domingo, 28 de fevereiro de 2021

Hoyt 1939: um clássico da geografia urbana

HOYT H, The Structure and Growth of Residential Neighborhoods in American Cities. Federal Housing Admnistration, Washington D.C. 1939.
https://ia800503.us.archive.org/30/items/structuregrowtho00unitrich/structuregrowtho00unitrich.pdf

Homer Hoyt (meados da década de 1960)
As stated in the letter of transmittal, the purpose of this monograph is to suggest techniques through which certain generalizations on city structure and growth may be evolved. It may be of value in serving as a useful guide in the further analysis of urban conglomerates of man-made structures.

The vast storehouse of information relative to the structure of American cities, which was first made available by the Real Property Inventories of the Civil Works Administration supervised by the Bureau of Foreign and Domestic Commerce of the Department of Commerce in 1934, and the subsequent real property surveys of the Works Progress Administration, has been drawn upon freely. This imposing body of statistical data covered detailed housing characteristics more extensive in magnitude and more intensive in coverage than had ever been gathered before. These surveys of real property made possible a scientific analysis of city structure that would heretofore have been impossible.

As the techniques for making real property surveys were refined through the cooperative efforts of the Works Progress Administration, the Central Statistical Board, the Federal Home Loan Bank Board, the Housing Division of the Public Works Administration, and the Division of Economics and Statistics of the Federal Housing Administration, the possibilities of utilizing the voluminous data (available for over 200 American cities) in developing principles of city structure were recognized. Thus, the present study was conceived. (..)


HOMER HOYT,
Principal Housing Economist,
Division of Economics and Statistics,
Federal Housing Administration.
MAY 24, 1939.

2021-02-28

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Smartland

A Tarde 20-02-2021, por Fábio Bittencourt

Conceito 'smart' propõe imóvel compacto por preço mais acessível

Montagem: Avebarna
“(..) Segundo os especialistas, o nome "smart", originalmente, referia-se a um conceito de moradia mais "inteligente" e "conectada", com comandos por redes wi-fi e bluetooth, mas que, por aqui, serviu para designar também os chamados imóveis compactos. Microapartamentos com 20, 30, 40 metros quadrados, mas com infraestrutura completa.

No Jardim Brasil, o Barra Conceito, por exemplo, com três opções de planta (..) foi praticamente 100% comercializado em dois dias. Com o valor médio do metro quadrado (m²) em R$ 10 mil (..)”.

2021-02-24

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Financeirização da moradia e das Casas Bahia

UOL Economia 09-02-2021, por João José OliveiraVocê pode ganhar aluguel de supermercados e bancos com fundo imobiliário

(..) De maneira geral, o investidor que busca fundos imobiliários pode escolher carteiras de três categorias: as que compram participações em imóveis, os chamados fundos imobiliários de tijolos; as que investem em títulos de renda fixa que financiam projetos imobiliários, os fundos imobiliários de papel; e os fundos imobiliários que investem em outros fundos, os chamados fundos de fundos.

Mas dentro de cada um desses tipos de fundos imobiliários existem as diferentes carteiras que buscam aplicar em segmentos de negócios. E um desses segmentos é o do varejo. (..)

2021-02-20  

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Apontamentos: Cruz-Muñoz 2021 e a metropolização latino-americana

CRUZ-MUÑOZ F, “Patrones de expansión urbana de las megaurbes latinoamericanas en el nuevo milênio”. EURE Vol 47, no. 140 (2021)

https://www.eure.cl/index.php/eure/article/view/EURE.47.140.02/1365  

Estes apontamentos são parte de um processo de estudo compartilhado. À beira do urbanismo está à disposição dos autores cujo trabalho aqui se comenta para suas considerações.


Ótima proposta, a de comparar o processo de urbanização recente nas quatro maiores metrópoles da América Latina, mas não sei se bem resolvida dos pontos de vista técnico e  conceitual. Chama a atenção, por exemplo, a imensa disparidade - não explicada - de proporção de moradias periféricas sem serviços (Tabela 4) em São Paulo (0,08) e Rio (0,81) vs Buenos Aires (14,5) e Cidade (30,0) do México. Por si só essa disparidade deveria implicar uma diferença profunda de padrões de expansão urbana entre esses pares de cidades, dificilmente enquadráveis na mesma categoria analítica.
 
Direto ao ponto, considero exageradamente esquemático o conceito de “urbanização neoliberal” por oposição a “urbanização desenvolvimentista” ou “urbanização regulada e gerida pelo Estado”, tanto quanto a ideia de que “a visão do Estado a respeito da gestão urbana se transformou, passando de racionalista a empresarial”.

É evidente aqui a ressonância da proposição de ABRAMO:

Este predo­minio del mercado como mecanismo de coordinación de las decisiones de uso del suelo constituye un rasgo característico de la ciudad neoliberal, en contraste con el periodo del fordismo urbano, cuando el papel del mercado en la producción de las materialidades urbanas estaba fuertemente mediado por el Estado a través de la definición tanto de las reglas de uso del suelo como de las características de tales materialidades. La crisis del fordismo urbano implica, por tanto, el “retorno del mercado” como elemento determinante en la producción de la ciudad neoliberal. [1]

Não creio, contudo, ser correto dizer que “as políticas neoliberais trastocan (perturbam, desorganizam, desestruturam) a urbanização, AGORA atrelada a uma lógica de mercado em que o setor imobiliário adquire um papel cada vez mais importante” (destaque meu). 

Penso que a urbanização brasileira, e a latino-americana também, está “atrelada à lógica do mercado” desde pelo menos o último quarto do século XIX; que desde então essa “lógica” desestrutura e reestrutura a urbanização no ritmo de suas necessidades; e que os setores imobiliário e de transportes jamais deixaram de ser os atores principais e maiores beneficiários de nossas “políticas urbanas”, independentemente de particularidades nacionais, flutuações cíclicas, compromissos, recuos e até eventuais revezes impostos por programas públicos de moradia, integração de transportes, preservação do patrimônio, conservação ambiental e recuperação de mais-valias. 

O fato de as instituições de planejamento urbano, habitação e transportes incluídos, terem perdido força e prestígio no século XXI não significa absolutamente que antes estivessem ‘no controle’ do desenvolvimento das cidades. Cabia-lhes fundamentalmente, como cabe ainda hoje, interpretar e traduzir em planos, projetos, obras públicas e regulações o ‘status’ da disputa histórica entre os interesses gerais e particulares envolvidos no processo de urbanização. Serem eles próprios forças vivas na formação desse equilíbrio não outorga aos quadros técnicos dessas instituições possibilidades ilimitadas, nem muito menos, mesmo em ciclos históricos favoráveis ao exercício da profissão de planejador. 

É inquestionável a exacerbação, a partir dos anos 1990, das tendências anárquicas da urbanização de mercado - metropolização imparável, fabulosas deseconomias urbanas, segregação espacial, explosão do preço da terra, fragmentação territorial, informalidade, espoliação de direitos, naturalização da precariedade, emergência de Estados paralelos etc. Mas a ideia de que o mundo anterior à desregulamentação neoliberal era um mundo "racional" em que o Estado tinha a primazia na condução do desenvolvimento é, ao meu juízo, equivocada, no plano da economia como no do urbanismo.

A "metrópole neoliberal" não é uma forma pura, sequer inteiramente nova, da urbanização de mercado. Todas essas tendências foram gestadas, nasceram ou já estavam presentes, em maior ou menor grau, na “cidade desenvolvimentista”, para usar um termo chancelado pelo autor. Por outro lado, essa mesma “urbanização neoliberal” não é capaz de livrar-se do passado “fordista” que carrega dentro de si. Dois exemplos desse entrelaçamento de ciclos e suas contradições ocorrem-me de imediato. 

No Brasil, a influência do neoliberalismo nas políticas urbanas pode ser tida como fator importante para a baixa eficácia, muito aquém das expectativas, das legislações urbanísticas distributivistas (recuperação da renda da terra urbana) criadas na esteira da Constituinte de 1988 e sacramentadas no Estatuto da Cidade de 2001. Contudo, os institutos legais criados sobrevivem, com raízes institucionais razoavelmente sólidas em algumas capitais e importantes redes de quadros técnicos municipais, estaduais e federais plenamente atuantes em sua defesa, difusão e aplicação. 

Já o programa habitacional Minha Casa Minha Vida, um inegável sucesso quantitativo criado por um governo progressista em plena época neoliberal (2009), não por acaso saudado pela construção civil como "a salvação do setor", [2] é amplamente criticado nos meios acadêmicos e profissionais, e com razão, por ter reproduzido em larga escala a dinâmica da urbanização "desenvolvimentista", isto é, o desterro das famílias de menor rendimento para as periferias mais distantes e sub-urbanizadas. [3]

O tema merece, portanto, um exame mais acurado, se não no plano técnico, com certeza do ponto de vista da interpretação histórica.
 
2021-02-16

PS: A boa prática acadêmica de referenciar os conceitos adotados, ou levados em conta, em uma exposição, pode se transformar num embaraço. São tantas e tão frequentes as referências neste texto, linha a linha, que o marco conceitual do autor vira uma colcha de retalhos.

___
[*] ABRAMO P, “La ciudad com-fusa: mercado y producción de la estructura urbana en las grandes metrópolis latino-americanas”, EURE vol 38 no 114 mayo 2012 pp. 35-69
http://www.eure.cl/index.php/eure/article/view/68/556

[2] "Minha Casa, Minha Vida é a ‘salvação’ do setor". O Tempo 09-07-2014, por Thaís Pimentel.
https://www.otempo.com.br/economia/minha-casa-minha-vida-e-a-salvacao-do-setor-1.879386

[3] Ver por exemplo, neste blog, “Habitação, Emprego e Mobilidade: subsídios para o debate sobre a localização da HIS na cidade do Rio de Janeiro”. À beira do urbanismo 12-02-2012, por Antônio Augusto Veríssimo - Arq/Urb.
http://abeiradourbanismo.blogspot.com/2012/02/habitacao-emprego-e-mobilidade.html



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

O mapa da mina

NY Times 02-02-2021, por A Park, C Smart, R Taylor e M Watkins

An Extremely Detailed Map of the 2020 Election
 

Este precioso mapa mostra em detalhes um aspecto bastante comentado a respeito da eleição de Biden nos EUA: num ambiente de acirrada polarização, prevaleceu o peso das multidões urbanas, inclusive em estados tradicionalmente arquiconservadores.

Faz-me pensar num aspecto crítico da grande metrópole no mundo contemporâneo. O marxismo cultural não existe, mas o socialismo cultural sim - não como ideologia, mas como potência sócio-histórica: é nas grandes metrópoles que o caráter social da (re)produção capitalista, fundamento material de todas as variantes do socialismo moderno, torna-se um aspecto visceral do ethos coletivo e faz emergir direitos como saúde pública, educação gratuita, moradia e transporte subsidiados e toda sorte de prerrogativas democráticas e reivindicações igualitaristas como aspectos 'naturais', imprescindíveis à vida dos cidadãos-trabalhadores. 

Eis aí a contradição essencial da grande metrópole contemporânea, essa armadilha civilizacional concentradora, diria quase monopolizadora, de crescimento econômico, inovação e acumulação de riqueza, portanto também de imensas deseconomias, desemprego, precariedade e pobreza.

Como livrar aquela força material das muralhas que a contêm é, já faz quase dois séculos, a 'questão de um milhão de dólares'. Mas essa é outra história, que transcende em muito o escopo deste blog.  

2021-02-08


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Modelos?

Archdaily 30-01-2021, por Camilla Ghisleni
Cidades policêntricas: um velho novo conceito como futuro urbano pós-pandemia

Imagem ©Joana França /ArchDaily
Unidade de vizinhança, Brasília 

À parte a sugestão de que a pandemia fará as cidades se renderem à razão urbanística, chama a atenção nesse artigo - que não tem, evidentemente, pretensão acadêmica ou científica - a ideia de que a estrutura monocêntrica é um “modelo de urbanização ao qual nossas cidades são submetidas” e o policentrismo urbano um “modelo alternativo“ sobre o qual “pesquisadores e estudiosos têm se debruçado”.

Uma pergunta me ocorre. Quem teria criado tais modelos, em que circunstâncias históricas e por meio de quais instituições, instrumentos e mecanismos eles teriam sido, ou poderão ser, impostos às cidades?

Ecoando, talvez sem saber, o ilustre Peter Hall, a jovem autora parece propensa a associar tudo o que ocorre de relevante nas cidades a modelos criados pelos 'seers' do urbanismo: Ebenezer Howard, Clarence Perry, Lucio Costa e, mais recentemente, Anne Hidalgo, a prefeita de Paris.

Talvez sejam apenas 'maneiras de dizer'. Mas será que essas 'maneiras de dizer' não traduzem uma percepção enganosa, essencialmente idealizada, de como se constroem e se estruturam as cidades?

2021-02-04

sábado, 30 de janeiro de 2021

Apontamentos: Richardson 1969 e a estrutura espacial urbana

RICHARDSON Harry W (1969), "A estrutura espacial urbana" (Capítulo 6), Economia Regional. Zahar, Rio de Janeiro 1975, pp. 127-160.
https://docs.google.com/document/d/1tVEkaG0bwuKXIR8eAJT6eVB3ajvNioCtQAoLw97Py-w/edit?usp=sharing


O texto que aqui disponibilizo é um extrato do Capítulo 6 de RICHARDSON, 1969, Economia Regional, intitulado “A Estrutura Espacial Urbana”.

Embora construído desde uma perspectiva especializada, focada no progresso teórico dos modelos “de equilíbrio” e seus respectivos graus de “operacionalidade”, o capítulo fornece a qualquer estudioso do tema um ótimo sumário comentado dos princípios econômicos da organização espacial urbana. 

O capítulo é concluído com uma resenha dos modelos clássicos da sociologia e geografia urbana de Chicago, que, embora me pareça turvada pelo viés economicista e a-histórico do autor, não deixa de ser uma relevante abordagem da época heróica dessa área do conhecimento urbanístico. Como diz o próprio Richardson no parágrafo de abertura:

“Não se pode esperar que os economistas forneçam todas as respostas a um problema que, na realidade, exige uma análise interdisciplinar.”

Por motivos de ordem prática, excluí todos os parágrafos e passagens contendo equações, gráficos e respectivas análises. O termo "[sic]" assinala passagens pouco compreensíveis e erros de revisão do original. As notas faltantes na série correspondem às partes omitidas deste extrato. 

*

Capítulo 6
A estrutura espacial urbana

Neste capítulo estamos interessados na teoria econômica das estruturas espaciais urbanas. Assim, temos que examinar como a organização espacial das cidades e vilas é determinada pelas forças econômicas. Sua influência é mostrada mais claramente no conflito entre a minimização dos custos e o desejo de acessibilidade. É preciso considerar, entretanto, que para uma compreensão completa da estrutura das cidades modernas devemos relaxar as hipóteses de mercado livre e tomar explicitamente em conta o planejamento urbano e as decisões do poder público. Não se pode esperar que os economistas forneçam todas as respostas a um problema que, na realidade, exige uma análise interdisciplinar.

1 A hipótese de minimização dos custos de atrito

Dos diversos princípios sugeridos no sentido de dar ordem e regularidade à estrutura espacial urbana, a minimização dos custos de atrito é um dos que vem sendo sustentado há mais tempo e, provavelmente, o que recebeu a maior atenção. Sua primeira formulação definitiva foi feita por R. M. Haig na década de 1920, mas entre seus seguidores encontramos também Dorau e Hinman, Ely e Werhwein, Ratcliff e, mais recentemente e sob forma bastante modificada, Guttemberg. [1] O elemento básico da teoria é que a organização da cidade reflete as tentativas de moradores e firmas para evitar o "atrito espacial". Os custos de transportes são o componente óbvio dos custos de atrito. O transporte é um meio de superar o atrito espacial, e, quanto mais eficiente a rede de transporte, tanto menores serão os custos de transporte e tanto menor será o atrito. Entretanto, o aluguel também se inclui nos custos de atrito. Isso ocorre porque, ao proporcionar acessibilidade, está proporcionando redução dos custos de transportes. Haig, aqui, retoma uma concepção bem mais antiga formulada por R. M. Hurd no início do século e implícita na análise de Von Thünen quando este antecipou a extensão de seu modelo agrário a um contexto urbano. [2] Hurd sugeriu que o valor da terra depende da proximidade, ao passo que Von Thünen afirmava que o aluguel aumentava nas proximidades do centro da cidade porque a maior conveniência dessa localização economizava mão-de-obra e tempo. Assim, o “custo de atrito” se compõe de custos de transporte e aluguéis pagos (considerados como custos negativos de transporte). A contribuição de Haig consistiu em relacionar esses dois elementos. Entretanto, a soma dos dois itens não é considerada como uma constante. [3] Pelo contrário, ele varia de acordo com o local em questão. Teoricamente, o local ótimo para uma atividade qualquer é o que oferece o grau desejado de acessibilidade ao menor custo possível de atrito. Ao que se afirma, o traçado da cidade é determinado por esse princípio. Assim, em condições de concorrência e com perfeito conhecimento, o mercado da terra urbana, ao que se supõe, opera de modo que o valor agregado dos aluguéis dos terrenos existentes e dos custos de transporte para a cidade com um todo, são mínimos. Formulações posteriores sugerem que entre os custos a serem minimizados também se inclui a desutilidade de viajar. Essa sofisticação torna a hipótese mais realista, mas a debilita do ponto de vista de sua capacidade operacional, em grande parte devido aos problemas decorrentes da dificuldade de atribuição de um valor monetário à desutilidade. (..) 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Falta de iniciativa

O Globo online 26-01-2021, por Carolina Nalin 

BNDES firma contrato para conceder Jalapão, Ibitipoca e outros 24 parques naturais à iniciativa privada 

A iniciativa privada cada vez mais adepta de negócios que não demandam iniciativa alguma!
2021-01-26

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Promessa é dívida

Agência de Notícias do Paraná 20-01-21  Planejamento é a ferramenta que garante a cidade de todos

À beira do urbanismo
A cidade sustentável, inclusiva e igualitária, que ofereça educação e oportunidades com equidade, em ambiente seguro, saudável e de cuidados com o meio ambiente, descrita no Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 11 (ODS), da Organização das Nações Unidas, depende de planejamento que atenda as principais demandas da comunidade. (..) 

2021-01-22 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Apontamentos: Isard 1956 - a estrutura urbana

ISARD W, Location and Space-Economy - A General Theory Relating to Industrial Location, Market Areas, Land Use, Trade, and Urban Structure. Cambridge, MA: MIT Press 1956.
http://www.economia.unam.mx/cedrus/descargas/locationspaceeco00isar%20(1).pdf



Texto clássico de economia espacial. 

Contudo, apesar do subtítulo A General Theory Relating to Industrial Location, Market Areas, Land Use, Trade, and Urban Structure, as generalizações do autor sobre a estrutura urbana têm de ser pacientemente garimpadas dentro do texto. As breves passagens aqui introduzidas são dois exemplos.

A estrutura urbana básica de Isard não difere em conteúdo das de HURD 1903 e BURGESS 1925. Como eles, Isard parte do princípio da expansão radial a partir do centro. Tal como nos modelos econômicos monocêntricos de Wingo e Alonso, o centro de Isard é dado, concentra os empregos e o preço da terra decresce com a distância conforme a capacidade de oferta de renda da demanda. A diferença é que em Isard ele tem a faculdade de se “desdobrar” a certa altura dos eixos radiais de expansão, formando a cidade policêntrica.

A julgar por Isard, a policentralidade de toda grande cidade não é uma crítica relevante aos modelos monocêntricos da economia espacial: o centro principal se desdobra em subcentros e seus respectivos gradientes de preço / aluguel se interpenetram; aumenta a complexidade, multiplicam-se as singularidades (shopping centers, p. ex.), mas não muda o fundamento: o preço / aluguel decresce com a distância aos focos de interesse da demanda por localizações.

A questão que me parece pendente é: qual princípio, ou combinação de princípios, governa a ocorrência simultânea da distribuição radial-concêntrica das residências e do agrupamento central dos negócios?

Burgess, que era sociólogo, intuindo talvez que o “centro” a partir do qual se dá a expansão periférica supõe a própria periferia, formulou em 1925, tendo em vista a Chicago metropolitana, o conceito de “descentralização centralizada”, que pode ser interpretado como: “na sociedade moderna, centro e periferia são as duas faces de uma mesma moeda, ou manifestações complementares do mesmo processo."

Não sei se algum modelo econômico se propõe a dar conta dessa hipótese.

Por isso me pergunto: seria razoável supor, tendo em mente a "descentralização centralizada" de Burgess, um modelo espacial em que a distribuição radial-concêntrica das residências e o agrupamento central dos negócios apareçam como reciprocamente determinados?

*

“(..) [The] spatial physiognomy of the urban-metropolitan region is a primary concern. Intensity of land use is a function of, among other factors, distance from the core. At the core the pyramiding of activities attains a maximum maximorum. With movement away along radials in all directions the intensity of land use diminishes, but differentially in the various directions. Moreover, the rate at which this intensity falls in any direction changes with distance. In addition, after a point along many of the radials, the intensity reaches a relative minimum, reverses its trend by creeping upward, and attains a relative maximum, only to decline again and perhaps to repeat this undulatory performance. Along a few of the radials, generally the strategic ones along which the rate of decline from the core is among the least for all radials, relative maxima for the entire metropolitan region are realized. These latter represent subfoci from which, for some distance at least, intensity falls off in all directions. The strategic radials also exercise a degree of dominance to the extent that, in directions perpendicular to their course, intensity decreases. 

In short, an urban-metropolitan region comes to comprise an hierarchy of strategic nodal sites, classifiable by order and degree of dominance. This multinucleated body is, viewed from another angle, a network of transport interconnections and hence of interstitial areas each subject to hierarchical order. (..)” [ISARD 1956 p. 11]

*

“(..) The businessman interested in producing the commodity or service corresponding to use A also considers other sites as potential locations. Given the same set of values for advertising outlays, price mark-up, quality of product, and other relevant factors, he anticipates for each possible site a dollar volume of sales. (..) In general, it is to be expected that dollar volume of sales falls off with effective distance from the core although at times it rises to secondary peaks only to decline again. [39] (..)

[39] Where the urban structural pattern is set and relatively inflexible, these secondary peaks can be readily ascertained. They appear at those effective distances which separate secondary and satellite commercial and shopping centers from the core. In contrast, where the urban structural pattern is extremely fluid and largely to be determined, it is difficult to identify the effective distances from the core at which secondary peaks occur. Since secondary peaks reflect the juxtaposition of complementary activities and since in this latter setting the spatial configurations of all economic activities including transportation patterns are interdependent, only a general equilibrium (simultaneous equations) approach, which takes into account all aspects of complementarity and competition, yields the effective distances at which secondary peaks occur.” [ISARD 1956 p. 201]

2021-01-18


quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Obsolescência não programada (2)

Extra online 10-01-2021, por Selma Schmidt
Infraestrutura e serviços do Favela-Bairro se deterioraram, e condições são semelhantes ao período pré-urbanização

O Banco Interamericano de Desenvolvimento -BID publicou em junho deste ano um relatório intitulado Bairro: 10 anos depoisque "revisita os bairros melhorados por meio do programa Favela-Bairro II com o objetivo de identificar os desafios a longo prazo que estes enfrentam."

“Associar às intervenções urbanas ações efetivas relacionadas às políticas sociais, dando a ambas o caráter de permanência”, como propõe a propósito desse relatório um comentário compartilhado no Facebook, era, até onde sei, a ideia dos urbanistas que criaram e dirigiram o programa Favela-Bairro.

Mas nesse caso a ideia não bastou. Componentes de 'superestrutura' como regularização fundiária, por exemplo, não saíram do papel. Não sei nem se era viável, apesar dos consultores do BID o considerarem crítico para a patrimonialização do esperado aumento de preços e a formação de um mercado formal de imóveis. 

Para além do clássico problema da descontinuidade por mudanças de governo, programas compensatórios como o Favela-Bairro são diretamente afetados pelos ciclos econômicos e, o que é pior, podem ter seus efeitos positivos drasticamente reduzidos, ou até anulados, em épocas de crise como a que estamos vivendo.

Se a obsolescência se instala em áreas cada vez mais extensas da cidade formal, onde as poupanças privadas e as rendas de aluguel mal bastam para frear a deterioração dos imóveis, que dirá em comunidades pobres recém-urbanizadas que sequer chegaram perto de atingir o pretendido status de 'bairros' – quaisquer que sejam as nuances com que os definamos por oposição a 'favela'.

Para evitá-lo precisaríamos de 20 anos ininterruptos de Favela-Bairro em cada comunidade, com políticas sociais combinadas a obras públicas e, o que é fundamental, aumento significativo e sustentável do nível de rendimento das famílias.

2021-01-14 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Republicanização da moradia

Thomson Reuters Foundation News 15-12-2020, por Carey L Biron
https://news.trust.org/item/20201215111858-2n2we/

Under one roof: U.S. cities look to co-living to ease housing crisis

Often 30% cheaper than a studio apartment, shared housing units give tenants more options and frees up homes for families to rent

Imagem: Internet
(..) Informal shared housing - when someone finds roommates and splits the cost of an apartment - remains a key way for young people to move to urban areas and join the workforce.

Formal shared housing - also known as co-living when it refers to tenants from higher income levels - differs in that a specialized firm vets applicants and typically deals with utility bills so tenants have just one monthly payment.

The rise of this type of housing has also allowed companies to construct or refurbish buildings specifically for this use.

The idea is not a new one but it is seeing a resurgence in U.S. cities as both residents and housing providers grapple with an ongoing shortage of affordable units. (..)

2021-01-11

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

domingo, 3 de janeiro de 2021

Aluguel cambial

NSC Total 26-12-2020, por Pedro Machado
IGP-M: entenda por que a inflação do aluguel disparou em 2020

Montagem: àbeiradourbanismo
Imagens originais: Internet

(..) Coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), responsável pelo cálculo do IGP-M, André Braz, diz que esse distanciamento se deve principalmente ao câmbio. A maior parte do indicador (veja na tabela como é feito o cálculo) é composta por commoditties ligadas ao setor industrial, como minério de ferro, cobre e alumínio, e também do agronegócio, a exemplo de milho, soja e trigo. Com a desvalorização cambial, esses produtos, cotados em dólar, aumentaram muito de preço, pressionando o IGP-M para cima. A polêmica que existe nessa história é justamente a utilização de um índice aparentemente tão distante do setor imobiliário para aplicar reajustes nos contratos. Braz diz que nunca partiu da FGV a sugestão de que o IGP-M fosse o indexador do setor. (..)

2021-01-03

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Redenção

O Estado de S Paulo 17-12-2020, Editorial 

Montagem: À beira do urbanismo
Venda de imóveis impulsiona a economia

O papel que o mercado imobiliário vem desempenhando em boa parte do mundo para a superação da atual crise é completamente diferente do que teve em 2008, quando provocou um desastre de proporções até então desconhecidas no sistema financeiro. 

Há pouco mais de uma década, a rápida valorização estimulou negócios com imóveis e sua utilização como garantia para empréstimos bancários, o que acelerava a alta dos preços. Até que o aumento da inadimplência fez a bolha estourar, levando à garra grandes instituições financeiras e gerando instabilidade na economia mundial. Hoje, ao contrário, é o setor que puxa a recuperação da atividade econômica em muitos países (..) [sobre] bases mais sólidas do que a valorização observada nos anos que antecederam a crise de 2008. (..)

2020-12-30

sábado, 26 de dezembro de 2020

Burgess 1929: “O arruamento ortogonal”

BURGESS E W, "Urban Areas", em SMITH e WHITE, Chicago, an Experiment in Social Sciences Research, Chicago: University of Chicago Press 1929, pp 113-38
https://babel.hathitrust.org/cgi/pt?id=mdp.39015005490290&view=1up&seq=17


Ilustração da mancha urbana em
"cruz de malta" sobre mapas 
antigos das cidades de Ft. Worth,
Texas e Columbus, Ohio.

Montagem: Àbeiradourbanismo 
Nesta seção por mim traduzida de seu artigo "Urban Areas", de 1929, o sociólogo Ernest Burgess esboça, a partir de seus estudos sobre Chicago mas abarcando outras cidades “de planície” do Meio-Oeste dos EUA, uma questão basilar da moderna organização espacial urbana: o “efeito combinado da expansão radial-concêntrica e do sistema de vias arteriais ortogonais”, a primeira tida por ele como uma espécie de lei geral da estruturação urbana, o segundo herdado do reticulado parcelário (grid) criado pelo governo dos Estados Unidos em 1785 para facilitar a venda, a colonos e urbanizadores, dos novos territórios conquistados a oeste do continente.

A dedução mais interessante desse esboço, que repousa, sem dizê-lo, sobre o princípio do custo da distância formulado por Von
Thünen em 1826 e postulado como fundamento econômico da organização espacial urbana por Haig exatos cem anos depois, é a tendência à desvalorização relativa, em Chicago, dos lotes urbanos situados nas direções diagonais de expansão a partir do centro de negócios, e a formação de manchas urbanas com aspecto de “cruz de malta” em cidades de planície do Meio-Oeste estadunidense.

Tal efeito pode ser visto como a manifestação mais acabada de uma contradição espacial inerente à urbanização de mercado, e que subjaz à estrutura do espaço por ela construído, entre a “economia da localização” e a 
“economia da ocupação do solo”. A primeira, sujeita à primazia do fator acessibilidade, tende à disposição radial-concêntrica desigualmente distribuída do conjunto; a segunda, governada pelo aproveitamento das parcelas, impõe a preferência dos urbanizadores privados pelo arranjo ortogonal. 

Leia também neste blog: "Burgess 1925: urbanista acidental"
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2020/10/burgess-1925-urbanista-acidental.html

*

III. O arruamento ortogonal

Chicago, como a maioria das cidades dos Estados Unidos, tem quase todas as vantagens e desvantagens do arruamento ortogonal. Fosse este fator o único relevante, o crescimento urbano não seria radial, mas em ângulos retos a partir do centro da cidade. O arruamento nas direções cardeais torna mais acessíveis ao centro urbano, portanto mais desejáveis para uso residencial, os distritos urbanos situados a norte, sul, leste e oeste e, inversamente, indesejáveis os setores ao longo das direções diagonais. Uma tendência natural sob o sistema reticulado tem sido a instalação do sistema local de ferrovias urbanas e transporte rápido nas arteriais norte-sul e leste-oeste. ou próximo a elas.


Acelera-se, assim, a força da expansão radial nas arteriais perpendiculares ao CBD e retarda-se, obstaculiza-se até, a tendência à expansão radial nas direções diagonais que cortam o reticulado. O efeito geral da superposição do padrão ortogonal dos arruamentos com o padrão circular das zonas urbanas é a configuração em cruz de malta que assumem cidades norte-americanas típicas como Columbus, em Ohio, e Fort Worth, no Texas (isto é, cidades de planície desprovidas de extensas frentes lacustres e fluviais).

Em Chicago, o rio tornou os setores diagonais ainda mais inacessíveis e desfavoráveis para uso residencial, acarretando a ocupação de suas margens pela indústria pesada e por bairros de população pobre e moradias de baixo padrão. As poucas vias diagonais da cidade, quase todas ao longo de estradas construídas sobre antigos caminhos indígenas, ainda que mitiguem as tendências inerentes ao arruamento reticulado pouca influência exercem, no conjunto, porque apenas uma delas, a Milwaukee Avenue, é uma autêntica arterial a serviço de uma grande área. E mesmo esta padece da desvantagem de todas as demais diagonais de Chicago, a saber, o fato de não partir do CDB como é o caso das ortogonais North Clark Street, West Madison Street e South State Street.

O efeito combinado da expansão radial-concêntrica com o sistema de vias arteriais ortogonais é concentrar o deslocamento centro-periferia nas direções cardeais. Na lacustre Chicago, os troncos principais de movimento populacional - para usar a sugestiva expressão do Professor A. E. Holt - foram o Norte ao longo da orla, o Sul ao longo da ferrovia Illinois Central e o Oeste ao longo da West Madison Street e Washington Boulevard. Esses três movimentos principais de população originária do país geraram o desenvolvimento de uma sucessão de subúrbios residenciais de alto padrão.

Nos interstícios das três direções de rápido crescimento permanecem dois setores de crescimento mais lento, o Noroeste e o Sudoeste, ocupados por colônias de imigrantes europeus, negros oriundos do sul do país e latino-americanos em geral. O mapa da próxima página mostra o movimento de todos esses grupos ao longo das vias mais importantes.

2020-12-26

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Fodidos de verde e amarelo

O Globo 20-12-2020, por Cássia Almeida 
Casa Verde e Amarela: país fica sem política habitacional para pelo menos 42% das famílias sem moradia

Novo programa, que substitui o Minha Casa Minha Vida, exclui faixa que garantia subsídio a pessoas de mais baixa renda

Montagem: Àbeiradourbanismo
Imagens originais: Insternet

2020-12- 22

sábado, 19 de dezembro de 2020

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Só pra quem pode... muito!

Monitor Mercantil 15-12-2020, por João Carlos S Cardoso 

Financiamento imobiliário: brasileiro compromete em média 17% da renda
 
Estrutura do 
financiamento imobiliário
no Brasil

Montagem: Àbeiradourbanismo
Os brasileiros comprometem em média 17% da renda com financiamento imobiliário, segundo mostra estudo da Serasa Experian realizado em setembro deste ano. As informações, que têm como base dados do Cadastro Positivo, revelam que a faixa etária que menos destina parte dos rendimentos a esta modalidade financeira é daqueles entre 51 e 60 anos (15,9%), seguida por de 36 a 50 anos (16,2%). Os jovens de até 35 anos, apesar de comprometerem 20,1% da renda, possuem um nível de pontualidade de 85,9%, resultado acima da média dos pagamentos em dia de cartão de crédito e empréstimos pessoais. No geral, a pontualidade de pagamento do financiamento imobiliário é de 86,5%. (..) 

2020-12-15