esses centros não perderam sua importância, sua posição, natureza nem localização. [10] 
Porto Alegre: direções de expansão
(1) expansão cartesiana: planta de 1772
(2) transição sobre planta de 1881
(3) expansão radiada: planta 1928 

Esta passagem resume o que me parece uma importante lacuna teórica de Espaço Intra-Urbano no Brasil: a omissão da mudança qualitativa imposta ao processo urbanizador brasileiro, em fins do século XIX, pela urbanização de mercado. Implícito na afirmação de que “no final do século XIX havia [em Porto Alegre] uma coroa de 180 graus de terra firme disponível para a expansão urbana” [11], esse salto histórico é por outro lado negado – inadvertidamente, por certo – pela ideia de que “nos primeiros vinte anos deste século (..) não houve alteração na estrutura urbana, pois esses centros não perderam sua importância, sua posição, natureza nem localização”.  [destaques meus]

Como dito no artigo,

Por não considerar o salto qualitativo contido na transição da urbanização mercantil-escravista para a urbanização capitalista, Villaça perde de vista que é assim que nasce o “centro” no que até então era a “cidade”. Embora não perca a sua "localização, importância e posição", o velho núcleo colonial-imperial perde, sim, a sua “natureza”: sobre a cidade que comanda o campo ao seu redor, nasce o centro que comandará a metrópole. O novo centro da urbanização de mercado começará, então, a se estender na direção da migração dos abastados e a se desdobrar em subcentros em todas as direções. Em algum deles poderá se fixar, muito mais tarde, o novo polo financeiro da metrópole. [12]

O fato de os Centros metropolitanos brasileiros terem se erguido sobre e ao redor das aglomerações comerciais das cidades coloniais-imperiais, portanto em alguma medida como suas continuidades históricas, não apaga o fato de que se trata, agora, de centralidades qualitativamente distintas sob todos os pontos de vista:

Refluindo sobre o núcleo colonial-imperial, a cidade radiocêntrica em contínua expansão e adensamento o revoluciona de acordo com as necessidades da economia de mercado e as exigências culturais e estéticas dos novos segmentos sociais econômica e politicamente dominantes, vale dizer pela renovação acelerada do estoque edificado, pela multiplicação de edifícios de escritórios e galerias comerciais, pela formação de um hipercentro financeiro, pela busca incessante de uma arquitetura própria dos arranha-céus, pela inserção da cidade no circuito das exposições agrícolas e industriais, pela elaboração de um Plano de Melhoramento e Embelezamento da Capital e por intervenções urbanas modernizadoras como a ampliação do porto, o ajardinamento do Campo da Redenção com base em projeto de Alfred Agache e, fechando com chave de ouro este primeiro ciclo, a abertura da Avenida Borges de Medeiros, a partir de 1925, para a ligação do núcleo urbano ao bairro do Menino Deus e daí a toda a margem sul do Guaíba, aí incluída a construção do Viaduto Otávio Rocha - provavelmente a obra urbana mais emblemática da história de Porto Alegre. [13]

*

Entre a emergência de novos fenômenos sociais, sua percepção pela inteligência coletiva e sua designação na linguagem corrente medeia, geralmente, um período, que pode ser mais ou menos longo a depender da “camada” da realidade de que se trate. 

A transformação da espacialidade urbana, embora onipresente, por não afetar imediata e simultaneamente a vida dos cidadãos leva tempo para ser percebida, e sobretudo assimilada, mesmo nas esferas mais especializadas da informação e do conhecimento. Dou como exemplo o tempo decorrido, na aurora do século XX, entre o loteamento das glebas suburbanas, que não exigia intervenções imediatas sobre o terreno, e seu registro nos mapas e plantas das cidades.

O verbete da Wikipedia que abre este comentário me sugere um curioso paradoxo temporal: parece que passamos de uma longa transição, na primeira metade do século XX, em que o Centro da metrópole ainda era dito 'a cidade', como no período colonial-imperial, para uma época em que a cidade colonial-imperial é muitas vezes referida, por leigos mas também por especialistas, como se tivesse sido, todo o tempo, 'o Centro' da metrópole capitalista.

Como sugerem as referências literárias acima citadas, em fins do século XIX a centralidade urbana ainda era identificada, no Brasil, não com a nascente forma histórica do “Centro” metropolitano, mas com um conjunto de entidades, ou funções, centrais - o palácio, o cais do porto, a praça do mercado, o comércio, a sé - simbolicamente representadas, na literatura como no jornalismo, e não por acaso, pelo “passeio comercial” frequentado pela burguesia em ascensão.

Nos termos do texto sobre Porto Alegre já citado, o nascimento do “Centro” metropolitano é

(..) uma mudança geográfica radical e meteórica na escala temporal da modernidade urbana, portadora de uma percepção coletiva do espaço inteiramente renovada ainda que pouco acessível aos hábitos mentais das antigas gerações: sua transposição para a linguagem corrente levaria ainda algumas décadas para se completar. Trata-se, mais exatamente, de uma revolução semântica fundada na mudança de percepção da estrutura do espaço em que se vive: não mais uma coleção de arraiais ao redor da cidade, mas uma única urbe expandida por justaposição de parcelamentos lindeiros a vias radiais servidas por transportes mecânicos, que tudo ligam ao que agora é “centro”. [15]

Para corroborar o quão lenta parece ter sido, nas metrópoles brasileiras, a incorporação do novo fato geográfico - o Centro da cidade - à linguagem cotidiana, acrescentei às notas daquele artigo um depoimento pessoal:

Ainda na minha infância, na Niterói na década de 1960, meus pais diziam “vamos à cidade”. O ônibus 30 era a linha Martins Torres-Cidade. [16]

A emergência, no transcurso do século XX, do termo 'centro' para designar o que antes era apenas 'cidade' se apresenta, pois, como uma interessante linha de pesquisa acessória ao tema da transformação da urbe colonial-imperial em metrópole capitalista. Ainda que tardia, ela é uma prova material, e das mais convincentes, de que uma cidade radicalmente diferente surgiu da urbanização de mercado iniciada, no Brasil, em fins do século XIX.

*

Não faz muito tempo encontrei, em um excelente artigo de Capretz e Manhas (2006) sobre a urbanização do Núcleo Colonial Antônio Prado, fundado em 1887 na periferia rural de Ribeirão Preto, a seguinte informação:

Havia três acessos do núcleo colonial para o núcleo urbano já existente, que era chamado de “cidade” (..). A Sede [área verde da figura abaixo] (..) foi concebida com a finalidade de constituir um prolongamento da “Cidade” e, por este motivo, esses lotes eram denominados “urbanos”. [17] [Aspas dos autores]


Ao longo do século XX, toda a área do Núcleo Colonial Antônio Prado foi absorvida pela expansão urbana radiada de Ribeirão Preto - como ocorre, aliás, com a maioria, se não a totalidade, das cidades e urbanizações ditas planejadas. Como explica Capretz em outro texto, hoje a maior parte dos bairros oriundos da Colônia participa da “geografia social da cidade” como “território da pobreza”, por oposição ao vetor que parte do “quadrilátero central”, a antiga ‘cidade’, em direção ao sul, onde se concentram “valores imobiliários altos, habitações luxuosas, alto consumo e mais investimentos públicos”. [18] [Os termos entre aspas são da autora].



A pesquisa continua. E a metrópole que escolhi para hospedar sua próxima etapa é Salvador, Bahia, onde a construção da centralidade recebe de Milton Santos, na "Nota Prévia" ao seu ensaio de 1959 intitulado O Centro da Cidade de Salvador, o seguinte relato:

O crescimento recente da cidade e a expansão de suas atividades conduziram à modificação da fisionomia do centro, provocando o aparecimento de grandes edifícios, construídos nos espaços vazios, ou substituindo velhas casas. É a esse conjunto que os baianos chamam "A Cidade", quando se referem à parte alta, e "O Comércio", quando falam da parte baixa do centro de Salvador. É aí que a vida urbana e regional encontra o seu cérebro e o seu coração." [19]
______
NOTAS

[1] WIKIPEDIA, "Cidade Nova (Rio de Janeiro)", edição 03-09-2022
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade_Nova_(Rio_de_Janeiro)

[2] ALENCAR José de, A Pata da Gazela (1870), em Obras Completas de José de Alencar II: Romances Urbanos p. 454. Edição do Kindle.

[3] AZEVEDO Aluísio, O Cortiço (1890), em Obras Completas de Aluísio Azevedo II: Romances vol. 2 (1889-1901). Edição do Kindle.

[4] MACHADO DE ASSIS J M, "Maria Cora", em Relíquias da Casa Velha (1906). Edição do Kindle.

[5] JORGENSEN P, "Porto Alegre cidade radiocêntrica". À beira do urbanismo (blog) 21-05-2020
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2020/05/porto-alegre-cidade-radiocentrica-2_30.html

[6] Ibid. 

[7] HURD R M, Principles of City Land Values. New York: Record and Guide, 1903, p. 56
https://archive.org/details/principlesofcity00hurdrich/page/n4/mode/1up

[8] ALENCAR José de, Alfarrábios - crônicas dos tempos coloniais (1873). Edição do Kindle.

[9] ABREU M, Evolução Urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLANRIO 1997, p. 43.  

[10] VILLAÇA F, Espaço Intra-Urbano no Brasil p. 33.

[11] Ibid. p. 132.

[12] JORGENSEN P,  op. cit 

[13] Ibid. 

[14] VILLAÇA F, op. cit. 

[15] JORGENSEN P, op. cit. 

[16] JORGENSEN P, op. cit.

[17] CAPRETZ A e MANHAS M, "Traçado urbano e funcionamento do núcleo colonial Antônio Prado em Ribeirão Preto (SP), 1887". I Simposio Brasileiro de Cartografia Histórica, Paraty, Maio 2011.
https://www.ufmg.br/rededemuseus/crch/simposio/CAPRETZ_ADRIANA_E_MANHAS_MAX_PAULO.pdf

[18] SILVA A C B, Campos Elíseos e Ipiranga: memórias do antigo Barracão. Ribeirão Preto SP: Editora COC 2006
https://aeaarp.org.br/upload/downloads/20200527153648acapretz-camposeliseosipiranga.pdf

[19] SANTOS M (1959), O Centro da Cidade de Salvador, p20.
https://www.academia.edu/38732387/MILTON_SANTOS_o_Centro_da_Cidade_do_Salvador



2022-09-27

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

LE GOFF 1998: Ville, cité



LE GOFF Jacques, Por Amor às Cidades - Conversações com Jean Lebrun. Tradução Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes. - São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998
https://www.academia.edu/11656716/por_amor_as_cidades_jaques_le_goff


“(..) Não nos esqueçamos de que a palavra "ville", para designar aquilo que chamamos de cidade, é muito tardia. Até os séculos XI e XII, escreve-se quase que estritamente em latim e, para designar uma cidade, usa-se "civitas", "cite". Ou urbs, a rigor, mas basicamente civitas. E, quando as línguas vernáculas aparecerem, o termo "cite" vai permanecer por muito tempo. "Ville" tomará o sentido urbano apenas tardiamente, já que, como você lembrou, antigamente a palavra designava de fato um estabelecimento rural importante. Uma "villa" - não se deve pensar numa casa de subúrbio atual - é o centro de um grande domínio. Do ponto de vista dos materiais, a construção permanece em geral bastante modesta, mesmo quando se usa a pedra: não se pode falar de castelo. Enfim, a villa é um domínio com um prédio principal que pertence ao senhor; em consequência, é um centro de poder, não apenas de poder económico, mas também de poder em geral sobre todas as pessoas, os camponeses e os artesãos que vivem nas terras ao redor. Desse modo, quando se passa a dizer, em francês, "Ia ville" (o italiano conservará o termo citta), marcar-se-á bem a passagem do poder do campo para a cidade. O termo "villa", esse se aplicará à aldeia nascente a partir dos séculos IX e X. (..)”


2022-09-21

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Socialismo de rendas


Nit / Portugal 04-09-2022
https://www.nit.pt/fora-de-casa/na-cidade/estudo-confirma-lisboa-e-das-cidades-mais-inabitaveis-do-mundo


Os custos de habitação, os salários baixos e o mercado imobiliário sufocado pelo turismo são os principais fatores apontados.

De acordo com um estudo publicado em junho, pela iVisa, Lisboa é considerada a cidade mais feliz do mundo. No entanto, segundo a revista norte-americana “Jacobin”, é também um dos locais menos viáveis para habitar. Parece paradoxal, mas os custos de habitação e os salários baixos levaram à classificação da capital portuguesa como a terceira mais inabitável do mundo, segundo o ranking elaborado em março pela seguradora imobiliária britânica CIA Landlord Insurance citado pela publicação.

“Os custos de habitação em Lisboa são tão elevados que é ainda mais inviável para os inquilinos do que Nova Iorque”, começa por mencionar a publicação internacional. A esta informação, o geógrafo Agustín Cocola-Gant acrescenta que os residentes “têm que dedicar entre 50 a 60 por cento do seu salário à renda, se tiverem um emprego bem remunerado”, um cenário que exclui da equação quem recebe o salário mínimo.

Nos últimos anos, assistiu-se à crescente redução da população residente na cidade. Muitos jovens optam por viver em localidades mais acessíveis da área metropolitana, a população idosa é forçada a sair dos bairros onde passaram toda a sua vida — graças à gentrificação — e Lisboa tornou-se refém de políticas de turismo que agravam os problemas habitacionais. (..)

2022-09-14

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Fictitious capital, real estate


NY Times 28-08-2022, por Farah Stockman 

Texto: Farah Stockman/NYT
Imagem: Álvaro Bernis/NYT
Que os imóveis ditos de alto padrão são um meio privilegiado de lavar grandes somas de dinheiro ilegal não é de estranhar. Nas localizações privilegiadas do mundo inteiro, hoje ao alcance da demanda planetária, o preço de transação dos produtos imobiliários não tem qualquer relação com o preço de produção: vale o que o demandante estiver apto e disposto a pagar pelo direito de ocupar o solo que os ancora. Quando muito o fisco poderá alegar que o preço é um outlier da própria espiral de valorização.

Por essa mesma razão eu considero a hipótese, menos respulsiva mas muito mais instigante, de que o mercado imobiliário de médio e alto padrão também lava dinheiro "limpo": por exceder em muito o valor que o trabalho é capaz de criar considerando os meios colocados à sua disposição, parte considerável, se não a maior, do lucro gerado na indústria da incorporação é pura renda fundiária de localização; em vez de produto real, mera transferência patrimonial. 
Sem falar da faculdade que têm os bens imobiliários de gerar rendas de localização até muito depois de cumprida a sua missão como mercadoria. 

Não por acaso, em uma época de concentração imparável dos rendimentos, redução relativa da massa salarial, precarização generalizada do trabalho e altas taxas de desemprego, o crescimento econômico vem sendo sustentado em boa parte do mundo pela alavancagem financeira lastreada na expectativa de valorização acelerada dos imóveis urbanos bem localizados.

Não foi o dinheiro sujo investido em imóveis que derrubou a economia planetária em 2008 (e hoje atormenta a economia chinesa e todos os que dela dependem): foi o dinheiro limpo.

O capital fictício e a propriedade imobiliária parecem fazer um casamento perfeito. Ou não? 

2022-09-07


terça-feira, 23 de agosto de 2022

Anscombe Flats, Nova Zelândia

Art Deco New Zealand
Anscombe Flats, Oriental Bay, Wellington
Built in 1937

Anscombe Flats is named for Edmund Anscombe (1873–1948) one of New Zealand’s most distinguished 20th century architects. He bought the land in 1933, and planned to sell the apartments and live on the top floor. The building was completed in 1937 and Anscombe lived there until his death in 1948. This is one of three celebrated apartment buildings he designed in Wellington. The Moderne style of the building is well demonstrated in the rounded corners and moulded window hoods. The semi-circular penthouse floor is a particular delight, although it was altered in 2002. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

O traçado de BH: uma nota

Avenida Afonso Pena em Belo Horizonte MG. Em primeiro plano, a Rodoviária da capital.
Foto Gustavo Simões/Aboutripics 


Considerando que as direções principais de um plano de urbanização são dadas pela orientação geral das quadras, temos que em Belo Horizonte quase todas as grandes avenidas são diagonais, a começar pela principal, a Afonso Pena, que aqui temos em perspectiva.

A multiplicação de esquinas em ângulo agudo, se por um lado impõe uma interessante variedade arquitetônica aliás muito apropriada ao estilo decô, por outro torna muito mais complexa a engenharia dos cruzamentos e complicado o mais elementar dos movimentos urbanos - atravessar a rua. Eu, que pouco frequento o "Contorno" de BH, invariavelmente me confundo e me perco nessa singular superposição de tabuleiros.

Faz todo sentido associar o plano de Belo Horizonte ao de La Plata, Argentina, até porque são da mesma época e tradição conceitual. Contudo, embora não conheça a cidade arrisco dizer que o grid de La Plata é mais claro para o transeunte porque mais monumental, isto é, inequivocamente comandado pelo duplo eixo SW-NE para cujo ponto médio, que é também o centro do tabuleiro, convergem as duas grandes diagonais; as demais, nitidamente secundárias, convergem por sua vez para outros tantos pontos de destaque do eixo principal, definindo, ou pretendendo definir, a centralidade urbana. Princípio parecido foi adotado por Torres Gonçalves em Erechim, na primeira década do século XX.

Embora primos-irmãos da família urbanística que alguns chamam “dos traçados” e outros tantos de “positivista”, vistos de perto os planos de Belo Horizonte e La Plata me parecem apresentar uma importante distinção: ao passo que o segundo tem um substrato cientificista a serviço de um ideal barroco, comandado, 
como um grande jardim francês, por um eixo monumental que é também de simetria e arrematado por uma perimetral que define o conjunto, o primeiro tem um aspecto modular precocemente modernista - seu eixo de simetria, quase imperceptível, é uma diagonal secundária desprovida de atributos de centralidade urbana e a Avenida do Contorno um limite irregular e circunstancial da urbanização que não integra a arquitetura do traçado.

2022-08-09

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Gestão Pública da Valorização do Solo Urbano: Estudos de Caso

Empreendimentos Paço Real e terreno público da Av. Rotary Internacional
(Texto para discussão no âmbito do GT do PRI de São Cristóvão)
https://drive.google.com/file/d/1U5Coh0OI_y5VhQMAmsCrOAo5Xkuk2ptT/view?usp=sharing

Por Antônio Augusto Veríssimo, Arq., junho de 2008


O presente trabalho tem por objetivo apresentar estudos de caso que demonstram o potencial do mercado imobiliário para a geração de recursos para o financiamento de intervenções públicas em áreas de renovação urbana. 

O conceito que orienta este trabalho é o da Gestão Pública da Valorização do Solo Urbano que pressupõe que o poder público tem o direito - e mesmo o dever - de recuperar para a coletividade parte da valorização imobiliária gerada por ações coletivas, tais como alterações na norma urbanística, investimentos públicos e outras ações de caráter público ou particular, que hoje são apropriados de forma privada, reinvestindo-a em melhorias urbanas.

Os fundamentos legais para esta recuperação estão presentes no texto do Estatuto da Cidade, nos incisos IX e XI do Artigo 2º que determina, como diretriz da Política Urbana, a justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do processo de urbanização e a recuperação dos investimentos do Poder Público de que tenha resultado a valorização de imóveis urbanos.

Os casos em estudo são os empreendimentos Paço Real, localizado no Bairro de São Cristóvão, na Rua Euclides da Cunha n.º 243/281 e um estudo de viabilidade econômica para um terreno público municipal situado junto às instalações da Imprensa Oficial na Av. Rotary Internacional (ver ilustrações 1 e 2).

Para o cálculo da valorização agregada ao imóvel foi utilizado o método residual, também denominado método involutivo, seguindo os procedimentos constantes da apostila do Curso de Engenharia Legal ministrado pelo Professor Engenheiro Sérgio Antonio Abunahman [1].

O método utilizado

Para a utilização do método residual ou involutivo, também conhecido como do máximo aproveitamento eficiente, é necessário que se elabore inicialmente um estudo de viabilidade, com base na legislação vigente, buscando-se o aproveitamento máximo do terreno, ou seja, é necessária a realização de um estudo prévio arquitetônico que leve em conta o maior e melhor uso para o terreno, sob o ponto de vista legal e econômico. É necessário também um bom conhecimento das demandas e do preço de mercado para os produtos unitários equivalentes que permitem este maior e melhor uso no local, que podem ser: unidades habitacionais (apartamento ou casas); unidades comerciais (lojas ou escritórios) ou usos mistos que combinem apartamentos e lojas, ou escritórios e lojas ou edificações para indústrias ou serviços, se for o caso. 

Conhecendo-se o número máximo de unidades passíveis de serem produzidas e comercializadas no local, com base no estudo arquitetônico e de mercado efetuado, bem como seu valor de comercialização, pode-se determinar o produto geral de vendas - PGV, ou seja, o resultado em termos financeiros a ser apurado após a venda no mercado de todas as unidades produzidas. 

Conhecido o PGV esperado é possível iniciar os estudos para a verificação da viabilidade econômica do empreendimento. (Continua)

Acesse o artigo completo em PDF pelo link
https://drive.google.com/file/d/1U5Coh0OI_y5VhQMAmsCrOAo5Xkuk2ptT/view?usp=sharing

2022-07-27

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Kriedte 1987: Cidade e proto-industrialização


KRIEDTE P, “La ciudad en el proceso de protoindustrialización europea". Manuscrits: Revista d’història moderna No. 4-5, 1987, pp. 171-208
https://ddd.uab.cat/record/39321

York, Inglaterra 1611

“(..) en Sedan en el siglo XVIII se limpiaba la lana, se tundian las piezas y se sometían los paños al acabado final. Mientras que los paños se batanaban y también, en parte, se tejían en los suburbios de Sedan, la fabricación de hilo, en su totalidad, y la tejeduría, en su mayoria, se localizaban en el campo, en los alrededores menos o más cercanos a Sedan, respectivamente. Valenciennes halló en el prometedor comercio del blanqueo, que se habia expandido rapidamente en el siglo XVIII, una relativa compensación al desplazamiento de la tejeduría hacia el campo. También el comercio de la indiana, una de las manufacturas que se habian desarrollado con más rapidez durante el siglo XVIII, tenia generalmente su emplazamiento en la ciudad. Hay que mencionar aqui las prensas de indiana de Manchester, Rouen, Mühlhausen, Augsburgo y Chemnitz. Junto a esto existian importantes excepciones como las prensas de indiana en Cartalloid o la de Oberkampf en Jouy.

Por tanto, la ciudad cedió partes particularmente intensivas del proceso productivo como la hiladuria y la tejeduria al campo, pero se reservó, aparte de la dirección del proceso, aquellas partes, que al precisar una menor intensidad de trabajo, podian, consecuentemente, centralizarse y de las que dependia de forma decisiva la calidad del producto. Ocasionalmente, la pérdida parcial de la función urbana siguió avanzando hasta una pérdida total, cuando, con el abandono del comercio junto con la manufactura, la ciudad perdió no solo su función como centro de producción, sino también como centro de organización y de distribución. Esto ocurrió sobre todo allí donde surgieron centros de producción, similares a los urbanos, en el entorno de una ciudad determinada, que se hicieron independientes de aquellas en todos los aspectos. York, que durante la Edad Media habia sido el centro de producción de paños de lana más importante de Yorkshire y que habia perdido esta posición en el siglo XV en favor de la manufactura pañera rural y expansiva en West Riding, pudo mantener en principio sus funciones comerciales, pero también las perdió hacia el 1700. En los alrededores de Colonia surgieron con Solingen y Remscheid (pequeña siderurgia), por un lado, y con el valle del Wupper (Wuppertal), Lennep, Krefeld y Mühlheim am Rhein (lino, paño y seda), por otro lado, las primeras metrópolis manufactureras de la comarca renana totalmente independientes. (..)”


Acesse o artigo completo pelo link
https://ddd.uab.cat/record/39321

2022-07-20

 

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Atkins 1998: Cidade e proto-industrialização


ATKINS P J et al, “Chapter 12: Urbanization and Proto-industrialization”, in People, Land and Time. London: Hodder Arnold 1998
https://www.academia.edu/10684390/Urbanization_and_proto_industrialization

“(..) In the twelfth century most industry was urban-based. Weavers, iron and lead workers, coopers, leather workers, potters and other craftsmen used local raw materials and served the local market. From about 1300 to 1700 the link between towns and industry became more tenuous as entrepreneurs took up opportunities in the countryside, and gradually regions developed specialisms such as a particular type of cloth or metalwork. One factor was organization. In urban areas the craft guilds regulated production and sought to protect the interests of their members, but they also had a stifling effect upon innovation and acted to keep out newcomers. In contrast, in the countryside there were few restrictions. Such was the shift in the centre of gravity of manufacturing that the prosperity of some towns was seriously threatened. Technology was also important. Human muscle power was the main input in urban workshops but from the mid fourteenth century on there was a greater use of water power and wood charcoal as fuel. In the textile industry, for instance, the water-driven fulling mill was adopted from the thirteenth century as a labour-saving device for cleaning and finishing woollens. Mendels (1972) and other writers have argued that a set of conditions existed in the early phase of industrialization that were very similar in the establishment of rural centres of manufacturing throughout western Europe. These may be conveniently summarised in three points: 

· Small-scale domestic production, using patriarchally-directed family labour, was cheap and flexible. It made use of the time available between tasks on the farm. The fit with the daily rhythms of livestock farming was better for this than arable areas where the seasonal peaks of ploughing, sowing, weeding, harvesting and threshing left little spare time.

· Such dual economies were characteristic of areas of harsh environment where the industry provided a welcome supplement to agricultural income. They were also encouraged where there were limited resources for expansion, for instance where commons were stinted.

· Rural industry also seems to have been popular in regions with a rapidly growing population, for instance where inheritance practices stipulated the division of a father’s properties equally among his sons. This partible inheritance anchored population to the land but impoverished successive generations as the average size of farms declined. Population also grew where manorial control was weak and unable to prevent immigration. In these sorts of areas industry was a means of providing work for the underemployed. 

Since many rural industrial economies were distant from both their raw materials and their markets, they relied upon intermediaries, often urban-based merchants who organized channels of assembly and distribution and who could deal with the transport of bulky commodities. Some merchants came to control the quality and quantity of output by their clients in a sophisticated putting-out system. This involved an increasing investment by the merchant until s/he owned the raw materials and machinery used in the rural workshop, reducing the craftsmen and their families almost to wage labour. The concentration of economic power in the hands of a few wealthy merchants was sometimes a precursor to the industrial capitalism of a later age, but there were exceptions.

Not all of the proto-industrial regions fulfilled the conditions listed by Mendels. Neither of the textile-producing regions of Suffolk or south Yorkshire, for instance, could be called marginal agricultural economies. Nor can we say that all proto-industrial regions were longterm successes leading to the development of factory-based industrialization and large scale urban growth. Some did, as in the Lille district of north eastern France and the lower Rhineland of Germany (Pounds 1985). Others waned and returned to agriculture, leaving only traces of their former glory. The textile villages of the Suffolk-Essex border are the classic example of this latter phenomenon, where it is frankly difficult to believe on present inspection that they were once hives of industry, and other areas of vigorous proto-industry have declined, such as the textile districts in northern Italy, Catalonia (Spain) andL ód_ (Poland). Some hearths of the Industrial Revolution, such as the north east of England or south Wales, had little or no tradition of rural industry and started as it were from scratch in the eighteenth and nineteenth centuries.

The landscape impact of proto-industry was minimal. The energy needed was derived from wind or water, or just from human or animal muscle power. Where wood or charcoal were employed, for instance in iron smelting, renewable resources were drawn upon in the shape of managed woodlands (Chapter 6). Mining technology was primitive, leaving only the remains of bell pits or adits, and the miners operated in small groups so that workings were localized and superficial. The dual economies of farming and textile industries would have merged into their rural background, with only minor architectural modifications such as spinning galleries or well-lit weaving sheds to show. The only major landscape modifications came in those districts which went on to participate in the Industrial Revolution, and the evidence of their early beginnings have often been obliterated. (..)

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https://www.academia.edu/10684390/Urbanization_and_proto_industrialization

2022-07-13