Brasiliana Fotográfica 18-11-2024, “Os bondes do Rio de Janeiro de antigamente”
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(..) A primeira linha regular de bondes à tração animal foi inaugurada em 26 de março de 1859 pelo imperador Pedro II, ligando o centro da cidade ao Alto da Boa Vista. (..) Havia dois veículos, importados da Inglaterra, que faziam as viagens pela manhã e pela tarde. Os carros eram puxados por burros e foram apelidados de maxambombas pelos cariocas, provavelmente por analogia aos trens da Estrada de Ferro D. Pedro II que iam até um engenho com este nome na zona rural (WEID). Em 1861, Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá (1813 – 1889), empresário pioneiro das estradas de ferro no país, assumiu a presidência da Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boavista, que mudou a tração animal para vapor. Em novembro de 1866, a empresa de carris da Tijuca, em dificuldades financeiras, suspendeu seus serviços e a concessão caducou em seguida, por interrupção de tráfego (WEID). (..)”
Inadvertidamente, o autor do texto desta ótima página virtual dedicada aos bondes do Rio de Janeiro deixou-se trair pela noção largamente disseminada de que o centro da cidade é uma entidade supra-histórica. Na linguagem característica do século XX, ele diz ao leitor que a primeira linha regular de bondes, inaugurada em março de 1859, ligava “o centro da cidade ao Alto da Boa Vista”. Contudo, segundo ele mesmo, o serviço fora concedido em 1856 à Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boavista. [Destaques PJ]
Significa que para o inglês Thomas Cochrane, concessionário do serviço, a noção de “centro da cidade”, ou simplesmente “Centro”, não era relevante nem esclarecedora. E se havia em 1859 algum “centro da cidade” no sentido moderno, ele certamente não chegava ao Rossio (Praça da Constituição, hoje Praça Tiradentes), de onde partia o bonde: estaria mais para o percurso do Largo do Paço à Rua da Quitanda e daí à Rua do Ouvidor.
A Praça da Constituição só poder ser dita 'centro' num sentido puramente geométrico: ela ficava no ponto mais central, e talvez por isso mesmo, do que era, na época, a mancha urbana construída e habitada de uma cidade onde mal começara o processo de segregação espacial dos negócios. E considerando, por outro lado, que a Boa Vista, ou Tijuca - a de 1860, não a de hoje - era um lugar de retiro de cariocas abastados, temos que a primeira linha de bonde da cidade tem menos a ver com suburbanização do que com a oferta de uma comodidade aos endinheirados da Boa Vista e à nascente classe média urbana já estabelecida nos arrabaldes do caminho, como o Engenho Velho e o Andaraí Pequeno.
Inexistia ainda, em minha opinião - por pouco tempo, é verdade - o que hoje chamamos de Centro, que supõe o(s) subúrbio(s) nascidos do mercado de lotes urbanizados e por urbanizar e o correspondente movimento pendular casa-trabalho secundado pelo tráfego regular subúrbios-cidade por motivos de consumo, serviços em geral e entretenimento. Daí resulta o crescimento simultâneo e reciprocamente determinado dos subúrbios e da própria cidade, de onde agora saem famílias de todos os estratos sociais - as que têm meios para os arrabaldes mais próximos, as que não têm para cortiços situados na borda do recinto urbano - de modo a dar lugar aos negócios.
Em termos mais diretos, digamos que o loteamento das glebas adjacentes à Estrada de Ferro Central do Brasil, inaugurada em 1858, foi feito por imobiliárias que, junto com as firmas que lhes prestavam serviços contábeis e jurídicos, deram aos sobrados das ruas da Quitanda e do Ouvidor usos muito mais rentáveis do que a residência dos próprios lojistas - sem falar dos bancos financiadores das imobiliárias e dos adquirentes, que exigiam a demolição do que fosse necessário para a construção de suas sedes. Assim começava a 'cidade' a se transformar em 'centro' da metrópole.
Não por acaso, talvez, a mais antiga aparição do termo “centro da cidade” nas Obras Completas de Machado de Assis, onde abundam referências às ruas e bairros da cidade, está no conto “Não é mel para boca de asno”, publicado originalmente no Jornal das Famílias em 1868, dez anos passados da inauguração do primeiro trecho da EFCB, evento de importância não desprezível no que chamo de “a revolução da centralidade urbana” na cidade do Rio de Janeiro:
(..) Entretanto, como a antiga casa de Meneses era no centro da cidade, e ficava-lhe, portanto, mais perto, Marques resolveu ir lá. (..) [Machado de Assis, Obra Completa, Edição do Kindle locais 126875-126877]
Ainda no terreno da literatura, muito esclarecedora da conversão do que até pouco tempo era a ‘cidade’ em ‘centro’ de sua nova existência metropolitana é a seguinte passagem do romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto, concluído em 1922:
(..) Nesse dia, [Cassi] despertou cedo, banhou-se cuidadosamente, escolheu bem a roupa branca, viu bem se a meia não estava furada, escovou o terno cintado e, cuidadosamente, meteu mão à obra de vestir-se com apuro, para vir à “cidade”. Raramente, vinha ao centro. Quando muito, descia até o Campo de Sant’Ana e daí não passava. Não gostava mesmo do centro. Implicava com aqueles elegantes que se postavam nas esquinas e nas calçadas. (..) [Lima Barreto, “Clara dos Anjos”. Em Lima Barreto Completo I: Sátiras e Romances. Edição do Kindle p. 1174.] [Destaques PJ]
As aspas da palavra "cidade" são do original de Lima Barreto, referidas ao modo de falar do personagem - que foi ainda, durante algumas décadas, o de boa parte das famílias urbanas cariocas e brasileiras. Para LB, que vivia no subúrbio e o analisou em sua obra, com riqueza de detalhes, dos pontos de vista geográfico e sociológico, o que Cassi chamava de "cidade" já era, claramente, "centro": na passagem "Raramente vinha ao centro. Quando muito descia ao Campo de Santana e daí não passava", ele nos diz que, em 1920, não via o Campo de Santana como parte dele, mas como uma espécie de limite relativamente à urbanização circundante.  |
| Rio de Janeiro em 1858. Fonte: ImagineRio. Legendas e traçado aproximado EFCB: PJ |