quarta-feira, 18 de março de 2026

O mercado abandona, o governo detona!

Nabil Bonduki 14-03-2026
https://www.facebook.com/reel/1614300806153879/

Novo Centro Administrativo de Tarcisio deverá degradar o Centro Histórico

Acesse o vídeo pelo link

https://www.facebook.com/reel/1614300806153879/ 

Talvez
o governador Tarcísio tenha se esquecido ou talvez nem saiba, pois não é paulista, que grande parte das secretarias do Governo do Estado já estão instaladas no Centro Histórico de São Paulo. Há secretarias como as da Fazenda, da Justiça, da Segurança, da Educação, do Esporte e vários outros órgãos e empresas que ocupam o CIDADE, Centro Integrado de Gestão do Estado.
Alguns são prédios tombados pelo patrimônio. É isso que ainda mantém alguns trechos do Centro Histórico movimentados, com gente trabalhando e com comércio ativo. Por isso, as outras secretarias deveriam ser transferidas para a mesma região, ocupando vários outros edifícios de escritório que estão hoje desocupados e poderiam ser modernizados em um processo de retrofit que valorizaria toda a região.
Mas o governador pretende fazer o contrário. Por que criar um novo Centro Administrativo nos Campos Elíseos ao custo de mais de R$ 3,2 bilhões ao Estado imediatamente e R$ 25 bilhões ao longo de 30 anos, incluindo ai a manutenção? A quem interessa esse projeto faraônico com gasto absurdo?
Basta caminhar pela Rua São Bento próximo ao Edifício Martinelli, onde funcionam várias secretarias municipais, para perceber que ali o movimento é mais intenso. Em outros quarteirões da mesma rua em que há prédios vazios, com placas de alugar, as lojas estão fechadas, criando um ambiente desolador e decadente. E se as secretarias estaduais que ainda estão ali forem retiradas, a situação tende a piorar.
Os Campos Elíseos precisam de um plano de reabilitação, mas voltado para novas habitações e reabilitação urbana, feita com estímulos a moradias sociais e de mercado popular, serviços e comércios. É assim que se recupera uma região da cidade.
Faço aqui um pedido ao governador, em nome de muita gente que pensa assim: não leve a sede do governo para os Campos Elíseos e não retire as secretarias que já estão no Centro Histórico. Isso não faz sentido e irá prejudicar ainda mais iuma região vital para a cidade que se encontra ociosa. O Centro Histórico, especialmente o Triângulo, precisa de mais presença dos órgãos do governo estadual, com retrofit e qualificação urbana, e não de menos.

2026-03-18

domingo, 15 de março de 2026

Minha Favela Minha Vida

Agência Brasil 04-03-2026, por Fabíola Sinimbú
https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-03/area-ocupada-por-favelas-quase-triplicou-em-40-anos-no-brasil

Área ocupada por favelas quase triplicou em 40 anos no Brasil

Tânia Rêgo/Agência Brasil
As favelas brasileiras cresceram e ocuparam uma área de 92,3 mil hectares nos últimos 40 anos, aponta o Mapeamento Anual das Áreas Urbanizadas no Brasil, do Mapbiomas, divulgado nesta quarta-feira (4). De acordo com o estudo, as favelas quase triplicaram de tamanho em quatro décadas, e se tornaram 2,75 vezes maiores, enquanto as cidades, de forma geral, cresceram 2,5 vezes. O aumento foi observado entre os anos de 1985 e 2024, quando a área urbana de favelas saltou de 53,7 mil hectares para 146 mil hectares.

O estudo revelou ainda que a dinâmica de crescimento das favelas foi mais intensa nas regiões metropolitanas do país, que em 2024, abrigavam 82% das áreas urbanizadas em favelas. O geógrafo e coordenador do Mapiomas, Júlio Pedrassoli, considera que o crescimento mais acelerado das áreas de favelas em comparação com a média nacional e sua forte concentração em regiões metropolitanas sugerem uma tendência conhecida e preocupante. "As metrópoles concentram muita riqueza, mas também intensificam problemas estruturais. (..)

Apesar da surpreendente dificuldade de se obterem, na Internet, dados atualizados e consistentes da evolução da distribuição de rendimentos familiares no Brasil, alguma pesquisa que acabo de fazer indica que as chamadas classes D e E - grosso modo as faixas 1 e '1,5' do programa Minha Casa Minha Vida - constituem há 10 anos uma proporção aproximada de 50% das famílias brasileiras, vale dizer, um número crescente a despeito da redução da pobreza absoluta.

No que se refere à moradia, a imensa maioria dessas famílias só tem, portanto, duas opções: conseguir uma vaga na faixa 1 do MCMV, que regra geral quer dizer uma residência de qualidade duvidosa em algum conjunto habitacional distante de quaisquer facilidades urbanas, ou comprar / alugar uma casa numa favela dos morros e periferias metropolitanas. À parte a (in)capacidade do MCMV de ofertar apartamentos em quantidade suficiente nessa faixa, quero crer que, nas favelas, a despeito da moradia e da urbanização precárias, as famílias se beneficiam não apenas das redes sociais de apoio comunitário, mas também de uma economia às vezes fervilhante [1] [2] - o “circuito inferior” de Milton Santos: comércio, indústria e 
prestação de serviços, embora informais e às vezes, como acontece em muitos bairros 'nobres' da cidade, ilegais. 

Ao contrário da maioria dos conjuntos habitacionais da Faixa 1 do MCMV, a favela também é, à sua maneira
, cidade, locus de produção e circulação de riqueza na economia de mercado - com suas virtudes e aleijões - razão pela qual a redução da pobreza não é, em minha opinião, condição suficiente para o fim, ou mesmo a redução substancial, da informalidade. 

Isto que nós, urbanistas, chamamos de “o direito à cidade”, vale dizer à cidade formal adequadamente urbanizada e regida pelas instituições do Estado de direito, tem um preço em dinheiro: a capacidade que tenha a família de ofertar renda por um imóvel numa boa localização e de arcar com as demais despesas dessa opção. Embora totalmente favorável a programas de urbanização e regularização fundiária nas favelas, sou de opinião que a solução da moradia informal não está na ‘redução da desigualdade’: está na elevação radical e sustentada - isto é, não sujeita aos retrocessos das crises econômicas recorrentes - do padrão de vida da imensa maioria trabalhadora da nação, com tudo que isso possa implicar no plano da organização econômica da sociedade. Um problema, claro está, que transcende em muito o âmbito do urbanismo, ainda que necessariamente o inclua.

2026-03-15
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[1] Segundo o Instituto Data Favela, a renda das favelas brasileiras somou cerca de R$300 bilhões em 2025, maior que a de 22 estados da federação e que o PIB do Uruguai e do Peru. Ver "Pesquisa revela que favelas têm renda de R$ 300 bilhões ao ano". EBC Radioagência 27-07-2025, por Madson Euler.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Espanha: o mercado das famílias sem família

El País 14-11-2025, por Gorka R. Parez
https://elpais.com/economia/2025-11-14/el-auge-de-la-compra-de-vivienda-en-solitario-ojala-lo-hubiera-hecho-antes.html

El auge de la compra de vivienda en solitario

El volumen de solteros que adquieren una casa ha crecido en los últimos años hasta representar más de un tercio del total. Son perfiles jóvenes y con alto poder adquisitivo

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(..) Los casos de Rafael e Ismael, por llamativos que puedan parecer en un contexto en el que los precios de la vivienda están disparados, no representan una anomalía. De hecho, su colectivo, el de compradores en solitario, está en alza. Según datos de Fotocasa Research, la plataforma de análisis de este portal inmobiliario, casi un tercio de los compradores de vivienda son personas que viven solas (32%), un volumen que se sitúa siete puntos porcentuales por encima del de hace dos años. De representar el 25% en 2023, creció hasta el 31% en 2024, y en el último año lo ha hecho un punto más. Si se tiene en cuenta el colectivo que aún no lo ha hecho, pero que lo tiene en mente, el porcentaje aumenta: aquellas personas que han comprado o que piensan hacerlo en solitario han pasado del 23% en 2018 al 38% en 2025. (..)

“Estamos asistiendo a una profunda transformación del modelo social”, incide María Matos, directora de Estudios y portavoz de Fotocasa. “Según las proyecciones del INE, dentro de unos años podría haber en España 7,7 millones de hogares unipersonales [actualmente son 5,5], convirtiéndose por primera vez en el tipo de hogar más habitual del país”, añade Matos.
Ricard Garriga, director general de Trioteca, una plataforma digital que compara hipotecas de distintos bancos, indica: “Hablamos de personas con alto poder adquisitivo, jóvenes y con una clara preferencia por procesos rápidos, sencillos y 100% online”. (..) Los registros de esta compañía señalan que el volumen de solteros que contrata una hipoteca supone ya el 40% del total, y que se trata de “compradores informados, que valoran su tiempo y que quieren pagar lo justo”.

Tanto Rafael como Ismael contaban con ahorros provenientes de una dilatada carrera profesional. Sin embargo, para convertirse en propietarios también necesitaron un apoyo externo, al margen del bancario. “Me cayó una herencia que me ayudó a comprar el primer piso”, reconoce el primero. “Los últimos años de alquiler estuve en casa de un familiar que me puso un precio asequible. Si no, hubiera sido imposible que pudiera ahorrar”, argumenta el segundo.

Según los últimos datos disponibles, las familias destinan de media un 24% de sus ingresos al pago de una hipoteca y un 38% al alquiler. (..)

2026-03-15

quarta-feira, 4 de março de 2026

Rio de Janeiro, de 'cidade' a 'centro'

Brasiliana Fotográfica 18-11-2024, “Os bondes do Rio de Janeiro de antigamente”
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=29732

(..) A primeira linha regular de bondes à tração animal foi inaugurada em 26 de março de 1859 pelo imperador Pedro II,  ligando o centro da cidade ao Alto da Boa Vista. (..)
Havia dois veículos, importados da Inglaterra, que faziam as viagens pela manhã e pela tarde. Os carros eram puxados por burros e foram apelidados de maxambombas pelos cariocas, provavelmente por analogia aos trens da Estrada de Ferro D. Pedro II que iam até um engenho com este nome na zona rural (WEID). Em 1861, Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá (1813 – 1889), empresário pioneiro das estradas de ferro no país, assumiu a presidência da Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boavista, que mudou a tração animal para vapor. Em novembro de 1866, a empresa de carris da Tijuca, em dificuldades financeiras, suspendeu seus serviços e a concessão caducou em seguida, por interrupção de tráfego (WEID). (..)”

Inadvertidamente, o autor do texto desta ótima página virtual dedicada aos bondes do Rio de Janeiro deixou-se trair pela noção largamente disseminada de que o centro da cidade é uma entidade supra-histórica. Na linguagem característica do século XX, ele diz ao leitor que a primeira linha regular de bondes, inaugurada em março de 1859, ligava “o centro da cidade ao Alto da Boa Vista”. Contudo, segundo ele mesmo, o serviço fora concedido em 1856 à Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boavista. [Destaques PJ]

Significa que para o inglês Thomas Cochrane, concessionário do serviço, a noção de “centro da cidade”, ou simplesmente “Centro”, não era relevante nem esclarecedora. 
E se havia 
em 1859 algum “centro da cidade” no sentido moderno, ele certamente não chegava ao Rossio (Praça da Constituição, hoje Praça Tiradentes), de onde partia o bonde: estaria mais para o percurso do Largo do Paço à Rua da Quitanda e daí à Rua do Ouvidor. 

A Praça da Constituição só poder ser dita 'centro' num sentido puramente geométrico: ela ficava no ponto mais central, e talvez por isso mesmo, do que era, na época, a mancha urbana construída e habitada de uma cidade onde mal começara o processo de segregação espacial dos negócios. E considerando, por outro lado, que a Boa Vista, ou Tijuca - a de 1860, não a de hoje - era um lugar de retiro de cariocas abastados, temos que a primeira linha de bonde da cidade tem menos a ver com suburbanização do que com a oferta de uma comodidade aos endinheirados da Boa Vista e à nascente classe média urbana já estabelecida nos arrabaldes do caminho, como o Engenho Velho e o Andaraí Pequeno.         

Inexistia ainda, em minha opinião - por pouco tempo, é verdade - o que hoje chamamos de Centro, que supõe o(s) subúrbio(s) nascidos do mercado de lotes urbanizados e por urbanizar e
o correspondente movimento pendular casa-trabalho secundado pelo tráfego regular subúrbios-cidade por motivos de consumo, serviços em geral e entretenimento. Daí resulta o crescimento simultâneo e reciprocamente determinado dos subúrbios e da própria cidade, de onde agora saem famílias de todos os estratos sociais - as que têm meios para os arrabaldes mais próximos, as que não têm para cortiços situados na borda do recinto urbano - de modo a dar lugar aos negócios

Em termos mais diretos, digamos que o loteamento das glebas adjacentes à Estrada de Ferro Central do Brasil, inaugurada em 1858, foi feito por imobiliárias que, junto com as firmas que lhes prestavam serviços contábeis e jurídicos, deram aos sobrados das ruas da Quitanda e do Ouvidor usos muito mais rentáveis do que a residência dos próprios lojistas - sem falar dos bancos financiadores das imobiliárias e dos adquirentes, que exigiam a demolição do que fosse necessário para a construção de suas sedes. Assim começava a 'cidade' a se transformar em 'centro' da metrópole.

Não por acaso, talvez, a mais antiga aparição do termo “centro da cidade” nas Obras Completas de Machado de Assis, onde abundam referências às ruas e bairros da cidade, está no conto “Não é mel para boca de asno”, publicado originalmente no Jornal das Famílias em 1868, dez anos passados da inauguração do primeiro trecho da EFCB, evento de importância não desprezível no que chamo de “a revolução da centralidade urbana” na cidade do Rio de Janeiro:

(..) Entretanto, como a antiga casa de Meneses era no centro da cidade, e ficava-lhe, portanto, mais perto, Marques resolveu ir lá. (..) [Machado de Assis, Obra Completa, Edição do Kindle locais 126875-126877] 

Ainda no terreno da literatura, muito esclarecedora da conversão do que até pouco tempo era a ‘cidade’ em ‘centro’ de sua nova existência metropolitana é a seguinte passagem do romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto, concluído em 1922:  

(..) Nesse dia, [Cassi] despertou cedo, banhou-se cuidadosamente, escolheu bem a roupa branca, viu bem se a meia não estava furada, escovou o terno cintado e, cuidadosamente, meteu mão à obra de vestir-se com apuro, para vir à “cidade”. Raramente, vinha ao centro. Quando muito, descia até o Campo de Sant’Ana e daí não passava. Não gostava mesmo do centro. Implicava com aqueles elegantes que se postavam nas esquinas e nas calçadas. (..) [Lima Barreto, “Clara dos Anjos”. Em Lima Barreto Completo I: Sátiras e Romances. Edição do Kindle p. 1174.] [Destaques PJ]

As aspas da palavra "cidade" são do original de Lima Barreto, referidas ao modo de falar do personagem - que foi ainda, durante algumas décadas, o de boa parte das famílias urbanas cariocas e brasileiras. Para LB, que vivia no subúrbio e o analisou em sua obra, com riqueza de detalhes, dos pontos de vista geográfico e sociológico, o que Cassi chamava de "cidade" já era, claramente, "centro": na passagem "Raramente vinha ao centro. Quando muito descia ao Campo de Santana e daí não passava", ele nos diz que, em 1920, não via
o Campo de Santana como parte dele, mas como uma espécie de limite relativamente à urbanização circundante. 

Rio de Janeiro em 1858. Fonte: ImagineRio. Legendas e traçado aproximado EFCB: PJ

2026-03-04

domingo, 1 de março de 2026

Fictitious capital, real estate

Montagem: À beira do urbanismo
E aí, produção? Vai ficar por isso mesmo?
Lavou, tá lavado? 



UOL 07-01-2026
https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2026/01/07/empresas-ligadas-vorcaro-2-bilhoes-imoveis-enquanto-master-quebrava.htm

Antes de o Master ser liquidado, sem dinheiro para pagar quem investiu em seus CDBs, o banqueiro Daniel Vorcaro e empresas ligadas a ele adquiriram pelo menos R$ 2 bilhões em mansões, apartamentos e jatinhos, segundo levantamento do UOL. Desse valor, 85% foi comprado a partir de 2024.

A Polícia Federal apura indícios de que parte do dinheiro captado pelo Master junto a investidores tenha sido desviada em benefício dos executivos do banco. (..) Dentre os R$ 2 bilhões gastos em bens, apenas 1% foi comprado diretamente por Vorcaro, na pessoa física — um apartamento de R$ 22 milhões. Os 99% restantes foram adquiridos por empresas com vínculos com o banqueiro.

Apenas uma delas está em nome dele. As demais são sociedades anônimas fechadas, cujos dados dos sócios são sigilosos, até para a Receita Federal. Há também uma offshore em Delaware, que também oculta o dono. Ainda assim, é possível identificar conexões dessas empresas com Vorcaro.

O levantamento do UOL localizou duas mansões no exterior, 23 imóveis no Brasil, quatro aeronaves e cinco carros. (..)

2026-03-01