domingo, 25 de janeiro de 2026

Porto Maravilha: sem plano nem projeto - como não fazer uma Operação Urbana (2)

Tempo Real 18-01-2026, por Berenice Seara
https://temporealrj.com/porto-moradia-finalmente-a-zona-portuaria-do-rio-ganha-ares-de-bairro-residencial-em-2026/


Porto Moradia: finalmente a Zona Portuária do Rio ganha ares de bairro residencial em 2026

(..) Pelos cálculos do mercado, cerca de 2.500 pessoas já estão morando nos novos prédios.
Foto: Diário do Rio 02-10-2025

“Este vai ser um ano decisivo para o Porto Maravilha”, conta o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Gustavo Guerrante. “Dia desses, observei: já se vê muito apartamento ocupado na área, com a luz acesa. Para mim, isso é importantíssimo”.

E, como diz o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-Rio), Claudio Hermolin, é um caminho sem volta.

“O ciclo médio de um empreendimento no mercado imobiliário é de cinco anos e dois meses. As entregas do Porto Maravilha começam agora, com os empreendimentos lançados cerca de quatro, cinco anos atrás. E é um ciclo que não termina mais, porque começamos a ter no Porto empreendimentos em lançamento, em obra e em entrega”, festeja Hermolin. “Como é também normal no mercado imobiliário, após as primeiras entregas, inicia-se imediatamente o ciclo das lojas, dos serviços, para atender a população que passa a habitar naquele local. O projeto já é um sucesso, prova disso é que nos últimos três anos, o bairro do Porto Maravilha teve o maior volume de lançamentos e vendas na cidade, ultrapassando os que tradicionalmente ocupavam o primeiro lugar desse ranking como Barra, Recreio e Jacarepaguá”.

Guerrante concorda que a ocupação dos imóveis traz, junto, o comércio. “Já temos uma grande procura. Os investidores já se posicionam em pontos para o comércio, com hortifruti, supermercado, padaria, farmácia… Grandes redes”, conta Guerrante.

Dois empreendimentos residenciais já foram projetados com lojas no térreo. O Pátio Nazaré e o Epicentro, chegarão com pequenos shoppings centers já instalados. Uma grande rede de supermercados está a um passo de concluir a negociação por terreno no Santo Cristo.

Quem já está morando no famoso Porto Maravilha espera, ansiosamente, o comércio que está para chegar. (..)
[Destaques À beira do urbanismo]

2026-01-25

domingo, 18 de janeiro de 2026

Trump e a financeirização da moradia

Exame 07-01-2026, por Redação
https://exame.com/mercado-imobiliario/trump-quer-barrar-compra-de-imoveis-por-investidores-institucionais/

Trump quer barrar compra de imóveis por investidores institucionais

Presidente americano diz que fundos e empresas especializadas em 'real state' estão gerando crise de moradia

Montagem: À beira do urbanismo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira que deseja proibir grandes investidores institucionais de comprar casas do tipo 'single-family', ou unifamiliares. São imóveis não geminados, que dão ao dono controle sobre o terreno onde a propriedade foi construída. Essa iniciativa do governo americano atinge diretamente fundos de private equity e empresas especializadas em imóveis residenciais, como Blackstone e Cerberus. A proposta, segundo Trump, busca enfrentar a crise de acesso à moradia, especialmente entre os americanos mais jovens. (..)

O tema da moradia ganhou peso crescente na agenda do governo em meio à crise do custo de vida nos Estados Unidos. Segundo a Associação Nacional de Corretores de Imóveis, a idade média de quem compra a primeira casa no país atingiu um recorde histórico de 40 anos em 2025 — reflexo direto da escalada dos preços e das condições mais restritivas de financiamento. (..)

A atuação de grandes investidores no mercado residencial é alvo de críticas desde a crise financeira global, quando fundos passaram a adquirir casas em massa após ondas de execuções hipotecárias. As gestoras, porém, argumentam que sua participação no mercado é limitada e que também contribuem para a expansão da oferta habitacional. A Blackstone, por exemplo, afirma deter apenas 0,06% das cerca de 106 milhões de casas unifamiliares existentes nos EUA, enquanto investidores institucionais, no total, seriam responsáveis por apenas 0,5% desse mercado.

Dados de 2024 da consultoria John Burns indicavam que 25% das casas nos Estados Unidos eram de propriedade de investidores. Contudo, apenas 2% delas faziam parte de grandes portfólios, com mais de 100 imóveis, indicando uma predominância de pequenos proprietários no mercado. (..)

2025-01-18

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Sopa no mel

Caos Planejado 09-01-2026, Curso "Do Planejamento ao Caos"
https://www.tiktok.com/@caosplanejado/video/7593314996088622348


É comum ouvir que a solução para as favelas seria “acabar com elas” e realocar as pessoas. Mas essa ideia ignora como e por que esses territórios surgiram.

As favelas não são um erro isolado. Elas são uma resposta direta à ausência do Estado e ao fracasso das políticas habitacionais no Brasil. Ao longo da nossa história urbana, milhões de pessoas foram empurradas para a informalidade porque o acesso ao solo bem localizado se tornou caro, restrito e excludente.

Enquanto isso, políticas públicas e legislações limitaram o potencial construtivo de áreas com boa infraestrutura e incentivaram conjuntos habitacionais distantes, reforçando a segregação e o isolamento.


Hoje, favelas são bairros consolidados. São territórios com laços sociais, trabalho, comércio e história. Tratar esses espaços como algo provisório é ignorar que ali também é cidade.

É preciso reconhecer essa realidade e garantir a presença do Estado com infraestrutura, saneamento, transporte, segurança e serviços públicos de qualidade. Urbanizar esses territórios é uma urgência do planejamento urbano brasileiro. (..)
[Destaque: À beira do urbanismo]

*

Um texto da Caos Planejado tão 'urbanisticamente correto' só pode ter alguma pegadinha. E tem, camuflada numa ordem causal invertida e atenuada por um “enquanto isso”.

Na ordem devida e despojada da etiqueta, a passagem acima destacada nos sugere que milhões de pessoas foram empurradas para a formalidade e segregadas em conjuntos habitacionais distantes... porque o planejamento urbano e suas legislações limitadoras do potencial construtivo tornaram caro, restrito e excludente o acesso ao solo bem localizado.

Pergunto: caso não tivessem existido as “políticas públicas e legislações [que] limitaram o potencial construtivo de áreas com boa infraestrutura”, teriam “milhões de pessoas" deixado de ser “empurradas para a informalidade”? Teria o planejamento logrado, em comum acordo com a indústria da incorporação, destinar “áreas [centrais e pericentrais] com boa infraestrutura” em quantidade suficiente e preços ao alcance das “milhões de pessoas [que] foram empurradas (..) para conjuntos habitacionais distantes”?

Quer dizer então que o livre mercado imobiliário promove a formalidade urbanística, o barateamento do solo e a diversidade social e o planejamento governamental a informalidade, a terra cara e a segregação?

Não surpreende que a tese, hoje em voga nos círculos progressistas, de que a desigualdade urbana é produto das leis urbanísticas, não das leis do mercado, venha conquistando os liberais adeptos da verticalização travestida de adensamento urbano - vale dizer os paladinos da liberação do potencial construtivo nos nichos locacionais de interesse da incorporação, onde os preços relativos, e com eles a rentabilidade dos empreendimentos, só aumentam!

Na página do curso se lê:

Esse caos que você vê na sua cidade não é um acidente.
Ele foi planejado assim.
Com regras que segregam.
Com leis que afastam moradia, trabalho e serviços.

2026-01-14

domingo, 11 de janeiro de 2026

Morrison: os bondes no Rio de Janeiro

"Rio de Janeiro - História dos bondes em 75 Fotografias", por Allen Morrison
http://www.tramz.com/br/rj/th/thp1.html

O Rio de Janeiro foi o campo de prova dos bondes no Brasil: a cidade teve sua primeira linha de bondes de tração animal em 1859, a primeira linha a vapor em 1862, a primeira linha elétrica em 1892, etc. No fim das contas, a cidade teve mais companhias de bondes, bondes em si, tipos de bondes, bitolas diferentes e quilômetros de trilhos do que outra cidade qualquer. (..)

Imagem e texto: A. Morrison
Montagem: À beira do urbanismo
O desenvolvimento inicial foi internacional. Thomas Cochrane era um médico homeopata escocês (primo do herói naval homônimo). Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, era um empresário, industrial, banqueiro, político e o homem mais rico do Brasil. Charles Greenough foi anteriormente o engenheiro-chefe e gerente de uma linha de bondes nos Estados Unidos da América.

O Barão de Mauá construiu e inaugurou a primeira seção da primeira ferrovia intermunicipal do Brasil, em 1854. Thomas Cochrane fundou a Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boa-Vista na Tijuca, em 1856, e construiu a primeira ferrovia urbana do Brasil: o comprimento era de 7 km, com início na Praça Tiradentes, percorrendo as ruas da Constituição, Visconde de Itaúna, Machado Coelho, Haddock Lobo e terminando na rua Conde de Bonfim, no bairro da Tijuca. (..) Renomeada para Estrada de Ferro da Tijuca, em 26 de março do mesmo ano o imperador D. Pedro II batizou esta que foi a primeira ferrovia de rua do Brasil.

Dois carros puxados a cavalo em um trajeto de 7 km não proporcionavam bom serviço, e receitas minguadas não permitiam manter a linha em bom estado. O Barão de Mauá assumiu a companhia em 1861 e substituiu os animais por máquinas a vapor, em 1862. (..) Mas todas as quatro descarrilavam frequentemente nos frágeis trilhos e a linha fechou em 28 de novembro de 1866. (..)

Entrementes, Mauá adquiriu o privilégio para construir uma linha de bondes até o Jardim Botânico, e constituiu a Companhia do Caminho de Carris de Ferro do Jardim Botânico, em 1862. (..) Charles Greenough, engenheiro e gerente da companhia Bleecker Street & Fulton Ferry Rail Road, de Nova Iorque, (..) soube das oportunidades no Brasil, viajou até o Rio de Janeiro, comprou o contrato de Mauá e fundou a Botanical Garden Rail Road Co., em 1866. (..) em 9 de outubro de 1868, em pleno decorrer da Guerra do Paraguai, o imperador D. Pedro II presidiu à inauguração da segunda ferrovia de rua: uma linha de 3 km que partia da rua do Ouvidor e fazia seu trajeto ao longo das ruas Gonçalves Dias, da Guarda Velha (atual 13 de Maio), da Ajuda, do Passeio, da Lapa, da Glória e do Catete, findando no Largo do Machado. (..) Em seis meses o trajeto foi estendido até Botafogo, e em julho de 1869 havia 19 bondes circulando no Rio de Janeiro, todos eles construídos pela firma John Stephenson Co., de Nova Iorque. (..)

A Botanical Garden Rail Road (BGRR) passou a usar bondes abertos em 1870, estabelecendo o padrão para as demais companhias no Rio de Janeiro e na maior parte do Brasil. Em 1º de janeiro de 1871 a linha atingiu o Jardim Botânico, a 10 km do centro da cidade, e em 1875 havia 600 animais puxando 71 bondes – 36 abertos, 33 fechados e 2 mistos (para passageiros e carga). Em 1879 a companhia inaugurou comunicação telefônica entre suas estações. Como o sistema de bondes era bem construído, bem gerenciado e servia bairros ricos da Zona Sul da cidade, ele se tornou a menina dos olhos no Brasil. (..)

Logo a seguir, outro norte-americano, Albert Hager, fundou a Rio de Janeiro Street Railway em Nova Iorque, e abriu em 25 de novembro de 1869 a terceira linha no Rio, entre o centro da cidade e os jardins da Quinta da Boa Vista. (..)

Um brasileiro, João Batista Viana Drummond, inaugurou em 29 de novembro de 1873 o quarto sistema: a Ferro-Carril da Vila Isabel (..). Quatro outras companhias entraram em operação nos anos 1870: a Companhia Locomotora em 1872, a Companhia Ferro Carril Fluminense em 1873, a Empreza de Carris de Ferro de Santa Theresa em 1875, e a Companhia Ferro Carril Carioca e Riachuelo em 1877. (..) A companhia Santa Teresa, de 1875, operava apenas na parte baixa da cidade. A companhia Carioca e Riachuelo, de 1877, construiu um funicular e uma linha isolada e separada do resto, na parte elevada de Santa Teresa, e que evoluiu até o atual sistema de bondes ainda sobrevivente naquele bairro.

A maioria das primeiras companhias de bonde do Rio compraram carros da John Stephenson Co., de Nova Iorque. Mas houve exceções. Em 23 de julho de 1874, o diretor gerente da Cia Ferro Carril Fluminense encomendou 26 bondes – 20 abertos e 6 fechados! – para um fabricante carioca de carruagens chamado Röhe Irmãos.(..) Não sabemos se a Röhe copiou o modelo da Stephenson ou se apenas usou-o com fins de publicidade. Mas os bondes parecem ter sido construídos – e podem ter sido os primeiros bondes construídos na América do Sul. 
(Continua)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Precariápolis nigeriana

Fonte: https://www.facebook.com/groups/2142240399343434 em 30-12-2025

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Ou as coisas mudaram radicalmente nos últimos 5 anos ou a ONU HABITAT está greenwashing a dura realidade, e a crise de perspectivas, de Lagos, Nigéria, por conta de dois ou três programas ambientais. Considerem este artigo da Money Times / Bloomberg de dezembro de 2019:


Money Times / Bloomberg 22-12-2019
https://www.moneytimes.com.br/nigeria-com-ate-26-milhoes-de-pessoas-lagos-vive-crise-habitacional/

Nigéria: com até 26 milhões de pessoas, Lagos vive crise habitacional

(..) Com menos de 1,5 milhão de habitantes em 1970, Lagos cresce tão rápido que até as estimativas da população variam em mais de 10 milhões.

O centro local de estatísticas afirma que são 26 milhões, o governo federal diz que são 21 milhões e instituições internacionais projetam de 15 a 16 milhões. (..)

Hoje, com um déficit de 2,5 milhões de moradias, mais de dois terços das pessoas em Lagos vivem em favelas que estão entre as piores do mundo, segundo Leilani Farha, relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU).

“As pessoas estão vivendo em algumas das piores, senão as piores, condições que já vi no mundo e eu já estive em todas as grandes favelas na Índia, Quênia e África do Sul , disse Farha durante visita ao país em setembro. Os governantes concordam que a escassez de moradias populares constitui uma crise, mas não sabem como reagir.

“O objetivo de disponibilizar prontamente moradias acessíveis às pessoas de baixa ou média renda que representam a maioria dos nossos cidadãos sempre foi desafiado pelo crescimento cada vez maior da população do estado”, disse Moruf Akinderu-Fatai, comissário estadual de Lagos para habitação, em discurso em 8 de dezembro. (..)

Com vastas riquezas minerais e petróleo, a Nigéria tem a 29ª maior economia do mundo, logo atrás da Noruega. O país também tem o maior número de pessoas na extrema pobreza, que vivem com até US$1,90 e representam 87 milhões dos 200 milhões de habitantes, de acordo com a Brookings Institution. (..)


2026-01-07


domingo, 4 de janeiro de 2026

Case 2007: o valor do solo edificado nos EUA

CASE Carl E, “The Value of Land in the United States: 1975–2005”. In Ingram G K e Hong Y (Eds), Land Policies and Their Outcomes. Toronto: Lincoln Institute of Land Policy 2007, pp. 127-148
https://www.lincolninst.edu/app/uploads/legacy-files/pubfiles/2119_1441_LP2006-ch06-The-Value-of-Land-in-the-United-States-1975-2005_0.pdf

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(..) Table 6.10 shows that in 2005 the value of real estate in the United States was roughly $34.7 trillion excluding farms and $35.8 trillion including farmland. The value of farm assets and land was obtained using U.S. Department of Agriculture data and subtracting the FOF number for structures on farms. In 2005 the value of land alone in the United States was $10.8 trillion excluding farmland and $11.9 trillion including farmland.

The amazing fact is that the value of real estate as a whole increased by $12.7 trillion from 2000 to 2005 (see table 6.10). Of that amount, over $5.1 trillion was an increase in land value. After 1995 just less than $20 trillion in new real estate assets was created, with land increasing by $7.8 trillion. Figures 6.6 and 6.7 show the pattern of real and nominal real estate and land values from 1975 to 2005.

Montagem: Àbeira do urbanismo

Although these results are an approximation from imperfect data sources, they are quite sufficient to reveal several things to an order of magnitude. First, $35 trillion is a very substantial portion of national wealth and a substantial asset on the household balance sheet. The financial wealth held by households is about $40 trillion. Second, the data reveal substantial upward movement on the part of land price and real estate holdings that began around 1995 and continued into 2005. Finally, the time series on total real estate and land values both show a very steady upward movement, except in the early 1990s. The aggregate data reveal little volatility, except for the substantial decline in the value of real nonresidential property during the 1990s. 


Overall during the period, land value increased at a steady rate in real terms from 1975 through 1989. From 1989 through 1995, land value fell sharply as a result of the collapse of commercial real estate nationally and the softening of real estate markets in the Northeast and California. Since 2000, real estate markets, again particularly in the Northeast and on the West Coast, have seen a substantial rise in value in all segments of the market, and land values have soared. Table 6.1 summarizes the results since 1990. 
(..)

2026-01-04