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à beira do urbanismo
quarta-feira, 18 de março de 2026
O mercado abandona, o governo detona!
domingo, 15 de março de 2026
Minha Favela Minha Vida
https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-03/area-ocupada-por-favelas-quase-triplicou-em-40-anos-no-brasil
Área ocupada por favelas quase triplicou em 40 anos no Brasil
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| Tânia Rêgo/Agência Brasil |
O estudo revelou ainda que a dinâmica de crescimento das favelas foi mais intensa nas regiões metropolitanas do país, que em 2024, abrigavam 82% das áreas urbanizadas em favelas. O geógrafo e coordenador do Mapiomas, Júlio Pedrassoli, considera que o crescimento mais acelerado das áreas de favelas em comparação com a média nacional e sua forte concentração em regiões metropolitanas sugerem uma tendência conhecida e preocupante. "As metrópoles concentram muita riqueza, mas também intensificam problemas estruturais. (..)
Apesar da surpreendente dificuldade de se obterem, na Internet, dados atualizados e consistentes da evolução da distribuição de rendimentos familiares no Brasil, alguma pesquisa que acabo de fazer indica que as chamadas classes D e E - grosso modo as faixas 1 e '1,5' do programa Minha Casa Minha Vida - constituem há 10 anos uma proporção aproximada de 50% das famílias brasileiras, vale dizer, um número crescente a despeito da redução da pobreza absoluta.
No que se refere à moradia, a imensa maioria dessas famílias só tem, portanto, duas opções: conseguir uma vaga na faixa 1 do MCMV, que regra geral quer dizer uma residência de qualidade duvidosa em algum conjunto habitacional distante de quaisquer facilidades urbanas, ou comprar / alugar uma casa numa favela dos morros e periferias metropolitanas. À parte a (in)capacidade do MCMV de ofertar apartamentos em quantidade suficiente nessa faixa, quero crer que, nas favelas, a despeito da moradia e da urbanização precárias, as famílias se beneficiam não apenas das redes sociais de apoio comunitário, mas também de uma economia às vezes fervilhante [1] [2] - o “circuito inferior” de Milton Santos: comércio, indústria e prestação de serviços, embora informais e às vezes, como acontece em muitos bairros 'nobres' da cidade, ilegais.
Ao contrário da maioria dos conjuntos habitacionais da Faixa 1 do MCMV, a favela também é, à sua maneira, cidade, locus de produção e circulação de riqueza na economia de mercado - com suas virtudes e aleijões - razão pela qual a redução da pobreza não é, em minha opinião, condição suficiente para o fim, ou mesmo a redução substancial, da informalidade.
Isto que nós, urbanistas, chamamos de “o direito à cidade”, vale dizer à cidade formal adequadamente urbanizada, regida pelas instituições do Estado de direito, tem um preço em dinheiro: a capacidade que tenha a família de ofertar renda por um imóvel numa boa localização e de arcar com as demais despesas dessa opção. Embora totalmente favorável a programas de urbanização e regularização fundiária nas favelas, sou de opinião que a solução da moradia informal não está na ‘redução da desigualdade’: está na elevação radical e sustentada - isto é, não sujeita aos retrocessos das crises econômicas recorrentes - do padrão de vida da imensa maioria trabalhadora da nação, com tudo que isso possa implicar no plano da organização econômica da sociedade. Um problema, claro está, que transcende em muito o âmbito do urbanismo, ainda que necessariamente o inclua.
[1] Segundo o Instituto Data Favela, a renda das favelas brasileiras somou cerca de R$300 bilhões em 2025, maior que a de 22 estados da federação e que o PIB do Uruguai e do Peru. Ver "Pesquisa revela que favelas têm renda de R$ 300 bilhões ao ano". EBC Radioagência 27-07-2025, por Madson Euler.
[2] Ver também: “Favelas têm renda total de R$ 300 bi por ano e 90% dos moradores estão otimistas com o futuro, diz pesquisa”. O Globo 18-07-2025, por Guilherme Queiroz
https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/07/18/favelas-tem-renda-total-de-r-300-bi-por-ano-e-90percent-dos-moradores-estao-otimistas-com-o-futuro-diz-pesquisa.ghtml
quarta-feira, 11 de março de 2026
Espanha: o mercado das famílias sem família
https://elpais.com/economia/2025-11-14/el-auge-de-la-compra-de-vivienda-en-solitario-ojala-lo-hubiera-hecho-antes.html
El auge de la compra de vivienda en solitario
El volumen de solteros que adquieren una casa ha crecido en los últimos años hasta representar más de un tercio del total. Son perfiles jóvenes y con alto poder adquisitivo
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Tanto Rafael como Ismael contaban con ahorros provenientes de una dilatada carrera profesional. Sin embargo, para convertirse en propietarios también necesitaron un apoyo externo, al margen del bancario. “Me cayó una herencia que me ayudó a comprar el primer piso”, reconoce el primero. “Los últimos años de alquiler estuve en casa de un familiar que me puso un precio asequible. Si no, hubiera sido imposible que pudiera ahorrar”, argumenta el segundo.
Según los últimos datos disponibles, las familias destinan de media un 24% de sus ingresos al pago de una hipoteca y un 38% al alquiler. (..)
domingo, 8 de março de 2026
Professor Fate and the The Great Race
https://exame.com/mercado-imobiliario/luxo-em-ruinas-arranha-ceu-dos-bilionarios-pode-desabar-em-nova-york/
Band 01-03-2026
https://www.band.com.br/noticias/o-burj-khalifa-foi-atingido-predio-mais-alto-do-mundo-e-evacuado-apos-explosao-em-dubai-202603011239
Terra 07-03-2026
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Montagem: À beira do urbanismo |
quarta-feira, 4 de março de 2026
Rio de Janeiro, de 'cidade' a 'centro'
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=29732
Inadvertidamente, o autor do texto desta ótima página virtual dedicada aos bondes do Rio de Janeiro deixou-se trair pela noção largamente disseminada de que o centro da cidade é uma entidade supra-histórica. Na linguagem característica do século XX, ele diz ao leitor que a primeira linha regular de bondes, inaugurada em março de 1859, ligava “o centro da cidade ao Alto da Boa Vista”. Contudo, segundo ele mesmo, o serviço fora concedido em 1856 à Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boavista. [Destaques PJ]
Significa que para o inglês Thomas Cochrane, concessionário do serviço, a noção de “centro da cidade”, ou simplesmente “Centro”, não era relevante nem esclarecedora. E se havia em 1859 algum “centro da cidade” no sentido moderno, ele certamente não chegava ao Rossio (Praça da Constituição, hoje Praça Tiradentes), de onde partia o bonde: estaria mais para o percurso do Largo do Paço à Rua da Quitanda e daí à Rua do Ouvidor.
Inexistia ainda, em minha opinião - por pouco tempo, é verdade - o que hoje chamamos de Centro, que supõe o(s) subúrbio(s) nascidos do mercado de lotes urbanizados e por urbanizar e o correspondente movimento pendular casa-trabalho secundado pelo tráfego regular subúrbios-cidade por motivos de consumo, serviços em geral e entretenimento. Daí resulta o crescimento simultâneo e reciprocamente determinado dos subúrbios e da própria cidade, de onde agora saem famílias de todos os estratos sociais - as que têm meios para os arrabaldes mais próximos, as que não têm para cortiços situados na borda do recinto urbano - de modo a dar lugar aos negócios.
(..) Entretanto, como a antiga casa de Meneses era no centro da cidade, e ficava-lhe, portanto, mais perto, Marques resolveu ir lá. (..) [Machado de Assis, Obra Completa, Edição do Kindle locais 126875-126877]
Ainda no terreno da literatura, muito esclarecedora da conversão do que até pouco tempo era a ‘cidade’ em ‘centro’ de sua nova existência metropolitana é a seguinte passagem do romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto, concluído em 1922:
(..) Nesse dia, [Cassi] despertou cedo, banhou-se cuidadosamente, escolheu bem a roupa branca, viu bem se a meia não estava furada, escovou o terno cintado e, cuidadosamente, meteu mão à obra de vestir-se com apuro, para vir à “cidade”. Raramente, vinha ao centro. Quando muito, descia até o Campo de Sant’Ana e daí não passava. Não gostava mesmo do centro. Implicava com aqueles elegantes que se postavam nas esquinas e nas calçadas. (..) [Lima Barreto, “Clara dos Anjos”. Em Lima Barreto Completo I: Sátiras e Romances. Edição do Kindle p. 1174.] [Destaques PJ]
As aspas da palavra "cidade" são do original de Lima Barreto, referidas ao modo de falar do personagem - que foi ainda, durante algumas décadas, o de boa parte das famílias urbanas cariocas e brasileiras. Para LB, que vivia no subúrbio e o analisou em sua obra, com riqueza de detalhes, dos pontos de vista geográfico e sociológico, o que Cassi chamava de "cidade" já era, claramente, "centro": na passagem "Raramente vinha ao centro. Quando muito descia ao Campo de Santana e daí não passava", ele nos diz que, em 1920, não via o Campo de Santana como parte dele, mas como uma espécie de limite relativamente à urbanização circundante.
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| Rio de Janeiro em 1858. Fonte: ImagineRio. Legendas e traçado aproximado EFCB: PJ |
domingo, 1 de março de 2026
Fictitious capital, real estate
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| Montagem: À beira do urbanismo |
UOL 07-01-2026
https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2026/01/07/empresas-ligadas-vorcaro-2-bilhoes-imoveis-enquanto-master-quebrava.htm
Antes de o Master ser liquidado, sem dinheiro para pagar quem investiu em seus CDBs, o banqueiro Daniel Vorcaro e empresas ligadas a ele adquiriram pelo menos R$ 2 bilhões em mansões, apartamentos e jatinhos, segundo levantamento do UOL. Desse valor, 85% foi comprado a partir de 2024.
A Polícia Federal apura indícios de que parte do dinheiro captado pelo Master junto a investidores tenha sido desviada em benefício dos executivos do banco. (..) Dentre os R$ 2 bilhões gastos em bens, apenas 1% foi comprado diretamente por Vorcaro, na pessoa física — um apartamento de R$ 22 milhões. Os 99% restantes foram adquiridos por empresas com vínculos com o banqueiro.
Apenas uma delas está em nome dele. As demais são sociedades anônimas fechadas, cujos dados dos sócios são sigilosos, até para a Receita Federal. Há também uma offshore em Delaware, que também oculta o dono. Ainda assim, é possível identificar conexões dessas empresas com Vorcaro.
O levantamento do UOL localizou duas mansões no exterior, 23 imóveis no Brasil, quatro aeronaves e cinco carros. (..)
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
MCMV: subsídio federal ao aluguel rotativo
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cyv55gjpq44o
Em postagem do último dia 2 de novembro, a propósito dos desvios de finalidade dos subsídios do governo paulistano à Habitação de Interesse Social - em benefício dos investidores / incorporadores imobiliários e do Airbnb e congêneres -, eu me perguntei se o mesmo não estaria acontecendo com os imóveis do programa federal Minha Casa Minha Vida na região portuária do Rio de Janeiro. E concluía:
Dado que a pesada aposta do governo federal no financiamento habitacional tem, obviamente, como um de seus mais importantes objetivos, os efeitos multiplicadores desse mercado na economia como um todo, não me espantaria que a CEF fizesse vista grossa para essa mesma distorção verificada em São Paulo, que já vem dando o que falar há algum tempo. Espero estar equivocado. Se estiver, terei prazer em admiti-lo.
“(..) A BBC perguntou ao Ministério das Cidades, responsável pela formulação do Minha Casa, Minha Vida, se é permitido que imóveis financiados pelo programa sejam colocados para alugar para curta temporada.
Em resposta, o órgão afirmou que somente os beneficiários na faixa 1 do programa têm a obrigação legal de morar nas casas financiadas, conforme a Lei 14.620, que regulamenta esta vertente do Minha Casa, Minha Vida. Nesses casos, diz o órgão, são "vedados o empréstimo, a locação, a venda ou qualquer outra negociação que descaracterize o objeto social da concessão", sob pena de multa ou perda do imóvel. No entanto, segundo o Ministério das Cidades, essas restrições não se aplicam às demais faixas do programa, que hoje contemplam famílias com renda mensal de até R$ 12 mil (faixa 4).
A BBC News Brasil questionou, então, se nessas faixas os beneficiários são livres para colocar apartamentos financiados pelo Minha Casa, Minha Vida em plataformas de aluguel de curta temporada, não precisando morar neles nem por um dia sequer. O ministério não respondeu diretamente à pergunta, reiterando apenas que as restrições à venda, locação ou empréstimo das residências não se aplicam às linhas do programa acima da faixa 1. (..)”
Partindo da premissa de que não tem bobo nessa história, chega-se à conclusão de que a apropriação do subsídio federal ao juro para aquisição da moradia social, como renda do solo, pelas Big Techs estrangeiras do aluguel rotativo - além dos incorporadores e investidores nacionais, é claro - seria, do ponto de vista do governo, o preço a pagar por um programa econômico vital para a preservação do precário equilíbrio sobre o qual se assenta, nos dias de hoje, a nossa estabilidade econômica, social e política.
2026-02-25domingo, 22 de fevereiro de 2026
Fictitious capital, real estate
https://timesbrasil.com.br/brasil/investigacao-revela-uso-de-terras-de-ronaldinho-para-inflar-ativos-do-banco-master/
Investigação revela uso de terras [*] para inflar ativos do Banco Master
(..) As investigações indicam que o Banco Master atuava por meio do Fundo City 02 — veículo no qual era o único cotista — para conceder empréstimos a empresas. Na sequência, essas companhias transferiam a maior parte dos recursos para fundos geridos pela Reag Investimentos, instituição que, assim como o Master, foi posteriormente liquidada pelo Banco Central.
Uma parte relevante dessas operações tinha início com a emissão de CRIs, títulos bastante utilizados no mercado de capitais. Esses papéis são estruturados a partir de créditos do setor imobiliário, como financiamentos ou receitas futuras de aluguel, que são agrupados e transformados em instrumentos de renda fixa.
Na prática, o mecanismo permite antecipar recursos para projetos imobiliários. As empresas recebem o capital imediatamente para viabilizar obras, enquanto os investidores que compram os CRIs são remunerados com juros ao longo do tempo.
Em agosto de 2023, a Base Securitizadora — citada nas investigações envolvendo o Banco Master — estruturou uma emissão de R$ 330 milhões em CRIs em favor da S&J Consultoria. Como garantia, foram apresentadas notas comerciais vinculadas ao desenvolvimento de áreas em Porto Alegre (..)
No sistema financeiro, o volume de ativos é um dos principais indicadores de solidez e capacidade de alavancagem. Ao registrar esses títulos como parte do patrimônio de seus fundos, o grupo elevava artificialmente seus números, apresentando ao mercado e aos reguladores uma estrutura patrimonial mais robusta do que a sustentada por ativos reais ou de alta qualidade.
Para os investigadores, o objetivo da estratégia seria fortalecer os indicadores do Banco Master, ampliando sua atratividade junto a investidores e reforçando sua imagem de solidez, ainda que os recursos circulassem internamente, sem impacto concreto na economia. Nesse contexto, os terrenos funcionariam apenas como elemento formal para viabilizar a captação.
Enquanto os CRIs eram negociados no mercado financeiro e inflavam os balanços da instituição, as áreas permaneciam sem obras ou qualquer tipo de desenvolvimento.
As empresas citadas nas apurações são alvo de investigações da Polícia Federal e foram atingidas por mandados autorizados pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o magistrado, o volume total de CRIs emitidos pela Base Securitizadora sob suspeita alcança aproximadamente R$ 1 bilhão. (..)
[*] As referências ao ex-atleta Ronaldinho Gaúcho foram aqui propositalmente omitidas para que o sensacionalismo não desvie o foco do assunto - uma relevante descrição das engrenagens da indústria de produtos financeiros e sua relação com os imóveis em geral e a renda do solo urbano em particular.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Cidades 'planejadas’: mito e realidade - notas
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Fonte: RUBIRA FG [*] Clique na imagem para ampliar |
Uma dessas contradições diz respeito à natureza singular de seu ‘núcleo histórico’. Abrangendo o Centro propriamente dito e o perímetro urbano definido no projeto de urbanização original, ele não costuma ser valorizado, às vezes sequer reconhecido, como tal, pelos munícipes e suas instituições. Sendo ‘moderno’, não pode ser ‘histórico’.
Em textos acadêmicos e não acadêmicos, 'cidade planejada' quase sempre se refere a alguma urbe construída 'do zero' - quer sobre um autêntico vazio rural, quer sobre algum núcleo rural ou litorâneo pré-existente. Sua marca distintiva é a existência de um traçado.
Na verdade, o ‘plano’ de uma cidade nova pode tanto consistir em pouco mais do que um simples tabuleiro, como no caso de Teresina e Aracaju - disputadas como "mais antiga cidade planejada do Brasil" - quanto, no outro extremo, em um conjunto urbano totalmente edificado e rigidamente regulado, como no caso de Brasília. O mais das vezes, no entanto, verificam-se situações intermediárias: um trama projetada de vias e praças públicas, acompanhada de um conjunto de regulações básicas relativas ao zoneamento, ocupação do solo e preservação de áreas verdes - o caso de Maringá.
O certo é que, na proporção de sua importância na economia regional, o crescimento da cidade ex novo transborda o limite originalmente estabelecido e novos ciclos regulatórios e de obras públicas - viárias, principalmente - têm início, para dar conta, antes de mais nada, do próprio processo de expansão urbana.
De modo geral, a técnica urbanística aparece com atraso relativamente aos acontecimentos que tem por missão controlar e tem um caráter curativo. [Benevolo L, Le Origini dell’Urbanistica Moderna, 1963]
É assim que as "cidades planejadas", independentemente de sua posição na escala da modernidade, se convertem em núcleos históricos de suas próprias transfigurações metropolitanas, caracterizados não pela antiguidade dos conjuntos edificados remanescentes - geralmente reciclados, lá onde existem, para uso geral sob a tutela de programas especiais de proteção e conservação - mas pelos atributos técnicos, funcionais e artísticos de componentes ainda plenamente operacionais como o traçado, os parques e áreas verdes, os centros cívico e administrativo etc., mais ou menos bem adaptados aos primeiros ciclos de sua vida útil.
Estou postulando que o núcleo planejado de uma metrópole fundada no século XX pode ser tão 'histórico' e prenhe de significados e tradições quanto qualquer Centro Histórico declarado Patrimônio da Humanidade pelas Nações Unidas! Depende, talvez, do que o observador entende por “história” e do que busca no qualificativo que lhe corresponde.
Cidades ex novo x Grandes Projetos Urbanos
Diria o senso comum que a construção de uma nova capital é, por definição, um grande projeto urbano. Mas pode não sê-lo na acepção que o urbanismo contemporâneo dá ao termo, grafado o mais das vezes com iniciais maiúsculas ou referido pela sigla GPU/GUP.
Em geral, os modernos GPUs são intervenções - como prefere Garay [1] - de grande escala e elevada complexidade nas cidades existentes. Grandes Projetos Urbanos constroem, ou reconstroem, pedaços de cidade dentro da grande cidade, quase sempre incorporando acréscimos de valor do solo gerados pela própria intervenção à equação de seu financiamento.
Não se trata de filigrana conceitual: os Grandes Projetos Urbanos contemporâneos são importantes condutores do circuito financeiro global, precipuamente destinados, na maioria dos casos, a gerar oportunidades de negócios imobiliários e seus acessórios por meio da urbanização e comercialização de solo público com potencial de valorização derivado das qualidades intangíveis da própria metrópole. A reivindicação da urbanização autofinanciada com recursos da renda do solo, mesmo quando mais publicitária que real, é um sinal inequívoco de que as motivações estratégicas geralmente associadas, inclusive a de “incentivar a economia”, não lhes bastam como fonte de legitimação e enraizamento no ideário coletivo.
Cidades ex novo, embora relativamente comuns à escala dos séculos, são excepcionalidades no campo do urbanismo, resultantes de processos de colonização de natureza diversa, de políticas estatais de desenvolvimento territorial, do enfrentamento de catástrofes naturais e sociais e do que poderíamos chamar de 'repaginação' do poder político em situações, reais e imaginárias, de clivagem histórica. Ou de combinações dessas circunstâncias.
Cidades ex novo também podem, com certeza, surgir como empreendimentos explicitamente comerciais, como no caso da rede urbana do Noroeste paranaense (Londrina, Apucarana, Maringá etc.). E não está excluído, muito ao contrário, que a construção de uma nova capital, ainda que por sólidas 'razões de Estado', seja terreno fértil para a proliferação de operações especulativas. Veja o leitor essa esclarecedora passagem literária:
"Confesso nunca ter visto lugar tão deprimente. Partes do Capitólio e da mansão presidencial ainda em construção e nada mais. Trabalhadores morando em barracos que, quando da minha última visita à cidade, em 1806, estavam ainda intactos - e ocupados. Eu especulei com terras como todo mundo, incluindo o general Washington, que acabara de comprar dois lotes perto do Capitólio. Adquiri um terreno próximo à Casa Branca. Uma loucura! Homens a cavalo na escuridão da mata, com mapas nas mãos, apontando para chão e dizendo: "Aqui fica a esquina da rua tal com a rua tal. Pertinho do Capitólio. Vou construir aí uma casa - não, um hotel”. No final, quem investiu nesses pântanos ganhou rios de dinheiro." VIDAL, Gore, Burr: A Novel (Vintage International) (English Edition). [Tradução PJ]
Contudo, e apesar de que pode ser às vezes difícil distinguir, na governança da classe proprietária dominante, o interesse geral das ambições particulares, não há que duvidar que a construção de uma cidade é, em qualquer caso, um evento muito mais complexo, historicamente significativo e carregado de contradições do que a renovação de um perímetro urbano. Ao passo que aqui predomina o binômio engenharia financeira / arquitetura urbana, com eventuais elementos de preservacionismo edilício e proteção social, lá se impõe uma matriz infinitamente mais ampla de aspectos envolvidos e problemas por resolver, como são a justificação histórica, econômica e política da proposta, o processo de decisão, a disputa pelo lugar, a seleção do plano urbanístico, a mobilização de recursos financeiros, materiais e humanos, o soerguimento de uma nova economia urbana, a construção da estrutura de administração e governo etc., culminando no nó górdio do próprio assentamento: um novo bairro internacional no Centro da metrópole pode não ter uma única moradia 'sub-mercado', ou mesmo residência alguma de caráter permanente; uma nova capital jamais, ainda que o projeto não a tenha previsto e a construção não a tenha realizado. Na 'cidade planejada' estarão todos, inclusive os 'sem cidade'.
Cidades ex novo, centralidade e vantagens de aglomeração
A despeito das sólidas evidências proporcionadas pelo espetacular crescimento das grandes cidades dos EUA, nos projetos de urbanização de fins do século XIX a noção de ‘centro urbano’ ainda é basicamente governada pela ideia barroco-tardia de ‘centro cívico’, local de agrupamento das edificações ligadas às principais instituições dos poderes temporal e religioso: no ‘urbanismo dos traçados’, devidamente embrulhado na racionalidade geométrica puramente abstrata da organização espacial positivista; nas cidades-jardins, organizado ao redor do parque central howardiano.
A localização do centro comercial e bancário é um aspecto crítico da cidade ex novo. Ele raramente se estabelece no lugar preconizado, e em nenhum caso da forma como imaginada, pelo projetista da ‘cidade planejada’, em parte porque essa localização depende de movimentos históricos pouco previsíveis como a evolução da tecnologia e da economia dos transportes - tipicamente a obsolescência da estação ferroviária central -, em parte porque os projetistas tendem a desconsiderar o fato de que, como já explicava o economista- avaliador estadunidense Richard Hurd em 1903, "o centro se forma ao redor do ponto de contato com o mundo exterior e se expande, ou desdobra, na direção determinada pela preferência de localização residencial das camadas de alta e média renda". [2]
A contradição mais notória entre a racionalidade arquitetônica das cidades ex novo e as leis da economia urbana capitalista envolve a rede de acessibilidade: ao passo que a ‘economia da ocupação do solo’ tende à generalização da rede local reticulada, a ‘economia da localização’ comanda a formação de um sistema radial-concêntrico de artérias urbanas e meios de transporte. Não por outra razão encontramos, nos projetos de cidades ex novo e planos de reurbanização de grande escala, avenidas radiais que convergem para o centro cívico, tido pelos projetistas como a forma mais elevada, ou funcionalmente relevante, da centralidade urbana.
Uma segunda contradição, mais sutil mas não menos relevante, é a que opõe o padrão de compacidade da rede de ruas residenciais às vantagens de aglomeração esperadas pelos negócios no centro comercial urbano. Nas palavras de Hurd:
"Há quem pense que quanto mais larga mais valorizada é a rua, devido à maior capacidade de tráfego. Mas em uma rua comercial, a largura é praticamente irrelevante (..). A pouca largura facilita o intercâmbio entre os dois lados, o que é de alguma forma vantajoso para os negócios quando não implica em limitação à altura dos edifícios". [2]
A história da formação das metrópoles capitalistas indica que a ‘desordem’ do centro não planejado - onde prevalece o máximo grau de concentração espacial dos negócios - é sensivelmente mais eficaz do ponto de vista da economia urbana do que a ordem urbana determinada pelos ‘projetos de cidade’, com ruas largas, canteiros centrais, quadras regulares e lotes relativamente grandes. Uma hora de caminhada pelo centro comercial de uma cidade de crescimento ‘orgânico’ permite ao residente percorrer uma quantidade e uma variedade substancialmente maiores de lojas e prestadores de serviços do que nas ‘cidades planejadas’.
Ainda que o crescimento das cidades esteja determinado, no essencial, por fatores relacionados à economia regional e nacional, parece razoável supor que a dispersão espacial determinada pelo projeto da cidade planejada seja um fator inibidor da formação e desenvolvimento de seu centro urbano.
Cidades ex novo, expansão e planejamento urbano
Quaisquer que sejam o traçado e as normas urbanísticas da ‘cidade planejada’ capitalista, sua geografia há de derivar da dinâmica expansiva centro-periférica que a estrutura em termos sócio-espaciais.
A configuração centro-periférica, que na linguagem do século XVIII seria o ‘plano urbanístico da mão invisível do mercado’, provém do advento histórico, nas cidades da Europa setentrional de fins daquele século, de uma dinâmica espacial qualitativamente distinta de tudo o que existira até então, baseada na compra-venda generalizada de mercadorias, serviços e força de trabalho entre agentes em busca de localizar-se, na medida de seu poder de preempção, à menor distância-custo uns dos outros, mais exatamente de seus pares na interdependência econômico-espacial capitalista: residências x empregos; residências x varejo e serviços pessoais; negócios em geral x serviços técnicos, comerciais e financeiros.
Contudo, ainda que as leis da ‘economia da localização urbana’ sejam as mesmas em todas as cidades capitalistas em vias de expansão, a forma final de cada uma dependerá da resistência que lhe ofereçam, por um lado, as exigências da ‘economia da ocupação do solo’, vale dizer a propensão dos parcelamentos privados para o traçado ortogonal - de que Barcelona é, obviamente, um caso limite -, e, por outro, as suas contingências fisiográficas e históricas.
Em 1903, Hurd se referiu a essas contingências nos seguintes termos: as cidades crescem em todas as direções a partir do ponto de origem salvo quando obstaculizadas pela topografia ou pela estrutura da propriedade fundiária pré-existente. Na década de 1920, Burgess reafirmou o postulado acrescentando, como fatores de resistência, eventuais elementos construídos (ferrovias, aquedutos) e, muito importante, as próprias comunidades previamente assentadas no território. Somam-se a esses um aspecto capital: os planos reguladores em geral, e os traçados das ‘cidades planejadas’ em particular.
Quando confrontada com um traçado urbano preexistente, a expansão radial da cidade capitalista há de começar pelo prolongamento e readequação das ruas que atendam, por um lado, ao tráfego regional de mercadorias, e, por outro, às preferências de localização residencial das camadas sociais mais abastadas.
Quando confrontadas com um plano regulador de urbanismo excepcionalmente rígido, como em Brasília, as leis da economia da localização impor-se-ão à metrópole em expansão como coroa exterior de cidades satélites.
À parte o fato, sobejamente conhecido, de que o planejamento urbano é tanto mais visível e eficaz quanto mais rica é a cidade como um todo e, nas demais, quanto mais abastadas ou promissoras para os negócios são as regiões urbanas, o certo é que ele não tem o poder de se sobrepor às leis fundamentais da urbanização capitalista, pela razão elementar de que a economia que constrói a cidade não é ela própria, por definição, planejada.
A expansão contínua e virtualmente ilimitada das cidades modernas é a expressão mais direta da potência autorreprodutiva do capital que as constrói. Não por acaso, assim se pronunciou a Comissão do Plano de Copenhagen, mais conhecido como Finger Plan, em 1947, aurora do planejamento urbano à escala mundial:
O Finger Plan partiu da premissa de que a expansão do parque comercial e habitacional era inevitável e impossível de deter. [4]
2026-02-18
NOTAS
[*] RUBIRA Felipe Gomes, “Análise multitemporal da expansão urbana de Maringá-PR durante o período de 1947 a 2014 envolvendo o Parque Municipal do Cinquentenário e as principais áreas verdes do município”. Caderno de Geografia, v.26, n.46, 2016 DOI 10.5752/p.2318-2962.2016v26n46p333
[1] Garay, Alfredo, “El Montaje de una gran intervención urbana”, em Lungo, Mario (comp), Grandes Proyectos Urbanos, San Salvador: UCA Editores, 2004, p. 76
[2] HURD R M, Principles of City Land Values. New York, Record and Guide 1903
https://archive.org/.../principlesofcity.../page/n4/mode/1up
https://oxford.universitypressscholarship.com/view/10.1093/oso/9780198843719.001.0001/oso-9780198843719-chapter-12
domingo, 15 de fevereiro de 2026
O estranho caso do Dr. Barbalho
https://www.terra.com.br/noticias/crise-no-brasil-atrai-investimentos-imobiliarios-para-os-eua,57a049a17a797af32bd2533937b079b8o4in5h6e.html
De dia ele saúda publicamente pela imprensa de negócios o programa governamental Minha Casa Minha Vida, de aquisição de moradias a juros subsidiados pelo governo, como a salvação do setor imobiliário em face da baixa capacidade de endividamento da classe média, e da absoluta incapacidade da mediana, resultante, dentre outras coisas, das estratosféricas taxas básicas de juros fixadas pelo Banco Central para fins de controle da inflação numa economia em crescimento a despeito do cenário internacional adverso.
De noite, após 3 doses de Royal Salute 62 Gun, ele se regozija com as estratosféricas taxas básicas de juros fixadas pelo Banco Central para fins de controle da inflação numa economia em crescimento a despeito do cenário externo adverso e critica acaloradamente o governo pelas redes sociais por promover programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha vida, consumidores de gastos públicos que irão causar, com toda certeza, uma grave crise fiscal.
Por via das dúvidas, Barbalho investe boa parte da sua suada fortuna nos Estados Unidos, onde a governança é previsível porque o Executivo está sujeito ao sistema de freios e contrapesos (checks and balances), inexiste crise fiscal porque o Banco Central (Federal Reserve) pode emitir quanto dólares forem necessários (quantitative easing) para salvar Bancos Masters insolventes e, last but not least, o próprio Presidente cancelou todos os gastos públicos que não se destinem a: (1) caçar imigrantes de casa em casa nos estados e cidades que não votam no seu partido; (2) encobrir suas reinações (grab'em by the pussy) com o mega-traficante sexual J Epstein; (3) premiar os compradores de Trump$$Memecoins; (4) financiar os rega-bofes de Mar-a-Lago.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
Copan rotativo
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cre2pxrw1l9o
'Vivendo em um hotel': a disputa pela transformação do 'maior edifício residencial do Brasil' em Airbnb
(..) Dos 1.160 apartamentos do Copan, mais de 200 hoje já são destinados ao aluguel de curta temporada, especialmente pela plataforma Airbnb, a mais popular do gênero, segundo a administração do condomínio. (..) O número de apartamentos disponibilizados para aluguel de temporada faz com que o prédio tenha hoje um número de unidades de hospedagem semelhantes a de hotéis de médio porte, como a movimentada unidade da rede Ibis que fica na Avenida Paulista, [com] 236 quartos. (..)
Hoje, o Copan tem 1.112 moradores, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no último Censo. Mas a estimativa mais recente da administração do condomínio é bem superior: seriam 3.500 residentes, número que pode incluir pessoas cadastradas como moradoras sem morar ali de fato (..) um número bem menor do que os 5 mil divulgados antigamente pela própria administração do condomínio e replicados em muitas reportagens sobre a magnitude do Copan. O cálculo mais modesto do IBGE — que corresponde a menos de uma pessoa por apartamento em média — já sinaliza um esvaziamento do edifício para moradia fixa. Com a valorização dos imóveis, está mais caro viver de aluguel ali. (..)
Enquanto algumas das cidades mais visitadas mundo, como Barcelona, têm aprovado leis restritivas em relação ao Airbnb, São Paulo tem visto se espalhar pelo Centro e bairros mais cobiçados novos edifícios que atraem compradores justamente com a proposta de fazer dinheiro com o imóvel por meio do aluguel por temporada.
Mas as discussões entre urbanistas, moradores e governos têm caminhos diferentes. A crise de moradia em cidades da Europa é causada por uma combinação de turismo, aluguel de curta duração, limites à verticalização e preservação histórica. Já em São Paulo, a última atualização do Plano Diretor, de 2023, busca atrair novos moradores para adensar regiões como o Centro, incentivando construção de novas moradias, serviços e empregos perto dos eixos de transporte público. Para incentivar essas novas moradias, há prédios financiados pelo programa Minha Casa Minha Vida e com incentivos fiscais da Prefeitura. Há denúncias, porém, de que alguns prédios não estão servindo como residência, e sim como hospedagem temporária. "Com esses aluguéis por temporada, a gente tem uma diminuição cada vez maior do número de pessoas vivendo nesses eixos de transporte, nessas zonas onde as construções novas foram cada vez mais sendo permitidas", avalia Maíra Rosin [moradora do Copan, historiadora e doutora em Arquitetura e Urbanismo com pesquisas sobre o Centro de São Paulo]. (..)
Hoje, está em andamento no Congresso um projeto de lei (PL 4/2025), do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que trata da reforma do Código Civil, em que são contemplados especificamente os aluguéis por temporada. (..) O Airbnb informa que acompanha atentamente as discussões legais e defende ser "importante diferenciar a locação por curta temporada dos meios de hospedagem, que seguem regras próprias. Locar um imóvel residencial por curtos períodos não configura atividade comercial, nem sujeita o proprietário às obrigações de estabelecimentos hoteleiros", diz a empresa. (..)
domingo, 8 de fevereiro de 2026
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
O negócio imobiliário encontra a cidade ideal
https://www.jornaldocomercio.com/jornal-cidades/2026/01/1234480-predios-de-100-metros-em-torres-reacendem-debate-sobre-verticalizacao.html
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| Montagem: À beira do urbanismo |
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Bonduki 2024: verticalização e adensamento
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| Montagem: À beira do urbanismo |
O censo de 2022 (IBGE, 2024) confirmou uma situação que se observa desde os aos 1980, mostrando que distritos muito bem localizados em termos de infraestrutura, serviços e empregos e que têm bairros fortemente verticalizados, com empreendimentos voltados a média e alta rendas, têm baixa densidade demográfica. Esses distritos, situados no centro expandido (ou na Macroárea de Urbanização Consolidada, de acordo com a divisão estabelecida no Plano Diretor Estratégico), têm densidade populacional inferior à média da cidade, como Lapa (73,5 hab./ha), Pinheiros (77,8 hab./ha), Moema (89,9 hab./ha), Itaim Bibi (101,1 hab./ha) e Mooca (101,9 hab./ha).
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Conta que não fecha é metrópole capitalista sem periferia
O debate sobe as cidades brasileiras precisa urgentemente de lucidez. A maior parte dos problemas urbanos atuais é consequência direta de decisões mal planejadas – ou da completa ausência de políticas públicas - ao longo de décadas. (..)
















