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domingo, 20 de agosto de 2023
quarta-feira, 16 de agosto de 2023
Financeirização da moradia ou concentração da propriedade?
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Montagem: Àbeiradourbanismo Clique na imagem para ampliar |
Muitos, nos dias de hoje, enquadrariam o objeto dessa matéria na categoria ‘financeirização da moradia’. Eu me pergunto se é o caso.
A moradia – assim entendo - é financeirizada desde
que passou a ser produzida para o mercado, pela simples razão que são poucos os
que podem comprá-la sem financiamento ao menos parcial de seu preço. Tradicionalmente,
os contratos de hipoteca preveem que o próprio imóvel é a garantia do
empréstimo para a sua aquisição.
A propósito vale recordar um instrutivo texto, do ano 1981, em que o economista Martim Smolka descreve a operação de compra-venda de um imóvel como transferência ao adquirente, por parte da imobiliária, a um dado preço, do ‘direito de especular’ no mercado de imóveis [1] - que traduzo como o direito de vender ou alugar por uma renda maior do que a sua dívida.
A financeirização da moradia deu um salto de qualidade quando, com a desregulamentação de fins do século passado, generalizou-se nos EUA e Inglaterra a prática dos empréstimos bancários garantidos pelo valor da residência para a compra de bens de consumo, viagens, universidade etc. Famílias com rendimentos estagnados, e até decrescentes, passaram a consumir… o valor futuro de suas casas! [2] [3]
E uma vez re-hipotecados os imóveis em troca de liquidez a curto prazo, os títulos de dívida passaram a ser vendidos pelos bancos a credores de que os devedores nunca tinham ouvido falar, nos mais diversos países – a pirâmide financeira que desmoronou em 2007, levando milhões de pequenos investidores, boa parte deles trabalhadores cooptados para a mítica “república dos pequenos proprietários’, à perda de seu capital, isto é, de suas próprias moradias que, afinal, eram o lastro de tudo!
Aqui o que ocorre é algo diferente: a concentração da propriedade imobiliária nas mãos de um pequeno número de firmas de capital de investimento em alugueis. O senhorio deixa de ser o dono da padaria e passa a ser, digamos, George Soros. Este fenômeno parece ter-se acelerado na última década com a recessão e a baixa generalizada das taxas de juros, na Europa e EUA, subsequentes à debacle de 2007. Em tempos de investimentos produtivos de rentabilidade duvidosa, o aluguel residencial em grande escala pode ser um ótimo negócio. [4]
Poder-se-ia argumentar, é certo, que George Soros é, ele próprio, um financista. Mas isto significa que, sob o ângulo do capital proprietário, a ‘financeirização’ não é privilégio exclusivo da moradia, tampouco do parque imobiliário como um todo: é a forma ‘pura’ do capital que controla todas as grandes cadeias de negócios na economia planetária - indústria, comércio e serviços.
“Desfinanceirizar a moradia” é uma causa que tem o meu apreço; mas seria interessante, nesse caso, que começássemos a discutir do que exatamente estamos falando e, é claro, como fazê-lo.
2023-08-16
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[1] “(..) al comercializar um inmueble, la inmobiliaria no sólo vende um activo
fijo, sino que, además, negocia el derecho que capacita al muevo propietario a
especular (..)” [SMOLKA M, “Precio de la tierra y valorización inmobiliaria
urbana: esbozo para una conceptualización del problema”. Revista
Interamericana de Planificación Vol XV, No 60, Dez 1981, p. 78
[2] A
indústria do refinanciamento hipotecário foi uma forma de os estadunidenses
"tomarem emprestado e consumir como se os seus rendimentos estivessem
crescendo". STIGLITZ J, O Mundo em Queda Livre – Os Estados
Unidos, o mercado livre e o naufrágio da economia mundial. Trad. José
Viegas Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Cap. 1: A formação da
crise
[3] “(..) no Reino Unido e nos EUA, os empréstimos pessoais garantidos pelas residências (EGR) produziram um aumento do consumo: quanto maior o valor da garantia, maior o nível de consumo. (..) Desde a desregulamentação do crédito na década de 1970, a EGR contribuiu de forma importante para a demanda do consumidor no Reino Unido, ainda que somente nos períodos de alta dos preços da moradia (..) A década anterior à crise financeira registrou níveis sem precedentes de EGR, com proprietários valendo-se do aumento dos preços das residências para tomar mais empréstimos e consumir mais. O sociólogo Colin Crouch (2009) descreveu o fenômeno como uma espécie de 'keynesianismo privatizado': ao passo que no período 1950-70 a demanda foi sustentada pelo Estado pela via da expansão fiscal, no período 1980-2007, de declínio dos salários médios, ela foi alimentada pela dívida hipotecária”. RYAN-COLLINS, LLOYD e MACFARLANE, Rethinking the Economics of Land and Housing. Zed Books 2017, edição do Kindle, p. 146.
[4] “(..) Residential demand shifts mainly with demography and is less
buffeted by the business cycle. People will still need somewhere to sleep, says
Lawrence Bowles of Savills, a property firm: “You can’t digitalise a bed.” And
in an era of low interest rates, steady rental income becomes more attractive.
(..)” THE ECONOMIST 28-08-2021 “Big British companies are
entering the rental market”
https://www.economist.com/britain/2021/08/28/big-british-companies-are-entering-the-rental-market
domingo, 13 de agosto de 2023
Grammichele, Catânia
Grammichele (Sicilian: Grammicheli,
Greek: Echetle (meaning "plowshare"); Latin: Echetla, Ochula;
Medieval: Occhiolà) is a town and comune in
the Metropolitan City of Catania in Sicily,
southern Italy.
It is located at the feet of the Hyblaean Mountains, some 13 kilometres
(8 mi) from Caltagirone.
The town was built in 1693, after the old
town of Occhiolà, located to the north of the modern Grammichele, was destroyed
by an earthquake. Occhiolà, on account of the
similarity of name, is generally identified with Echetla, a
frontier city between Syracusan and Carthaginian territory
in the time of Hiero II, which appears to have been
originally a Sicel city
in which Greek civilization prevailed from the 5th
century onwards.[3]
The devastation of the old town was so
severe that the feudal landlord of the town, Carlo Maria Carafa Branciforte,
Prince of Butari, commissioned construction of a new town, with plans aided by
Michele da Ferla. Supposedly the Prince himself sketched out the initial
hexagonal layout. In the center of the hexagon is the Piazza Carlo Maria
Carafa, faced by the Chiesa Madre (Mother Church), San Michele Arcangelo, and the
Palazzo Communale (City Hall). The town of Avola, destroyed by
the same earthquake, was also relocated and rebuilt along a hexagonal layout.
quarta-feira, 9 de agosto de 2023
Trabalho de Sísifo
https://themindcircle.com/boston-big-dig/
O maior feito do urbanismo dos anos 1990/2000 foi desconstruir o suporte material da expansão urbana dos 50 anos anteriores - para revalorizar as áreas centrais!
Pois não se passaram nem 25 e já tememos que as novas áreas centrais estejam entrando em um novo ciclo de declínio causado pela mudança dos paradigmas da economia urbana.
A exemplo de Nova York, poderemos ver imobiliárias de Boston, que gastou 22 bilhões de dólares (atualizados) para construir o Big Dig e revitalizar o Centro, sugerindo subsídios públicos para converter endereços comerciais em edifícios residenciais.
Talvez nem precisemos ir tão longe: o Rio de Janeiro já está subsidiando a construção e o retrofit habitacionais no Centro da cidade em troca de m2 de construção adicional na Zona Sul - um método mais de acordo com as nossas tradições.
As grandes metrópoles, asseguram-nos as agências internacionais de desenvolvimento, respondem pela criação da imensa maior parte da riqueza planetária. O problema é que essa riqueza, que se concentra a níveis nunca vistos, cresce junto com deseconomias megalopolitanas nunca contabilizadas, mas invariavelmente alocadas na rubrica dos custos públicos.
Mais do que um novo paradigma, precisamos é de mudar de fase.
2023-08-09domingo, 6 de agosto de 2023
Caos piorado
https://caosplanejado.com/urbanismo-sustentavel-de-volta-para-o-futuro/
(..) Em um dos episódios mais assistidos do São Paulo nas Alturas, o jornalista Raul Juste Lores destacou que muitos dos edifícios icônicos de São Paulo, verdadeiras obras primas da arquitetura, como o Copan, não poderiam ser construídos pela legislação atual, que, entre outras características, limita o potencial construtivo.
Em face de tantas maravilhas, eu só tenho a oferecer ao leitor uma modesta postagem a respeito, um tanto cética, publicada neste blog sob o título “Solo urbano: escassez e planejamento”.
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2022/04/solo-urbano-desmistificar-escassez.html
quarta-feira, 2 de agosto de 2023
Direito à cidade e à cidadania
Como se pode ver, foi na Barcelona majoritariamente republicana e independentista que a social-democracia de Sánchez teve a sua vitória mais acachapante e decisiva contra a frente reacionária PP-Vox.
Nas palavras de El País 24-07-2023: “Los socialistas han recibido más apoyo en todos los distritos de la capital (en Nou Barris donde más, con un 43%) con excepción de Sarriá-San Gervasi, una de las zonas de más renta de la ciudad" (ilustração no alto à esquerda).
Está claro que o “direito à cidade” tão caro a nós, urbanistas, não pode negar legitimidade à aspiração dos barceloneses a se tornarem cidadãos da República da Catalunha. Não é por acaso que, faz tempo, o Barcelona FC é a autêntica "pátria de chuteiras” do futebol mundial.
2023-08-02
domingo, 30 de julho de 2023
quarta-feira, 26 de julho de 2023
Apontamentos: Vance 1971 e os paradigmas da organização espacial urbana
https://docs.google.com/document/d/1hY5wr5SMbC34ni3Cs9jlKGrpKEiFyfUd/edit?usp=sharing&ouid=115443038285423072431&rtpof=true&sd=true
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Série histórica dos modelos de estrutura espacial da cidade moderna segundo Harris e Ullman 1945 Clique na imagem para ampliar |
A citação acima, pinçada do texto clássico de Vance Jr, não é seguramente a que melhor resume o seu conteúdo. Mas nos remete a um aspecto crítico do estudo da organização espacial urbana: o seu status epistemológico.
“Esses três conceitos de estrutura urbana não são diametralmente opostos uns aos outros. Cada conceito provavelmente tem alguma importância para explicar a estrutura de qualquer cidade. (..) As mesmas concepções teóricas gerais, como a tentativa de minimizar os custos de atrito tomada como princípio organizacional, são aplicáveis em graus variáveis a todas as três concepções da estrutura de uma cidade.” [Richardson 1969]
“The several theories that seek to describe the physical structure of cities furnish us with universals. Yet each stands as a partial but insufficient truth. (..) The existence of this set of theories of partial truth indicates that what we deal with is not a simply-sufficient paradigm but rather a series of explanations, which in combination approach completeness.’ [Vance 1971]
Congelado desde 1945 no esquema geográfico dos “três modelos” de Harris/Ullman, [2a] o paradigma científico da organização espacial urbana parece ter sido progressivamente substituído, a partir da década de 1970, pelo modelo alonso-thuneniano (1964) da economia espacial neoclássica [3], mais afeito, talvez, à ascensão das ideias e políticas neoliberais do último quarto do século XX.
The main argument of this paper (..) is simply that the treatment of urban land as a source of income, which came in with the general conceptual baggage of the capitalist system as it developed, fundamentally transformed the morphology of the city. (..) For us the essential point is that of the use to which property was put. (..) Ownership was divorced from use and a class of capitalists arose that had little to do directly either with the productive and trading activities of the town or with the conduct of its government. [4]
Pouco adiante, ele irá completar esse percurso reivindicando o modelo de Alonso como paradigmático do estudo da moderna localização residencial:
William Alonso's Location and Land Use deals with that choice [housing decisions of the affluent] in a scholarly frame arguing that the craving of the wealthy for space accounts for their shift to the city's edge. [5]
Tema para postagens subsequentes, dedicadas ao espinhoso, porém fascinante, problema da transição do burgo feudal a urbe capitalista.
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NOTAS
[1] HARRIS C D e ULLMAN E L (1945), "The Nature of Cities". The Annals of the American Academy of Political and Social Science. 242: 7–17.
[2] RICHARDSON H W (1969), Economia Regional - Teoria da Localização, Estrutura Urbana e Crescimento Regional. Rio de Janeiro: Zahar 1975
https://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.187298
[3] ABRAMO P (2001) Mercado e Ordem Urbana: do caos à teoria da localização residencial. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil 2001, pp. 65-87
[6] SCHUMPETER J A (1954): Historia del Análisis Económico 524-529. Barcelona: Editorial Ariel 1982.
domingo, 23 de julho de 2023
quarta-feira, 19 de julho de 2023
Data venia
https://elpais.com/economia/negocios/2023-07-08/el-mercado-del-alquiler-de-casas-se-enfrenta-al-reto-migratorio.html
España necesita migrantes por el envejecimiento de la población. En la mayoría de los casos, su única opción es arrendar, pero tendrán dificultades para acceder a una vivienda asequible
quarta-feira, 12 de julho de 2023
quarta-feira, 5 de julho de 2023
Beleza americana
quarta-feira, 28 de junho de 2023
Real estate blues
https://www.bloomberg.com/news/articles/2023-06-23/commercial-real-estate-reset-is-causing-distress-from-san-francisco-to-hong-kong
quarta-feira, 21 de junho de 2023
Retrofit animal
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| Montagem: Àbeiradourbanismo Clique na imagem para ampliar |
A solução é simples: transformar o elefante em camelo, isto é, a converter o edifício em uma torre de super-camarotes do Sambódromo, a serem cedidos por tarifas triliardárias aos xeiques de Doha, Dubai, Abu Dahbi, Manama, Neom e adjacências para quatro noites de esbórnias momescas que valerão por mil e uma.
2023-06-21sexta-feira, 16 de junho de 2023
quarta-feira, 14 de junho de 2023
Associação Internacional da Moradia Social!
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Montagem: Àbeiradourbanismo Clique na imagem par ampliar |
Para ser franco, espanta-me que não exista na União Europeia, por razões que me parecem óbvias, um movimento unificado de moradia social. A propósito, não vejo ninguém mais apta/o do que Ada Colau, recém “liberada” da prefeitura de Barcelona, para liderar tal iniciativa.
E, apesar das imensas diferenças, diria o mesmo para a América Latina. Meu candidato a organizador seria, também por razões óbvias, Guilherme Boulos: não vejo contradição, muito ao contrário, com o exercício do mandato de Deputado Federal.
2023-06-14
quarta-feira, 7 de junho de 2023
A cidade livre-cambista de A. Bertaud
https://caosplanejado.com/o-indiana-jones-dos-arquitetos-e-o-mergulho-no-urbanismo-mundial/
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| Montagem: Àbeiradourbanismo Clique na imagem para ampliar |
sábado, 3 de junho de 2023
Urbanização de mercado é rolo compressor!
https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2023/05/substitutivo-do-plano-diretor-de-sao-paulo-e-enorme-retrocesso.shtml
Substitutivo do Plano Diretor de São Paulo é enorme retrocesso
Só tem sentido rever o Plano Diretor Estratégico de São Paulo (PDE) de 2014, cujo horizonte temporal é 2029, se ele corrigir problemas e distorções identificados na sua implementação. Isso não está ocorrendo.
O projeto de lei da revisão, apresentado pela gestão Ricardo Nunes (MDB), não descaracteriza o PDE, mas agrava alguns problemas (..). Já o substitutivo do relator, vereador Rodrigo Goulart (PSD), é muito pior, um enorme retrocesso. Praticamente anula a estratégia de estruturação urbana do PDE, propondo uma verticalização dispersa e sem limites, elitizando ainda mais os eixos de transporte coletivo e comprometendo definitivamente os miolos dos bairros.
Sem estudos técnicos para respaldar suas propostas, o substitutivo da Câmara desconsiderou as vozes das associações de bairros e os mais de 230 estudos e pesquisas apresentados nos fóruns SP21 e SP23, promovidos por entidades profissionais e acadêmicas, assumindo, sem pudor, a maioria das sugestões da Associação Brasileira das Incorporadoras (Abrainc). (..)
O substitutivo não promove uma revisão intermediária do PDE, com ajustes para corrigir problemas identificados na implementação, mas o altera inteiramente como se fosse um novo Plano Diretor, com o objetivo de facilitar a promoção imobiliária sem sequer apresentar uma estratégia urbanística para a cidade de São Paulo. Não pode ser aprovado.
2023-06-03
quarta-feira, 31 de maio de 2023
Tem o meu apoio!
https://avebarna.blogspot.com/2023/05/metaverso-avebarna.html
quinta-feira, 25 de maio de 2023
Areias d'ouro
https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/lote-de-areia-vazio-em-dubai-e-vendido-pelo-valor-recorde-de-us-34-milhoes/
(..) A propriedade não desenvolvida de 2.230 metros quadrados foi vendida por Umar Kamani, um empresário britânico e co-fundador da varejista de moda PrettyLittleThing. A venda – por 125 milhões de dirhams (AED) – representa um ganho impressionante de 242% sobre seu preço de compra original de 36,5 milhões de AED, ou pouco menos de US$ 10 milhões, em 2021.
A identidade do comprador é desconhecida.
O terreno é um dos 128 originalmente disponibilizados na ilha artificial, que é conectada ao continente por uma ponte de 300 metros. Seu preço vertiginoso é um reflexo não apenas da resiliência de alguns dos imóveis de Dubai às tendências de queda nas economias globais, mas também, dizem os corretores de imóveis, daquilo em que os mega-ricos querem gastar seus dólares. (..)
2023-05-25





















