terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A braços com as peculiaridades da mercadoria terra urbana

 

A terra – como o ar, a água e o fogo – é um bem essencial à vida. Nem os Jetsons nem os guerreiros Jedi nem os caçadores de androides podem dela prescindir, mesmo passando boa parte de sua vida no ar ou no cosmo. 

Contudo, se o ar é (ainda) livre e a água e a energia (assim, assim) serviços públicos de acesso geral mediante pagamento de tarifas, a terra urbana dotada de serviços é um bem privado pleno, que se negocia no mercado como se fossem automóveis, ou alfinetes, a preços sujeitos às condições e flutuações da oferta e da demanda. 

Isto não seria um grande problema se o preço desse bem essencial fosse, ao final, acessível, senão a todos pelo menos à grande maioria; digamos, para imaginar, por uma tarifa que pagasse os custos públicos de urbanização e fosse inversa e garantidamente proporcional aos gastos com transporte; ou fazendo parte da cesta  básica. Sabemos, porém, que não é assim.

Uma boa maneira de nos aproximarmos do vasto e espinhoso tema do mercado e preços do solo urbano  - que para o urbanista, ufa!, tem sempre uma próxima oportunidade - é tatear as peculiaridades da terra como mercadoria. 

Embora negociada como mercadoria comum, a terra tem características que a distinguem radicalmente da maioria dos produtos industriais, geralmente não essenciais, substituíveis, móveis (cada vez mais), perecíveis (a curto ou longo prazo), destrutíveis (desaparecem no consumo) e, por definição, reprodutíveis pelo trabalho humano.

A terra, ao contrário, é um bem natural, essencial, insubstituível, inamovível, imperecível, indestrutível (no sentido de que não desaparece no consumo econômico), infinitamente divisível no plano jurídico, mas não reprodutível pelo trabalho humano.

A provisão de solo natural com serviços públicos e equipamentos de uso coletivo é condição essencial de seu uso para fins urbanos. O solo só atende às necessidades da demanda quando adequadamente urbanizado e bem localizado em relação à oferta de equipamentos e serviços públicos, serviços privados e amenidades naturais. 

Além de “matéria-prima” dos bens de uso comum do público (ruas, avenidas, praças públicas), o solo é o insumo sine qua non, insubstituível, da indústria da construção civil, constituindo um tipo de demanda que dizemos “derivada” da demanda "primária" por produtos imobiliários prontos para uso – residências, escritórios, lojas, fábricas etc.

A demanda de solo não deixa de ser derivada pelo fato de grandes grupos em situação precária o tomarem para se instalar e construir, por fora dos mecanismos do mercado formal e ao arrepio das normas urbanísticas, as suas próprias moradias; tampouco pelo fato de, em ambientes onde predomina a autoconstrução, o único mercado visível ser o da própria terra. Ao contrário, tais fenômenos só fazem destacar a natureza especial da mercadoria solo urbano, cujo preço não cessa de subir mesmo com todos os preços industriais declinantes – implicando que o contigente populacional com renda abaixo do “limiar de endividamento bancário” só possa ter acesso à moradia "de mercado" com amplos subsídios do governo, dos quais uma parte considerável se converte, como se pode deduzir, em subsídios aos proprietários de terrenos.

De forma análoga, a demanda de solo não deixa de ser derivada pelo fato de algumas poucas famílias e empresas comprarem grandes extensões de terra barata na periferia ou interstícios urbanos para fins de “engorda”. Também isso faz destacar a peculiaridade da mercadoria solo: sendo imperecível, ela pode permanecer décadas a fio num patrimônio ou carteira imobiliária, sem qualquer uso, à espera de que a exasperação da concorrência entre os demandantes – que não cessam de se multiplicar – permita que ela seja negociada na oportunidade da máxima valorização.

O solo natural não é escasso, ainda que pareça sê-lo quando nos deparamos, atônitos, com certos oceanos de pobreza urbana que transmitem a idéia de superpopulação planetária.


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Escasso é o solo adequadamente urbanizado e bem localizado; escassa é a mercadoria solo urbano, que se apresenta como uma coleção de parcelas dotadas de serviços básicos, mais ou menos adequadas aos usos que lhes pretendam dar seus demandantes em função de sua localização relativa ao estoque de bens e serviços já instalados no território

Para a vasta maioria dos habitantes das cidades, porém, não importa tanto o acesso ao solo em si mesmo (terra urbanizada) quanto a um produto pronto para uso na melhor localização que seu dinheiro possa comprar – procura cuja satisfação é o objeto da indústria da incorporação imobiliária. 

O solo é irreprodutível, mas o contrário vale para as construções, que, no entanto, só vicejam no solo fertilizado pela provisão de urbanização e  serviços públicos. Agregados no território urbanizado, as construções e seus distintos usos geram o fenômeno relacional e 100% social da localização, uma síndrome de vantagens que torna certos terrenos, grupos de terrenos e áreas urbanizadas da cidade mais procurados do que outros, aumentando o seu valor de mercado.

A vantagem de localização por excelência é a menor distância (ao local de trabalho, à escola, ao comércio, aos clientes e fornecedores etc.) medida em custo de transporte, tanto mais decisiva quanto mais modesto for o ganho do trabalhador e exígua a margem de lucro econômico da firma. A centralidade é o efeito generalizado do esforço permanente de todos os agentes econômicos para diminuir as distâncias. Mais precisamente, é a relação espacial que o custo da distância estabelece entre demandantes e ofertantes de mercadorias, serviços e força de trabalho, por efeito da concorrência das famílias e firmas pelas localizações reciprocamente mas vantajosas.

Os serviços urbanos, a construção em altura e o instituto jurídico da fração ideal de terreno se juntam para operar o moderno milagre da multiplicação dos pães: num pequeno pedaço de terra onde caberia um bem de uso para uma única família, ou empresa, a indústria da incorporação imobiliária pode não apenas levar ao mercado uma pilha de bens de uso similares, para 10, 20, 50 famílias, ou empresas, obtendo ganhos de escala, como vender a todas elas - o que pode ser sumamente lucrativo - a mesma vantagem de localização! “Venha para um endereço exclusivo”, “More pertinho de tudo”, “A segurança que sua família merece”, “Escritórios comunicados com o mundo” são alguns dos slogans preferidos para fazer aumentar, agora exponencialmente, a renda por m2 de terreno.

Com o indispensável apoio do instituto da fração ideal, o direito de propriedade do solo faculta ao titular de um terreno apurar, na venda de cada um dos novos bens de uso que nele vier a ser ancorado (mais comumente na forma de construção em altura) a parcela do valor extraído da competição entre os demandantes por aquela localização. 

Todo produto imobiliário é, pois, constituído de benfeitoria, que vale por suas qualidades intrínsecas, e terreno, ou fração ideal, que vale por suas qualidades extrínsecas - vale dizer, é um "produto-localização". A fração ideal, que ao contrário do terreno não tem nenhum valor de uso, desnuda a propriedade da terra urbana como puro direito exclusivo aos benefícios coletivamente construídos da urbanização e da localização. 

O valor econômico da terra privada é 100% criação coletiva, o que faz dela a candidata ideal a fonte de financiamento da urbanização e das infraestruturas por meio do IPTU, das contrapartidas ao direito de construir e das obrigações de urbanização – tema de alguma próxima postagem.

Mas se a divisibilidade jurídica do lote é infinita, não constituindo obstáculo à multiplicação dos produtos imobiliários nele ancorados, o mesmo não ocorre com o potencial de aproveitamento dos terrenos. Limitações técnicas, econômicas, culturais e biológicas exercem aqui o seu poder, o mesmo valendo para os padrões civilizacionais que se supõem refletidos na legislação edilícia, urbanística e ambiental. 

Além disso, a inamovibilidade e a longa durabilidade dos produtos imobiliários implicam que a construção de um edifício esgota a reprodutibilidade daquela localização específica, agora congelada em forma de estoque.

A tensão entre a não reprodutibilidade do solo, a limitada reprodutibilidade dos produtos-localização e a disputa dos demandantes pelas localizações mais vantajosas joga um papel decisivo na configuração física da cidade, na eficiência econômica de seus serviços básicos, na qualidade do meio ambiente e, finalmente, na geografia dos preços: tipicamente, os gradientes decrescentes de verticalização, adensamento e valor do solo a partir das localizações "centrais", quer sejam estas o centro econômico da cidade, subcentros ou quaisquer outros focos de interesse (praias, shoppings etc.).



Esse efeito está igualmente presente nas comunidades informais, onde a "liberdade urbanística" garante que as localizações mais acessíveis aos meios de transporte sejam as primeiras a se converter em comércios e se verticalizar.

A reprodutibilidade dos produtos-localização não nega a sua escassez constitutiva, meramente a “regula” na forma da distribuição espacial do adensamento: primeiro, porque é em si mesmo limitada; segundo, porque é prisioneira da radical irreprodutibilidade do solo; terceiro, porque é relativa à distribuição da capacidade de pagamento/endividamento dos diversos segmentos da demanda. 
 
A oferta de residências representada pelos impressionantes conjuntos de edifícios de apartamentos de Hong Kong pode ser, dependendo de sua localização, ínfima relativamente à demanda total. Copacabana constitui um imenso estoque de produtos imobiliários (a maioria semelhantes aos de muitos outros bairros menos “nobres” da cidade), praticamente inalterável por falta de terrenos e inacessível à imensa maioria dos habitantes do Rio de Janeiro: algumas dezenas de milhares de unidades localizadas à beira do oceano, a 5km do centro da cidade, será sempre uma oferta limitada numa metrópole de mais de 3 milhões de famílias. O mesmo vale para os escritórios de qualquer Avenida Central. O preço das localizações é a medida de sua crônica escassez relativa. 

Ao final, a ilimitada divisibilidade dos terrenos em frações ideais valorizadas pela urbanização e pela construção em altura é um milagre bastante - como se diz hoje em dia - assimétrico: satisfaz muito mais plenamente aos proprietários de terras - que são poucos e invocam-no para multiplicar as suas rendas - do que aos demandantes de valores de uso imobiliários - que são a imensa maioria e não podem morar, ou instalar seus negócios, onde querem, mas nos lugares urbanos que lhes “compete” segundo a sua capacidade de pagar aluguel ou endividar-se. 

A indestrutibilidade (salvo situações excepcionais) do solo também cumpre um importante papel em sua encarnação de mercadoria. O solo não desaparece no consumo econômico - seu “aproveitamento” -, apenas sai do mercado. Este fato, que pode não ser claro num dado momento e lugar, é muito importante na escala temporal das gerações. Como a cidade é um artefato multissecular em contínua construção, sempre haverá, em algum lugar, terrenos sujeitos a renovação edilícia. 

A derrubada das torres gêmeas de Nova York é um caso excepcional, mas sinistramente esclarecedor. Sepultados os mortos e retirado o entulho, o terreno reaparece, poucos anos depois de "consumido" numa imensa construção, como mercadoria nova, pronta para ser "reconsumida" em um novo empreendimento imobiliário de altíssima lucratividade.

Edifícios são duráveis, mas não são eternos. Se por um lado o aproveitamento do solo para um dado uso o retira do mercado e exclui todos os demais usos por uma longa temporada, a dinâmica urbana acaba, muitas vezes, por tornar rentável a demolição até de um bairro inteiro para o reaproveitamento da terra muito antes de encerrada a vida útil dos valores de uso que ela contém. Trata-se de um fenômeno cíclico, observável nas áreas mais valorizadas de qualquer média e grande cidade.

Em suma, o solo urbanizado e bem localizado é um bem irremediavelmente escasso, como também o são - em medida proporcional aos direitos de aproveitamento dos terrenos e ao tamanho da demanda - os produtos imobiliários (valor de uso + localização) que ele pode conter.


O significado essencial dessa conclusão é: aquele que detém a propriedade de um terreno, ou da fração ideal associada a um bem de uso sobre ele construído, está em condições de pôr esse terreno ou fração no mercado para ser arrematado pelo usuário (final ou intermediário-incorporador) que ofereça por ele a maior renda, na forma de preço de transação ou aluguel.
 
É por isso, leitor, que, quando você ouvir falar em desregulamentação do mercado imobiliário e flexibilização de normas urbanísticas para baixar o preço dos imóveis, desconfie! O mercado imobiliário é, em qualquer cenário, um grande leilão coletivo de bens escassos, um segmento da economia onde, a despeito do que possam dizer os incorporadores, a concorrência empresarial tem pouco ou nenhum efeito sobre o preço final do bem ao usuário ou comprador.

Tributo a Carlos Morales Schechinger
(Todos os conceitos e interpretações  aqui expostos são de inteira responsabilidade do autor do blog

2012-01-10

domingo, 1 de janeiro de 2012

Caio Martins, o escoteiro-padrão do Brasil, vai servir ao esporte ou só levar a tocha olímpica?

Faltam 4 anos e 6 meses para a Olimpíada do Rio de Janeiro.

Qual é o projeto dos próceres do esporte brasileiro para o Conjunto Desportivo Caio Martins?

Qual é o projeto dos próceres do esporte brasileiro para a formação esportiva dos escolares, secundaristas e universitários de Niterói? E para a cultura esportiva de seus trabalhadores, seus adultos e seus idosos?

Legado olímpico não é hotelaria nem transporte: é esporte! Para todos! 

2012-01-01

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Cidade da música: Prêt-à-porter de tafetá – João Bosco e Aldir Blanc, 1984


João Bosco* 
Presume-se que o matreiro saci tenha surgido entre os indígenas da região das Missões, no sul do Brasil, e sido mais tarde adotado pelos africanos do Norte e Nordeste na forma de um negrinho de uma perna só, com pito e carapuça.  

De passagem por Minas, onde o Brasil dá a volta e se encontra consigo mesmo, o saci parece ter estado em Ponte Nova, onde entre uma e outra traquinagem teria se enrustido na alma de João Bosco Mucci, menino com nome de santo que cantava nas missas da paróquia.

Digo isto porque, embora a crítica douta enfatize, em João Bosco, a influência do samba de breque, do jazz e da bossa nova, eu há muito me pergunto se o gênio que habita essa pele é o da MPB culta da velha capital ou aquele outro que viaja pelo interior do Brasil em redemoinhos de vento, assoviando para assustar os bois no pasto, distrair as cozinheiras e extraviar os viajantes.

Reza a lenda que para capturar o saci e fazê-lo obedecer ao seu dono é necessário jogar sobre ele uma peneira, arrancar-lhe a carapuça e prendê-lo dentro de uma garrafa.
Aldir Blanc**


Se pensasse como hoje trinta anos atrás, quando o admirei por “Dois pra lá dois pra cá” e “Caça à raposa”, eu diria que o moleque saci de Ponte Nova fora capturado pelo carioca confessadamente saudosista e meio vermelho Aldir Blanc para vestir a sua poderosa lírica suburbana com a musicalidade cafuza que ele trazia dentro de si.Talvez até seja verdade. Neste caso, porém, o gênio cativo acabou solto na vida – meio alforriado, meio fugido. 

Compreendendo melhor que ninguém a alma irrequieta do saci, eu imagino, Aldir o ajudou a sair por aí em busca do verso perfeito que lhe permitisse extravasar das harmonias e melodias suburbanas voltando às toadas, batidas e vozes das profundezas das Geraes. Aquele que canta “Quilombo”, “Odilê Odilá” e “Zona de Fronteira”, sozinho com seu violão, como se tivesse ao seu redor toda a negrada reunida no terreiro, só pode ser o Moleque Saci liberto da garrafa incorporando Clementina de Jesus.

Este aqui, no entanto, é João Bosco em plena folia carnavalesca, no melhor estilo Aldir Blanc – uma esbórnia de francesas, franceses e francesismos que faria chorar de emoção o divino Rabelais. Para fazer boa figura e ficar mais charmant, o saci da ex-capital trocou a carapuça pelo béret.

Mas, afinal, o que tem tudo isso a ver com a cidade? – há de se perguntar o leitor.

Paquetá! A formosa ilha aparece perfeitamente à vontade nesse samba-desenredo rimando com Cocotá, rebolá, sambá, patuá, ou là là, tamanduá, zanzibá, saravá, Praça Mauá e, é claro, tafetá. 

Não nos iludamos: não há nada mais carioca e perfeitamente suburbano do que Paquetá. Elevada por D. João VI à categoria de colônia de férias, e até de residência, da nobreza do Rio de Janeiro e transformada em 1829 numa espécie de Elba tupiniquim – retiro forçado de onde o recém-ex-exilado José Bonifácio, o Patriarca da Independência, estaria, segundo seus inimigos, comandando uma conspiração republicana –, a ilha é hoje lugar de gente pacata aonde os proletários e remediados das nossas comunidades urbanas costumam levar suas famílias e namoradas em passeios de fim de semana.
Foto Elisa Amorim

Fonte: blog Rafael Oliveira
 
www.rafaeloliveira-rj.blogspot.com
Um paradoxo do nosso tempo: não fosse a poluição do ar e da água e a paisagem petroleira – terminais, navios, rebocadores, plataformas em manutenção –, Paquetá seria uma ilha exclusiva, propriedade de dois ou três endinheirados, onde jamais se poderiam ver, como me relatou uma querida admiradora da ilha, meninos sabe Deus de que freguesia se esbaldando na praia a gritar: “Água limpa! Água limpa!”


Às leitoras e leitores ávidos por um preguiçoso programa de fim de semana, eu recomendo uma visita à bucólica Praia da Moreninha, à Chácara dos Coqueiros, ao Cemitério dos Pássaros, à Ponte da Saudade, ao Poço de São Roque e ao baobá Maria Gorda. E, depois de tantas emoções, voltar à pousada para manger(!) toi beaucoup... - não sem antes, é claro, agradecer ao Conselheiro Blanc, fazer uma prece a São João Bosco e queimar uma erva pro Moleque Saci - ...jusq'au bout!

Para quem não sabe onde fica 


______
* http://musicariabrasil.blogspot.com.br/2012/07/joao-bosco-40-anos-depois.html
** http://www.brasilcultura.com.br/sociologia/aldir-blanc-declara-voto-voto-dilma/

2011-12-19

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

R$ 17 milhões por um cinema tombado? (2)

Partindo da premissa de que o valor de uma propriedade é função de sua capacidade de gerar renda, geralmente em forma de aluguel, capitalizada num horizonte de projeto e trazida a valor presente, qual dos usos abaixo daria ao Cinema Icaraí, na sua opinião, um valor de mercado de  R$17 milhões? 
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Não sou avaliador, mas fiz uma estimativa baseada no método residual dedutivo de cálculo do valor de mercado de um terreno (uso residencial multifamiliar), com parâmetros típicos da Praia de Icaraí, e - sabem o que deu?
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Coincidência? Forcei a barra? Má vontade com o governo? Estou por fora? Cartas para a redação, por favor.

2011-12-14

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Vila do Pan: Antônio Veríssimo desvenda o mapa da mina

Antônio Augusto Veríssimo é arquiteto especialista em habitação e atual Coordenador de Planejamento e Projetos da Secretaria Municipal de Habitação do Rio de Janeiro. Desde o memorável curso de Gestão do Solo do Lincoln Institute of Land Policy em Ciudad de Panama, em 2003, é também meu companheiro de estrada em questões de valorização da terra urbana.

Esta semana, a propósito da notícia de mais um socorro público às calamidades da Vila do PAN, Veríssimo enviou aos seus amigos um artigo fundamental sobre este que foi, no meu entender, o projeto-piloto da generosa política, há tempos em vigor em nosso país, de isenções e benefícios à indústria dos grandes eventos esportivos globais. Imperdível.


Vila do Pan – o retorno

                Matéria publicada no dia 10 de dezembro, no Jornal O GLOBO, informa que a realização de obra de estabilização do solo de rua, que poderia comprometer a imagem olímpica, põe fim a impasse na Vila do Pan. Será?

                A Vila do Pan está construída na Subzona A-39 que está compreendida entre o Canal do Anil e a Av. Alvorada, sendo limitada ao sul pela Lagoa do Camorim e ao norte pela Via 7 do PA 8997. Esta subzona é constituída por duas áreas: uma denominada “Área A” abrangida pelo PA 9822 e pelo PAL 35457, limitada ao norte pela Via 7 do PA 8997, ao sul pela Via Parque Projetada C, e ao leste, pela Avenida Canal do Anil e a Oeste pela Avenida Alvorada; e outra, denominada “Área B” entre a Avenida Parque Projetada C do PA 9822 e a Lagoa do Camorim, limitada a leste pela Avenida Canal do Anil e a oste pela Avenida Alvorada.
            No mapa a seguir pode-se visualizar graficamente a descrição realizada acima da Subzona A-39 e na imagem seguinte a sua sobreposição sobre uma foto aérea onde se pode conferi a localização da Vila do Pan na Área B da desta Subzona.


Mapa 1- ZE 5 Subzona A-39 do Decreto 3.046/81

Figura 1 – Localização da Vila do Pan em relação à Subzona A-39
                A Legislação vigente para a Área B da Subzona A-39, definida no Decreto 3.046/81, estipulava que o lote mínimo permitido naquele local era de 3 mil metros quadrados com uma testata mínima de 40 metros. Nestes lotes poderiam ser construída, apenas, uma unidade habitacional com, apenas, um pavimento por lote. Estas unidades habitacionais não poderiam ocupar mais do que dez por cento do terreno. O uso comercial somente era admitido em lotes com frente para a Avenida Alvorada, limitada a sua altura a dois pavimentos, sendo admitida uma ocupação do terreno de, no máximo, vinte por cento, além de estarem afastadas 10 metros da Avenida e 4 metros das demais edificações.
            Como pode ser observado, tais parâmetros urbanísticos restritivos induziam a uma ocupação de pouca densidade e pouca carga. A legislação estabelecida para o local levou em consideração as frageis condições de resistência do solo naquela região e, por isso, não incentivava a sua ocupação intensiva.
                Não obstante serem previamente conhecidas as precárias condições daquele solo, a partir do ano de 2002 foram aprovadas uma série de leis e editados decretos que alteraram profundamente os parâmetros urbanísticos e edilícios para o local.
                Em 27 de setembro de 2002 foi aprovada a Lei Complementar  N.º 59 que definiu usos para os lotes 1 a 41 da Q.4 do PAL 18 328  em função dos Jogos Panamericanos de 2007.
                Em 22 de novembro de 2002 foram aprovadas as Lei Complementares N.º 60 e 61 que alterou parâmetros edilícios e dispositivo da LC N.º 59/2002.
                Em 11 de dezembro de 2003, foi editado o Decreto N.º 23811 que alterou parâmetros edilícios;
                Em 08 de janeiro de 2004, foi editado o Decreto N.º 23900 que alterou parâmetros edilícios.
                As alterações realizadas na legislação para o local atribuiram aos lotes ali existentes um potencial de edificabilidade muitas vezes superior àquele vigente na legislação de 1981. Isto quer dizer que, se um proprietário de um lote com 3 mil metros quadrados poderia construir anteriormente apenas uma edificação unifamiliar com 300 metros quadrados, a partir da edição das novas normas poderia edificar, no mesmo lote, 24 apartamentos com  300 m² cada ou 72 apartamentos com 100 m2 cada.
                Comparando-se os potenciais construtivos permitidos pela legislação antes e depois de 2002/2004, pode-se concluir que o valor no mercado desses lotes multiplicou-se muitas vezes neste curto período, aumentando significativamente o patrimonio econômico dos seus proprietários.
                Não bastasse o intenso incremento do potencial construtivo que se reflete - por consequencia - em um intenso aumento do valor dos lotes no mercado, resolveu também a Prefeitura investir na colocação da infraestrura necessária para a construção dessas edificações, obrigação que deveria ser assumida, legal e lógicamente, pelo empreendedor, já que o preço de venda dos imóveis, comercializados livremente no mercado, já incorpora este tipo de investimento.
                Não fossem suficientes as benesses concedidas ao empreendedor pela Prefeitura, por meio das alterações nos parâmetros legais e pela sua desoneração na execução da infraestrutura, resolveu também o Governo Federal conceder uma linha de financiamento privilegiada para a comercialização das unidades, utilizando-se os recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador o FAT, com condições muito mais favoraveis de financiamento que aquelas disponíveis no mercado na ocasião.


                 No quadro abaixo pode-se comparar as taxas de juros oferecidas pelo mercado com aquela concedida para a comercialização dos imóveis da Vila do Pan.

                Tendo em vista os generosos benefícios concedidos ao empreendedor - cumulativamente - pelos governos municipal e federal, seria plenamente justificavel, e esperado, que o responsável pelas edificações alí construídas disponibilizasse em contrapartida os imóveis para a utilização pelos atletas e delegações durante o decorrer dos jogos Pan e Para Panamericanos. Porém não foi isso que aconteceu. Apesar de todas as benesses concedidas, resolveu o Governo Federal, adicionamente, pagar ao empreendedor, antecipadamente, ou seja, antes das edificações estarem concluídas, o valor de 25 milhões de reais a título de “aluguel” para a utilização futura das unidades durante os jogos[1].
                Mais uma vez ainda seria possível justificar tanto aporte de recursos públicos a um empreendimento privado se, ao fim do dia, tais unidades, produzidas substancialmente com recursos advindos dos impostos arrecadados da população, fossem finalmente destinadas a um uso social, ou seja, estivessem a serviço da redução do défict habitacional da cidade. Mas não foi isso que aconteceu. A despeito dos volumosos subsídios públicos incorporados ao valor de venda[2], estes imóveis foram comercializados livremente no mercado, sem nenhuma restrição, havendo casos, como amplamente divulgado, de um mesmo comprador ter adquirido mais de uma unidade no empreendimento[3].           
            Não bastasse, como visto, os volumosos recursos públicos investidos em um empreendimento privado, que sequer teve muito trabalho e despesa para ser comercializado, já que a grife de Vila do PAN já lhe garantia uma intensa exposição midiática; restou ainda para o contribuinte municipal arcar com os custos[4] dos reparos dos danos - mais do que previsiveis - causados à infraestrutura pela já conhecida instabilidade do solo no local.
            Mais um caso típico de parceria público privada, onde os lucros se privatizam e os prejuizos são socializados.

Rio, 10 de dezembro de 2011
Antônio Augusto Veríssimo
Arquiteto.



[1]O CONVÊNIO/ME/CO-RIO N.º 171/2004 estipulou o pagamento adiantado do valor de R$ 25.000.000,00 (vinte e cinco milhões de reais), a título de Concessão do Direito Real de Uso por prazo determinado sobre o imóveis da Vila do PAN. (informação contida no Acórdão n.º 1572/2005 do TCU – Plenário).
[2] Segundo o site do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio de Janeiro – SINDUSCON-RJ, em março de 2006 os apartamentos da Vila do PAN tinham alcançado preços entre R$ 115 mil (sala e suite)e R$ 420 mil (sala e quatro suites);
[3] (Segundo a CAIXA, a AGENCO vendeu todos os apartamentos em dois dias. De acordo com o próprio banco, celebridades como os jogadores Romário e Petkovic compraram imóveis de quatro suítes por preços que chegaram a R$ 390 mil. Os juros são camaradas: ficam por volta de um terço abaixo das taxas  normais de mercado”. Fonte: Diego Escosteguy / Estadao.com.br / 28/01/2006.) 
[4] Segundo consta da matéria publicada no Jornal o Globo em 10 de dezembro de 2011 sob o título “Obra põe fim a impasse na Vila do Pan” a Prefeitura arcará com o custo de R$ 4,1 milhões para conter o afundamento de trechos da Rua Claudio  Besserman Vianna (Bussunda) que passa em frente ao empreendimento conhecido como Vila do Pan.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O Professor Merval ensina o dever de casa

Texto explicativo em elipse: W
Montagem: Àbeiradourbanismo
Indagado, na edição de anteontem à noite do Jornal das Dez, sobre a razão de os BRICs estarem, até certo ponto, conseguindo sobreviver à recessão mundial, o insigne Merval Pereira, mais novo usufrutário de um fardão da Academia Brasileira de Letras, respondeu: “Porque eles fizeram o dever de casa nas décadas de 1980 e 1990”.

Depois do “Maracanã em pó” (ver postagem anterior), uma aplicação localizada, temos aqui uma lição abrangente de capitalismo do desastre (ver Naomi Klein) ministrada pelo professor Merval: para poder  crescer, os países precisam, primeiro, se deixar devastar por políticas de ajuste estrutural de suas economias.

Para propiciar ao leitor uma imagem do impacto do “dever de casa” do Professor Merval sobre a economia brasileira, eu apresento um gráfico com as taxas de crescimento do PIB brasileiro desde 1964. O dever de casa consistiu, como se vê, em aprender a escrever o “W”, que naquela época não fazia parte do nosso alfabeto.

Incluo, no gráfico, uma “linha de tendência” automática do Excel, que, a mim pelo menos, deixa a desagradável sensação de que o melhor que podemos esperar do alardeado avanço do Brasil ao status de potência econômica num mundo governado pelo capital financeiro é... uma economia cronicamente estagnada em taxas médias de menos de 3% muito antes de alcançarmos os retardatários do pelotão da frente!

Ao leitor interessado em se aprofundar no ensinamento do professor Merval e seus efeitos sobre a geografia humana mundial, eu recomendo enfaticamente a leitura de Planeta Favela, de Mike Davis (tradução de Beatriz Medina, pósfácio de Ermínia Maricato), Boitempo Editoral, 2006. O título do livro fala por si.

Seguem três passagens do capítulo “Desajustando” o Terceiro Mundo: o big bang da pobreza urbana.

“Em agosto de 1982, quando o México ameaçou deixar de pagar as parcelas da dívida, tanto o FMI quanto o Banco Mundial, em sincronia com os maiores bancos comerciais, tornaram-se instrumentos explícitos da revolução capitalista internacional promovida pelos governos Reagan, Thatcher e Kohl. O Plano Baker de 1985 (...) exigiu sem rodeios que os 15 maiores devedores do Terceiro Mundo abandonassem as estratégias de desenvolvimento conduzido pelo Estado em troca de novas facilidades para empréstimos e de continuar participando da economia mundial” [DAVIS, p. 156]. 
(..)
Segundo uma pesquisa da OIT, a pobreza urbana na América Latina cresceu extraordinários 50% somente na primeira metade da década, de 1980 a 1986. A renda média da população economicamente ativa caiu 40% na Venezuela, 30% na Argentina e 21% no Brasil e na Costa rica. No México o emprego informal quase dobrou entre 1980 e 1987, enquanto os gastos sociais caíram para metade do nível de 1980. No Peru, a década de 1980 terminou com uma “hiper-recessão” induzida pelo PAE [Plano de Ajuste Estrutural] que, em três anos, reduziu o emprego formal de 60% para 11% da força de trabalho urbana (...) [DAVIS, p. 160].
(..)
Em todo o Terceiro Mundo os choques econômicos dos anos 1980 obrigaram os indivíduos a se reagrupar em torno da soma dos recursos da família, principalmente, da capacidade de sobrevivência e da engenhosidade desesperada das mulheres. Quando as oportunidades de empregos formais dos homens desapareceram, mães, irmãs e esposas, em geral, foram obrigadas a agüentar bem mais que metade do peso do ajuste estrutural urbano. (..) Como enfatiza a geógrafa Sylvia Chant, sob os PAES as mulheres urbanas pobres tiveram de trabalhar mais, tanto dentro quanto fora de casa, para compensar os cortes nos gastos com serviços públicos e da renda masculina; ao mesmo tempo, o aumento ou a criação de tarifas cobradas dos usuários limitaram ainda mais o seu acesso à educação e à assistência médica [DAVIS, p.161].

Tendo em vista tudo isso, não me surpreende a advertência dos pesquisadores do projeto Observatório Urbano da ONU: “Em 2020 a pobreza urbana do mundo chegará a 45% ou 50% do total de moradores das cidades”. [DAVIS, p. 155].

Na dúvida, leitor, sobre as causas desse intrigante fenômeno, não hesite em  perguntar ao professor Merval Pereira, PhD, Jornal das Dez.

2011-12-08

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Dezessete milhões por um cinema tombado?

Cinema Icaraí
Na primeira página d’O Fluminense de hoje, 07-12, o prefeito de Niterói aparece rindo de orelha a orelha (o reitor da UFF nem tanto) por conta do fechamento de um acordo pelo qual  
o antigo Cinema Icaraí, um imóvel privado tombado, é 'transferido' à UFF por “cerca de" 17 milhões de reais. Segundo o jornal, 10,6 milhões serão pagos pela UFF com recursos disponibilizados pelo MEC, e “aproximadamente” 6,5 milhões - que, diz o jornal , exultante, “segundo o prefeito já estariam disponíveis no orçamento municipal”, pela prefeitura.

Você estranhou, leitor, os “aproximadamente” e “cerca de”? Eu também. Em frente, porém.

Esclarece O Flu que “os [cerca de] 17 milhões serão pagos ao proprietário do imóvel, a construtora Koppex, de Fernando Policarpo”, que não aparece na foto. Que estaria fazendo na ocasião? Chorando? Esfregando as mãos? Gargalhando? 

Eu mesmo saudei a notícia da adoção do cinema pela UFF, ontem, num breve comentário no Facebook, em que dizia, um tanto eufórico: “UFF para prefeito de Niterói!”, mas dizia também que uma pulga se pusera atrás da minha orelha sussurrando: “Perguntahh quanto custouhh, quem está pagandohh e quem está recebendohh”.

Por quê ria o prefeito? Porque ama a ciência e a cultura? Porque ama Niterói? Ou porque 17 milhões de reais públicos saíram voando por aí- o equivalente, quem sabe, à renda da terra que seria gerada por um edifício residencial de 17 pavimentos... no terreno do Cinema Icaraí?

Atenção, leitores. O que importa para os investidores imobiliários e seus intermediários não são os espigões, nem o retorno normal de capital, mas o lucro extraordinário que eles geram em forma de renda da terra!

Há um detalhe, porém. Se a edificação estava tombada, na melhor das hipóteses o seu aproveitamento econômico só poderia se dar em usos como... cinema, teatro, casa de espetáculos etc, e mesmo assim, mediante vultosos  gastos em reformas e instalações COMPATÍVEIS COM O TOMBAMENTO, que teriam de ser abatidos, junto com depreciação, despesas correntes e retorno de capital, das receitas estimadas no horizonte de projeto, para calcular o excedente de renda disponível para a aquisição do imóvel. Este seria, grosso modo, o seu "valor de mercado".

O acordo firmado significa que, feitas todas as contas, chegou-se à conclusão de que qualquer investidor que decidisse montar, no antigo Cinema Icaraí, um negócio COMPATÍVEL COM O TOMBAMENTO DA EDIFICAÇÃO, auferiria, além do retorno “normal” de capital, um lucro extraordinário em forma de renda da terra equivalente ao de um edifício residencial de 17 pavimentos!!!

Pergunta-se: se espetáculos são tão bom negócio em Niterói, porque então o Cinema Icaraí já não virou, há décadas, uma... Estação de Cinema? Um Moulin Rouge Icaraí? Teria sido perfeito: bem ao lado do Petit Paris! (Quem se lembra?)

Como não sou especialista em avaliações, sou obrigado a dizer: o Cinema Icaraí NÃO PARECE valer 17 milhões ! A viúva PODE TER SIDO assaltada!

Ou será que ela decidiu, generosa que é, compensar o proprietário do cinema pelo abuso “desses insensíveis que vivem prejudicando os proprietários para proteger o patrimônio cultural?”

Com a palavra, os leitores. De minha parte, eu gostaria de ver entrar em cena o Ministério Público e seus avaliadores profissionais e recomendaria, como Deep Throat a Bob Woodward em Todos os Homens do Presidente: “Follow the money”.

2011-12-07

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Acesso dos niteroienses ao Metrô da Carioca obstruído pela Justiça

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É com pesar que informo aos meus concidadãos niteroienses que a imaginada ligação aerorrolante entre a Praça XV e o Metrô da Carioca encontra-se definitivamente obstruída pela Justiça. Isso mesmo. Um sólido bloco do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, hoje em vigorosa expansão, se interpõe em nosso caminho. E abra o olho o Expedicionário, porque a sua praça está inteiramente invadida por um canteiro de obras. Daí à ocupação total e definitiva, com bandeira fincada e tudo, é um pulo.


A expansão da Justiça tem em geral três causas, a saber: o aumento do acesso dos pobres e marginalizados, o que é muito bom e auspicioso; o razoável (notável somente para os distorcidos padrões mundiais) crescimento ainda profundamente espasmódico e desigual da nossa economia, gerando conflitos trabalhistas e cíveis aos borbotões; a transformação da Justiça, a exemplo da Economia, numa concorrida roleta russa de advogados à caça de ações potencialmente rendosas (malefício que, felizmente, ao que parece, a nossa classe dominante ainda não trouxe de Chicago, Miami e Nova York).

Montagem: Àbeiradourbanismo
Agora, meus amigos, só nos resta esperar que a Ponte Rio-Niterói chegue rapidamente – falta pouco! – à saturação total (e que nossos engenheiros não inventem uma forma de duplicá-la e nossos governantes não decidam construir outra), para podermos voltar a sonhar com o Metrô Estácio-Praça XV.

Para satisfazer (ou quem sabe acicatar) a curiosidade do leitor, eu incluo uma prévia do mapa que estou preparando para um artigo em que me proponho a explicar (como urbanista que ainda sou) porque o virtual abandono da mencionada ligação pelas autoridades constituídas constitui uma escolha quase inconstitucional de tão insustentável. Os quadrados e círculos azuis são grandes desenvolvimentos imobiliários históricos e recentes, de negócios e residenciais - concluídos, em execução, programados e planejados - no corredor central em questão.
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2011-12-05

sábado, 3 de dezembro de 2011

Fragmentos de arquivo: Projeto de alinhamento e projeto viário setembro de 1996)

A coleção [carioca] de cerca de 11 mil Projetos de Alinhamento – herdados de um passado que remonta a quase um século – configura um “plano de logradouros públicos” destituído de qualquer coerência estrutural, ou melhor, cujos elementos de coerência estrutural (boa ou má segundo os olhos de hoje) foi há muito diluída por uma proliferação incontrolada de alterações pontuais. 

A despeito do fato de jamais ter sido interrompida a acumulação de novos PAs, na prática o planejamento a longo prazo da estrutura de logradouros públicos, cujo instrumento é, por excelência, o PA, está marcada por uma total e nefasta assimilação, que se operou na cultura urbanística a partir dos anos 60, entre projeto viário e “projeto de alinhamento”, sob o comando do primeiro, furtando dessa maneira ao PA o seu conteúdo eminentemente urbanístico. (..)

De maneira geral, podemos dizer que a cultura rodoviarista, que teve seu apogeu no urbanismo nos anos 60-70 do século que termina, determinava tiranicamente o plano da cidade a partir da demanda de infraestrutura viária detectada como necessidade. No intuito de garantir a viabilidade técnica e o barateamento da desapropriação futura das terras necessárias à passagem dessas vias, a engenharia viária fazia geralmente acompanhar de PAs os seus projetos geométricos de vias.

Destacamos o termo ‘geralmente’ pelo simples fato de que nem sempre isto ocorreu. Na prática, muitos projetos geométricos foram encomendados e elaborados sem a correspondente aprovação do PA que lhe reservaria o território; de forma inversa, muitos PAs foram elaborados e aprovados pelo Departamento de Estradas de Rodagem para a ampliação de vias estruturais e semi-estruturais sem nenhuma definição geométrica outra que não a própria faixa a ser ocupada pelo logradouro.

Na verdade, a coleção de cerca de 11 mil PAs vigentes na cidade configura um plano urbanístico permanente que, embora real em sua vigência, não apenas nunca (..)foi analisado, criticado e revisto. Ainda pior, o urbanismo normativo das zonas e parâmetros de ocupação e uso do solo (anos 70-80) jamais se deu conta da sua existência.

(..)

2011-12-03

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Por via das dúvidas: não à privatização do Caio Martins!

Tem sido anunciado que o governo do Estado prepara a privatização do Maracanã após a Copa do Mundo.

Perguntinha tola: será que o preço de venda vai cobrir o custo das obras? Ou ele será concedido, como o Engenhão, a preço de banana – e as obras saem a fundo perdido: um imensa fileira de casas zeradas no fluxo de caixa do concessionário?

Por isso, atenção: nem um metro quadrado do Caio Martins deverá ser vendido para financiar o que quer que seja. Se os capitalistas recebem de graça, porque a cidadania tem de pagar? 

2011-12-02