quarta-feira, 4 de março de 2026

Rio de Janeiro, de 'cidade' a 'centro'

Brasiliana Fotográfica 18-11-2024, “Os bondes do Rio de Janeiro de antigamente”
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=29732

(..) A primeira linha regular de bondes à tração animal foi inaugurada em 26 de março de 1859 pelo imperador Pedro II,  ligando o centro da cidade ao Alto da Boa Vista. (..)
Havia dois veículos, importados da Inglaterra, que faziam as viagens pela manhã e pela tarde. Os carros eram puxados por burros e foram apelidados de maxambombas pelos cariocas, provavelmente por analogia aos trens da Estrada de Ferro D. Pedro II que iam até um engenho com este nome na zona rural (WEID). Em 1861, Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá (1813 – 1889), empresário pioneiro das estradas de ferro no país, assumiu a presidência da Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boavista, que mudou a tração animal para vapor. Em novembro de 1866, a empresa de carris da Tijuca, em dificuldades financeiras, suspendeu seus serviços e a concessão caducou em seguida, por interrupção de tráfego (WEID). (..)”

Inadvertidamente, o autor do texto desta ótima página virtual dedicada aos bondes do Rio de Janeiro deixou-se trair pela noção largamente disseminada de que o centro da cidade é uma entidade supra-histórica. Na linguagem característica do século XX, ele diz ao leitor que a primeira linha regular de bondes, inaugurada em março de 1859, ligava “o centro da cidade ao Alto da Boa Vista”. Contudo, segundo ele mesmo, o serviço fora concedido em 1856 à Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boavista. [Destaques PJ]

Significa que para o inglês Thomas Cochrane, concessionário do serviço, a noção de “centro da cidade”, ou simplesmente “Centro”, não era relevante nem esclarecedora. E se havia algum “centro da cidade” em 1859, ele certamente não chegava ao Largo do Rossio, atual Praça Tiradentes, de onde partia o bonde: estaria mais para o percurso do atracadouro ao Paço e daí à Rua do Ouvidor.

Para mim, inexistia ainda - por pouco tempo, é verdade - o que hoje chamamos de Centro, que supõe não apenas o(s) subúrbio(s) nascidos do mercado de lotes urbanizados e por urbanizar, mas o crescimento simultâneo e reciprocamente determinado de ambos (como explicitou R Hurd em 1903) e o correspondente movimento pendular casa-trabalho secundado pelo tráfego regular por motivos de consumo, serviços em geral e entretenimento. A dinâmica expansiva tendencialmente radial-concêntrica derivada da compra-venda generalizada e desimpedida de mercadorias, serviços e força de trabalho ao menor custo-distância possível para cada agente é o que, na minha opinião, distingue a urbe capitalista de suas formas históricas precedentes.

Não por acaso, talvez, a mais antiga aparição do termo “centro da cidade” nas Obras Completas de Machado de Assis, onde abundam referências aos bairros da cidade, aparece no conto “Não é mel para boca de asno”, publicado originalmente no Jornal das Famílias em 1868, dez anos passados da inauguração do primeiro trecho da Estrada de Ferro Central do Brasil, evento de importância não desprezível no que chamo de “revolução da centralidade urbana” na cidade do Rio de Janeiro:

(..) Entretanto, como a antiga casa de Meneses era no centro da cidade, e ficava-lhe, portanto, mais perto, Marques resolveu ir lá. (..) [Machado de Assis, Obra Completa, Edição do Kindle locais 126875-126877]

Rio de Janeiro em 1858. Fonte: ImagineRio. Legendas e traçado aproximado EFCB: PJ

2026-03-04