segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Plano para mangas (2)


Saiu na Vitruvius
Outubro de 2005, por Denise M Teixeira


Flavio Villaça (entrevista)

(..)
DMT: E quanto a Brasília?
FV: Brasília é talvez o exemplo máximo da falência do planejamento urbano no Brasil. Quando vejo que esse mesmo processo aconteceu em Belo Horizonte setenta anos antes, fico muito desapontado. Em Brasília, como em Belo Horizonte nas primeiras décadas do século XX, a parte planejada da cidade ficou sub ocupada, por décadas, enquanto a cidade crescia fora da parte planejada. Em ambas as cidades dentro de poucas décadas a população que vivia fora do plano já era bem maior que aquela dentro do plano. Então para que plano? Hoje, a parte de Brasília fora do Plano Piloto é cerca de 8 vezes maior que a interna. Com isso, a parte planejada tornou-se um miolo pequenininho no meio do mar de desordem, como em qualquer outra cidade. Hoje Brasília cresce como um enorme favelão no estado de Goiás, fora dos limites do Distrito Federal.
DMT: Foi, portanto, um grande equívoco?
FV: Os tempos eram outros, sem dúvida, mas não se pode culpar o planejamento e muito menos Oscar Niemeyer ou Lucio Costa. Se a culpa fosse do planejamento urbano, como entender que ele tenha sido bom ou certo para uns e mau e errado para outros? Não há planejamento imune à desigualdade social. O fato concreto é que o plano funcionou para a minoria mais rica e não para a enorme maioria mais pobre. A qualidade de vida no Plano Piloto, no nível da Super Quadra (onde mora da classe média e alta) parece ser muito boa. As pessoas que conheço e moram ou moraram lá, gostam ou gostaram.