quinta-feira, 12 de abril de 2018

Monopólios urbanos: o negócio do século (3)

Deu no Valor Econômico online
10-04-2018, por Rodrigo Carro

Galeão dá início a investimento imobiliário 
Montagem: à beira do urbanismo
Imagens originais: Internet
Num momento de sobreoferta de espaços comerciais no Rio de Janeiro, a concessionária RIOgaleão deu início a um projeto de desenvolvimento imobiliário para aproveitar uma área superior a 900 mil m2 no entorno dos terminais do Aeroporto Internacional Tom Jobim e ao longo da sua principal avenida de acesso. Um primeiro contrato foi assinado para a instalação de dois novos hotéis da rede Accor no prédio que já abrigou a sede da Infraero no Rio. Com base em dois estudos sobre o potencial imobiliário da área, a concessionária privada espera atrair até R$ 1,3 bilhão em investimentos, incluindo um shopping center e um hospital.
O projeto se tornou viável a partir da publicação da portaria de número 143 pelo Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil, em abril do ano passado. Ajustada posteriormente por outra portaria (nº 323), a 143 permite aos aeroportos concedidos estabelecer contratos comerciais com prazo maior que a duração da concessão. (Continua)


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2018-04-10


quinta-feira, 22 de março de 2018

Gosto não se discute

Deu no G1 
09-03-2018, por Em Movimento (Informe Publicitário)
https://g1.globo.com/especial-publicitario/em-movimento/noticia/arquitetura-se-adapta-as-novas-formas-de-morar-com-apartamentos-compactos-e-funcionais.ghtml


Arquitetura se adapta às novas formas de morar com apartamentos compactos e funcionais

Saiba por que espaços menores tornaram-se atrativos

Montagem: àbeiradourbanismo
Imagens originais: Internet
“A gente percebeu que o prédio é uma continuação da casa da pessoa. Em vez do jeito antigo, que projetava prédios desconexos, com salões de festas ociosos e espaços que ninguém usava, enxergamos o prédio como algo que faz parte da casa da pessoa”, explica Alexandre Frankel, CEO da Vitacon, incorporadora que no ano passado anunciou em São Paulo o lançamento dos menores apartamentos da América Latina, com 10m².

(..) A arquitetura interna das unidades é funcional, com espaços prontos para receber móveis práticos e com utilidades diversas: sofá-cama, paredes que viram mesas, portas de correr e todo tipo de estrutura para otimizar o espaço, como degraus para armazenar sapatos. A única divisória entre cômodos é a separação do banheiro.

“Quando as pessoas compram um apartamento assim, o que elas esperam é ganhar tempo. Ela vai passar menos horas no trânsito, por ser em regiões centrais, e então sobra mais tempo para fazer o que importa. Ela não gasta com manutenção, ela economiza tempo na limpeza. A vida fica mais prática e funcional, e bem mais interessante”, afirma Frankel.


Leia neste blog

"O Coeficiente de Aproveitamento e a valorização do solo",

"A braços com as peculiaridades da mercadoria terra urbana"


2018-03-22


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Solo fértil II - adubar é preciso

Deu no NY Times online
03-01-2018, por Jonathan Mahler
https://www.nytimes.com/2018/01/03/magazine/subway-new-york-city-public-transportation-wealth-inequality.html

The Case for the Subway
It built the city. Now, no matter the cost — at least $100 billion — the city must rebuild it to survive

Waiting on the platform at Chambers Street. 
CreditDamon Winter/The New York Times
Clique na imagem para ampliar

(..) The subway’s importance to the city begins with a single, durable economic principle: Cities create density, and density creates growth. Economists call the phenomenon agglomeration. Not only does geographical proximity reduce costs, but it also facilitates the exchange of knowledge and spurs innovation. It’s a principle that holds true for better and worse and regardless of the industry. 
(..) If the story of the subway is the story of density, it is also the story of land — and more to the point, the story of land value. Before the first tracks had even been laid, real estate speculators were gobbling up farmland and empty lots along the proposed route and then quickly flipping their parcels at huge premiums to builders. When the subway recovered from its last major crisis, it again began throwing off enormous returns for the owners of the land above it. From 1993 to 2013, the average price for a co-op or condo in TriBeCa rose from $182 per square foot to $1,569. In the process, prime real estate in Manhattan was transformed from a place where people lived and built businesses into a high-yield investment in which absentee owners parked their money and watched it grow.
(..) In Hong Kong, the company that runs the subway also controls the property around it, earning huge amounts that it can then reinvest in service enhancements. The M.T.A., by contrast, is largely cut out of the land profiteering that it enables: Of the authority’s roughly $16 billion budget in 2017, about $460 million came from a tax on residential real estate transactions. An additional $520 million came from a tax on commercial sales. To put those numbers in perspective, several years ago, a group of economists calculated that the land in New York City — just the land, not the buildings on it — was worth about $2.5 trillion. One thing New York City has plenty of is money, and much of it is bound up in real estate, a kind of blank canvas with unlimited economic promise. (Continua)



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2017-01-03


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Solo fértil

Deu no Mail online
05-12-2017, por Ruairi Casey

As UK land value hits 5 trillion pounds, calls for new tax rise
(..) Land is worth 5 trillion pounds ($7 trillion) and makes up more than half of Britain's value, the Office for National Statistics (ONS) said.
Montagem: à beira do urbanismo
Imagens originais: creative commons
"Pretty much all of the problems in our housing system can be tracked back to the land market and the fact that land prices are outrageously high," Toby Lloyd, head of policy at the housing charity Shelter, told the Thomson Reuters Foundation.
"It's making housing absolutely, appallingly unaffordable."
Average British house prices have more than doubled in the past two decades, and more than quadrupled in London. But average wages have risen by only a fraction of that amount.
By separating the value of buildings and land for the first time, the ONS showed that land value grew much faster than other assets, such as houses and machinery.
As the stock of land is fixed and housing is in short supply, continued growth in land value is not surprising, said Julian Jessop, chief economist at the Institute of Economic Affairs, a free-market think tank.
The latest data sharpened calls to tackle Britain's housing crisis by introducing a tax on the value of underlying land, rather than property, a proposal made by the opposition Labour Party in its 2017 manifesto. (Continua)

Acesse a matéria completa pelo link
http://www.dailymail.co.uk/wires/reuters/article-5148939/As-UK-land-value-hits-5-trillion-pounds-calls-new-tax-rise.html#ixzz50rs48cZ6 


2017-12-13



domingo, 10 de dezembro de 2017

Círculo virtuoso II

Deu no Terra Brasil
06-12-2017, por DINO
Imóvel de alto padrão pode ser boa opção de investimento
Apesar da crise econômica que afeta o Brasil, o mercado ainda é considerado seguro 


Notícias publicadas todos os dias na imprensa comum e especializada dão conta de que o imóvel de alto padrão é uma ótima - senão a melhor - opção de investimento. E não só no Brasil. Por que?

Porque a irrefreável concentração de riqueza que marca a economia do século XXI tem o dom de retroalimentar a espiral de valorização dos imóveis mais luxuosos e bem localizados mesmo em um cenário global de baixo crescimento, estagnação dos salários e precarização do trabalho.

Velhos e novos, verdadeiros e falsos, físicos e jurídicos, quanto mais renda concentram os endinheirados do mundo inteiro, mais se dispõem a pagar por imóveis de alto padrão em Nova York, Los Angeles, Miami, Londres, Paris, Hong Kong, Dubai, Vancouver, Sydney, Lisboa, São Paulo e Rio de Janeiro, na expectativa razoável de que não faltará quem lhes cubra a parada a qualquer momento em que queiram vendê-los. 

Imóveis de alto padrão são o melhor veículo de investimento na concentração mundial da riqueza.

Meu palpite é que os cortes fiscais previstos na nova Lei de Impostos de Trump, que beneficiam principalmente os americanos verdes, maduros e podres de ricos, servirão de combustível extra para acelerar a espiral de preços imobiliários e a gentrificação dos grandes centros urbanos globais


2017-12-10


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Visão total

Deu no Jornal de Negócios
06-12-2017, por Diogo Cavaleiro

Banco de Portugal não vê bolha no imobiliário
Montagem à beira do urbanismo
Imagens originais: Internet
A probabilidade de que os preços da habitação continuem a aumentar no futuro é bastante elevada´, sublinha o regulador.
Não há sobrevalorização das habitações no país, para já. Mas não é claro se não estará a acontecer em centros urbanos.
O mercado imobiliário tem vindo a crescer e o caminho deverá continuar a ser ascendente. Mas, para já, o Banco de Portugal não vê nenhuma bolha, segundo conclui no seu relatório de estabilidade financeira.



2017-12-07


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

As sete vidas da cidade-jardim III

Lewis Mumford (1895-1990)
A história do urbanismo ocidental - um empreendimento científico e cultural marcadamente anglo-americano abrigado, não por acaso, sob a rubrica do planning (town planning, city planning, urban planning, spatial planning, regional planning [1][2]) - é saturada de referências a Ebenezer Howard, à cidade-jardim, ao Garden City Movement e às inúmeras denominações das associações fundadas por Howard em 1899 e 1913, cujas existências se prolongam até os dias de hoje sob os nomes Town and Country Planning Association e International Federation of Housing and Planning.

Contudo, é do polímata norte-americano Lewis Mumford, um dos papas da matéria no século passado e maior patrocinador intelectual do legado de Howard, a afirmação, contida num artigo de 1965 para o New York Times [3], de que, muito contrário do que disse Jane Jacobs em Life and Death of the Great American Cities (1961), a influência howardiana no planejamento urbano norte-americano foi “praticamente nenhuma, limitada à ínfima exceção de Radburn e das [três] Greenbelt Towns iniciadas por Rexford Tugwell no segundo mandato de Roosevelt”, e, no britânico, algo como um “rastilho de ação lenta que levou meio século para detonar a explosão de cidades novas atualmente em curso” [Mumford, 1965].

Admitindo-se que ele tenha razão, resultaria que boa parte daquilo que se lê em artigos acadêmicos e livros de história urbana a respeito de Howard e da cidade-jardim howardiana não diz respeito, pelo menos até 1946, quando o Reino Unido sanciona o New Towns Act, a desenvolvimentos relevantes - por oposição a exemplos tão ilustres quanto excepcionais - que transcendam o plano das ideias.

Vejamos, a propósito, o que nos trazem dois importantes historiadores urbanos, Peter Hall [4] e Spiro Kostoff [5], o primeiro com foco no urbanismo, o segundo na cidade.

Inglaterra

É fora de questão que as cidades-jardim construídas no país de origem de seu criador são duas: Letchworth, fundada em 1903, e Welwyn, em 1920. É aqui mesmo, portanto, e desde muito cedo, que se estabelece a polêmica a respeito da propriedade de associar-se o termo “cidade-jardim” a um significativo número de novas urbanizações surgidas na Inglaterra das primeiras décadas do século XX - a mais famosa dentre elas Hampstead (1907), na então periferia de Londres, assinada por ninguém menos do que Raymond Unwin e Barry Parker, projetistas de Letchworth.


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Segundo Hall, “Hampstead foi um ponto de inflexão para o Garden City Movement na Inglaterra e para Unwin em particular, pois não se tratava, confessadamente, de uma cidade-jardim, mas de um subúrbio-jardim; não tinha indústria e dependia da acessibilidade proporcionada pela recém-inaugurada estação metroviária adjacente”. [Hall, p. 101]

Patrick Abercrombie admite num texto de 1910 que a Garden City Association tinha por objetivos a promoção não apenas de novas cidades em distritos rurais, mas também de subúrbios-jardim “para o alívio imediato das cidades existentes” e bairros-jardim “para a moradia de trabalhadores próxima aos seus locais de trabalho” [Hall, p 105]. O próprio Unwin, numa conferência ministrada na Universidade de Manchester em 1918, teria abjurado para sempre o credo howardiano ao "recomendar a construção de cidades-satélites próximas às cidades existentes, que seriam as suas fontes de emprego" [Hall, p. 108].

Em contraste, Ewart Culpin, futuro presidente do Royal Town Planning Institute, já em 1913 observava que “inúmeros empreendimentos assumem o qualificativo ‘cidade-jardim’ promiscuamente, sem nenhum direito, tendo em vista a sua natureza absolutamente estranha às concepções dos fundadores do movimento” [Hall, p. 105]. Oito anos mais tarde, em 1921, C. B. Purdon, editor da revista da Associação, escreveu: “Não existe um único distrito cujo conselho não reclame ter construído uma [cidade-jardim]; por toda parte construtores inescrupulosos exibem a marca em suas peças publicitárias (..) cidades-jardim propriamente ditas só existem, até hoje, duas: Letchworth e Welwyn” [Hall, p. 107].

O substrato material dessa polêmica é, evidentemente, o florescimento do negócio dos assentamentos suburbanos na Inglaterra da aurora do século XX. Ealing Tenants Limited, a primeira cooperativa habitacional londrina fora fundada em 1901, adquirira 12 hectares de terreno no extremo da The Mount Avenue em 1902, “antes ainda de Letchworth”, e contratara Unwin e Parker para projetar um “bairro-jardim modelo” em 1906 [Hall, p. 101]. Desde o comitê executivo da Co-Partnership Tenants Housing Company, "Unwin desenvolveu, em parceria com Parker, subúrbios-jardim na periferia de Leicester, Cardiff e Stoke-on-Trent". O Housing and Town Planning Act de 1909 permitiu que tais “‘Sociedades de Utilidade Pública’ tomassem dinheiro a juros baixos, daí resultando que, em 1918, mais de 100 delas existiam na Inglaterra” [Hall p. 102].


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Em 1919, o Addison Act consagrou as novas ideias de Unwin - agora membro insigne do poderoso Tudor Walters Committee - no programa de habitação social do pós-I Guerra britânico, daí resultando que, “das cerca de 1 milhão de moradias subsidiadas construídas por autoridades locais no entre-guerras, nenhuma - à exceção de um punhado em Letchworth e Welwyn - estava inserida em uma autêntica cidade-jardim” [Hall, 108].

O veredicto da polêmica envolvendo a natureza dos subúrbios-jardim e cidades-satélites periféricas às grandes cidades da Inglaterra parece ter sido proferido pelo próprio Howard. Em 1920, aos 69 anos de idade, “descrente da capacidade do governo para empreender a tarefa” de dar à luz a sua acalentada social-city, Howard, “sem consultar ninguém e sem ter dinheiro suficiente“, adquiriu uma grande propriedade em Welwyn obrigando a Garden Cities and Town Planning Association a sair em seu socorro. Assim nasceu, “por métodos não-convencionais”, 15 anos depois de Letchworth, a segunda e última cidade-jardim howardiana [Hall, p. 108].

Estados Unidos
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Kostoff resume a influência da cidade-jardim howardiana nos Estados Unidos às já citadas Radburn, em Nova Jersey, de 1928, assinada pelos “Parker & Unwin estadunidenses Clarence Stein & Henry Wright” - em que “os princípios howardianos do greenbelt  e da propriedade pública da terra foram deixados de lado, mas não o componente industrial, que sobreviveu até 1986” - e às Greenbelt Towns, de 1935, já em pleno New Deal, a cargo da United States Resettlement Administration - “o mais próximo que estiveram os Estados Unidos do modelo de Howard” [Kostoff p. 80].

Kostoff atribui a rejeição norte-americana das cidades-jardim - que seus proponentes e defensores insistiam não serem “subúrbios de cidades pré-existentes, mas comunidades autossuficientes com suas próprias oportunidades de emprego e aparatos de administração, cultura e serviços” - pelo fato de ser “quase impossível ao sistema norte-americano tolerar a propriedade comunal e os controles sobre  o uso da propriedade”, coisas que “recendem a socialismo e comunismo” [Kostoff p.78].

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Contudo, como “princípio de projeto de grande popularidade, extremamente flexível e facilmente adaptável a qualquer ideologia” -, o “paradigma da cidade-jardim” teria tido um apelo permanente em subúrbios norte-americanos de alta renda, com base, porém, em referências vernáculas como Glendale, Ohio (1855), e Riverside, Illinois (1869) - esta última assinada por Calvert Vaux e pelo arquiteto paisagista Frederick Law Olmsted, criador do Central Park de Nova York -, ambos bastante anteriores às cidades-jardim howardianas [Kostoff pp. 77, 79] [Itálicos meus].

Os subúrbios-jardim de Country Club District, em Kansas City, e Forest Hills Gardens, em Nova York, de 1915, são citados como exemplos excepcionais de urbanizações sujeitas a controles de uso do solo (étnicos e raciais inclusive). Forest Hills, com desenho nitidamente hampsteadiano e patrocínio da fundação filantrópica Russell Sage, comportava “famílias modestas” que poderiam “obter residências de modo similar ao das cidades-jardim inglesas’” [Kostoff p. 79].

Outros subúrbios-jardim mencionados por Kostoff são as comunidades-modelo produzidas, durante a Primeira Guerra Mundial, pelo “relutante” programa federal de habitação popular Emergency Fleet Corporation (Yorkship Village, em Camden, Union Park Gardens, em Delaware e Buchman Village, na Pensilvânia) e as vilas operárias de Goodyear Akron, Ohio e Billerica Garden Suburb, Massachusetts, ambas de iniciativa mista [Kostoff p. 79].
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A versão de Peter Hall sobre a trajetória da cidade-jardim em território norte-americano é, não por acaso, tão pródiga em ideias quanto pobre em exemplos. Para além das já mencionadas Radburn, Forest Hills Gardens e Greenbelt Towns, Hall destaca a criação de Sunnyside Gardens, um subúrbio-jardim de Nova York construído por Alexander Bing e que teve Mumford como um de seus primeiros residentes, e “duas outras Radburns” que tiveram o próprio Stein como consultor - Chatham Village (1932), na periferia de Pittsburgh e Baldwin Hills Village (1941), em Los Angeles. As três “Stein-Wright Radburns” são, para Hall, “as mais importantes contribuições norte-americanas à tradição da cidade-jardim”, embora “tenham há muito submergido na expansão dos subúrbios” [Hall p.128-29]

A indiscutível estrela da seção de Cities of Tomorrow dedicada à trajetória da cidade-jardim em solo norte-americano é a Associação Estadunidense de Planejamento Regional (RPAA), um clube de adeptos da cidade-jardim howardiana como instrumento e objeto da descentralização urbana, de enorme lastro profissional e intelectual, cuja maior façanha foi, no entanto, ter lançado uma ponte entre a social-city de Howard - a rede de cidades-jardim a serem criadas como alternativa à atratividade das velhas metrópoles - e o New Deal rooseveltiano pela via do planejamento regional preconizado por Patrick Geddes. Tal é, inequivocamente, o vetor do “programa de cinco pontos” adotado pela RPAA em 1923, por ocasião de uma visita de Geddes aos Estados Unidos:


(1) desenvolvimento de  relações com os planejadores britânicos
(2) criação de cidades-jardins no âmbito de um plano regional
(3) desenvolvimento de planos e projetos regionais para promover a Appalachian Trail
(4) colaboração com a comissão de Planejamento de Comunidades do Instituto Estadunidense de Arquitetos para propagar o regionalismo
(5) realização de estudos de áreas críticas, notadamente o Vale do Tennessee


Ao final da seção dedicada à RPAA, Hall conclui que “de tudo isso, muito pouco virou política pública nos EUA dos anos 1920. (..) Por intermédio de Alexander Bing, a Associação trouxe à luz duas comunidades experimentais: Sunnyside Gardens, em New York City, e Radburn, em New Jersey. No mais, o que conseguiu foi vender sonhos de longo prazo” [Hall p. 156] ]

Para Hall, como para Mumford, a cidade-jardim howardiana é, na melhor das hipóteses, uma gota no oceano da expansão suburbana estadunidense.

Europa Continental

A seção de Cities of Tomorrow dedicada à trajetória da cidade-jardim na Europa Continental é uma pérola de anglocentrismo - um tema que deixaremos para comentar em texto mais propício. Por ora, basta dizer que, na opinião de Hall, o conceito foi “completamente diluído” na transposição da Mancha por advogados que reclamavam, eventualmente até com justiça, ter formulado por si mesmos conceitos de cidade-jardim “sutil, mas significativamente distintos do de Howard” [Hall p. 112].

Na Espanha, Hall não encontra material suficiente para mais que um breve comentário, bastante despectivo aliás, sobre a Cidade Linear do espanhol Arturo Soria y Mata, cuja formulação antecede em seis anos a publicação de To-Morrow e cujas obras antecedem em uma década a fundação de Letchworth. A cidade linear - mais exatamente uma “cidade-jardim planejada linear” oferecida ao público sob o slogan “A Cada Família Uma Casa, em Cada Casa uma Horta e um Jardim” -, que teve construídos apenas cinco dos 48 quilômetros previstos ao redor de Madri, “não passava de um subúrbio dormitório de caráter meramente comercial” logo "engolido pelo formidável crescimento da metrópole”  [Hall p. 113].

Quanto à França, um parágrafo é dedicado à Cidade Industrial do francês Tony Garnier -  o “Howard francês” que a postulou no mesmo ano de 1898, mas só trouxe à luz 20 anos depois -, uma urbanização hipotética “economicamente dependente de uma única grande siderúrgica (..) baseada na propriedade comum, desprovida de instituições repressivas como delegacias, tribunais e igrejas” e, quanto ao traçado, “marcada por bairros residenciais em malha ortogonal ao longo de grandes avenidas axiais” [Hall p. 113].
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Howard teria, porém, influenciado diretamente o jurista e jornalista Georges Benoit-Levy, criador da Association des Cités-Jardins de France e promotor de uma confusão elementar entre a cidade-jardim e o subúrbio-jardim” da qual os “franceses, incuravelmente urbanos, nunca se livraram”. Daí resultou a implantação, entre 1916 e 1939, de 16 cités-jardins na periferia de Paris sob responsabilidade do já citado Henri Sellier, que “não apenas sabia que sua interpretação não era puro Howard, mas a variante unwiniana produzida em Hampstead”, como “mandou seus arquitetos visitarem Unwin em 1919 e usou seu livro-texto como guia para os projetos” [Hall p. 114].

Kostoff registra a adesão de Benoît-Levy à cidade-jardim howardiana, na primeira década do século XX, como “alternativa à expansão especulativa dos loteamentos periféricos” na França. No quadro de um “colapso do mercado habitacional privado que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, Sellier “adotou a cidade-jardim como modelo para seu trabalho à frente do Departamento de Moradia Popular de La Seine”, cujos primeiros projetos foram elaborados “à maneira inglesa”, “no espírito de Letchworth”. Mais tarde, na década de 1930, os projetos ganharam maior densidade e as residências unifamiliares acabaram substituídas por blocos de apartamentos de 4 pavimentos [Kostoff p. 77].

O prototípico “Howard alemão” foi, para Hall, Theodor Fritsch, um “raivoso propagandista do racismo” que trouxe a público a sua Cidade do Futuro dois anos antes (1896) do modelo howardiano e “era obcecado pela certeza de que Howard havia roubado a sua ideia” - um “esquema urbano circular com propriedade comum do solo, separação de usos, centro destinado a jardins públicos, greenbelt, moradias unifamiliares e periferia industrial, mas de dimensões muito maiores que a cidade howardiana e não destinada à descentralização urbana que está no centro de sua concepção” [Hall p. 114].

Mas foi o negociante Heinrich Krebs quem “trouxe da Inglaterra o livro de Howard, mandou traduzi-lo, organizou uma conferência e fundou o equivalente alemão da Garden City Association”, tornando-se assim o pioneiro de uma coorte de seguidores não exatamente de Howard, mas de Unwin, na criação de colônias operárias e subúrbios-jardim espalhados pela Alemanha [Hall, p. 115].


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Margarethenhöhe, na periferia de Essen, “bairro-jardim promovido pela família Krupp em 1912 como a última de uma longa série de colônias industriais iniciada em 1863”, é uma “New Earswick transplantada” por Georg Metzendorf, arquiteto alemão que teria aqui logrado ser “mais uniwiano do que o próprio Unwin” [Hall p. 115].

Hellerau, uma “jóia sem igual” na periferia de Dresden, era “essencialmente um subúrbio-jardim no final de uma linha de bondes”, com “casas geminadas na tradição Unwin-Parker e um layout de caminhos para pedestres que antecipa Radburn em duas décadas” [Hall p. 115].

As pequenas cidades-satélites de Nidda, Praunheim e Römerstadt, na periferia de Frankfurt, faziam parte de um programa estatal de construção de 15.000 residências em áreas rurais adquiridas a baixo preço pela municipalidade. Criadas entre 1925 e 1933 pelo arquiteto-planejador Ernst May, “que trabalhara com Unwin em 1910, em Letchworth como em Hampstead e mantinha com ele estreito contato”, conservaram o padrão unwiniano de densidade (casas unifamiliares), mas não de arquitetura, “intransigentemente moderna”. Apesar de isoladas por modernas rodovias e “inteiramente absorvidas em uma grande e amorfa cidade-satélite chamada Nordweststadt”, encontram-se hoje “totalmente gentrificadas, com somente 11 por cento dos trabalhadores blue-collars para os quais foram projetadas” [Hall pp. 117-18].

Siemestadt
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Martin Wagner, planejador que “não acreditava em cidades-satélites”, foi o mentor de Siemenstadt, complexo residencial criado entre 1929 e 1931 pelo gigante do setor elétrico nas proximidades da estação metroviária de Siemensdamn, na periferia de Berlim, composto por blocos de apartamentos de quatro e cinco pavimentos projetados por grandes nomes da arquitetura alemã. Foi também o criador de Onkel-Toms-Hutte (1926) e Britz (1931), “puros subúrbios-jardins” desenvolvidos pela Gehag - agência de habitação subsidiada criada em 1924 - sobre extensões do Metrô de Berlim. “Ambos esplêndidos, mas, ironicamente, antíteses da ideia de cidade-jardim” [Hall p. 119].

Finalmente, uma breve menção é feita por Kostoff ao uso dos diagramas de Howard pelo russo Vladimir Semionov para ilustrar o projeto da comunidade de trabalhadores ferroviários de Prozorovska, de 1912, e ao papel da cidade-jardim na polêmica pós-revolucionária a respeito da descentralização urbana, descartada em 1932 como antagônica aos interesses do Estado [Kostoff p.78].

Conclusão

A influência da cidade-jardim howardiana - parcialmente materializada, é importante que se diga, em Letchworth e Welwyn por seu próprio criador - no desenvolvimento urbano do Ocidente norte-atlântico é um objeto fugidio a oscilar no pêndulo de uma patente contradição: seus maiores apóstolos, ao mesmo tempo que lhe atribuem foros de fato indisputável, dedicam-se a acumular evidências de que ela jamais, ou quando muito raramente e de maneira pontual e insatisfatória, se realizou - pelo menos até o momento em que, na Grã-Bretanha do imediato segundo pós-guerra, o New Towns Act dá início a um extenso programa de construção de cidades novas no marco do esforço nacional de reconstrução urbana e reposição-expansão acelerada de seus estoques habitacionais.

Mumford não apenas atribui a Howard a paternidade, antecipada em meio século, do programa britânico das New Towns - “um rastilho de ação lenta que levou meio século para detonar (“causar” é o termo original) a explosão de cidades novas atualmente em curso” - , como fornece a Hall, que o replica 23 anos depois, o mote da vindicação mundial da cidade-jardim - “ao longo da última década as cidades-jardim, agora chamadas New Towns, se multiplicam por todo o mundo”, uma provável referência a programas congêneres espalhados por toda a Europa sob os auspícios do Plano Marshall.

Não há, pois, melhor época e lugar do que a Europa do pós-Segunda Guerra Mundial para continuar a busca da real - e imaginária - influência da obra de Ebenezer Howard na construção da cidade ocidental.

Deixo, também, para uma próxima contribuição a tarefa de esmiuçar o fascinante artigo de Mumford, incluindo o conteúdo e o método de sua diatribe com Jane Jacobs. O método, em especial, deverá servir para trazer à baila a abordagem de Françoise Choay, um dos grandes expoentes da historiografia do urbanismo no século XX.

___
NOTAS

[1] Raymond Unwin publicou em 1909 o seu clássico estudo de desenho urbano sob o título Town planning in practice: an introduction of the art of designing cities and suburbs.

[2] A mais festejada instituição histórica do urbanismo nos Estados Unidos, povoada de nomes ilustres como Lewis Mumford, Clarence Stein, Benton MacKaye, Alexander Bing e Henry Wright, embora expressamente dedicada a estudos e projetos urbanos, autodenominou-se Regional Planning Association of America por influência de Patrick Geddes, que a visitou em junho de 1923, logo após a sua fundação.

[3] Mumford, Lewis. “Revaluations I: Howard’s Garden City”, em New York Times 08-04-1965,
ttp://www.nybooks.com/articles/1965/04/08/revaluations-i-howards-garden-city/

[4] Hall, Peter. Cities of Tomorrow [1988], Blackwell, Londres 1996

[5] Kostoff, Spiro. The City Shaped [1991], Thames and Hudson, Londres 1999



2017-11-10


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Metodologias de Projeto e Planejamento Participativo: prospecções sobre a experiência internacional – o caso do American Institute of Architects - AIA

Por Antônio Augusto Veríssimo, 
Arquiteto Urbanista, Mestre em Planejamento Urbano e Regional
Nos dias 17 e 18 de agosto de 2015 foram realizados no Rio de Janeiro dois eventos vinculados ao tema da participação cidadã em atividades de elaboração de projeto e planejamento urbano, com a presença de representantes do American Institute of Architects (AIA), que é, nos Estados Unidos, o equivalente ao nosso Instituto de Arquitetos do Brasil.
O primeiro evento, sob o título “Experiências de Projeto e Planejamento Participativo nos EUA”, foi realizado no auditório do Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento do Rio de Janeiro (IAB RJ), na noite do dia 17 de agosto de 2015, e teve o caráter de uma conferência aberta ao público em geral. O segundo, sob o título de “Experiências de Projeto e Planejamento nos EUA e Brasil”, foi realizado na manhã do dia 18 de agosto no auditório do Instituto de Urbanismo Pereira Passos (IPP) e teve o formato de uma oficina de trabalho destinada a troca de experiências entre arquitetos locais* e os profissionais convidados em torno do tema da participação cidadã na elaboração de projetos e planejamento urbano.
Estes encontros foram realizados com base em uma colaboração estabelecida entre o Consulado Geral dos Estados Unidos da América no Rio de Janeiro, por meio de seu Departamento de Comércio; o Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento do Rio de Janeiro; e o Instituto de Urbanismo Pereira Passos. Participaram, como representantes da AIA, os arquitetos e diretores do Center for Communities by design do AIA, arquiteta Erin Simmons e arquiteto Joel Mills e o diretor do Planning and Sustainability Department of Northampton, MA Wayne Feiden.
Ambos os eventos foram realizados no marco dos encontros promovidos pelo IPP com especialistas estrangeiros com vistas à busca de subsídios para a definição de uma metodologia de planejamento participativo a ser utilizada para a construção de um Projeto de Desenvolvimento para o bairro da Maré, tendo sido precedidos por dois encontros anteriores realizados, o primeiro com a presença dos arquitetos Jorge Fiori, da Architectural Association e da University College of London, e o segundo com a presença do arquiteto Pablo Lazo, da ARUP3.
O presente texto se divide em duas partes. Na primeira se faz um relato das informações, debates e impressões deixadas pelos participantes dos encontros dos dias 17 e 18 de agosto de 2015. Na segunda, uma revisão e complementação dos temas tratados na primeira parte à luz da bibliografia que nos foi gentilmente disponibilizada pelos palestrantes da AIA.
Primeira Parte: Democratizando o planejamento urbano nos EUA
Durante a década de 1960 ocorreram grandes questionamentos e mudanças com relação a forma de planejar intervenções urbanas nos EUA. Desde a publicação do livro Morte e Vida de Grandes Cidades, no ano de 1961, obra mestra de Jane Jacobs, uma série de autores se dedicaram a criticar e tentar modificar as práticas de planejamento urbano correntes naquele país, consideradas então tecnicistas e centralizadoras. (Continua)

Acesse o artigo completo pelo link
[*] Nos debates da oficina de trabalho realizada no auditório do IPP no dia 18/08/2015 participaram, dentre outros presentes, os arquitetos Luiz Carlos Toledo, responsável pelo Plano Diretor da Rocinha; Pedro da Luz Moreira, presidente do IAB/RJ; Jerônimo de Moraes e Luiz Fernando Valverde, respectivamente presidente e vice-presidente do CAU RJ; Antonio Correia, do CAU-SMU; Vera Tangari do PROARQ-UFRJ; o arquiteto Antônio Augusto Veríssimo e o sociólogo Nando Cavallieri, ambos do IPP.


2017-11-02


terça-feira, 31 de outubro de 2017

O planejamento olímpico e a revolução dos transportes II


Estado considera inviável tarifa social no catamarã Charitas-Praça XV
Segundo secretaria, para haver uma diminuição na tarifa a linha precisa ter um acréscimo de 40 mil novos passageiros


Montagem: à beira do urbanismo
Imagens originais: Internet
Dois anos depois da prefeitura de Niterói ter dado início à construção da infraestrutura do sistema BRT, dita Transoceânica - que além de ter custado muito dinheiro multiplicou por não-se-sabe-quanto os efeitos da crise recessiva sobre o comércio e serviços do corredor Piratininga-Itaipu -, os cidadãos ficam sabendo, pelo noticiário de O Fluminense, que inexistem até hoje quaisquer planos para a integração do novo sistema ao transporte aquaviário Charitas-Praça XV. 

Até sabe Deus quando, o trabalhador que não puder pagar os atuais R$ 16,50 cobrados para atravessar a Baía de Guanabara a partir do ponto final do BRT terá de pegar um ônibus municipal pela tarifa de R$ 3,70 para chegar, 30 minutos depois se o trânsito permitir, à Estação Hidroviária da Praça Arariboia, no Centro de Niterói, de onde deverá desembolsar mais R$ 6,50 para chegar à Praça XV.

Em qualquer caso, se seu destino não estiver nas redondezas terá de desembolsar outros R$ 3,80 para tomar o VLT ali do lado ou, mais provavelmente, o Metrô a R$ 4,30 ou um ônibus municipal a R$ 3,60 depois de uma caminhada cheia de obstáculos até a Avenida Rio Branco. Se quiser pegar o VLT na praça XV para ir ao Metrô da Carioca, perderá tempo, paciência e dinheiro. Eu garanto: é melhor respirar fundo e ir a pé.

Integração tarifária? Talvez, em algum momento desse périplo, alguns centavos de desconto que não dão nem para um café! 

Pode-se, é claro, alegar que nada disso é necessário. Basta ao trabalhador continuar utilizando uma das inúmeras linhas de ônibus que ligam os bairros de Niterói - Charitas, por exemplo - ao Rio de Janeiro pela Ponte Rio-Niterói. Demora mais, mas custa menos. E se der sorte de ir sentado, pode ser bem mais confortável! 

O porquê dessa balbúrdia? Para mim, é o resultado da gestão público-privada dos transportes metropolitanos: metade má fé e malfeitos diversos contra o patrimônio público e a economia popular, metade puro efeito da moderna concorrência monopolista pela concessão dos serviços públicos. E vá saber onde terminam uns e começa a outra...


Montagem: à beira do urbanismo
Imagens originais: Internet


Leia também
"O Planejamento olimpico e a revolução dos transportes" (Abril 2012)
http://abeiradourbanismo.blogspot.com.br/2012/04/o-laboratorio-de-planejamento-urbano-do.html

2017-10-31


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Aforismo georgeano




Hotelaria é um oligopólio global que extrai milhões em renda do solo urbano de executivos e turistas endinheirados.




Airbnb é um monopólio mundial que extrai bilhões em renda do solo urbano de trabalhadores e turistas remediados.



2017-11-14