segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

TCM-SP breca xepa de CEPACs!

Deu n’O Estado de S Paulo
13-01-2022, por Circe Bonatelli
https://economia.estadao.com.br/blogs/coluna-do-broad/leilao-de-titulos-da-construcao-na-zona-sul-de-sp-pode-movimentar-r-348-mi/

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Imagem e texto: O Estado de S Paulo
Leilão de títulos da construção na Zona Sul de SP pode movimentar R$ 348 mi

Observação #1. “Cepacs são títulos que permitem às construtoras erguerem prédios acima dos limites estabelecidos por lei em cada bairro” é uma definição recorrente, mas totalmente equivocada. Os Cepacs não permitem construir “acima dos limites estabelecidos por lei”, mas acima dos coeficientes básicos de aproveitamento dos terrenos, até os limites máximos permitidos pela lei.

Observação #2. Ofertar hoje a R$ 1.450,00 Cepacs que foram vendidos 10 anos atrás por R$ 1.282,00 é no mínimo estranho, para não dizer altamente suspeito. Uma rápida pesquisa de preços na área urbana dessa OUC revela uma ordem de grandeza de preço de R$ 10.000,00 / m2 privativo. Se estimarmos o valor da terra em 40-45% nessa faixa de preço, temos R$ 4.250,00/m2, 50% do qual, proporção adequada para Cepacs, atinge um valor de R$ 2.150,00, quase igual aos R$ 2.175,00 exigidos pelo Tribunal de Contas do Município. Ponto para o TCM!

Observaçao #3. “Os leilões também atraem investidores, que depois podem vender os Cepacs no mercado secundário, em Bolsa” é uma verdade, cuja relevância costuma ser, no entanto, bastante exagerada. Os CEPACs circulam muito menos do que se imagina no mercado financeiro. Cito a mim mesmo:

“O fato de os CEPACs poderem ser transacionados na bolsa de valores lhes confere certa flexibilidade como ativos, mas não os transforma em ações, ou títulos de dívida pública de longo prazo, que podem valorizar-se e circular indefinidamente no mercado financeiro; não modifica a sua natureza essencial de certificados de direito sobre a renda da terra a ser extraída de empreendimentos imobiliários apenas possíveis no espaço e no tempo da Operação Urbana Consorciada que os emitiu para financiar-se. Nem o ímpeto da economia em geral nem a saúde de tal ou qual empresa: o preço dos CEPACs no mercado de títulos reflete, pura e simplesmente, a expectativa de valorização dos produtos imobiliários que poderão ser construídos no perímetro da OUC. Em outras palavras, o CEPAC é servo da terra, condenado a transformar-se em empreendimento imobiliário nos termos e prazos estipulados pela OUC. Além deles, perde todo o seu valor.” [*]

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"CEPACs, ainda  uma vez". À beira do urbanismo 05-12-2020 

2022-01-24

domingo, 16 de janeiro de 2022

Competição impossível: famílias vs. empresas


Jacobin 06-01-2022, por John Clark
https://jacobinmag.com/2022/01/canada-housing-market-real-estate

When Canada’s Housing Bubble Pops, It Will Cause Misery and Ruin

As recently as ten years ago property speculators were a minority amongst Ontario’s home buyers. Investors now surpass first-time buyers as well as the total number of people moving between homes. According to a recent report, between January and August of last year investors were responsible for a quarter of house purchases in the province.

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Fonte: https://www.cbc.ca/news/canada/toronto/investors-in-ontario-real-estate-market-1.6258199


These speculative investments are, of course, driving up prices. They are also creating major problems for the economy as a whole because the rising cost of housing has increased the amount of private debt held by individuals. (..)

In the last two decades, home prices have gone up by 375 percent in Canada. These increases have been especially marked in in Toronto and Vancouver, where prices have swelled by 450 and 490 percent respectively. This rise far outstrips any other developed markets in the world. In recent years, an incredible gulf has opened between house prices and real income. (..)

2022-01-16

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

UK Railways: quem vai pagar a conta?

The Guardian
10-01-2022
https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/jan/10/uk-railways-nationalise



Railways have always been a catalyst of economic growth and prosperity, but politicians throughout history have often failed to recognise this. Some are commercially successful, some aren’t. So what? No one ever asks why the B-road to Nether Hopping should be kept open even though few cars use it on a daily basis.

A properly funded, properly configured railway would cost a lot of money over the next few years until passenger numbers recovered, but railways are more than trains and tracks: they are an essential part of the fabric of the country.


Leia neste blog
“Transmilenio: quem vai pagar a conta?”, À beira do urbanismo 08-01-2022
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2022/01/transmilenio-quem-vai-pagar-conta.html

 2022-01-12


sábado, 8 de janeiro de 2022

Transmilenio: quem vai pagar a conta?

Deu n'O Globo
03-01-2022, por Ivan Martínez-Vargas
https://oglobo.globo.com/mundo/exemplo-internacional-sistema-de-transporte-de-bogota-baseado-em-brt-enfrenta-crise-25339198

Exemplo internacional, sistema de transporte de Bogotá baseado em BRT enfrenta crise


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O Transmilenio de Bogotá, conquista histórica da cidadania colombiana, pode estar maduro para ser parcialmente substituído por uma ou duas linhas de Metrô. Contudo, em se tratando de serviço público, temos de ficar de pé atrás com a imprensa em geral: interesses privados (operadoras, empreiteiras) costumam ser a força motriz de seus critérios editoriais. 

A crítica do déficit do Transmilênio tal como veiculada não tem valor algum: sistemas de transporte urbano em grandes cidades são inapelavelmente deficitários pela simples razão de que a tarifa que cobre seus custos de implantação e operação já não cabe, faz tempo, no bolso da imensa maioria dos usuários. A circulação é a mãe de todas as deseconomias metropolitanas e o subsídio coletivo à mobilização - e ao custo! - da força de trabalho a primeira lei do transporte urbano. 

Significa dizer que a eficiência econômica de um sistema integrado de transporte urbano metropolitano não se pode medir pela razão custo/tarifa, mas pela relação entre o déficit e algum indicador do benefício econômico geral, digamos, o PIB. Mesmo aumentando exponencialmente o déficit, a substituição de partes do Transmilenio por Metrô pode se mostrar uma exigência da economia municipal bogotana e até da economia nacional colombiana! 

A ideia recorrente de que a privatização dos transportes reduz o déficit é um embuste: os privados não arcam com os custos de implantação e aquisição de material rodante e a fragmentação do sistema gera desarranjos em cadeia que o tornarão ainda mais caro a longo prazo. As concessões são meras oportunidades de gestão monopolista de pedaços da rede e seus componentes - a operação, de preferência - às expensas do conjunto. 

O problema do financiamento do déficit do sistema integrado de transportes é que as possíveis rubricas, ou fontes de recursos - impostos municipais, exploração de terrenos e publicidade, impostos estaduais sobre a propriedade e a circulação automotiva, tesouros municipal, estadual e federal etc., - afetam desigualmente os distintos segmentos da população e da própria administração pública, gerando inevitáveis disputas. No fundo, trata-se de um debate de tipo tributário: qual parcela do custo de mobilização da força de trabalho será paga pelos próprios trabalhadores, qual será paga, e como, pelos demais “atores sociais”.

A escolha dos candidatos preferenciais ao financiamento dos transportes nas grandes metrópoles não deveria ser difícil. As agências de desenvolvimento econômico nos garantem que as metropoles são as usinas geradoras da riqueza planetária [1],  o Índice Bilionários da Bloomberg estima que a fortuna dos superricos cresceu 1 trilhão de dólares em 2021 [2] e a própria mídia impressa e virtual vem oferecendo aos embasbacados cidadãos o espetáculo dos biliardários gastando o seu suado dinheirinho em passeios turísticos pelo espaço sideral.[3] Basta ligar os pontos. 

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[1] UN-HABITAT, The Economic Role of Cities. The Global Urban Economic Dialogue Series, United Nations Human Settlements Programme. Nairobi 2011
https://unhabitat.org/economic-role-of-cities

[2] “Um ano bom para os superricos: fortuna do clube de Musk cresceu US$ 1 tri em 2021”, Valor Empresas 01-01-2022, por Devon Pendleton e Jack Witzig, Bloomberg
https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/01/01/um-ano-bom-para-os-superricos-fortuna-do-clube-de-musk-cresceu-us-1-tri-em-2021.ghtml

[3] “Voo de Branson abre corrida de bilionários no turismo espacial”. Nexo 11-07-2021, por Redação.
https://www.nexojornal.com.br/extra/2021/07/11/Voo-de-Branson-abre-corrida-de-bilion%C3%A1rios-no-turismo-espacial

2022-01-08

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Pedra cantada

Deu no InfoMoney
27-12-2021, por Giovanna Sutto
https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/demanda-por-compra-de-imoveis-no-interior-esfria-mas-precos-seguem-em-alta/


Demanda por compra de imóveis no interior esfria, mas preços seguem em alta

Imagem: Internet
"(..) Ano passado muito se discutiu o fenômeno do êxodo urbano, com famílias procurando casas no interior para terem mais espaço e qualidade de vida. Porém, é unanimidade entre os especialistas que esse processo foi pontual.

Segundo Alberto Ajzental, coordenador do curso em Desenvolvimento de Negócios Imobiliário da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a demanda é sinal claro disso. “É um fenômeno que acontece com uma fatia pequena da população, entre outros pontos porque é caro e também porque não são todas as profissões que permitem o trabalho remoto”, avalia.

“Nunca foi um processo universal. Além disso, muita gente comprou terreno e ainda não construiu porque está na dúvida do que faz agora: vai conseguir passar mais tempo na casa? será apenas para veraneio? vale o investimento? Fica fácil ir e voltar? Quanto mais longe de São Paulo, mais difícil adotar o trabalho híbrido e mais provável reverter a decisão e voltar para a cidade com centro urbano, deixando o imóvel no interior para feriados e fim de ano”, diz o professor. (..)"


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Sobre o tema, leia neste blog

[1] “Revoada seletiva”, À beira do urbanismo 01-05-2021 https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2021/03/interiorizacao-metropolitana.html

[2] “Interiorização metropolitana”, À beira do urbanismo 12-05-2021
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2021/02/revoada-seletiva.html

[3] “15 minutos de prudência”, À beira do urbanismo 18-05-2021.
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2021/05/15-minutos-de-circunspeccao.html

[4] “Interiorização à francesa”, À beira do urbanismo 19-06-2021 https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2021/06/interiorizacao-metropolitana-francesa.html

2022-01-04 


sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Metapirâmide financeira

Deu no Estadão / Negócios
06-12-2021, por Paulo Silvestre
https://brasil.estadao.com.br/blogs/macaco-eletrico/por-que-alguem-pagaria-r-134-milhoes-por-um-terreno-que-so-existe-na-internet/

Por que alguém pagaria R$14,3 milhões por um terreno que só existe na Internet?

Para mim, trata-se de um entretenimento tão extravagante quanto os passeios espaciais dos multibiliardários. Um jogo de azar em que o apostador parte do princípio de que sempre haverá outro apostador que lhe cubra a parada. O que me mais me chama a atenção, embora não supreenda, é o destaque que lhe dão os cadernos de negócios especializados em... imóveis!

Imagine agora o leitor que, nessa mesma sociedade virtual em cujo mercado imobiliário especuladores reais aplicam o seu dinheiro, seja criado um entretenimento virtual em que os avatares dos avatares comprarão e venderão imóveis com dinheiro desses mesmos especuladores - e assim por diante até o dia em que estes se darão conta de que todo o seu capital desapareceu no infinito dos espelhos.

2021-12-27

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Decô soviético

Publicado no Facebook
07-12-2021, por Laurent Beaudouin, Arquiteto

Dans les parties semi-circulaires du bâtiment ont été placés un puisard, un château d'eau, des filtres américains, des pompes primaires et un réservoir d'eau sous pression. Le bâtiment à l'arrière abritait sept chaufferies. Le bâtiment a été récemment lourdement restauré.

Fábrica de tecidos Bandeira Vermelha ("Krasnoe Znamya"), Rua Pionerskaya, S Petersburgo, Rússia - 1925-1926, Erich Mendelsohn (1887-1953) e Iakov Tchernikhov (1889-1951).

2021-12-19

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

A guerra pelos lugares centrais

Deu no El País Economía
06-12-2021, por José Luis Aranda
https://elpais.com/economia/2021-12-06/los-ricos-desalojan-a-los-pobres.html

Los alquileres destierran a los más débiles del centro de las ciudades

Puente de Vallecas, Madrid 
Imagem: Google Earth. Texto: El País. 
Este artigo nos obriga a refletir sobre o alcance da propalada “migração em massa” de trabalhadores qualificados aderidos ao home-office para o "interior", urbano ou rural, de seus respectivos países, na maioria dos casos cidades satélites e condomínios fechados na franja urbano-rural das próprias metrópoles. 

A proliferação de microapartamentos e do coliving nas regiões pericêntricas das grandes cidades - do Brasil, Europa, Ásia e até dos EUA, onde a classe média ocupa e seguirá ocupando vastas extensões suburbanas - é um claro indício de que, no pós-pandemia, as cidades globais continuarão sendo as usinas propulsoras do crescimento econômico planetário, fonte da imensa maior parte dos empregos e cenários permanentes da guerra pelos lugares centrais, cujo resultado é empurrar os trabalhadores de menor qualificação e as famílias de mais baixos rendimentos para bairros progressivamente mais periféricos, onde, de maneira geral, a localização é menos conveniente e a urbanização menos satisfatória.  

2021-12-23

domingo, 19 de dezembro de 2021

Bens públicos, negócios privados: a guerra das concessões

Deu n'O Globo 08-12-2021, por Geralda Doca
Governo avalia limitar expansão de voos no Santos Dumont e construir metrô até a Ilha do Governador para 'salvar' Galeão 

Montagem: À beira do urbanismo
Imagens originais: Internet

O governo trabalha em duas frentes para vencer resistências do governo do Rio à privatização do Santos Dumont. Autoridades locais temem um esvaziamento do Galeão (Tom Jobim), que pode perder ainda mais voos internacionais e isolar a cidade, com um eventual crescimento do terminal central da capital.

Uma das opções é limitar a expansão dos voos no Santos Dumont para dar tempo de recuperação do Galeão. Essa é uma das demandas das autoridades do Rio, que pessionam para liberar o avanço do Santos Dumont, inclusive para rotas internacionais, quando a cidade atingir patamares mínimos de passageiros.

A outra opção em estudo pelo governo federal é usar os recursos das outorgas da concessão dos terminais para a construção de um metrô ligando os dois aeroportos, projeto de R$ 5,5 bilhões.

2021-12-15

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Debate necessário

Publicado em Sin Permiso
02-12-2018, por Michael Roberts
https://www.sinpermiso.info/textos/financiarizacion-o-rentabilidad

¿Financiarización o rentabilidad?

La financiarización, como el neoliberalismo, es la palabra de moda entre los los economistas heterodoxos y de izquierdas. Domina las conferencias académicas de izquierda y círcula como el tema que supuestamente explica las crisis, así como una de las causas del aumento de la desigualdad en las economías capitalistas modernas, sobre todo en los últimos 40 años. La última manifestación de esta hipótesis de la financiarización es de Gracie Blakeley, una economista de izquierda británica, que parece ser una estrella emergente en el Reino Unido. En un artículo reciente, presenta todos los argumentos de la escuela de la financiarización.

Pero, ¿qué significa el término 'financiarización' y que valor añade a nuestra comprensión de las contradicciones del capitalismo moderno? y ¿nos orienta políticamente para cambiar las cosas? No lo creo. Esto se debe a que o bien el término se utiliza tan ampliamente que proporciona muy poca información adicional; o se concreta de manera tal que es tanto teórica como empíricamente equivocado. (Continua)


Acesse o texto completo pelo link
https://www.sinpermiso.info/textos/financiarizacion-o-rentabilidad

2021-12-23

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

A febre do ouro

Deu no Monitor do Mercado 30-11-2021
https://monitordomercado.com.br/noticias/23642-eua-indice-sandamp-p-case-shiller


Preços de imóveis residenciais sobem 19,1% nos EUA

Montagem: Àbeiradourbanismo

O índice S&P/Case-Shiller, que mede os preços de imóveis residenciais nas 20 principais regiões metropolitanas dos Estados Unidos, subiu 19,1% em setembro na comparação com o mesmo período do ano anterior, depois de alta de 19,7% em agosto.

*

Headline inflation, including food and energy, rose at a 4.4% annual rate in September, the fastest since 1991. Core inflation, which is the Fed’s preferred gauge, increased 3.6% for the 12 months, the same as in August but still also the fastest pace in 30 years. Personal income declined at a faster pace than expected (..). (CNBC)

2021-12-07

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Coliving, micromoradia, renda do solo

Deu no G1
19-11-2021, por Gustavo Honório
https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/11/19/a-vida-nas-casas-compartilhadas-de-sp-moradores-pagam-r-12-mil-de-aluguel-em-quartos-de-9-m.ghtml


A vida nas casas compartilhadas de SP: moradores pagam R$ 1,2 mil de aluguel em quartos de 9 m² 

Montagem: àbeiradourbanismo. Texto: Folha S Paulo
Incorporadoras e imobiliárias em geral garantem que a redução paulatina do tamanho das unidades habitacionais, incluindo a modalidade "moradia compartilhada", é um signo de progresso que lhes cabe materializar no interesse de inquilinos e compradores: as unidades são super-práticas e, o mais importante, aliviam o orçamento das famílias.
[1] 

De fato, quem alugava 15m2 a $100,00/m2 (=$1.500,00) e agora aluga 10m2 a $120,00/m2 (=$1.200,00), ainda que pagando mais caro pelo m2 passou a dispor de uma unidade habitacional mais acessível.

O que as imobiliárias não dizem é que quanto menor e mais acessível a moradia, mais se paga pela terra-localização e menos pela benfeitoria - e isto é a alma do seu negócio. 

Uma unidade imobiliária é formada por dois ativos combinados, benfeitoria e solo, cujos valores de mercado têm natureza e comportamento distintos e por vezes até contraditórios. Ao passo que a benfeitoria é mercadoria durável, cujo valor gravita ao redor do preço de produção (custos totais + taxa média de lucro) e diminui inexoravelmente com o uso e o passar do tempo (depreciação), o solo é um bem natural cedido pelo proprietário a um preço que nada tem a ver com a atividade produtiva, ou com a quantidade de trabalho nela empregado, consistindo simplesmente na maior oferta que lhe façam os demandantes pelo direito exclusivo de usufruir e dispor de suas vantagens de urbanização e localização, externalidades que, regra geral, propiciam a sua contínua valorização no processo de crescimento econômico e expansão da cidade. Resumindo:

Ao passo que a benfeitoria está inexoravelmente sujeita à depreciação pelo tempo e pelo uso, a localização, embora possa desvalorizar-se relativamente a outras localizações, só em situações de degradação urbana sofre desvalorização absoluta, isto é, maior que a da moeda por efeito da inflação. [1]

O segredo do negócio imobiliário está em que, nas localizações preferidas pelos segmentos de médios e altos rendimentos, a renda do solo agrega considerável sobrelucro ao processo de produção de novas unidades e sua valorização no tempo muito mais do que compensa a inevitável depreciação das benfeitorias.

O exemplo mais simples desse efeito combinado é o do apartamento de três quartos que passa a ser alugado em regime de coliving. Dado que o valor da benfeitoria, no curtíssimo prazo, se mantém constante, a totalidade do aumento da receita de aluguel provém... da propriedade do solo - e o que é sumamente interessante, sem investimento algum! É pura renda de monopólio da localização.

O princípio que rege a prática atual do coliving nos bairros de classe média é rigorosamente o mesmo que há mais de um século preside a formação de cortiços em zonas centrais desvalorizadas das grandes cidades. Ele foi assim descrito por Richard Hurd, pioneiro do estudo do espaço intra-urbano, em 1903:

(..) mansões obsolescentes convertidas em casas de cômodos geralmente perdem valor, efeito que tende a ser compensado pela utilização mais intensa do solo: mais pessoas pagando alugueis menores pode resultar em aumento da renda total. [2]

Na incorporação imobiliária, a redução do tamanho das unidades gera um resultado similar. Consideremos dois empreendimentos A e B, quase simultâneos (ou seja, a inflação é desprezível), vizinhos, de igual padrão de qualidade e mesmo tamanho total (3.000m2 privativos), em que a unidade de A (30m2) é vendida ao preço de R$150 mil (R$5.000,00/m2),  e a unidade de B (25m2) é vendida ao preço de R$135 mil (R$5.400,00/m2).


EMPREENDIMENTO A
3.000m2 com unidades de 30m2 à 100 unidades * R$150 mil/ un à receita total = R$15,0 milhões

EMPREENDIMENTO B
3.000m2 com unidades de 25m2 
à 120 unidades * R$135 mil/ un à receita total = R$16,2 milhões

Vendendo 120 unidades de 25m2 do Empreendimento B, 10% mais baratas no preço total ainda que 8% mais caras por m2 do que as do Empreendimento A, o incorporador obtém um aumento de receita de 8% com a mesma quantidade de m2 privativos produzidos.

Àbeiradourbanismo
Sim, o custo/m2 de construção de 3.000m2 privativos perfazendo 120 unidades é maior do que o custo/m2 de construção de 3.000m2 privativos perfazendo 100 unidades - devido, principalmente, ao maior volume de instalações. Basta, porém, que esse aumento de custo seja menos que proporcional ao aumento da receita - o que é muito provável em todos os casos que envolvam as localizações mais valorizadas na cidade -, para que o empreendimento B seja mais rentável do que o empreendimento A, acréscimo inteiramente derivado da renda de monopólio da terra-localização.

*

Nas grandes cidades de todo o mundo, 
a produção de micro-apartamentos e a adoção da moradia compartilhada seguem num ritmo imparável. Significa que, por relevante que seja a maré de trabalho remoto trazida pela pandemia de Covid-19, para a imensa maioria dos assalariados a única opção continua sendo o trabalho presencial a 15, 30, 45, 60 minutos, ou até mais, de seus habitáculos, pelos quais são obrigados, além do mais, a despender parcelas cada vez maiores de seus vencimentos.

Assim se materializam as expectativas dos consultores das grandes organizações dedicadas ao desenvolvimento, para os quais as megalópoles contemporâneas em contínuo crescimento são, a despeito de suas fabulosas deseconomias e obscenas desigualdades, as insubstituíveis e benfazejas usinas da riqueza planetária.

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[1] "Os apartamentos com os quais a Vitacon trabalha são compactos para locação nas regiões mais procuradas de São Paulo. “Quem investe com a gente, investe em desenvolvimento urbano e atende uma alta demanda que procura por qualidade de vida, mobilidade, proximidade do trabalho e dos eixos estratégicos da cidade”, diz o empreendedor. [ Nos últimos 12 anos, a Vitacon desenvolveu mais de 70 projetos, visando uma cidade mais inteligente, dinâmica e acolhedora para todos." “Investimento em produtos imobiliários é alternativa na crise”. MoneyLab 30-11-2021
https://www.infomoney.com.br/mercados/investimento-em-produtos-imobiliarios-e-alternativa-na-crise/

[2] “A chave do tamanho” (08-03-2020)
http://abeiradourbanismo.blogspot.com/2020/03/tamanho-e-documento.html

[3] "(..) when these good residences become old-fashioned and are converted into boarding houses, a drop in value will ordinarily occur. This is sometimes offset by the more intense utilization of the land, a larger rent being earned from more people even at lower rates.(..)" HURD R M, Principles of City Land Values. New York, Record and Guide 1903, "VI - Distribution of Utilities", p. 87.
https://archive.org/.../principlesofcity.../page/n4/mode/1up

 
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Sobre este tema, ver também neste blog

“O traseiro da TV e o lucro imobiliário” (07-06-2011)
http://abeiradourbanismo.blogspot.com/2011/06/o-traseiro-da-teletela-e-o-lucro_07.html

‘O coeficiente de aproveitamento e a valorização do solo” (23-02-2013)
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2013/02/o-coeficiente-de-aproveitamento-e.html

“Dracula de Bram Stoker” (20-12-2019)
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2019/12/dracula-de-bram-stoker.html


2021-11-29

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Maria Martins: Desejo Imaginante

MASP
agosto de 2021 a fevereiro de 2022

Casa Roberto Marinho
março de 2022 a junho de 2022
Maria Martins, O Impossível
Paço Imperial, Rio de Janeiro

Maria Martins (Campanha, Minas Gerais, 1894 – Rio de Janeiro, 1973) é uma artista fundamental na história do modernismo brasileiro e no panorama do surrealismo internacional. Ela é conhecida por suas esculturas em bronze, seus desenhos e suas gravuras que representam figuras femininas híbridas, bem como mitologias indígenas amazônicas, afro-brasileiras e da antiguidade clássica. Esta é a mais ampla exposição dedicada à artista e no MASP é contextualizada num biênio da programação dedicado às Histórias brasileiras, em 2021-22.

Foi nos anos 1940, após mudar-se para os Estados Unidos, que Maria Martins se tornou mais conhecida como artista e intermediadora cultural, obtendo rápida inserção no circuito internacional. O fato de ter desenvolvido grande parte de seu trabalho no exterior a impediu de participar ativamente dos movimentos modernistas brasileiros. Porém, Martins não deixou de realizar suas leituras e contribuições únicas a respeito de certa visualidade nacional, o que acabou lhe rendendo a alcunha de “escultora dos trópicos”. A artista buscou nas mitologias amazônicas e na cultura afro-brasileira referências para suas primeiras obras, dialogando com as tendências modernistas brasileiras da primeira metade do século 20. No entanto, a partir de meados dos anos 1940, ela deixou de lado uma visualidade comumente associada ao Brasil e passou a criar suas próprias mitologias em peças de bronze de médias e grandes dimensões.

Questões relacionadas ao desejo, ao erotismo e a uma ideia de feminino sempre estiveram presentes na prática artística de Martins e ganham ares “monstruosos” e inquietantes, desafiando a moralidade da época e as expectativas do público internacional a respeito do trabalho de uma artista brasileira.

O título desta exposição deriva de uma obra de Martins chamada Désir imaginant [Desejo que imagina, ou imaginante], cujo paradeiro atual é desconhecido e sobre a qual a artista escreveu a epígrafe acima, que abre este texto. Ao colocar o desejo como sujeito da ação de imaginar, Martins enfatizou seu potencial criativo, transformador e subversivo. Assim, o desejo pode ser entendido como uma força motriz que atravessa toda sua produção, atribuindo agência a um sentimento muitas vezes silenciado, sobretudo quando quem deseja e o expressa é uma mulher.

Maria Martins: desejo imaginante inclui 45 trabalhos, entre esculturas e gravuras, produzidos nas décadas de 1940 e 1950, além de 41 publicações e fotografias que narram a história da artista. A mostra é dividida em 5 núcleos que abordam como Martins articulou os diversos imaginários acerca do Brasil e dos trópicos ao longo de sua produção – um lugar reivindicado, reafirmado e reinventado por ela.

A mostra de Maria Martins integra o biênio da programação do MASP dedicado às Histórias brasileiras, em 2021-22, coincidindo com o bicentenário da independência em 2022. Neste primeiro ano, todas as mostras são dedicadas a mulheres, com individuais de Conceição dos Bugres, Erika Verzutti, Gertrudes Altschul, Maria Martins, Ione Saldanha, e, na Sala de Vídeo, Ana Pi, o coletivo Teto Preto, Regina Vater, Zahy Guajajara e Dominique Gonzalez-Foerster.

Isabella Rjeille, curadora, MASP

2021-11-29

 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Arquitetura finlandesa

Postado no Facebook 
17-11-2021, por Jaakko Kilpiäinen


Muukalaiskatu 3, Helsinki Finland
Architect Max Frelander 1936.
My pic 2014, camera Sinar Norma, film 9x12 Ilford FP4
Não sou entendido, nem muito menos, em história da arquitetura, mas arrisco um comentário. Este edifício me parece uma bem-sucedida mescla de ecletismo decimonônico - rés-do-chão de paredes sólidas decoradas e arrematadas com frisos nos dois primeiros pavimentos - e despojamento modernista nos demais. A estética art-deco opera a transição com a ostensiva esquina em dobradiça de janelões panorâmicos, sacadas de alvenaria com parapeitos em ferro tubular e um imponente “chapéu” estilo cabine de comando. Elegância finlandesa. Arquitetura do cacete!

Imagem Google

2021-11-25

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Addicted to land rent

Publicado por McKinsey & Company
15-11-2021,  por Jonathan Woetzel et al
The rise and rise of the global balance sheet: How productively are we using our wealth?

Montagem: Àbeiradourbanismo
Net worth has tripled since 2000, but the increase mainly reflects valuation gains in real assets, especially real estate, rather than investment in productive assets that drive our economies.

(..) Across ten countries that account for about 60 percent of global GDP—Australia, Canada, China, France, Germany, Japan, Mexico, Sweden, the United Kingdom, and the United States—the historic link between the growth of net worth and the growth of GDP no longer holds. While economic growth has been tepid over the past two decades in advanced economies, balance sheets and net worth that have long tracked it have tripled in size. This divergence emerged as asset prices rose—but not as a result of 21st-century trends like the growing digitization of the economy.

Rather, in an economy increasingly propelled by intangible assets like software and other intellectual property, a glut of savings has struggled to find investments offering sufficient economic returns and lasting value to investors. These savings have found their way instead into real estate, which in 2020 accounted for two-thirds of net worth. Other fixed assets that can drive economic growth made up only about 20 percent the total. Moreover, asset values are now nearly 50 percent higher than the long-run average relative to income. And for every $1 in net new investment over the past 20 years, overall liabilities have grown by almost $4, of which about $2 is debt. (Continua)

2021-11-22




quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Ora pois!

Deu no Risco / Portugal
17-11-2021, por Fábio C Silva

Montagem: Àbeiradourbanismo
Imagem original: Internet
Covid-19: BCE alerta para sobrevalorização do mercado imobiliário em países como Portugal

O aumento da inflação no mercados imobiliário está a preocupar o Banco Central Europeu (BCE). A instituição financeira alerta assim para o risco de empréstimos com montantes elevados e a assunção de riscos por entidades não bancárias. (..)

O BCE destacou as vulnerabilidades no mercado imobiliário, sobretudo em países “onde já havia uma sobrevalorização imobiliária”, antes da pandemia, como é o caso de Portugal.

Para a instituição liderada por Christine Lagarde, o mercado está “ sujeito a uma correção”, ao mesmo tempo em que alerta que os fundos de investimento, seguradoras e fundos de pensões podem enfrentar “perdas de crédito substanciais” se a sua exposição a dívidas empresariais com baixa classificação diminuir. (..)

Portugal segue a tendência da União Europeia: as casas estão sobreavaliadas e a subida do preço não é paralela ao aumento dos salários, revela um relatório publicado a semana passada, pela Comissão Europeia.

Desde 2013, e até ao segundo trimestre deste ano, a habitação “está cerca de 38% mais cara no conjunto da União Europeia. Significa isto que, por ano, houve um aumento médio de 4% neste período”, escreve o Jornal de Negócios. (Continua)

2021-11-19

domingo, 14 de novembro de 2021

A disputa pelas localizações

Deu no ArchDaily
09-11-2021, por Andreea Cutieru (Tradução: Vinicius Libardoni)
https://www.archdaily.com.br/br/971292/desenvolvimento-urbano-gera-gentrificacao


Desenvolvimento urbano gera gentrificação?

Nesta edição do Editor's Talk, nossos editores da Argentina, Líbano, Brasil, Chile e Tanzânia compartilham suas opiniões sobre o papel do desenvolvimento urbano no agravamento dos processos de gentrificação das cidades."


Raquel Rolnik deu o título “Guerra dos Lugares” ao seu excelente livro de 2017 sobre a financeirização da moradia à escala mundial. Mas eu acho que ele seria mais adequado a um volume que ela mesma escrevesse - conhecimento e talento não lhe faltam - sobre o tema da gentrificação. 

Do meu ponto de vista, gentrificação é um processo social inerente ao modo como o mercado imobiliário “aloca” a terra-localização urbana: ocupam-na aqueles que, individualmente ou por intermédio de uma incorporadora, estão aptos e dispostos a fazer por ela as maiores ofertas de renda. Pode acontecer com a ajuda da força armada do Estado, como no caso de remoções de favelas em zonas altamente valorizadas, mas o mais das vezes basta a força bruta do dinheiro, como no caso da redescoberta do centro urbano pelos bisnetos daqueles que o deixaram em busca do que então era subúrbio: só depende de que os incorporadores convençam os proprietários dos imóveis antigos, geralmente bastante deteriorados, de que certa cota de apartamentos novos, ou o seu equivalente em dinheiro, será mais rendosa do que a soma dos aluguéis que lhes podem pagar seus empobrecidos inquilinos.

A maneira típica de deter a gentrificação é reduzir drasticamente, por meio da legislação urbanística, a edificabilidade do solo, consequentemente a rentabilidade dos empreendimentos imobiliários nas áreas sujeitas a renovação. No entanto, processos de gentrificação podem ainda acontecer pela via da reforma e adaptação dos imóveis antigos aos gostos e hábitos culturais dos novos ocupantes. Alternativamente, para minimizar os seus efeitos, a municipalidade pode buscar uma renovação urbana limitada e supervisionada, combinando algum aumento de edificabilidade com mudanças de uso das edificações existentes que gerem oportunidades de negócios e empregos aos residentes. Não é simples, nem barato - bairros gentrificados dão mais prestígio ao governante e receita fiscal ao município -, mas vale a pena tentar.

2021-11-14

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Urban masterpieces

Deu no New York Times
01-11-2021, por Frank Herfort
https://www.nytimes.com/2021/11/01/travel/soviet-era-metros.html

The Stunning Grandeur of Soviet-Era Metros

Between 2014 and 2020, Frank Herfort visited more than 770 metro stations in 19 cities, creating a remarkable archive of architectural and artistic splendor.


Mayakovskaya, in Moscow, Russia
Photo: Frank Herfort/INSTITUTE



Kyivska, in Kharkiv, Ukraine.
Photo: Frank Herfort/INSTITUTE


Novza, in Tashkent, Uzbekistan.
Photo: Frank Herfort/INSTITUTE


Metrobudivnykiv, in Dnipro, Ukraine.
Photo: Frank Herfort/INSTITUTE


2021-11-10