Não seriam, de fato, a compactação central e a dispersão periférica formas relativas e interdependentes, historicamente construídas e permanentemente diferenciadas, da aglomeração urbana moderna e contemporânea?
"do ideário de dispersão difundido por meio da ação de empresas de reconhecida importância na historiografia do Urbanismo: a Compañía Madrileña de Urbanización (CMU), empresa urbanizadora fundada pelo madrilenho Arturo Soria y Mata para implementar sua ideia de ciudad lineal, proposta pela primeira vez em 1882; as empresas Garden City Pioneer Company e First Garden City Ltd, fundadas, respectivamente, para levantar fundos e gerenciar a construção de Letchworth, primeira cidade-jardim construída, cujo esquema teórico foi concebido em 1898 por Ebenezer Howard; e a empresa City of São Paulo Improvements and Freehold Company Ltd, conhecida como Cia. City, responsável pela implementação dos primeiros bairros-jardim de São Paulo, a partir de 1915."[2]
“O estudo de Navacués nos permite apreciar a realização de Soria "dos pés para a cabeça", isto é, como projeto de urbanização antes que como utopia, mais exatamente especulação, urbanística, ambiguidade que a define, quem sabe ao lado da cidade-jardim howardiana, como híbrido histórico: pode-se discutir se é o programa de reforma social que para poder sair à luz se adapta às exigências da nascente indústria da suburbanização ou se é esta que, ainda debutante, se apresenta aqui e ali em trajes de colônia semi-rural destinada ao aperfeiçoamento físico e moral das classes laboriosas.” [6]
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Não surpreende, a essa altura, que a Cia City seja introduzida aos leitores não como empresa promotora do primeiro ciclo de expansão periférica de São Paulo, mas como a urbanizadora que "auxiliou no ideário da dispersão urbana" da capital.
A riquíssima descrição de seu "intricado modus operandi, com o desenvolvimento de estratégias de negócios baseadas em relações de influência direta sobre o poder público com vistas a beneficiar-se, acomodar seus interesses e ampliar os lucros" contrasta com a ausência de indícios que comprovem a existência ou formação no âmbito da companhia, de seu corpo dirigente, de seus projetistas e de seus empreendimentos, de um "ideário da dispersão" por oposição a quaisquer outros ideários alternativos.Nenhum registro material é apresentado para demonstrar que essa empresa que fez de Barry Parker seu "lobista", tirando "proveito de sua fama internacional como arquiteto e sócio de Raymond Unwin [no projeto de Letchworth Garden City] para aproximar-se de funcionários da Prefeitura de São Paulo e influenciá-los no que se refere à realização de seus projetos urbanísticos", também "se apresenta como vertente do ideário de dispersão urbana que emergiu da crítica à cidade compacta e densa". Em que âmbito se deram as discussões sobre tal ideário? Quais foram os seus protagonistas?
A síntese dessa ambiguidade é o parágrafo que segue:
A atuação da City no início do século XX produziu uma expansão urbana bastante característica, voltada para as elites de São Paulo, reinterpretando o ideário da cidade-jardim para a realidade brasileira. A empresa foi definitiva na difusão desse ideário como proposta de urbanização, ainda que restrita à escala do bairro. E, mesmo nessa escala, apresentam-se princípios de dispersão urbana, especialmente no que tange aos padrões da urbanização residencial unifamiliar, de baixa densidade e de expansão da malha urbana. [7]
Não tenho dúvidas de que a migração, em inícios do século XX, de segmentos da sociedade paulistana para a periferia da capital foi alimentada, no que tange às expectativas dessas famílias, por um ideário mesclado de higienismo e elitismo: baixa densidade, ar puro, espaços verdes, privacidade. A todo processo social subjazem crenças, nas quais, sem dúvida alguma, tem papel importante em nosso caso a fama internacional das cidades-jardim e subúrbios-jardim.
Mas as crenças não nascem de si mesmas, como revelações: a crença nas vantagens de morar num bairro-jardim tem um conjunto de pré-condições, a primeira delas a existência de capitais urbanizadores capazes de adquirir terras, loteá-las, urbanizá-las, financiar a aquisição de lotes e residências e, o que é decisivo para o negócio, propagandear as vantagens da vida suburbana. Esses capitais não são difusores de um ideário de dispersão escolhido dentre outros ideários urbanísticos possíveis, nascidos nas universidades e na imaginação dos reformadores sociais, mas agentes econômicos catalisadores de um processo de dispersão impulsionado por uma combinação de circunstâncias socialmente dadas, alheias à vontade de cada agente individual e das distintas escolas de urbanismo: crescimento demográfico, aumento da riqueza coletiva, provimento de serviços públicos e consequente expansão da área urbanizável, desejo de ascensão social espacialmente compartilhada, expectativa de valorização do patrimônio familiar etc.
Longe de "reinterpretar o ideário da cidade-jardim para a realidade brasileira", a City recriou, para as condições de S. Paulo, o produto imobiliário subúrbio-jardim, objeto, na Inglaterra, de uma rumorosa ruptura de Unwin e Parker com a doutrina descentralizadora de Howard [6b] [6c]. O bairro-jardim paulistano foi a resposta das companhias urbanizadoras ao fato de que S. Paulo não tinha, àquela altura, escala nem estrutura de transporte que justificassem o uso da expressão "subúrbio-jardim". A cidade-jardim, por sua vez, não foi sequer cogitada pelo simples fato de que as famílias interessadas na aquisição de novas moradias periféricas estavam ainda obrigadas à viagem diária ao centro de negócios da capital.
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A essa altura, creio ser necessário abordar a relação, crucial na construção do artigo, entre descentralização e dispersão. Começo por uma relevante diferença de opinião entre os autores e Hall a propósito dos desígnios de Ebenezer Howard.
Para Pescatori e Faria, Howard "defende veementemente a urbanização de baixa densidade como solução para os problemas da cidade daquele período". Hall contesta tal visão, que seria a da maioria dos críticos de Howard, afirmando que a cidade-jardim howardiana "comporta densidades como a do centro de Londres" e que não se pode "confundi-la com subúrbios-jardim como Hampstead e suas numerosas imitações". O objetivo howardiano de - nas palavras dos autores - "deter a migração campo-cidade" por meio de uma “cidade-campo” que “assegure a combinação perfeita de todas as vantagens da mais intensa e ativa vida urbana com toda a beleza e prazeres do campo na mais perfeita harmonia” não implica, para Hall, "confinar as pessoas em povoados rurais isolados", mas oferecer-lhes "conurbações planejadas de centenas de milhares, e até mesmo milhões, de habitantes". [8]
Descontado o viés da fervorosa admiração de Hall pelas ideias de Howard, sua interpretação é que a doutrina howardiana não postula absolutamente a "dispersão", que ambos associam à expansão da fronteira metropolitana pela via das novas urbanizações periféricas, como os subúrbios-jardim, mas a "descentralização" urbana na forma do plano de "polinucleamento integrado" batizado Social City na primeira edição (1898) de seu Garden Cities of Tomorrow.
Pescatori e Faria têm outra visão:
Embora me pareça razoável postular que, no limite, a descentralização é uma forma de dispersão e que o polinucleamento não produzido pelo próprio mercado implica certo grau de dispersão econômica e cultural - haja vista o papel insubstituível atribuído aos grandes centros pelas agências de desenvolvimento econômico -, em termos estritamente espaciais e de política urbana a construção de cidades novas nos espaços intermédios das grandes metrópoles, como fez o Estado britânico no pós II Guerra, se distingue claramente do estímulo, por ação (infraestrutura e serviços) ou omissão (legislação permissiva), à suburbanização, vale dizer à expansão da área metropolitana por agregação de parcelamentos exourbanos fadados à progressiva absorção pela mancha urbana. Do contrário não faria sentido existir tal distinção. Ao passo que a suburbanização procede do movimento "natural", vale dizer da natureza lucrativa, do capital urbanizador, as cidades novas são, com as notáveis exceções de Letchworth, Welwyn e um punhado de cidades industriais construídas na Europa e EUA, empreendimentos impensáveis fora da alçada do Estado planejador e promotor.O polinucleamento integrado, ou seja, a composição de núcleos urbanos separados fisicamente, mas interligados econômica, social e culturalmente, é uma organização dispersa na essência, baseada na noção de que a cidade não deve crescer infinitamente; ela deve ser limitada e, conforme a necessidade, outro núcleo deve ser construído. [9]
(..) I focus on the theory or urban design, or on abstract urban schemes that are there to prove a point or propose a utopia, only when there is a tangible relation to the practices of actual town-making. More importantly, many cities come about without benefit of designers, or once designed, set about instantly to adapt themselves to the ritual of everyday life and the vagaries of history. [15]
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NOTAS
[1] BURGESS E W, “The Growth of the City: An Introduction to a Research Project", em BURGESS, E W e PARK R E, The City: Suggestions for Investigation of Human Behavior in the Urban Environment, The University of Chicago Press, 1984: Chicago e Londres
https://kupdf.net/download/park-burgess-the-citypdf_5a46e89ae2b6f5a6028b1d54_pdf
[2] PESCATORI C e FARIA R, “Dispersão urbana e empresas urbanizadoras na cidade industrial: a atuação da Compañia Madrileña de Urbanización, da Garden City Pioneer Company, da First Garden City Ltda. e da Cia City.” Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, [S. l.], v. 22, 2020, p.4.
https://rbeur.anpur.org.br/rbeur/article/view/6136
[3] HALL P, Cities of Tomorrow [1988], Blackwell, Londres 1996, p.48-9.
[4] HALL P, op. cit. p.48.
[5] HALL P, op. cit. p.2.
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/01.006/3240
https://static1.squarespace.com/static/561937b1e4b0ae8c3b97a702/t/572b57deab48deef0578501f/1462458334983/09_Aguiar%2C+Tito+Flavio+Rodrigues+de.pdf
[7] PESCATORI C e FARIA R, op. cit, p.19.
[8] HALL P, op. cit. pp. 87, 93.
[9] PESCATORI C e FARIA R, op. cit, p.11.
[10] PESCATORI C e FARIA R, op. cit, p.13.
[11] “The Big Plans That Built New York City”. Bloomberg, 02-02-2022, por John Suricohttps://www.bloomberg.com/news/features/2022-02-02/how-new-york-s-master-planners-shaped-a-metropolis
[14] WIKIPEDIA, “New Towns Act” Edit 28-03-2023
https://en.wikipedia.org/wiki/New_Towns_Acts
[15] KOSTOF S, The City Shaped, “Introduction”. London: Thames and Hudson 1991, p. 12




















