Se é certo que a ascensão da burguesia capitalista no Brasil recém saído da escravidão acentuou o fosso social existente entre os mais ricos e os mais pobres, criando desde a origem contrastes e conflitos urbanos que chegam aos nossos dias, não menos certo é que a urbanização de mercado e a organização socioespacial que dela emerge compreendem um espectro de faixas de rendimento familiar que abrange todas as classes sociais: capitalistas, latifundiários residentes na cidade, (restos da) aristocracia, pequena burguesia urbana e trabalhadorado.
A existência, em nossas metrópoles, de grandes bolsões periféricos, centrais e pericentrais excluídos do mercado imobiliário formal, bem como de enclaves urbanos mais ou menos nitidamente segregados pela raça, etnia, nacionalidade e classe social, não nega o fato de a organização socioespacial urbana ser primordialmente determinada pela poder de oferta de renda das famílias pelo solo-localização. Quaisquer que sejam suas particularidades, a ampla penetração das leis do mercado imobiliário também nas favelas e periferias sub-urbanizadas é prova eloquente de que processos de diferenciação e estratificação não estão delimitados por fronteiras de classe social.
Assim se manifesta no plano da cidade, e não sem múltiplas contradições, a primazia do dinheiro, própria da civilização capitalista, sobre todas as demais determinações, incluída a classe social marxiana. A distribuição socioespacial da metrópole capitalista não se apresenta, como sugere Villaça, como uma dicotomia de ‘vencedores e perdedores da competição especial’. Ao contrário, os perdedores da disputa pelo solo-localização A são vencedores da disputa pelo solo-localização B, os perdedores de B são vencedores em C, e assim por diante, inclusive no interior dos ‘grandes grupos’: proprietários formais, locatários formais e informais em geral. Ou seja, em primeiro lugar vem o dinheiro, vale dizer a oferta de renda - quer estejamos falando de proprietários, adquirentes, ocupantes, inquilinos ou simples usuários de bens e serviços urbanos.
Na moderna metrópole capitalista, a primazia do dinheiro é capaz de operar prodígios sociológicos como transformar, da noite para o dia, marginais saídos das fileiras do lumpesinato urbano em respeitáveis cidadãos com livre acesso à segurança bancária, à nata da sociedade da finança e aos seus bairros economicamente segregados.
Temos aqui um aparente paradoxo: ao mesmo tempo que o advento da urbanização de mercado não pode ser compreendido abstraindo-se a formação e expansão, a partir de meados do século XIX, da pequena burguesia urbana, isto é, da classe social dos pequenos proprietários e detentores de terras, capitais, imóveis e direitos pecuniários, o mercado de bens e serviços urbanos não pode sê-lo senão pela subsunção de todas as classes sociais na determinação mais genérica da classe de rendimentos ou, como preferem os colombianos, do estrato social.
A ideia de que a estrutura socioespacial urbana é um espelho, ou projeção, da estrutura de classes marxiana constitui um obstáculo ao entendimento da metrópole capitalista. A segregação espacial de grupos sociais e usos do solo pela via do mercado intrinsecamente não-competitivo de localizações é o modo normal de estruturação socioespacial da grande cidade contemporânea, que está na base tanto da intervenção recorrente do Estado para eliminar remanescentes ‘indesejáveis’ como zonas de cortiços, favelas centrais, colônias de ex-escravos etc. quanto do desterro dos grandes programas habitacionais populares em localizações distantes e desvalorizadas.
O terceiro é de caráter epistemológico. Dizer, como faz Villaça a respeito de Hoyt, que seu modelo de estrutura urbana “não tem pretensão teórica” é uma contradição em termos. Se Hoyt não tivesse pretensão teórica não teria formulado um modelo: contentar-se-ia em apresentar seus dados e mapas e o leitor que tirasse suas conclusões. Postular um modelo de organização espacial urbana implica reconhecer que o arranjo espacial dos elementos urbanos considerados se repete, ainda que com distintas configurações, no universo das cidades estudadas, ou seja, forma um padrão.
Ao formular seu modelo de organização urbana em setores de círculo, Hoyt converte a sua empiria em teoria - mais ou menos explícita e desenvolvida a depender do apetite, ou do interesse, do autor. Ao abstrair em um modelo uma série de mapas de dados empíricos da localização residencial em n cidades norte-americanas, Hoyt está procedendo a uma generalização, que é o procedimento teórico elementar sem o qual não poderá passar às etapas seguintes, por exemplo a busca das forças geradoras desse padrão. A generalização de resultados empíricos em um modelo é, em si mesma, uma assunção teórica: um mapa mental a postular que, satisfeitas certas restrições quanto, por exemplo, à época e ao tamanho, qualquer grande cidade há de exibir aquele padrão - hipótese confirmada, aliás, pelo uso que faz Villaça do modelo de Hoyt para representar a estrutura sócio-espacial das metrópoles brasileiras.
Se o diagrama de Hoyt, elaborado como generalização de dados de um certo conjunto de cidades norte-americanas na década de 1930, serve ao estudo da organização espacial das metrópoles brasileiras na década de 1990, Villaça está obrigado a reconhecer que, necessariamente, as cidades norte-americanas estudadas por Hoyt têm muito em comum com nossas metrópoles - do contrário seu modelo seria inservível como ferramenta de estudo.
O quarto aspecto é a opção de villaciana de coroar a obra com uma redundante teoria sociológica da dominação de classe por meio da segregação e controle do espaço em lugar de responder, com base em suas próprias pesquisas e formulações, ao problema crucial enunciado na abertura do livro, qual seja, a inadequação, ou insuficiência, das teorias e métodos da geografia espacial, em geral procedentes da tradição dos estudos regionais, à análise do espaço intra-urbano [2].
“Se não há consenso, corrente organizada de pensamento nem investigação empírica sistemática sobre espaço intra-urbano (..); se não há consenso sobre os processos sócio-espaciais intra-urbanos mais importantes (..) se é limitado o material empírico e teórico sistematizado e elaborado sobre espaço intra-urbano, como aceitar para esse espaço processos sócio-espaciais, metodologias, paradigmas ou teorias transplantadas das análises regionais?” [p. 26].
Villaça não dedica mais do que quatro páginas iniciais das 360 do livro ao exame das “especificidades do espaço intra-urbano” relativamente ao espaço regional. Ao invés de extrair de sua sólida base empírica, e de suas análises comparadas, um resumo didático de quais seriam aquelas especificidades - procedimento mais do que razoável num campo que ele mesmo diz ser um "deserto investigativo" -, opta por adiantar a solução do problema com uma exegese vagamente marxista e nada clara do fenômeno da localização, que obviamente tem, como não poderia deixar de ser, um lugar central em todo o estudo. Para Villaça,