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domingo, 15 de novembro de 2020

Habitação subsidiada no coração de Niterói

O Globo 10-11-2020 

Prédio da Caixa, em Niterói, dará lugar a moradias populares

Este edifício está situado na Avenida Amaral Peixoto, aberta em 1940-50, contemporânea e simbolicamente similar à Avenida Presidente Vargas (1940-44), no Centro do Rio de Janeiro, ambas formalmente inspiradas no modelo de rua-corredor volumetricamente definida com edificações sobre passeios em galerias, estabelecido pelo Plano Agache para a Esplanada no Castelo, Rio de Janeiro, na segunda metade década de 1920.


Diferentemente, porém, da Presidente Vargas, cujo cruzamento com a Avenida Rio Branco continua sendo o foco irradiador da valorização comercial no Centro do Rio, a Amaral Peixoto parece ter sido mortalmente ferida em seu protagonismo como “avenida central” de Niterói com as mudanças econômicas, sociais e político-administrativas decorrentes da abertura da Ponte Rio-Niterói em 1974 e da perda da condição de capital do Estado do Rio de Janeiro em 1975. Não tenho uma teoria e não sei se alguém já produziu um trabalho conclusivo a respeito.



Fato é que suas salas comerciais sofreram uma enorme perda de valor de localização, em parte, talvez, pela transferência de escritórios de advocacia e contabilidade para o Rio de Janeiro, em parte pela saída de consultórios e serviços médicos para o núcleo comercial de alta renda de Icaraí, em parte pela concorrência comercial dos novos shoppings centrais, ambos contíguos à Estação da Barcas Rio-Niterói.

Desconheço a exata situação do conjunto das edificações, mas é visível a deterioração de boa parte delas em face dessas mudanças. O edifício em questão parece ser um caso limite. Sua transformação em edifício residencial de habitação subsidiada pode ser o início de um novo ciclo urbanístico na história da Avenida Amaral Peixoto e do Centro de Niterói, que espero ser bem planejado, bem administrado e bem sucedido. 

Não é coisa simples.

2020-11-12

domingo, 24 de novembro de 2019

Laranja agradecida

FolhaNit 23-11-2019

Integração Entre Ônibus e Barca Terá Desconto de R$ 4 a Partir de Dezembro

A partir de dezembro, o passageiro que pegar um ônibus municipal (R$ 4,05) e depois a barca (R$ 6,30) poderá pagar R$ 6,35 pela viagem nos dois modais, ao invés dos R$ 10,35 atuais, um desconto de R$ 4.

(..) O projeto faz parte do Plano Municipal de Mobilidade Urbana Sustentável, que será apresentado no próximo dia 26, e tem o objetivo de incentivar o uso do transporte público. Rodrigo Neves explicou que enviará à Câmara nas próximas semanas o pedido de autorização legislativa para implantar um projeto que pretende subsidiar o desconto nas tarifas e que a integração com o Estado é para que o benefício funcione no mesmo sistema do Bilhete Único.


Moradores de outras cidades que têm o Bilhete Único metropolitano estadual e fizerem a integração de ônibus municipal em Niterói com as barcas também serão beneficiados. Witzel enfatizou a importância de mais uma parceria com a Prefeitura e comemorou a iniciativa do Município. “Estamos trabalhando pelo bem da população.” (..)
*
A medida, indiscutivelmente, é ótima para os usuários afetados. O subsídio é inevitável porque não há como compensar os custos crescentes dos transportes de metrópoles globalizadas com tarifas pagas por salários latino-americanos.

Mas convenhamos.

Primeiro retalha-se o sistema metropolitano de transportes para entregar cada pedaço a uma concessionária em prejuízo da racionalidade do sistema, com aumento geral de custos a serem repassados às tarifas. Em seguida, põem-se os municípios a competir pela concessão de subsídios!

Será absurdo pensar que estamos assim transferindo recursos dos royalties do petróleo às concessionárias, ficando a população na posição de laranja agradecida aos papais-noéis de plantão? Ou devemos nos limitar a aplaudir o prefeito de Niterói por saber tirar partido da nossa riqueza relativa para melhorar ainda mais a nossa posição?

Imaginemos a situação do morador de São Gonçalo, onde a renda per capita 2010 era R$ 669,30, pagando 4 reais a mais pelo seu deslocamento ao Centro do Rio de Janeiro que o morador de Niterói, onde a renda média 2010 era R$ 2009,29. Caberá a Niterói, a São Gonçalo ou ao Estado do Rio arcar com a ineficiência de criar-se uma nova gambiarra no sistema para compensar tamanha iniquidade?

2019-11-24 

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Meu Túnel Minha Vida

O Globo Rio / Bairros 03-11-2019, por Ana Claudia Guimarães

A nova cara do setor imobiliário em Niterói

Luxo é ser simples, compartilhável e sustentável. Com esse conceito, o empresário Burno Serpa Pinto, presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi) de Niterói, vem pedalando (literalmente) atrás de bons resultados para o setor na cidade. (..)

Agora, falando em números, Bruno diz que o setor vem ganhando fôlego: só a Spin registrou crescimento de 59% em unidades vendidas de janeiro a setembro deste ano, em comparação com o mesmo período de 2018.

— Influem a queda da taxa de juros, os baixos rendimentos das aplicações financeiras e a oportunidade de compra num cenário ainda de baixa de preços — diz ele, citando São Francisco, Charitas e Piratininga como os mais novos queridinhos do mercado. Neste último, haverá lançamentos no verã
o.

Túnel Charitas-Cafubá

Leia também neste blog

“Vem aí: Jardim Cafubá” (22-05-2017)

“Vem aí o Jardim Cafubá II” (10-06-2017)

“O planejamento olímpico e a revolução dos transportes II” (31-10-2017)

2019-11-14


terça-feira, 31 de outubro de 2017

O planejamento olímpico e a revolução dos transportes II

Estado considera inviável tarifa social no catamarã Charitas-Praça XV
Segundo secretaria, para haver uma diminuição na tarifa a linha precisa ter um acréscimo de 40 mil novos passageiros

Montagem: à beira do urbanismo
Imagens originais: Internet
Dois anos depois da prefeitura de Niterói ter dado início à construção da infraestrutura do sistema BRT, dita Transoceânica - que além de ter custado muito dinheiro multiplicou por não-se-sabe-quanto os efeitos da crise recessiva sobre o comércio e serviços do corredor Piratininga-Itaipu -, os cidadãos ficam sabendo, pelo noticiário de O Fluminense, que inexistem até hoje quaisquer planos para a integração do novo sistema ao transporte aquaviário Charitas-Praça XV. 

Até sabe Deus quando, o trabalhador que não puder pagar os atuais R$ 16,50 cobrados para atravessar a Baía de Guanabara a partir do ponto final do BRT terá de pegar um ônibus municipal pela tarifa de R$ 3,70 para chegar, 30 minutos depois se o trânsito permitir, à Estação Hidroviária da Praça Arariboia, no Centro de Niterói, de onde deverá desembolsar mais R$ 6,50 para chegar à Praça XV.

Em qualquer caso, se seu destino não estiver nas redondezas terá de desembolsar outros R$ 3,80 para tomar o VLT ali do lado ou, mais provavelmente, o Metrô a R$ 4,30 ou um ônibus municipal a R$ 3,60 depois de uma caminhada cheia de obstáculos até a Avenida Rio Branco. Se quiser pegar o VLT na praça XV para ir ao Metrô da Carioca, perderá tempo, paciência e dinheiro. Eu garanto: é melhor respirar fundo e ir a pé.

Integração tarifária? Talvez, em algum momento desse périplo, alguns centavos de desconto que não dão nem para um café! 

Pode-se, é claro, alegar que nada disso é necessário. Basta ao trabalhador continuar utilizando uma das inúmeras linhas de ônibus que ligam os bairros de Niterói - Charitas, por exemplo - ao Rio de Janeiro pela Ponte Rio-Niterói. Demora mais, mas custa menos. E se der sorte de ir sentado, pode ser bem mais confortável! 

O porquê dessa balbúrdia? Para mim, é o resultado da gestão público-privada dos transportes metropolitanos: metade má fé e malfeitos diversos contra o patrimônio público e a economia popular, metade puro efeito da moderna exploração privada monopolista, ou cartelizada, dos serviços urbanos. E vá saber onde terminam uns e começa a outra...

Montagem: à beira do urbanismo
Imagens originais: Internet

Leia também
"O Planejamento olimpico e a revolução dos transportes" (Abril 2012)
http://abeiradourbanismo.blogspot.com.br/2012/04/o-laboratorio-de-planejamento-urbano-do.html

2017-10-31

sábado, 10 de junho de 2017

Vem aí o Jardim Cafubá (II)

O Globo Rio - Bairros 05-06-2017, por Renan Almeida

Túnel Charitas-Cafubá inaugura neste sábado
Via altera a dinâmica do trânsito entre Região Oceânica e a Zona Sul

A partir de amanhã, a Região Oceânica fica bem mais próxima da Zona Sul com a entrega da obra que por décadas esteve no imaginário dos moradores da cidade. O túnel que liga os bairros de Charitas e Cafubá abre para circulação de veículos às 13h, um ano e dez meses depois da detonação que marcou o início das perfurações. (..) O túnel tem 1.350 metros de extensão e, para percorrê-lo, são necessários cerca de dois minutos, na velocidade máxima permitida de 80km/h (veículos leves) e 60km/h (ônibus e caminhões). (..)


Muito mais do que a do trânsito, como quer O Globo, a inauguração do túnel Charitas-Cafubá altera a dinâmica do mercado imobiliário de Niterói, cumprindo aquele que é, a meu ver, o principal objetivo de sua execução: turbinar a valorização dos bairros da Região Oceânica por meio do acesso rápido ao mercado de trabalho do Centro metropolitano e ao parque de comércio e serviços de Icaraí.

Não é por acaso, creio, que o Executivo municipal, que até hoje não apresentou um plano de integração tarifária do futuro BRT com o serviço hidroviário de Charitas ao alcance do trabalhador comum, tampouco um plano convincente de extensão do sistema de transporte público até o Centro de Niterói, tenha por outro lado construído a toque da caixa as garagens subterrâneas vizinhas à estação de catamarãs. O preço do estacionamento diário, ou mesmo a tarifa do BRT, somado à do Catamarã Charitas só cabe no orçamento dos que exercem funções qualificadas em grandes empresas estatais e privadas do Centro do Rio.

Para o setor imobiliário, que não é mero figurante nesse filme, o componente automobilístico da Transoceânica tem um valor específico que vai muito além do BRT e já produz efeitos muito antes do início de sua operação.

Além de servir aos automobilistas da Região Oceânica que demandam o Centro do Rio pelo serviço de catamarãs, o túnel Charitas-Cafubá, por força de seu traçado e sistema de acesso, tende a revolucionar os preços do solo em todo o entorno da Lagoa de Piratininga, que, pela idade da ocupação, relativo isolamento das praias - a despeito da proximidade física - e urbanização precária, há muito se mostravam declinantes em relação a zonas de crescimento mais recente e dinâmico como Camboinhas e Itaipu. Localidades como Cafubá e Maralegre, principalmente, e a própria Praia de Piratininga passam a estar, até onde o congestionamento de tráfego permitir, a poucos minutos por automóvel do parque de comércio de grife e serviços especializados de Icaraí.

O retorno, ao noticiário, do tema da urbanização e regularização fundiária da orla da Lagoa de Piratininga não é mera coincidência. Resta ver como a pressão gentrificadora afetará as comunidades, informais algumas delas, há muito aí instaladas e pressionará, por outro lado, a legislação urbanística bastante restritiva dos aproveitamentos de terreno, portanto dos lucros imobiliários. O certo é que a valorização ocorrerá.

Ao passo que o BRT é uma incógnita, o túnel rodoviário é sucesso garantido entre os niteroienses motorizados. Niterói é a cidade brasileira de mais elevado rendimento familiar mensal per capita (R$ 2.303,00 IBGE 2010), com uma distribuição sócio-espacial que nada tem de homogênea. A família niteroiense compradora de habitação de mercado tem carro do ano, às vezes dois, e redes familiares distribuídas entre os bairros litorâneos da baía (Ingá, Icaraí, Jardim Icaraí) e oceânicos (Piratininga e Grande Itaipu), todos na Zona Sul. Na Zona Norte, quando muito, resta um avoengo.

Morar num apartamento novo do Jardim Cafubá trabalhando no Centro do Rio, enquanto o(a) parceiro(a) leva e busca as crianças no colégio no Jardim Icaraí e aproveita para consultar o especialista e as butiques da moda da Rua Moreira César, passa a ser uma rotina viável e bastante atraente. Vez por outra, ainda se poderá ir ver a bisa em sua casa no Barreto.

Inversamente, as praias oceânicas, Camboinhas e Piratininga principalmente, estarão muito mais acessíveis aos residentes de Ingá, Icaraí e Jardim Icaraí, bairros muito valorizados de praias lindas, mas com águas para lá de duvidosas.

A reeleição do prefeito, tudo indica, está bem encaminhada.


Contudo, uma pergunta se impõe: se se cogita a complementação do BRT até o Centro da cidade por meio de um VLT - até porque o BRT é um grande consumidor do bem público mais escasso de Niterói, o espaço superficial - por qual razão não é o próprio VLT que se estende até Itaipu? Por que obrigar o cidadão que não puder pagar o Catamarã Charitas a mais uma transferência modal, com seu próprio custo individual de tempo e dinheiro, para chegar à estação das barcas da Praça Araribóia? Segregação social planejada? Vicissitudes do “planejamento por oportunidades”?

De minha parte, pelo menos até o dia em que o sistema BRT-Catamarã Charitas ofereça tarifas populares, ou que o BRT transoceânico se estenda, sabe Deus como, até o Centro da cidade, eu me permitirei considerá-lo uma solução técnica incompleta e de alto risco, destinada antes de tudo a dourar a pílula do gasto com a abertura do túnel.

Considerando tratar-se de uma intervenção de alcance inegavelmente estratégico e que, por força de recente decisão da Câmara de Vereadores, não haverá pedágio, a conta será repartida por todos os munícipes nos termos da estrutura tributária.

Não se ouviu falar de estudos e medidas relativas aos impactos econômicos da intervenção, obviamente negativos para o comércio e os serviços no transcurso das obras e potencialmente muito positivos para a propriedade imobiliária antes, durante e depois delas.

Em especial, não se considerou a adoção de um regime diferenciado de Outorga Onerosa do Direito Construir, tampouco a aplicação da Contribuição de Melhoria, ou Valorização, nas regiões servidas, com vistas à cobertura dos custos do novo sistema e suas ações urbanizadoras. Nessas circunstâncias, toda elevação extraordinária de preços do solo é indicativa de benefícios líquidos da intervenção em favor de proprietários de terrenos e incorporadores imobiliários.

Para estudantes e pesquisadores, o estudo das variações de preços na Região Oceânica em geral e, em especial, o levantamento das transações imobiliárias realizadas nas regiões de Cafubá, Maralagre e Piratininga a partir de 1-2 anos anteriores ao anúncio público da obra poderão apresentar resultados deveras interessantes.

2017-06-10


segunda-feira, 22 de maio de 2017

Vem aí: Jardim Cafubá

Deu n’O Fluminense Habitação
Ulisses Dávila em 20/05/2017 
Valorização ao fim do túnel 
Com dois empreendimentos programados para a Região Oceânica em 2017, acréscimo pode chegar a 30 %
Se a construção da TransOceânica representa o maior avanço em mobilidade já conquistado em Niterói, a recente abertura do túnel que liga os bairros de Charitas e Cafubá marca o início da realização desse feito. Uma infraestrutura que impacta de forma extremamente positiva a vida dos moradores da Região Oceânica, diminuindo o tempo de trajeto até a Zona Sul. A mudança de perfil na localização já movimenta o mercado imobiliário.
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(..)“Para se ter uma ideia de como o fluxo de negócios está aquecido na região, um empreendimento de luxo recém-lançado em Piratininga vendeu 11 unidades só em janeiro. Mas apesar de o bairro estar essencialmente voltado ao mercado de luxo, é possível encontrar oportunidades para variadas faixas de renda pela região. Um dos empreendimentos em que trabalhamos oferece unidades a partir de R$ 230 mil com dois quartos, e já vendeu 27 unidades só nos últimos 45 dias”, explica o diretor-geral da Brasil Brokers Niterói, que complementa, “no caso de Cafubá, bairro mais diretamente beneficiado com a abertura do túnel, não há previsão de lançamentos, os negócios giram em torno de venda e locação de usados. Mas certamente é um bairro que vai se beneficiar com essas melhorias de mobilidade, e se antes não recebia muita atenção, agora certamente também vai acompanhar o ritmo de interesses e valorização de todo o resto da região”, prevê. (..) dezesseis ruas do bairro já foram beneficiadas com drenagem, pavimentação e urbanização (..)
(..) Com um gabarito para construções, que varia entre 2 e 6 pavimentos, a Região Oceânica de Niterói tem sido projetada para que seu crescimento ocorra de forma ordenada.
Além da recente inauguração do túnel, a Região Oceânica vem recebendo desde 2013 cerca R$ 1 bilhão em investimentos. aoPiratininga, Camboinhas, Bairro Peixoto e Maravista estão sendo atendidos pelo Programa Bairro Novo, com aproximadamente 50 ruas concluídas. O Programa Asfalto Liso recapeou importantes vias da região, como a Avenida Central e a Estrada do Engenho do Mato, onde também  já foram iniciadas as obras de macrodrenagem e pavimentação da Avenida Professora Romanda Gonçalves, possibilitando a drenagem de outras ruas do bairro e da localidade de Maravista, evitando enchentes. A região também ganhou a ampliação da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) de Itaipu, assim, a vazão média de tratamento passou de 80 litros por segundo para 160. Um grupo executivo para o crescimento ordenado e Preservação das Áreas Verdes (Gecopav) também foi criado, que por sua vez implantou inspeções regulares em áreas verdes protegidas. E ainda, no ano passado, a prefeitura assinou um convênio com o Banco Latino Americano de Desenvolvimento no valor de US$ 100 milhões, para obras de infraestrutura, drenagem, pavimentação e mobilidade, através do Programa Região Oceânica Sustentável (Pró-Sustentável).

2017-05-22


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A ver navios

Em algum momento da minha trajetória como profissional do urbanismo a serviço da cidade do Rio de Janeiro, fui uma espécie de inspetor de navios.

Sim, navios. Eu representava a Secretaria de Urbanismo numa comissão encarregada da regulação e licenciamento de obras e reparos nas redes de serviços públicos instaladas sob as ruas da cidade. O aspecto geral dos canteiros, definidos por tapumes orlados de baldes vermelhos emborcados sobre luzes de sinalização noturna, justificava o termo com uma pitada de irreverência carioca. 

Participante, na época, colateral mas solidário, da encantada lua de mel da administração municipal com a arquitetura dos espaços públicos, pude confirmar, na supradita Comissão, a justeza do provérbio popular que diz que não se fazem omeletes sem quebrar os ovos. Dado que as vias públicas servem à circulação de pessoas, bens e serviços, e que os condutos nelas instalados estão sujeitos, como todos nós, a deterioração, obsolescência, rupturas, vazamentos e até explosões terríveis, resulta que conviver com os navios urbanos é preciso. Não têm de ser mal ajambrados como o da foto ao lado - e eu me penitencio por não ter contribuído para a melhoria do seu design -, mas não há como evitá-los, seja no Rio, Nova Iorque ou Copenhague. A boa notícia é que eles estão sempre mudando de lugar! 

Já pensou se não fosse assim? Pois leia esta. 

Instalou-se em Niterói, há alguns anos, um grande navio urbano para a execução de uma obra viária - o Mergulhão da Rua Marquês de Paraná, a mais importante artéria da cidade. Era uma obra controversa, não tanto por sua utilidade - fora proposta anos atrás pela consultoria de Jaime Lerner no âmbito de seu plano de circulação -, mas pelo fato de que o buraco começou a ser aberto, no fim do mandato do prefeito JR, sem os indispensáveis estudos de solo, hidrografia e drenagem - um provável cambalacho até hoje muito mal esclarecido. Pulemos essa parte. 

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O fato é que JR perdeu nas urnas e deixou, como parece ter sido a sua intenção, o abacaxi para a cidadania descascar. 

Escudado por uma ampla maioria de votos, dentre os quais o meu, seu sucessor RN decidiu, em vez de auditar a obra como recomendava a prudência e os princípios da boa governança, concluí-la tal como fora iniciada, com a imprescindível ajuda do então governador SC - na época empenhado em cavar outro buraco: o portentoso déficit nas contas do nosso estado, financiado no mercado internacional com receitas futuras de royalties do petróleo. 

Decisão fatal! Retirado o navio de tapumes, o que surge na esquina da Avenida Amaral Peixoto? Uma imensa barcaça de concreto bem no meio da rua, engalanada com vistosa pintura de bifurcação de via elevada! Um marco do urbanismo niteroiense, projetado para durar cem anos! 

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Atravessar a Marquês de Paraná neste ponto, no lado esquerdo da Amaral Peixoto, implica ou um desanimador passeio em U com dois longos intervalos semafóricos ou o sério risco de morrer esmagado na amurada. E que dizer do resultado estético e do impacto ambiental do empreendimento? (Econômico, também: quem consegue fazer vingar um negócio decente numa esquina onde ninguém mais passa?)

Assassinato da arquitetura urbana, puro e simples, premeditado e frio! Urbanicídio qualificado e sem atenuantes, que poderia ser evitado bastando fazer recuar 30 metros a rampa de descida e pedir ao estagiário para fazer o layout do cruzamento. 

Acesso ao túnel
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Mas tem mais. Você já viu, leitor, um mergulhão acabar ANTES do cruzamento que pretende evitar? 

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Imagino que por falta do dinheiro - ou do tempo político? - necessário para as indispensáveis desapropriações, os engenheiros encarregados da obra arranjaram espaço para posicionar a saída do túnel BEM NO MEIO do largo formado pelo entroncamento das ruas Dr Celestino, Eusébio de Queiroz e Marquês de Paraná!


Saída do túnel
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Durante algum tempo, o governo da cidade alardeou o agora SEU mergulhão como uma grande realização no campo dos transportes, resultando em significativa economia de tempo para os niteroienses. Hoje até o reivindica como seu trunfo eleitoral.

Não disse, naturalmente, e continua não dizendo, que essa economia é um privilégio dos cidadãos motorizados oriundos da Ponte Rio-Niterói em detrimento dos usuários de ônibus que partem da Estação das Barcas com destino aos bairros populares e não populares da Região Litorânea.

Todos os dias, a partir do meio da tarde, esses ônibus formam uma longa fila indiana na faixa seletiva da rua Dr Celestino para negociar, um a um, com os automóveis que sobem a mesma rua, o acesso à única faixa que lhes foi deixada, pelo conflito com a rampa de saída do Mergulhão, para entrar no fluxo da Marquês de Paraná! 


R Dr Celestino.
 Automóveis e coletivos oriundos das Barcas são "afunilados" contra a mureta da rampa de subida do mergulhão para tomar a única faixa disponível de acesso à Marquês de Paraná. Não há mais, nesta esquina, travessia de pedestres para o Hospital Antônio Pedro, ao fundo.
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Rua Marquês de Paraná / saída do túnel. 
Sem a desapropriação do edifício à esquerda, era melhor não ter mergulhão.
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Para o sistema de transporte de Niterói, o Mergulhão significa: automóveis têm precedência; ônibus, entrem na fila!

Para os pedestres, por outro lado, a estrutura física de saída do túnel acrescenta um bloqueio formidável à entrada do Hospital Universitário Antônio Pedro, equipamento urbano que é referência absoluta do lugar.


À esquerda o Hospital Universitário Antônio Pedro; à direita a estrutura da saída do Mergulhão. Esta travessia é o único acesso de pedestres ao Hospital desde o Centro da cidade
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Cagada na entrada, cagada na saída - com a permissão do leitor. E no caminho?

Ao nível da rua, o espaço livre gerado pela cobertura do túnel formou um vazio incompreensível, inóspito e absolutamente desorganizado. Uma terra de ninguém separada da pista de rolamento por um guarda-corpo rodoviário com recortes improvisados nos pontos de travessia semaforizada. 


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Dirão, talvez, que este espaço destina-se à urbanização da área adjacente a um futuro BRT, ou VLT, ligando a Estação da Barcas à Região Litorânea. Pode ser. Mas não há projeto, prazo, explicação e, o mais impressionante, sequer promessa eleitoral! 

Do interior do túnel nada direi. Observe bem o leitor a imagem abaixo ou, se puder, faça a sua própria experiência.

Interior do mergulhão
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O Mergulhão da Marquês de Paraná é, como se vê, um poderoso fator de degradação arquitetônica, ambiental e econômica da via pública mais crucial da cidadeUma reedição tardia do pior tipo de desatino urbanístico do período rodoviarista, que todos teríamos o direito de crer superado depois da demolição do Elevado da Perimetral, no Porto Maravilha. 

É difícil dizer se se trata de uma intervenção urbana mal concebida, de uma estrutura provisória, de uma solução improvisada, de uma obra inconclusa ou apenas de um projeto de engenharia grosseiro e mal-acabado. Com segurança, o Mergulhão é um sério candidato ao prêmio de pior obra urbana do Brasil no século XXI. Niterói não o merece.

Estou convencido: muito melhor teria sido fechar o buraco do JR, colocar o insigne ex-prefeito aos cuidados de uma Lava-Jato municipal e fazer, na Marquês de Paraná, um "Rio-Cidade" com faixa prefencial para ônibus, ciclovia, calçadas civilizadas e cruzamentos corretamente desenhados com semáforos e travessias de pedestres - especialidade indisputável da nossa secretária de Urbanismo! 

E para não deixar sem solução o mote desta mal-alinhavada prosa, concluo dizendo que, diante do U-Boot encalhado na Marquês de Paraná, os navios da minha comissão de licenciamento de obras e reparos em vias públicas não passavam mesmo, convenhamos, de inofensivos barquinhos de cartolina.

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Fotos: (Clique na imagem para ampliar)











2016-05-10


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

The day Niterói stood still

Avebarna News:
Alienígenas encantados com o MAC querem operar espaçonave turística no Caminho Niemeyer. 

Prefeito manda dizer que só aceita a proposta - e a briga com os puristas do Patrimônio Cultural - se os carcamanos comprarem todos os CEPACs da OUC do Centro.
2014-11-19

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O mel e o fel da cidade contemporânea


Praia de Charitas, Niterói.
Uma pérola urbana maculada pela poluição
da Baía de Guanabara.
Foto Nuni Vieira Jorgensen, 10-08-2014

2014-08-13