quarta-feira, 8 de novembro de 2017

As sete vidas da cidade-jardim III

Lewis Mumford (1895-1990)
A história do urbanismo ocidental - um empreendimento científico e cultural marcadamente anglo-americano abrigado, não por acaso, sob a rubrica do planning (town planning, city planning, urban planning, spatial planning, regional planning [1][2]) - é saturada de referências a Ebenezer Howard, à cidade-jardim, ao Garden City Movement e às inúmeras denominações das associações fundadas por Howard em 1899 e 1913, cujas existências se prolongam até os dias de hoje sob os nomes Town and Country Planning Association e International Federation of Housing and Planning.

Contudo, é do polímata norte-americano Lewis Mumford, um dos papas da matéria no século passado e maior patrocinador intelectual do legado de Howard, a afirmação, contida num artigo de 1965 para o New York Times [3], de que, muito contrário do que disse Jane Jacobs em Life and Death of the Great American Cities (1961), a influência howardiana no planejamento urbano norte-americano foi “praticamente nenhuma, limitada à ínfima exceção de Radburn e das [três] Greenbelt Towns iniciadas por Rexford Tugwell no segundo mandato de Roosevelt”, e, no britânico, algo como um “rastilho de ação lenta que levou meio século para detonar a explosão de cidades novas atualmente em curso” [Mumford, 1965].

Admitindo-se que ele tenha razão, resultaria que boa parte daquilo que se lê em artigos acadêmicos e livros de história urbana a respeito de Howard e da cidade-jardim howardiana não diz respeito, pelo menos até 1946, quando o Reino Unido sanciona o New Towns Act, a desenvolvimentos relevantes - por oposição a exemplos tão ilustres quanto excepcionais - que transcendam o plano das ideias.

Vejamos, a propósito, o que nos trazem dois importantes historiadores urbanos, Peter Hall [4] e Spiro Kostoff [5], o primeiro com foco no urbanismo, o segundo na cidade.

Inglaterra

É fora de questão que as cidades-jardim construídas no país de origem de seu criador são duas: Letchworth, fundada em 1903, e Welwyn, em 1920. É aqui mesmo, portanto, e desde muito cedo, que se estabelece a polêmica a respeito da propriedade de associar-se o termo “cidade-jardim” a um significativo número de novas urbanizações surgidas na Inglaterra das primeiras décadas do século XX - a mais famosa dentre elas Hampstead (1907), na então periferia de Londres, assinada por ninguém menos do que Raymond Unwin e Barry Parker, projetistas de Letchworth.


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Segundo Hall, “Hampstead foi um ponto de inflexão para o Garden City Movement na Inglaterra e para Unwin em particular, pois não se tratava, confessadamente, de uma cidade-jardim, mas de um subúrbio-jardim; não tinha indústria e dependia da acessibilidade proporcionada pela recém-inaugurada estação metroviária adjacente”. [Hall, p. 101]

Patrick Abercrombie admite num texto de 1910 que a Garden City Association tinha por objetivos a promoção não apenas de novas cidades em distritos rurais, mas também de subúrbios-jardim “para o imediato desafogo das cidades existentes” e bairros-jardim “para a moradia de trabalhadores próxima aos seus locais de trabalho” [Hall, p 105]. O próprio Unwin, numa conferência ministrada na Universidade de Manchester em 1918, teria abjurado para sempre o credo howardiano ao "recomendar a construção de cidades-satélites próximas às cidades existentes, que seriam as suas fontes de emprego" [Hall, p. 108].

Em contraste, Ewart Culpin, futuro presidente do Royal Town Planning Institute, já em 1913 observava que “inúmeros empreendimentos assumem o qualificativo ‘cidade-jardim’ promiscuamente, sem nenhum direito, tendo em vista a sua natureza absolutamente estranha às concepções dos fundadores do movimento” [Hall, p. 105]. Oito anos mais tarde, em 1921, C. B. Purdon, editor da revista da Associação, escreveu: “Não existe um único distrito cujo conselho não reclame ter construído uma [cidade-jardim]; por toda parte construtores inescrupulosos exibem a marca em suas peças publicitárias (..) cidades-jardim propriamente ditas só existem, até hoje, duas: Letchworth e Welwyn” [Hall, p. 107].


O substrato material dessa polêmica é, evidentemente, o florescimento do negócio dos assentamentos suburbanos na Inglaterra da aurora do século XX. Ealing Tenants Limited, a primeira cooperativa habitacional londrina fora fundada em 1901, adquirira 12 hectares de terreno no extremo da The Mount Avenue em 1902, “antes ainda de Letchworth”, e contratara Unwin e Parker para projetar um “bairro-jardim modelo” em 1906 [Hall, p. 101]. Desde o comitê executivo da Co-Partnership Tenants Housing Company, "Unwin desenvolveu, em parceria com Parker, subúrbios-jardim na periferia de Leicester, Cardiff e Stoke-on-Trent". O Housing and Town Planning Act de 1909 permitiu que tais “‘Sociedades de Utilidade Pública’ tomassem dinheiro a juros baixos, daí resultando que, em 1918, mais de 100 delas existiam na Inglaterra” [Hall p. 102].



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Em 1919, o Addison Act consagrou as novas ideias de Unwin - agora membro insigne do poderoso Tudor Walters Committee - no programa de habitação social do pós-I Guerra britânico, daí resultando que, “das cerca de 1 milhão de moradias subsidiadas construídas por autoridades locais no entre-guerras, nenhuma - à exceção de um punhado em Letchworth e Welwyn - estava inserida em uma autêntica cidade-jardim” [Hall, 108].


O veredicto da polêmica envolvendo a natureza dos subúrbios-jardim e cidades-satélites periféricas às grandes cidades da Inglaterra parece ter sido proferido pelo próprio Howard. Em 1920, aos 69 anos de idade, “descrente da capacidade do governo para empreender a tarefa” de dar à luz a sua acalentada social-city, Howard, “sem consultar ninguém e sem ter dinheiro suficiente“, adquiriu uma grande propriedade em Welwyn obrigando a Garden Cities and Town Planning Association a sair em seu socorro. Assim nasceu, “por métodos não-convencionais”, 15 anos depois de Letchworth, a segunda e última cidade-jardim howardiana [Hall, p. 108].


Estados Unidos
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Kostoff resume a influência da cidade-jardim howardiana nos Estados Unidos às já citadas Radburn, em Nova Jersey, de 1928, assinada pelos “Parker & Unwin estadunidenses Clarence Stein & Henry Wright” - em que “os princípios howardianos do greenbelt  e da propriedade pública da terra foram deixados de lado, mas não o componente industrial, que sobreviveu até 1986” - e às Greenbelt Towns, de 1935, já em pleno New Deal, a cargo da United States Resettlement Administration - “o mais próximo que estiveram os Estados Unidos do modelo de Howard” [Kostoff p. 80].

Kostoff atribui a rejeição norte-americana das cidades-jardim - que seus proponentes e defensores insistiam não serem “subúrbios de cidades pré-existentes, mas comunidades autossuficientes com suas próprias oportunidades de emprego e aparatos de administração, cultura e serviços” - pelo fato de ser “quase impossível ao sistema norte-americano tolerar a propriedade comunal e os controles sobre  o uso da propriedade”, coisas que “recendem a socialismo e comunismo” [Kostoff p.78].

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Contudo, como “princípio de projeto de grande popularidade, extremamente flexível e facilmente adaptável a qualquer ideologia” -, o “paradigma da cidade-jardim” teria tido um apelo permanente em subúrbios norte-americanos de alta renda, com base, porém, em referências vernáculas como Glendale, Ohio (1855), e Riverside, Illinois (1869) - esta última assinada por Calvert Vaux e pelo arquiteto paisagista Frederick Law Olmsted, criador do Central Park de Nova York -, ambos bastante anteriores às cidades-jardim howardianas [Kostoff pp. 77, 79] [Itálicos meus].

Os subúrbios-jardim de Country Club District, em Kansas City, e Forest Hills Gardens, em Nova York, de 1915, são citados como exemplos excepcionais de urbanizações sujeitas a controles de uso do solo (étnicos e raciais inclusive). Forest Hills, com desenho nitidamente hampsteadiano e patrocínio da fundação filantrópica Russell Sage, comportava “famílias modestas” que poderiam “obter residências de modo similar ao das cidades-jardim inglesas’” [Kostoff p. 79].

Outros subúrbios-jardim mencionados por Kostoff são as comunidades-modelo produzidas, durante a Primeira Guerra Mundial, pelo “relutante” programa federal de habitação popular Emergency Fleet Corporation (Yorkship Village, em Camden, Union Park Gardens, em Delaware e Buchman Village, na Pensilvânia) e as vilas operárias de Goodyear Akron, Ohio e Billerica Garden Suburb, Massachusetts, ambas de iniciativa mista [Kostoff p. 79].

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A versão de Peter Hall sobre a trajetória da cidade-jardim em território norte-americano é, não por acaso, tão pródiga em ideias quanto pobre em exemplos. Para além das já mencionadas Radburn, Forest Hills Gardens e Greenbelt Towns, Hall destaca a criação de Sunnyside Gardens, um subúrbio-jardim de Nova York construído por Alexander Bing e que teve Mumford como um de seus primeiros residentes, e “duas outras Radburns” que tiveram o próprio Stein como consultor - Chatham Village (1932), na periferia de Pittsburgh e Baldwin Hills Village (1941), em Los Angeles. As três “Stein-Wright Radburns” são, para Hall, “as mais importantes contribuições norte-americanas à tradição da cidade-jardim”, embora “tenham há muito submergido na expansão dos subúrbios” [Hall p.128-29]

A indiscutível estrela da seção de Cities of Tomorrow dedicada à trajetória da cidade-jardim em solo norte-americano é a Associação Estadunidense de Planejamento Regional (RPAA), um clube de adeptos da cidade-jardim howardiana como instrumento e objeto da descentralização urbana, de enorme lastro profissional e intelectual, cuja maior façanha foi, no entanto, ter lançado uma ponte entre a social-city de Howard - a rede de cidades-jardim a serem criadas como alternativa à atratividade das velhas metrópoles - e o New Deal rooseveltiano pela via do planejamento regional preconizado por Patrick Geddes. Tal é, inequivocamente, o vetor do “programa de cinco pontos” adotado pela RPAA em 1923, por ocasião de uma visita de Geddes aos Estados Unidos:


(1) desenvolvimento de  relações com os planejadores britânicos
(2) criação de cidades-jardins no âmbito de um plano regional
(3) desenvolvimento de planos e projetos regionais para promover a Appalachian Trail
(4) colaboração com a comissão de Planejamento de Comunidades do Instituto Estadunidense de Arquitetos para propagar o regionalismo
(5) realização de estudos de áreas críticas, notadamente o Vale do Tennessee


Ao final da seção dedicada à RPAA, Hall conclui que “de tudo isso, muito pouco virou política pública nos EUA dos anos 1920. (..) Por intermédio de Alexander Bing, a Associação trouxe à luz duas comunidades experimentais: Sunnyside Gardens, em New York City, e Radburn, em New Jersey. No mais, o que conseguiu foi vender sonhos de longo prazo” [Hall p. 156] ]

Para Hall, como para Mumford, a cidade-jardim howardiana é, na melhor das hipóteses, uma gota no oceano da expansão suburbana estadunidense.

Europa Continental


A seção de Cities of Tomorrow dedicada à trajetória da cidade-jardim na Europa Continental é uma pérola de anglocentrismo - um tema que deixaremos para comentar em texto mais propício. Por ora, basta dizer que, na opinião de Hall, o conceito foi “completamente diluído” na transposição da Mancha por advogados que reclamavam, eventualmente até com justiça, ter formulado por si mesmos conceitos de cidade-jardim “sutil, mas significativamente distintos do de Howard” [Hall p. 112].

Na Espanha, Hall não encontra material suficiente para mais que um breve comentário, bastante despectivo aliás, sobre a Cidade Linear do espanhol Arturo Soria y Mata, cuja formulação antecede em seis anos a publicação de To-Morrow e cujas obras antecedem em uma década a fundação de Letchworth. A cidade linear - mais exatamente uma “cidade-jardim planejada linear” oferecida ao público sob o slogan “A Cada Família Uma Casa, em Cada Casa uma Horta e um Jardim” -, que teve construídos apenas cinco dos 48 quilômetros previstos ao redor de Madri, “não passava de um subúrbio dormitório de caráter meramente comercial” logo "engolido pelo formidável crescimento da metrópole”  [Hall p. 113].


Quanto à França, um parágrafo é dedicado à Cidade Industrial do francês Tony Garnier -  o “Howard francês” que a postulou no mesmo ano de 1898, mas só trouxe à luz 20 anos depois -, uma urbanização hipotética “economicamente dependente de uma única grande siderúrgica (..) baseada na propriedade comum, desprovida de instituições repressivas como delegacias, tribunais e igrejas” e, quanto ao traçado, “marcada por bairros residenciais em malha ortogonal ao longo de grandes avenidas axiais” [Hall p. 113].

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Howard teria, porém, influenciado diretamente o jurista e jornalista Georges Benoit-Levy, criador da Association des Cités-Jardins de France e promotor de uma confusão elementar entre a cidade-jardim e o subúrbio-jardim” da qual os “franceses, incuravelmente urbanos, nunca se livraram”. Daí resultou a implantação, entre 1916 e 1939, de 16 cités-jardins na periferia de Paris sob responsabilidade do já citado Henri Sellier, que “não apenas sabia que sua interpretação não era puro Howard, mas a variante unwiniana produzida em Hampstead”, como “mandou seus arquitetos visitarem Unwin em 1919 e usou seu livro-texto como guia para os projetos” [Hall p. 114].

Kostoff registra a adesão de Benoît-Levy à cidade-jardim howardiana, na primeira década do século XX, como “alternativa à expansão especulativa dos loteamentos periféricos” na França. No quadro de um “colapso do mercado habitacional privado que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, Sellier “adotou a cidade-jardim como modelo para seu trabalho à frente do Departamento de Moradia Popular de La Seine”, cujos primeiros projetos foram elaborados “à maneira inglesa”, “no espírito de Letchworth”. Mais tarde, na década de 1930, os projetos ganharam maior densidade e as residências unifamiliares acabaram substituídas por blocos de apartamentos de 4 pavimentos [Kostoff p. 77].


O prototípico “Howard alemão” foi, para Hall, Theodor Fritsch, um “raivoso propagandista do racismo” que trouxe a público a sua Cidade do Futuro dois anos antes (1896) do modelo howardiano e “era obcecado pela certeza de que Howard havia roubado a sua ideia” - um “esquema urbano circular com propriedade comum do solo, separação de usos, centro destinado a jardins públicos, greenbelt, moradias unifamiliares e periferia industrial, mas de dimensões muito maiores que a cidade howardiana e não destinada à descentralização urbana que está no centro de sua concepção” [Hall p. 114].


Foi o negociante Heinrich Krebs quem “trouxe da Inglaterra o livro de Howard, mandou traduzi-lo, organizou uma conferência e fundou o equivalente alemão da Garden City Association”, tornando-se assim o pioneiro de uma coorte de seguidores não exatamente de Howard, mas de Unwin, na criação de colônias operárias e subúrbios-jardim espalhados pela Alemanha [Hall, p. 115].


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Margarethenhöhe, na periferia de Essen, “bairro-jardim promovido pela família Krupp em 1912 como a última de uma longa série de colônias industriais iniciada em 1863”, é uma “New Earswick transplantada” por Georg Metzendorf, arquiteto alemão que teria aqui logrado ser “mais uniwiano do que o próprio Unwin” [Hall p. 115].

Hellerau, uma “jóia sem igual” na periferia de Dresden, era “essencialmente um subúrbio-jardim no final de uma linha de bondes”, com “casas geminadas na tradição Unwin-Parker e um layout de caminhos para pedestres que antecipa Radburn em duas décadas” [Hall p. 115].

As pequenas cidades-satélites de Nidda, Praunheim e Römerstadt, na periferia de Frankfurt, faziam parte de um programa estatal de construção de 15.000 residências em áreas rurais adquiridas a baixo preço pela municipalidade. Criadas entre 1925 e 1933 pelo arquiteto-planejador Ernst May, “que trabalhara com Unwin em 1910, em Letchworth como em Hampstead e mantinha com ele estreito contato”, conservaram o padrão unwiniano de densidade (casas unifamiliares), mas não de arquitetura, “intransigentemente moderna”. Apesar de isoladas por modernas rodovias e “inteiramente absorvidas em uma grande e amorfa cidade-satélite chamada Nordweststadt”, encontram-se hoje “totalmente gentrificadas, com somente 11 por cento dos trabalhadores blue-collars para os quais foram projetadas” [Hall pp. 117-18].


Siemestadt
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Martin Wagner, planejador que “não acreditava em cidades-satélites”, foi o mentor de Siemenstadt, complexo residencial criado entre 1929 e 1931 pelo gigante do setor elétrico nas proximidades da estação metroviária de Siemensdamn, na periferia de Berlim, composto por blocos de apartamentos de quatro e cinco pavimentos projetados por grandes nomes da arquitetura alemã. Foi também o criador de Onkel-Toms-Hutte (1926) e Britz (1931), “puros subúrbios-jardins” desenvolvidos pela Gehag - agência de habitação subsidiada criada em 1924 - sobre extensões do Metrô de Berlim. “Ambos esplêndidos, mas, ironicamente, antíteses da ideia de cidade-jardim” [Hall p. 119].

Finalmente, uma breve menção é feita por Kostoff ao uso dos diagramas de Howard pelo russo Vladimir Semionov para ilustrar o projeto da comunidade de trabalhadores ferroviários de Prozorovska, de 1912, e ao papel da cidade-jardim na polêmica pós-revolucionária a respeito da descentralização urbana, descartada em 1932 como antagônica aos interesses do Estado [Kostoff p.78].


Conclusão


A influência da cidade-jardim howardiana - trazida a público em To-morrow [6] e à vida em Letchworth e Welwyn - no desenvolvimento urbano do Ocidente é um objeto fugidio a oscilar no pêndulo de uma patente contradição: seus maiores apóstolos, ao mesmo tempo que lhe atribuem foros de fato indisputável, dedicam-se a acumular evidências de que ela jamais, ou quando muito raramente e de maneira pontual e insatisfatória, se materializou, pelo menos até o momento em que, na Grã-Bretanha do imediato segundo pós-guerra, o New Towns Act dá início a um extenso programa de construção de cidades novas no marco do esforço nacional de reconstrução urbana e reposição-expansão acelerada de seus estoques habitacionais.

Mumford não apenas atribui a Howard a paternidade, antecipada em meio século, do programa britânico das New Towns - “um rastilho de ação lenta que levou meio século para detonar (“causar” é o termo original) a explosão de cidades novas atualmente em curso” - , como fornece a Hall, que o replica 23 anos depois, o mote da vindicação mundial da cidade-jardim - “ao longo da última década as cidades-jardim, agora chamadas New Towns, se multiplicam por todo o mundo”, uma provável referência a programas congêneres espalhados por toda a Europa sob os auspícios do Plano Marshall.

Não há, pois, melhor época e lugar do que a Europa do pós-Segunda Guerra Mundial para continuar a busca da real - e imaginária - influência da obra de Ebenezer Howard na construção da cidade ocidental.


Deixo, também, para uma próxima contribuição a tarefa de esmiuçar o fascinante artigo de Mumford, incluindo o conteúdo e o método de sua diatribe com Jane Jacobs. O método, em especial, deverá servir para trazer à baila a abordagem de Françoise Choay, um dos grandes expoentes da historiografia do urbanismo no século XX.

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NOTAS

[1] Raymond Unwin publicou em 1909 o seu clássico estudo de desenho urbano sob o título Town planning in practice: an introduction of the art of designing cities and suburbs.


[2] A mais festejada instituição histórica do urbanismo nos Estados Unidos, povoada de nomes ilustres como Lewis Mumford, Clarence Stein, Benton MacKaye, Alexander Bing e Henry Wright, embora expressamente dedicada a estudos e projetos urbanos, autodenominou-se Regional Planning Association of America por influência de Patrick Geddes, que a visitou em junho de 1923, logo após a sua fundação.


[3] Mumford, Lewis. “Revaluations I: Howard’s Garden City”, em New York Times 08-04-1965,
ttp://www.nybooks.com/articles/1965/04/08/revaluations-i-howards-garden-city/

[4] Hall, Peter. Cities of Tomorrow [1988], Blackwell, Londres 1996


[5] Kostoff, Spiro. The City Shaped [1991], Thames and Hudson, Londres 1999


[6[ Howard, Ebenezer. To-morrow: A Peaceful Path to Real Reform, Londres 1898



2017-11-10