quarta-feira, 29 de março de 2023

Apontamentos: Pescatori e Faria 2020 - dispersão urbana na aurora do século XX

PESCATORI C e FARIA R, “Dispersão urbana e empresas urbanizadoras na cidade industrial: a atuação da Compañia Madrileña de Urbanización, da Garden City Pioneer Company, da First Garden City Ltda. e da Cia City.” Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, [S. l.], v. 22, 2020. DOI: 10.22296/2317-1529.rbeur.202019.
https://rbeur.anpur.org.br/rbeur/article/view/6136

Ao ler, na Introdução ao artigo aqui comentado, que a “dispersão [urbana], por mais desconcertante e transformadora que seja, não significa o fim da cidade, mas apenas uma de suas (várias) transformações históricas”, senti-me convidado por Pescatori e Faria a refletir sobre um de nossos mais caros e arraigados hábitos mentais: o dualismo centro-periferia.

Ocorreu-me de imediato que Ernest Burgess, tido como inventor do “modelo de estrutura urbana em círculos concêntricos”, afirma em seu clássico texto “The Growth of the City”[1], de 1925, que (a) "o fato crucial da expansão urbana é a tendência de invasão das zonas exteriores pelas interiores" e que (b) no caso de Chicago, “todas as quatro zonas estariam, nos primórdios da cidade, incluídas no primeiro círculo, o atual CBD”. Pouco adiante, Burgess conclui que “a Chicago de ontem, um aglomerado de núcleos rurais e colônias de imigrantes, vem passando por um processo de transformação em um sistema de comunidades locais aglutinadas por subcentros comerciais visivelmente dominados pelo CBD, que podemos chamar de descentralização centralizada”.

Não seriam, de fato,
a compactação central e a dispersão periférica formas relativas e interdependentes, historicamente construídas e permanentemente diferenciadas, da aglomeração urbana moderna e contemporânea?

*

Contudo, não é o dualismo centro-periferia o objeto do artigo, mas o papel das empresas promotoras em três casos clássicos de urbanização "excêntrica" na Europa e Brasil de inícios do século XX. Em suas próprias palavras, Pescatori e Faria tratam

"do ideário de dispersão difundido por meio da ação de empresas de reconhecida importância na historiografia do Urbanismo: a Compañía Madrileña de Urbani­zación (CMU), empresa urbanizadora fundada pelo madrilenho Arturo Soria y Mata para implementar sua ideia de ciudad lineal, proposta pela primeira vez em 1882; as empresas Garden City Pioneer Company e First Garden City Ltd, fundadas, respectivamente, para levantar fundos e gerenciar a construção de Letchworth, primeira cidade-jardim construída, cujo esquema teórico foi concebido em 1898 por Ebenezer Howard; e a empresa City of São Paulo Improvements and Freehold Company Ltd, conhecida como Cia. City, responsável pela implementação dos pri­meiros bairros-jardim de São Paulo, a partir de 1915."[2]

Segundo os autores, “essa interpretação constrói outro olhar sobre a dispersão, não mais como uma 'novidade' característica do século XX, e sim como parte de um processo histórico de pensamento e prática do Urbanismo”.

Opinarei, mais adiante, se os projetos de urbanização de que trata o artigo tinham propósitos dispersores e quais dentre eles resultaram, de fato, e quais não resultaram, em dispersão urbana. Quero começar destacando o que vejo como certa ambivalência dos autores entre o juízo de que os produtos das companhias urbanizadoras de inícios do século XX provinham do “ideário da dispersão” propagado por reformadores sociais como Arturo Soria e Ebenezer Howard e a indicação, profusamente documentada no próprio artigo, de que o “ideário de dispersão” desses reformadores foi "atropelado" e imposto à sua maneira por uma potência histórica superior que lhes ditou suas necessidades e suas regras: o emergente mercado de urbanizações de baixa densidade periféricas aos grandes centros urbanos de sua época.

Cumpre reconhecer que essa ambiguidade tem profundas e ilustres raízes na historiografia do urbanismo. Ninguém menos do que o grande Peter Hall, ao abordar em sua obra magna Cities of Tomorrow o tema da formação dos subúrbios na Inglaterra vitoriana, diz “não ter claro o que veio primeiro: se a galinha da urbanização ou o ovo da filosofia” [3]. Segundo Hall, “quando o tic-tac do relógio do planejamento urbano começou a soar, por volta de 1900”, o próprio problema que ele buscava resolver - a concentração da miséria urbana na grande cidade do século XIX, objeto da “continuada obsessão de seus pais filosóficos” -, começou a mudar. A urbe começou a se dispersar e desconcentrar, “em parte pela reação de legisladores e reformadores locais, em parte pela ação das forças de mercado”, daí resultando “uma súbita e extraordinária melhoria dos padrões de moradia para um amplo espectro da população”. [4]

Hall me parece ter formulado e resolvido, no mesmo parágrafo, o dilema com que se deparou. Não por acaso, creio, o capítulo de Cities of Tomorrow dedicado à suburbanização na Inglaterra de inícios do século XX antecede o capítulo dedicado à cidade-jardim, cujo pai-criador, Ebenezer Howard, é para ele o primeiro da lista dos profetas [seers] do urbanismo contemporâneo, pioneiros de “boa parte, senão a maior, do que aconteceu - para bem e para mal - às cidades do mundo nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial”. [5]

De modo análogo, Pescatori e Faria nos fornecem, em seu valiosíssimo material historiográfico, provas abundantes - a mais significativa dentre elas as ambições comerciais e os laços da Cia City com a governança da cidade de São Paulo - de que tanto em Londres e Madri como em São Paulo de inícios do século XX não se tratava tanto de “ideários”, fossem de descentralização, desconcentração ou dispersão, quanto do nascente mercado da moradia suburbana.

Aplicada a empresas urbanizadoras, a própria noção de “ideário de dispersão” não parece adequada. Empresas urbanizadoras não têm “ideário urbanístico”, mas objetivos comerciais e plataformas publicitárias correspondentes. Para as urbanizadoras de inícios do século XX não se tratava de “comprar” o ideário desconcentrador dos reformadores, por ilustres que fossem Soria e Howard, nem de materializar supostos ideais próprios de dispersão, mas de vender, literalmente, uma nova linha de produtos: as urbanizações periféricas possibilitadas pelos novos meios de transportes urbano de passageiros e - o mais decisivo - demandadas por uma nova classe média urbana em ascensão. A adoção deste ou daquele padrão de desenho urbano se subordinava às condicionantes do mercado: densidade, área total e privativa, tipo de traçado, equipamentos, proporção de áreas verdes, “selo” projetual etc.

Dito de outra forma, a dispersão, neste caso, não foi o resultado desejado de um “ideário urbanístico”, mas o efeito não planejado de um novo e revolucionário ciclo do mercado de localizações urbanas. Vale registrar que o próprio Hall não explica, e teria sido esclarecedor, de que forma os “legisladores e reformadores locais” intervieram no processo de “dispersão e desconcentração” promovida pelo mercado.

Considero, por outro lado, problemática a comparação da Cia City paulistana, cujas urbanizações eram, desde a origem e de maneira inequívoca, empreendimentos destinados ao mercado, com a Madrileña de Urbanización e a Garden City Company no que tange à promoção da Ciudad Lineal e de Letchworth, urbanizações indelevelmente marcadas pela adaptação das concepções doutrinárias e propósitos reformistas de seus criadores às necessidades da promoção imobiliária, razão pela qual podemos dizê-las urbanizações sui generis

A propósito desse caráter singular e transitório da Cidade Linear de Soria e da Cidade-Jardim howardiana nos primórdios da suburbanização de mercado, que julgo confirmado pela pesquisa dos autores, escrevi há algum tempo:

“O estudo de Navacués nos permite apreciar a realização de Soria "dos pés para a cabeça", isto é, como projeto de urbanização antes que como utopia, mais exatamente especulação, urbanística, ambiguidade que a define, quem sabe ao lado da cidade-jardim howardiana, como híbrido histórico: pode-se discutir se é o programa de reforma social que para poder sair à luz se adapta às exigências da nascente indústria da suburbanização ou se é esta que, ainda debutante, se apresenta aqui e ali em trajes de colônia semi-rural destinada ao aperfeiçoamento físico e moral das classes laboriosas.” [6]

*

A análise dos casos de Ciudad Lineal e Letchworth é muito similar em sua estrutura e suas conclusões: baseados em notável material historiográfico, os autores narram as atribulações de Soria e Howard para adaptar suas especulações urbanísticas, ditas "utopias equitativas", "às demandas do mercado e dos potenciais clientes"[6a]; expõem o "cunho empresarial" e lucrativo das firmas criadas ou mobilizadas para construí-los e promovê-los; e concluem com a avaliação de que Ciudad Lineal materializou "uma proposta urbanística pautada pela dispersão" e tanto os subúrbios-jardim em geral quanto a cidade-jardim de Letchworth, a despeito de suas imensas diferenças e das batalhas que suscitaram no pensamento urbanístico norte-atlântico, "consolidaram um modelo de urba­nização entusiasta do controle do crescimento urbano e da baixa densidade para os padrões da sua época".

A despeito, portanto, da bem documentada primazia da viabilidade comercial dos empreendimentos estudados - como filtro e régua, no caso de Letchworth, e móvel também, no dos subúrbios-jardim britânicos - Pescatori e Faria respondem ao dilema de Hall com uma nítida escolha: o ovo do urbanismo sempre precede, e comanda, a galinha da urbanização. 

Não surpreende, a essa altura, que a Cia City seja introduzida aos leitores não como empresa promotora do primeiro ciclo de expansão periférica de São Paulo, mas como a urbanizadora que "auxiliou no ideário da dispersão urbana" da capital. 

A riquíssima descrição de seu "intricado modus operandi, com o desenvolvimento de estratégias de negócios baseadas em relações de influência direta sobre o poder público com vistas a beneficiar-se, acomodar seus interesses e ampliar os lucros" contrasta com a ausência de indícios que comprovem a existência ou formação no âmbito da companhia, de seu corpo dirigente, de seus projetistas e de seus empreendimentos, de um "ideário da dispersão" por oposição a quaisquer outros ideários alternativos. 

Nenhum registro material é apresentado para demonstrar que essa empresa que fez de Barry Parker seu "lobista", tirando "proveito de sua fama internacional como arquiteto e sócio de Raymond Unwin [no projeto de Letchworth Garden City] para aproximar-se de funcionários da Prefeitura de São Paulo e influenciá-los no que se refere à realiza­ção de seus projetos urbanísticos", também "se apresenta como vertente do ideário de dispersão urbana que emergiu da crítica à cidade compacta e densa". Em que âmbito se deram as discussões sobre tal ideário? Quais foram os seus protagonistas? 

A síntese dessa ambiguidade é o parágrafo que segue:

A atuação da City no início do século XX produziu uma expansão urbana bas­tante característica, voltada para as elites de São Paulo, reinterpretando o ideário da cidade-jardim para a realidade brasileira. A empresa foi definitiva na difusão desse ideário como proposta de urbanização, ainda que restrita à escala do bairro. E, mesmo nessa escala, apresentam-se princípios de dispersão urbana, especial­mente no que tange aos padrões da urbanização residencial unifamiliar, de baixa densidade e de expansão da malha urbana. [7]

Não tenho dúvidas de que a migração, em inícios do século XX, de segmentos da sociedade paulistana para a periferia da capital foi alimentada, no que tange às expectativas dessas famílias, por um ideário mesclado de higienismo e elitismo: baixa densidade, ar puro, espaços verdes, privacidade. A todo processo social subjazem crenças, nas quais, sem dúvida alguma, tem papel importante em nosso caso a fama internacional das cidades-jardim e subúrbios-jardim.

Mas as crenças não nascem de si mesmas, como revelações: a crença nas vantagens de morar num bairro-jardim tem um conjunto de pré-condições, a primeira delas a existência de capitais urbanizadores capazes de adquirir terras, loteá-las, urbanizá-las, financiar a aquisição de lotes e residências e, o que é decisivo para o negócio, propagandear as vantagens da vida suburbana. Esses capitais não são difusores de um ideário de dispersão escolhido dentre outros ideários urbanísticos possíveis, nascidos nas universidades e na imaginação dos reformadores sociais, mas agentes econômicos catalisadores de um processo de dispersão  impulsionado por uma combinação de circunstâncias socialmente dadas, alheias à vontade de cada agente individual e das distintas escolas de urbanismo: crescimento demográfico, aumento da riqueza coletiva, provimento de serviços públicos e consequente expansão da área urbanizável, desejo de ascensão social espacialmente compartilhada, expectativa de valorização do patrimônio familiar etc.

Longe de "reinterpretar o ideário da cidade-jardim para a realidade brasileira", a City recriou, para as condições de S. Paulo, o produto imobiliário subúrbio-jardim, objeto, na Inglaterra, de uma rumorosa ruptura de Unwin e Parker com a doutrina descentralizadora de Howard [6b] [6c]. O bairro-jardim paulistano foi a resposta das companhias urbanizadoras ao fato de que S. Paulo não tinha, àquela altura, escala nem estrutura de transporte que justificassem o uso da expressão "subúrbio-jardim". A cidade-jardim, por sua vez, não foi sequer cogitada pelo simples fato de que as famílias interessadas na aquisição de novas moradias periféricas estavam ainda obrigadas à viagem diária ao centro de negócios da capital. 

*

A essa altura, creio ser necessário abordar a relação, crucial na construção do artigo, entre descentralização e dispersão.  Começo por uma relevante diferença de opinião entre os autores e Hall a propósito dos desígnios de Ebenezer Howard. 

Para Pescatori e Faria, Howard "defende veementemente a urbanização de baixa densidade como solução para os problemas da cidade daquele período". Hall contesta tal visão, que seria a da maioria dos críticos de Howard, afirmando que a cidade-jardim howardiana "comporta densidades como a do centro de Londres" e que não se pode "confundi-la com subúrbios-jardim como Hampstead e suas numerosas imitações". O objetivo howardiano de - nas palavras dos autores - "deter a migração campo-cidade" por meio de uma “cidade-campo” que “assegure a combinação perfeita de todas as vantagens da mais intensa e ativa vida urbana com toda a beleza e prazeres do campo na mais perfeita harmonia” não implica, para Hall, "confinar as pessoas em povoados rurais isolados", mas oferecer-lhes "conurbações planejadas de centenas de milhares, e até mesmo milhões, de habitantes". [8]

Descontado o viés da fervorosa admiração de Hall pelas ideias de Howard, sua interpretação é que a doutrina howardiana não postula absolutamente a "dispersão", que ambos associam à expansão da fronteira metropolitana pela via das novas urbanizações periféricas, como os subúrbios-jardim, mas a "descentralização" urbana na forma do plano de "polinucleamento integrado" batizado Social City na primeira edição (1898) de seu Garden Cities of Tomorrow

Pescatori e Faria têm outra visão:      

O polinucleamento integrado, ou seja, a composição de núcleos urbanos separados fisicamente, mas interligados econômica, social e culturalmente, é uma organização dispersa na essência, baseada na noção de que a cidade não deve crescer infinitamente; ela deve ser limitada e, conforme a necessidade, outro núcleo deve ser construído. [9]

Embora me pareça razoável postular que, no limite, a descentralização é uma forma de dispersão e que o polinucleamento não produzido pelo próprio mercado implica certo grau de dispersão econômica e cultural - haja vista o papel insubstituível atribuído aos grandes centros pelas agências de desenvolvimento econômico -, em termos estritamente espaciais e de política urbana a construção de cidades novas nos espaços intermédios das grandes metrópoles, como fez o Estado britânico no pós II Guerra, se distingue claramente do estímulo, por ação (infraestrutura e serviços) ou omissão (legislação permissiva), à suburbanização, vale dizer à expansão da área metropolitana por agregação de parcelamentos exourbanos fadados à progressiva absorção pela mancha urbana. Do contrário não faria sentido existir tal distinção. Ao passo que a suburbanização procede do movimento "natural", vale dizer da natureza lucrativa, do capital urbanizador, as cidades novas são, com as notáveis exceções de Letchworth, Welwyn e um punhado de cidades industriais construídas na Europa e EUA, empreendimentos impensáveis fora da alçada do Estado planejador e promotor. 

A contradição mais notável a que o amálgama de dispersão e  descentralização conduz os autores talvez seja a ideia de que "(..) os subúrbios-jardim consolidaram um modelo de urba­nização entusiasta do controle do crescimento urbano". [10]


*

Quanto aos propósitos descentralizadores e ao “efeito-dispersão” dos empreendimentos analisados, eu diria, portanto, que:

1) Ciudad Lineal e Letchworth Garden City tinham, de fato, propósitos descentralizadores subjacentes, oriundos - aqui sim - do ideário reformador de seus criadores. Os projetos da Cia City, por sua vez, não tinham nenhum “propósito descentralizador”; sua ideologia foi, desde a origem, a de empreendimentos puramente comerciais em uma época de migração periférica de segmentos sociais abastados e suas ideias urbanísticas restritas ao âmbito do projeto.

2) É problemático dizer que Letchworth e Welwyn, as duas cidades-jardim howardianas, tiveram efeitos “dispersivos”: mesmo não preenchendo todos os requisitos originais de Howard, elas eram cidades “independentes”, a uma tal distância que não poderiam, em sua época, ser caracterizadas como subúrbios de Londres. O mesmo não se pode dizer de Ciudad Lineal, construída e logo plenamente absorvida como subúrbio da periferia de Madri.

3) Os empreendimentos paulistanos da Cia City produziram, sem dúvida, efeitos de dispersão urbana não planejada, característicos do primeiro ciclo da suburbanização capitalista nas grandes cidades de todo o mundo. Deste ciclo fazem parte vários projetos de urbanização na periferia de Londres, dentre eles Hampstead, célebre criação de Robert Unwin que supõe uma ruptura com a doutrina reformista e descentralizadora de Ebenezer Howard.

*

Retornando ao início, postular que adensamento central e dispersão periférica são formas distintas e interdependentes da aglomeração urbana e reconhecer que, no âmbito dos grandes espaços nacionais, a descentralização é uma forma de dispersão, não nos permite absolutamente deduzir a noção essencialmente dualista de que subúrbios como Hampstead e Ciudad Lineal e o polinucleamento integrado que Letchworth e Welwyn pretenderam inaugurar constituem, todos, "uma organização dispersa na essência" - por oposição ao centro compacto da grande metrópole.   

Opor o adensamento em geral à dispersão em geral significa desconsiderar o fato de que toda suburbanização supõe, e amplia, a dependência espacial do centro da urbe, traduzida em commuting, precisamente aquilo que o polinucleamento integrado se propõe a romper. E essa diferença, vale notar, é também a matéria de um dos mais significativos "confrontos de ideários" do urbanismo do século XX: a polêmica, na década de 1920,  entre os defensores da expansão metropolitana de Nova York ordenada e relativamente compactada pela rede de transporte público ferroviário, liderados por Thomas Adams, diretor do Plano Regional de Nova York e Arredores, e os advogados de uma rede regional de "cidades caminháveis" - hoje diríamos "cidades de 15 minutos" -  agrupados em torno de Lewis Mumford, paladino da cidade-jardim howardiana. [11]  

Sintomaticamente, foram ambos derrotados. Segundo Fishman, autor reiteradamente citado por Pescatori e Faria, "metropolistas" e "regionalistas" "tinham um inimigo comum: o espraiamento suburbano cobrindo toda a região, que, por ironia, foi exatamente o que aconteceu". Prevaleceu, aqui mais do que em qualquer outro lugar, o rolo compressor da suburbanização de mercado, favorecido dentre outras coisas pelas facilidades automotivas patrocinadas por Robert Moses. [12]
 
Ao passo que a dispersão suburbana é um produto "natural" do funcionamento do mercado de solo urbano, em todo o mundo, desde mais ou menos o terceiro quarto do século XIX, a consecução do "polinucleamento integrado" é impensável à margem do planejamento, do investimento e de uma grande dose de controle estatal. Compare-se, em nosso caso, as atribulações de Ebenezer Howard para viabilizar, pelo mercado, a criação de duas cidades-jardim entre 1905 e 1920 e as mais de 30 cidades novas criadas pela política de descentralização instituída pelo New Towns Act de 1946 [13], totalizando em 2002 cerca de 500 mil residências e 2 milhões de habitantes. [14]

Concluo opinando que este trabalho de Pescatori e Faria tem um enorme valor historiográfico, pelo qual sou, como pesquisador independente, sinceramente grato, mas suas interpretações me parecem guiadas, como ocorre com frequência na literatura de nossa profissão, pelo pré-conceito de que as ideias urbanísticas - no caso "o ideário da dispersão" - sempre governam e devem necessariamente conter, como um leito de Procusto, os fatos fundamentais da urbanização. A tal viés metodológico, eu oponho o critério de Kostof: 

(..) I focus on the theory or urban design, or on abstract urban schemes that are there to prove a point or propose a utopia, only when there is a tangible relation to the practices of actual town-making. More importantly, many cities come about without benefit of designers, or once designed, set about instantly to adapt themselves to the ritual of everyday life and the vagaries of history. [15]

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NOTAS

[1] BURGESS E W, “The Growth of the City: An Introduction to a Research Project", em BURGESS, E W e PARK R E, The City: Suggestions for Investigation of Human Behavior in the Urban Environment, The University of Chicago Press, 1984: Chicago e Londres
https://kupdf.net/download/park-burgess-the-citypdf_5a46e89ae2b6f5a6028b1d54_pdf

[2] PESCATORI C e FARIA R, “Dispersão urbana e empresas urbanizadoras na cidade industrial: a atuação da Compañia Madrileña de Urbanización, da Garden City Pioneer Company, da First Garden City Ltda. e da Cia City.” Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, [S. l.], v. 22, 2020, p.4.
https://rbeur.anpur.org.br/rbeur/article/view/6136

[3] HALL P, Cities of Tomorrow [1988], Blackwell, Londres 1996, p.48-9.

[4] HALL P, op. cit. p.48.

[5] HALL P, op. cit. p.2.

[6] JORGENSEN P, “Apontamentos: Navascués 1969 - Soria dos pés para a cabeça”. À beira do urbanismo (blog) 16-05-2018 

[6a] Os autores não dizem, por exemplo, mas compilam fortes indícios de que a mudança do título do livro de Ebenezer Howard, de To-morrow: A Peaceful Path for Real Reform, (1898) para Garden Cities of Tomorrow (1902), detalhe que nunca vi discutido em textos de história do urbanismo, poderia, sim, estar relacionada à sua transfiguração de rede estruturada de cidades autônomas, autogeridas e autossustentadas - a Social City da edição de 1898 corretamente descrita pelos autores como "organização regional polinucleada"- em uma coleção de cidades ex novo comercialmente viáveis no interior da Inglaterra. Ver JORGENSEN P, "As sete vidas da cidade-jardim II", em À beira do urbanismo 11-08-2017. https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2017/08/as-sete-vidas-da-cidade-jardim-ii.html

[6b] “(..) essa distinção (..) provocou a ruptura de Howard, Osborn e outros seguidores dogmáticos – que se mantiveram fiéis à concepção de cidade-jardim enquanto um tipo ideal, alternativo às metrópoles e grandes cidades –, com Unwin, Parker e demais projetistas de subúrbios. (..) o fundamental trabalho teórico de Unwin – Town Planning in Practice, de 1909 - (..) desliza o conceito de cidade-jardim para subúrbio-jardim (..) [motivo da] cisão do Movimento pela Cidade-Jardim entre os ortodoxos howardianos e os pragmáticos alinhados a Unwin." [MONTEIRO DE ANDRADE C R, “Jardim América: a arquitetura do primeiro bairro-jardim de São Paulo”, Vitruvius 006.01 ano 01, jun. 2002 
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/01.006/3240

[6c] “Jardim América, Jardim Europa, Jardim Paulistano (..) surgiram na década de 1910, como uma alternativa para a expansão dos bairros até então ocupados pelas elites — Campos Elísios, Higienópolis e a Avenida Paulista. Caíram no gosto das camadas altas e médias. Foram modelados a partir dos subúrbios-jardins que, ao longo da segunda metade do século XIX, tomaram forma nas cercanias de grandes cidades britânicas e americanas — Londres, Nova York, Chicago. (..) Com o subúrbio-jardim, arquitetos britânicos e americanos também buscaram associar campo e cidade, porém sem pretender a autonomia característica da garden city. O subúrbio-jardim deve, assim, ser entendido como extensão da grande cidade, enquanto a cidade-jardim coloca-se como uma nova cidade, distinta da metrópole à qual se articula.” AGUIAR T F R, “Jardim América, o subúrbio-jardim em versão brasileira”. Varia Historia No. 29 Janeiro 2003
https://static1.squarespace.com/static/561937b1e4b0ae8c3b97a702/t/572b57deab48deef0578501f/1462458334983/09_Aguiar%2C+Tito+Flavio+Rodrigues+de.pdf   

[7] PESCATORI C e FARIA R, op. cit, p.19.

[8] HALL P, op. cit. pp. 87, 93.

[9] PESCATORI C e FARIA R, op. cit, p.11.

[10] PESCATORI C e FARIA R, op. cit, p.13. 

[11] “The Big Plans That Built New York City”. Bloomberg, 02-02-2022, por John Surico
https://www.bloomberg.com/news/features/2022-02-02/how-new-york-s-master-planners-shaped-a-metropolis

[12] Id.

[13] HALL P (1992), Urban & Regional Planning. New York: Routledge, 1994, p. 127

[14] WIKIPEDIA, “New Towns Act” Edit 28-03-2023
https://en.wikipedia.org/wiki/New_Towns_Acts

[15] KOSTOF S, The City Shaped, “Introduction”. London: Thames and Hudson 1991, p. 12

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2023-03-29

domingo, 26 de março de 2023

Nova cidade, velho problema


Folha de S Paulo 10-03-2023
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/03/indonesia-avanca-no-projeto-de-construcao-de-nova-capital.shtml

Montagem: Àbeiradourbanismo
(..) Mais de 7.000 trabalhadores atualmente trabalham na futura capital com a construção de um novo palácio presidencial. O progresso no local chegou a apenas 8%, segundo o vice-gerente do projeto de construção do edifício, Budi Kurniawan. (..)

A decisão de mudar a capital para o coração da selva de Borneo se deve ao fato de que a superlotada e poluída Jacarta, localizada na ilha de Java, está afundando rapidamente. Previsões indicam que, em 2050, um terço da cidade poderá estar submersa. A capital, com cerca de 10 milhões de habitantes, ainda é propensa a severos terremotos.

Ambientalistas, no entanto, criticam o projeto. Segundo um relatório da Forest Watch Indonesia, organização não governamental que monitora a questão ambiental do país, "florestas produtivas" compõem a maioria da área em que será construída a nova capital, o que significa que licenças poderiam ser concedidas para atividades extrativas que levariam a mais desmatamento.

A região, lar de orangotangos, leopardos e diversos outros animais selvagens, também é ocupada por indígenas da etnia Balik. Pelo menos cinco aldeias com mais de cem indígenas estão sendo realocadas por causa da construção, e há a expectativa de que mais comunidades percam seus territórios com a expansão das obras. (..)

2023-03-26

quarta-feira, 22 de março de 2023

O tempo está correndo!


G1 Globo 20-03-2023
https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2023/03/20/saneamento-basico-100-milhoes-de-pessoas-nao-tem-rede-de-esgoto-e-falta-agua-potavel-para-35-milhoes.ghtml
Um levantamento divulgado nesta segunda-feira (20) mostra que, no Brasil, 100 milhões de pessoas não têm rede de esgoto e falta água potável para 35 milhões. (..) 16 dos 20 municípios com melhores condições estão no Sul e no Sudeste. São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, está no topo do ranking. Quase 100% da população dessas cidades tem água potável e coleta de esgoto, e o índice de tratamento é de 80%. Doze dos 20 piores estão no Norte e no Nordeste do país. Macapá teve a pior avaliação. São cidades onde a média de acesso à água é de 80%, a de coleta de esgoto é de menos de 30% e a de tratamento de 18%. O ranking é do Instituto Trata Brasil, com base nos indicadores de 2021 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. São analisados os 100 municípios brasileiros mais populosos.

Montagem: Àbeiradourbanismo. Foto: autoria n identificada

Já lá se vão 3 anos da instituição do Marco Legal do Saneamento, que tem por meta 90% de cobertura até 2033, e tudo indica que a situação só piorou. A propósito, republico a postagem de 29-07-2020, sobre matéria do Estadão intitulada "Marco do Saneamento: Sozinho não vai", veiculada pelo  Informe diário Sinduscon-Rio de 06-07-2020:


Ainda não há cadáver, mas o Estadão já está cuidando do álibi. Se fracassar a meta da privatização do saneamento - 90% de cobertura até 2033 -, a responsabilidade terá sido uma vez mais do próprio Estado, que não planejou as cidades tão sábia e eficientemente como fazem os empresários com seus negócios.

Por que, então, não entregar de uma vez os próprios governos à iniciativa privada, mediante licitações insuspeitas a cargo de consultorias de arbitragem?

De duas uma: ou daria certo, e ingressaríamos numa nova Golden Era de prosperidade privatista, ou daria errado e teríamos de concluir que já não há álibi possível: os robôs teriam, de acordo com as Leis de Asimov, de demitir o patronato e instaurar o governo planetário dos computadores quânticos.

Para bem da civilização.

2023-03-22

quarta-feira, 15 de março de 2023

Apontamentos: HURD 1903 - crescimento urbano axial e central

Última edição em 02-05-2023

HURD R M, "Excerpts on axial and central growth", extraído de Principles of City Land Values, New York: Record and Guide 1903, por JORGENSEN P.
https://docs.google.com/document/d/15g10RjkDmqBxl9onF5OPYvHBRrmGiE1A6McoKzBeSeE/edit?usp=sharing


Montagem: Àbeiradourbanismo
O que aqui apresento aos leitores é uma compilação de seções e passagens de Richard Hurd (Principles of City Land Values, 1903) sobre sua concepção de “crescimento urbano axial e central”.

Para além da imensa riqueza de observações históricas, geográficas, urbanísticas e até arquitetônicas que este profundo estudioso do parque imobiliário das grandes cidades estadunidenses de inícios do século XX tem a oferecer, e que justifica por si só a leitura atenta do material aqui reunido, o postulado de que o crescimento das cidades se dá necessariamente sob aquelas duas formas combinadas é, provavelmente, a mais instigante e profícua contribuição de Hurd ao estudo da organização espacial urbana.

Vejo-o como uma promissora pista para avançar no entendimento da relação entre “centro” e “periferia”, ou da estrutura tendencialmente radioconcêntrica da cidade moderna e contemporânea, cronicamente obscurecida pela noção intuitiva e geralmente aceita de que a cidade se expande a partir de um centro axiomaticamente estabelecido. 

Em sua obra magna de 1998 Espaço Intra-Urbano no Brasil [1] (Cap. 10, Os centros principais), Villlaça observou a impossibilidade lógica e histórica de um centro que pré-existe à sua própria periferia, e vice-versa, contradição que se apresenta já em 1925 na descrição feita por Burgess daquele que veio a ser conhecido como “o modelo de estrutura urbana em círculos concêntricos”:

Esta figura é uma representação ideal da tendência que tem toda cidade de se expandir radialmente a partir de seu distrito central de negócios – no esquema, ‘The Loop’ (I). [2] 

O problema reaparece, na década de 1960, no modelo alonso-thuneniano da economia espacial, tal como apontado pelo professor Correia da Silva, da Universidade do Porto, num trabalho de doutoramento do ano de 2004 intitulado “Space in Economics — A Historical Perspective”:

A relevância contemporânea do modelo de Von Thunen reside na sua adaptação à economia urbana, que permitiu o estudo da renda urbana e suburbana e da localização das famílias e atividades econômicas nas cidades. (..) A característica fundamental da economia urbana refletida no modelo é a necessidade que têm as famílias de ir ao centro para trabalhar usando um sistema radial de transportes. (..) Um defeito [fault] dessa abordagem é pressupor [it assumes] algo que está por ser explicado [we want to explain]: a existência do centro comercial urbano [urban central market].[3]

Com uma redundância que talvez não seja casual, Batty assim expressa, em recente artigo aqui divulgado sobre as cidades lineares, a fórmula geral de Burgess nos termos da economia espacial alonso-thuneniana:

“As cidades tendem a crescer ao redor de algum centro, em zonas concêntricas de uso do solo ordenadas de acordo com sua capacidade de pagar aluguel [ofertar renda], ligadas ao núcleo por meio de rotas radiais bem definidas que convergem para o centro”.[4]

Em contraste, e ainda que não se pretenda uma teoria da configuração radial-concêntrica da cidade moderna, o crescimento urbano simultaneamente “axial” e “central” a partir do ponto de origem postulado e descrito por Hurd em 1903 estabelece uma clara relação de reciprocidade e interdependência espacial, não valorada por ele em termos monetários mas inegavelmente econômica, entre o comércio de varejo e os residentes urbanos que dele dependem para se prover de bens e serviços. Trata-se, para os varejistas, antes de mais nada, de se agrupar no “lugar que mais convém aos clientes” para "assegurar-lhes que não deixarão de encontrar aquilo de que precisam".

O ponto de vista das firmas de varejo, neste caso, aponta para o que veio mais tarde a ser batizado na teoria econômica como “economia de aglomeração”, porém com um conteúdo distinto. Não se trata de externalidades positivas da concentração geográfica para as firmas individualmente consideradas, mas de benefícios coletivos diretos para o comércio de varejo agrupado no lugar mais conveniente ao conjunto das famílias do assentamento urbano: "os lojistas não se aglomeram para transacionar uns com os outros, mas para poupar aos seus potenciais fregueses os inconvenientes [custos diretos e indiretos] de buscar o que precisam em lojas dispersas pela cidade. O fato de uma loja atrair o freguês e outra fazer a venda tende a ser compensado, no longo prazo, pelo intercâmbio de fregueses”.

Significa que as famílias precisam residir o mais próximo possível do comércio tanto quanto as firmas precisam se estabelecer à menor distância agregada possível das famílias.

O assentamento dos residentes ao longo dos eixos radiais e suas adjacências, sempre o mais próximo possível do centro da rede, e a aglomeração dos varejistas no assentamento original e segmentos radiais contíguos aparecem, portanto, como manifestações economicamente interrelacionadas do mesmo fenômeno quintessencialmente urbano da aglomeração em geral. Toda a cidade é aglomeração.

Vale recuperar aqui a noção hurdiana de “crescimento urbano simultaneamente axial e central, em todas as direções a partir do ponto de origemnão do centro da cidade, que ainda está por se formar. A formação do centro urbano como desdobramento histórico do assentamento resulta de um processo de “contínua especialização nos negócios e diferenciação nas classes sociais”, que começa com “a separação de comércio e residência”, originalmente unidos em edificações de altos e baixos agrupadas junto aos elementos primordiais: embarcadouros, encruzilhadas, travessias fluviais etc. Ao passo que “mesmo nos menores povoados é vantajoso para as poucas lojas existentes estar aglomeradas”, as novas residências buscam a periferia imediata do assentamento, "onde os preços do solo são mais baixos", porém à menor distância possível dos comércios “para que os lojistas possam se deslocar a pé até o trabalho”. "Com o crescimento da cidade, a tendência é a concentração dos negócios no núcleo comercial e a dispersão periférica das residências ao longo dos eixos radiais. Toda expansão periférica será acompanhada de uma correspondente adaptação do centro de negócios."

Esses fragmentos reunidos compõem uma razoável descrição de como se dá o processo de especialização espacial pelo qual as residências formam a(s) periferia(s) urbanas e os negócios o centro e os subcentros. 

Aqueles dois tipos interrelacionados de economia de aglomeração poderiam, consequentemente, ser ditos primários, de natureza 100% social, explicativos da configuração geral e da dinâmica expansiva das cidades modernas, ao passo que as economias de aglomeração descritas e estudadas no âmbito da economia neoclássica, como os benefícios privados do agrupamento de fábricas em distritos especializados, do varejo em shopping centers e dos bancos no centro financeiro, seriam formas específicas que poderíamos considerar secundárias, ou derivadas. A metrópole capitalista não surgiu da fábrica, do shopping center, nem da Bolsa: tipicamente, ela expandiu e reconstruiu, de acordo com suas necessidades, a própria "cidade moderna", definida por Park como sendo, antes de tudo, um “lugar de trocas, que nasceu e cresceu ao redor do mercado”. [5]

A propósito, cabe registrar aqui a forma como Borrero Ochoa (2018), com base em Camagni, descreve a relação entre o "princípio da aglomeração" e o desenvolvimento das cidades: 

“O princípio da aglomeração nasce nas aldeias rurais e povoados que vivem dos camponeses ou agricultores da região. (..) aos domingos, dia de descanso, o comércio e praças de mercado desses povoados se abrem para que os habitantes rurais venham comprar alimentos, insumos agrícolas e buscar serviços de saúde ou mecânica automotriz. (..) Assim se desenvolve uma cidade a partir de um pequeno povoado dotado de certa dinâmica econômica. [6]

A hipótese de uma relação quantitativa, vale dizer monetária, entre aqueles dois tipos interdependentes de economias de aglomeração teria, naturalmente, de levar em conta a parte dos rendimentos das famílias e do lucro das firmas de varejo que a propriedade da terra reclama como renda de aluguel, aquela tanto maior quanto menor a distância ao núcleo varejista, portanto inversamente proporcional ao custo de deslocamento, e esta tanto maior quanto menor a distância agregada ao conjunto das famílias residentes, vale dizer mais próximo do centro geométrico da rede. Não tenho a pretensão de desenvolvê-la. Basta-me aqui referir que a redução do poder de consumo dos residentes por aumento de distância ao centro comercial, e consequente gasto de transporte, além de imediatamente dedutível dos efeitos de curto prazo das políticas contemporâneas de “tarifa zero” nos transportes urbanos, é uma restrição logicamente inquestionável da teoria dos lugares centrais de Christaller (1933):

"Assim, um consumidor que tenha de se deslocar a um lugar central para adquirir um bem terá menos dinheiro disponível do que um que viva no próprio lugar central, porque tem de pagar o custo do transporte. Ficará, assim, sujeito a comprar menos. Este efeito de fricção da distancia, causado pelo custo do transporte (pressuposto 1) provoca o decréscimo da procura com a distância ao lugar central." [7]

O postulado hurdiano do “crescimento urbano em todas as direções, simultaneamente axial e central”, parece reforçar a hipótese, avançada em artigo já publicado neste blog, [8] de que a estrutura da grande cidade moderna é um arranjo sócio-espacial derivado da disputa incessante entre consumidores e fornecedores por vantagens individuais de localização, sim, de tal maneira, porém, que à economia coletiva do “crescimento residencial axial regulado pelo princípio da [máxima] acessibilidade”, que traduzo como mínimo custo generalizado de deslocamento ao(s) aglomerados(s) comercial(is), corresponde, descontado o montante pago em aluguéis, o benefício coletivo do “crescimento central dos negócios regulado pelo princípio da [máxima] contiguidade [proximity]", que se traduz em menor distância agregada ao conjunto das famílias.

Das vantagens recíprocas, indicadas por Hurd, da localização relativa das famílias e firmas na cidade em expansão, vale dizer do crescimento urbano simultaneamente “axial” e “central”, podemos derivar a hipótese de que a configuração tendencialmente radial-concêntrica das cidades modernas resulta de um princípio de economia de aglomeração generalizado e socialmente construído, algo como o yin-yang da cidade capitalista, em que o “crescimento axial” é a forma de aglomeração própria dos residentes, que minimiza os custos coletivos de deslocamento, e o “crescimento central” a forma de aglomeração própria das firmas, que converte a economia coletiva das famílias em lucros comerciais (e industriais), primeiro sob a forma elementar da maximização das vendas de varejo e, logo, sob a forma complexa da maximização da mão de obra disponível ao mínimo custo de transportes, vale dizer do barateamento relativo da força de trabalho.

fundamento da configuração tendencialmente radio-concêntrica da cidade capitalista madura não é, portanto, a renda do solo, mas o próprio processo de produção-distribuição-consumo de bens e serviços. As famílias se aglomeram o mais próximo possível dos fornecedores e empregadores, e estes o mais próximo possível do conjunto das famílias, para obter o maior benefício, respectivamente, de seu trabalho e de seu capital - sujeitando-se, por conseguinte, a pagar mais aluguel. Espécie de imposto privado sobre o privilégio de ocupar as localizações urbanas mais centrais e proveitosas, a renda, ou preço, da terra urbana opera, como eficazmente demonstrado pelo modelo alonso-thuneniano da distribuição dos distintos usos, como dispositivo de medição e regulagem de sua escassez constitutiva. 

Dado que a produção de riqueza na formação social capitalista supõe, e é tanto maior quanto maior for o consumo de mercadorias, materiais e imateriais, segue-se que a aglomeração radial-periférica dos residentes urbanos ao redor da aglomeração central dos varejistas e prestadores de serviços ou, mais simplesmente, a configuração tendencialmente radioconcêntrica das cidades em expansão, é, em si mesma, um dispositivo espacial facilitador e acelerador do processo de acumulação do capital em geral, uma máquina de economia social a seu serviço, sobre a qual irá se desdobrar, diversificar e expandir - a ponto de produzir o seu contrário, vultosas deseconomias sociais - a organização espacial intrinsecamente desigual da grande metrópole contemporânea. 
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NOTAS

[1] VILLAÇA Flavio, Espaço Intra-Urbano no Brasil. FAPESP São Paulo 2001

[2] BURGESS E W, “The Growth of the City: An Introduction to a Research Project", em PARK R E, BURGESS E W e MCKENZIE R D, The City: Suggestions for Investigation of Human Behavior in the Urban Environment, The University of Chicago Press, 1984: Chicago e Londres, p. 50.
http://shora.tabriz.ir/Uploads/83/cms/user/File/657/E_Book/Urban%20Studies/park%20burgess%20the%20city.pdf

[3] CORREIA da SILVA J (2004), "Space in Economics — A Historical Perspective".
https://www.fep.up.pt/docentes/joao/material/space.pdf

[4] BATTY M, "The Linear City: illustrating the logic of spatial equilibrium". Comput.Urban Sci. 2, 8 (2022)
https://link.springer.com/article/10.1007/s43762-022-00036-z

[5] PARK R E, “The City: Suggestions for Investigation of Human Behavior in the Urban Environment”, em  PARK R E, BURGESS E W e MCKENZIE R D, The City. The University of Chicago Press, 1984: Chicago e Londres, p.12.
http://shora.tabriz.ir/Uploads/83/cms/user/File/657/E_Book/Urban%20Studies/park%20burgess%20the%20city.pdf

[6] BORRERO OCHOA O, Economía Urbana y Plusvalia del Suelo. Bogotá: Bhandar Editores 2018, p. 65.

[7] [BRADFORD M G e KENT W A, Geografia Humana e Suas Aplicações (Tradução do Departamento de Geografia e Planeamento Regional da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Supervisão de Raquel Soeiro de Brito e Paula Bordalo Lema)

[8] JORGENSEN P, “Distância, aglomeração, centralidade: uma hipótese”. À beira do urbanismo  (blog) 08-03-2021

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Sobre este mesmo tema, leia também neste blog: “Distância, aglomeração, centralidade: uma hipótese” (08-03-2021)

2023-03-15

quarta-feira, 1 de março de 2023

Traçado ortogonal, cidade radial

Última edição em 30-07-2023

The Economist 20-12-2022
https://www.economist.com/interactive/christmas-specials/2022/12/20/the-decline-of-the-city-grid

Montagem: Abeiradourbanismo
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Esse artigo, como tantos outros dedicados ao tema fascinante da urbanização em grade ortogonal, também chamada malha hipodâmica, discute o seu objeto como se as estruturas espaciais urbanas fossem meras opções projetuais: “no último século a quadrícula saiu de moda”.

Um loteador poderá optar, de acordo com a preferência e o poder de compra de seus clientes, entre diversos tipos de traçado. Mas as circunstâncias que geraram o grid de Chicago nada têm a ver com critérios projetuais de urbanismo, preferências do consumidor ou modismos, embora o confirmem como o sistema mais simples e rentável de parcelamento e comercialização do solo: para financiar o Estado recém-criado, a Lei de Terras estadunidense de 1785 (Land Ordinance) dividiu os territórios do Oeste, ainda nem bem conquistados e essencialmente desconhecidos, em townships de 6x6 milhas, subdivididas em 36 sections parceláveis e renegociáveis de 1x1 milha, de modo a facilitar a venda de propriedades agrícolas a colonos nacionais e estrangeiros. Com referência ao uso urbano, que veio a se tornar um maná especulativo, diz a Britânnica de 1963: “Sua vantagem particular era que uma nova cidade podia ser planejada nos escritórios das imobiliárias do Leste e as terras vendidas sem que nem comprador nem vendedor tivessem nunca visto o lugar". [1]

Apesar de generalizado nos Estados Unidos desde o início do século XIX, o uso da malha urbana ortogonal pela indústria da urbanização tem raízes mais antigas e menos plebeias. Em seu clássico La Ciudad en la Historia, Mumford observa que
Stuttgart 1794, Edimburgo 1773, Berlim 1789
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El único hecho que lo hace [este tipo de trazado urbano] más notorio en los Estados Unidos que en el Viejo Mundo es la ausencia, excepto en zonas como las de los establecimientos iniciales de Boston y Nueva York, de tipos anteriores de planificación urbana. A partir del siglo XVII, las extensiones de ciudades occidentales, tanto en Stuttgart y Berlín como en Londres y Edimburgo, se hicieron del mismo modo, excepto donde antiguos cursos de agua, caminos o límites de campos habían establecido líneas que no era fácil anular. (..) Estos planos servían únicamente para una rápida división de la tierra, una rápida conversión de solares en lotes y una rápida venta. La carencia misma de adaptaciones más específicas al paisaje o a las necesidades humanas solo aumentaba, por su misma imprecisión e indeterminación, su utilidad general para el mercado. [1a] 

O que, por outro lado, não se pode deixar de observar, e que os textos sobre a grade ortogonal em geral desconsideram, é o fato de que a "economia da ocupação do solo", tão bem descrita pelo articulista, que fez da grade ortogonal o traçado padrão da moderna urbanização de mercado, é obrigada por essa mesma urbanização de mercado a coexistir com estruturas de acessibilidade urbana de tipo radial-concêntrico derivadas da “economia da localização” - como representada, por exemplo, no modelo geral da distribuição dos usos do solo na metrópole contemporânea, sintetizado por William Alonso na década de 1960. [1b]

Imagem: Àbeiradourbanismo

Essa relação nem sempre amigável entre as estruturas espaciais da apropriação/ocupação do solo para fins urbanos - que remontam aos primórdios das cidades e variam significativamente conforme a época e o lugar - e da moderna acessibilidade urbana - que são essencialmente as mesmas em todo o planeta - constitui a meu juízo um aspecto capital e inescapável do urbanismo de nosso tempo. 
Em artigo recente, escrevi:

 “(..) As forças que regem a organização sócio-espacial das metrópoles modernas não se subordinam, apenas se adaptam na medida da necessidade, aos traçados pré-existentes. A "economia da localização" se sobrepõe mais ou menos despoticamente à "economia da ocupação" segundo regras que lhe são próprias. As leis da organização sócio-espacial urbana são as mesmas, e seus efeitos análogos, na cidade radiocêntrica de Porto Alegre e nos vastos reticulados de Barcelona e Chicago. (..)” [2]


Corrijo-me, agora: as leis da “economia da localização urbana” são as mesmas em todas as cidades modernas, vale dizer construídas pela economia de mercado, mas os efeitos de sua coexistência com as regras da "economia da ocupação do solo” variam - segundo a resistência que esta última lhes ofereça. Em 1903, Hurd postulou tal relação nos seguintes termos: as cidades crescem em todas as direções a partir do ponto de origem salvo quando obstaculizadas pela topografia ou pela estrutura da propriedade fundiária pré-existente. [3] Na década de 1920, Burgess reafirmou o postulado acrescentando, como fatores de resistência, eventuais elementos construídos (ferrovias, aquedutos) e, muito importante, as próprias comunidades previamente assentadas no território. [4] 
Falta acrescentar um aspecto capital: os planos reguladores.

Se defrontadas por um rígido plano regulador de urbanismo, como em Brasília, as leis da economia da localização impor-se-ão à metrópole em expansão como coroa exterior de cidades satélites. 
Brasília - Plano Piloto e cidades satélites
Montagem: Àbeiradourbanismo
  


Montagem: Àbeiradourbanismo
Em face de uma grade parcelária pré-estabelecida, como no caso de Chicago, o arruamento e o reparcelamento do solo para fins urbanos acompanharão a grade e a preferência locacional dos usos residenciais recairá, como observou Burgess num texto de 1929,[5] sobre as principais artérias ortogonais de acesso ao centro de negócios, com a desvalorização relativa dos lotes urbanos situados nas direções diagonais. 
Por esse exato motivo, observou Burgess no mesmo texto, as manchas urbanas de cidades de planície do Meio-Oeste dos EUA tenderam a se expandir em forma de cruz de malta. Nos dois casos citados, Ft. Worth e Columbus, o próprio grid parece ter sido ajustado para deixar aos obstáculos geográficos as direções diagonais. 

Esse efeito é particularmente nítido na expansão das cidades argentinas nascidas do processo de colonização agrícola do Pampa Bonaerense na segunda metade do século XIX, como Chivilcoy, situada a 160km de Buenos Aires. Como mostra o mapa de Qualidade da Vida Urbana de DICROCE et al, [5a] Chivilcoy, com cerca de 56 mil habitantes em 2010, se expande ao longo das ortogonais principais de acesso ao Centro muito mais rapidamente do que nas direções diagonais, inclusive no que tange às quadras de maior qualidade de urbanização, consequentemente de maior rendimento familiar. A expansão da urbanização de melhor qualidade ao norte deriva,
Acréscimos e montagem: Àbeiradourbanismo
provavelmente, da proximidade da Estação Rodoviária, que desde 1975 dá acesso à capital em substituição à Estação Ferroviária Norte. Para as camadas empobrecidas, a acessibilidade ao centro urbano proporcionada pelos prolongamentos das ortogonais principais aparece aqui como determinante absoluto, a despeito da maior distância. A concentração de quadras de urbanização precária a sudeste, por sua vez, estaria relacionada à presença da Estação Ferroviária Sul, que serve a um ramal destinado ao transporte de cargas. 
Na ilustração acima, construída sobre o mapa original de DICROCE et al, são perceptíveis dois aspectos da expansão tendencialmente radio-concêntrica da cidade contemporânea: (1) a distribuição decrescente dos padrões de urbanização e rendimento familiar por coroas circulares e gradientes de preços da terra resultantes; (2) a formação de um “cone de altos rendimentos” [5b] para além do núcleo fundacional na direção norte. A singularidade que distingue Chivilcoy das cidades de crescimento "orgânico" é a ocupação da totalidade (180 graus) do núcleo fundacional pelas famílias de mais altos rendimentos, produto da enorme diferença histórica de padrão de urbanização relativamente ao seu entorno.

Na Barcelona de Cerdà, a comunicação direta e projetualmente privilegiada da cidade medieval-renascentista com a Vila de Gràcia determinou tanto 
Montagem: àbeiradourbanismo
a formação do corredor principal de acesso ao novo centro de negócios (Plaça de Catalunya / Portal de l'Àngel) quanto
 a preferência da localização residencial: o Passeig de Gràcia e a Rambla de Catalunya eram os endereços das mais importantes residências burguesas da primeira metade do século 20. Décadas mais tarde, a cidade radial-concêntrica se manifestaria em sua plenitude, como em todas as demais metrópoles, na configuração de seu sistema de Metrô.


Tal como as redes ferroviária e metroviária, o sistema rodoviário principal da grande metrópole também tende a apresentar a disposição radial-concêntrica determinada pelo princípio geral da menor distância, ou, mais exatamente, da maior acessibilidade das localizações residenciais ao centro urbano principal - superposto, por meio de obras públicas de 
grande envergadura, ao arruamento legado pelos ciclos de parcelamento e ocupação privada do solo que o precederam. [6] 
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Na ausência de ocupação prévia, de obstáculos físicos naturais e construídos, de grandes propriedades e de institutos reguladores, a urbanização de mercado imporá o princípio
Porto Alegre 1928 - linhas de bonde
geral
dos gradientes de custo-distância na forma “pura” da expansão radial-concêntrica – caso clássico da Porto Alegre de inícios do século XX. Abrindo-se em leque para ocupar toda a “coroa de 180 graus de terra firme disponível para a expansão urbana” [6a], a capital pós-colonial formou uma rede orgânica de vias radio-circunferenciais que ensejou a criação, no terceiro quarto do século XX, tanto de seu sistema de vias perimetrais quanto da região de planejamento batizada “cidade radiocêntrica”.

*

Um caso singular de adaptação da estrutura radial-concêntrica às redes urbanas herdadas do passado é o centro comercial e de negócios. Devido às vantagens econômicas da aglomeração, os negócios tendem a se beneficiar da ocupação dos arruamentos pré- ou proto-modernos, mais ou menos irregulares, mas altamente concentrados. Nas palavras de Hurd: 

"Há quem pense que quanto mais larga mais valorizada é a rua, devido à maior capacidade de tráfego. Mas em uma rua comercial, a largura é praticamente irrelevante (..). A pouca largura facilita o intercâmbio entre os dois lados, o que é de alguma forma vantajoso para os negócios quando não implica em limitação à altura dos edifícios". [7]
Boston 1814 (esq, acima), Boston CBD 1896 (esq abaixo) e Devonshire St atual (dir)
Essa propriedade dos arruamentos herdados do passado pré- ou proto-capitalista das metrópoles contemporâneas suscita uma interessante questão: serão os traçados regulares das cidades ex novo, com amplas avenidas centrais, ruas largas e baixa densidade construída um fator historicamente inibitivo do desenvolvimento de suas aglomerações comerciais e, por extensão, da própria economia urbana? 

Cruzamento da Av Soárez com Alvear, centro comercial de Chivilcoy, Argentina
Imagem Google 07-2023 

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Fonte: Hurd 1903
De um modo geral, a configuração espacial da metrópole contemporânea pode ser descrita como uma malha radial-concêntrica irregular e desigual “preenchida” por uma colcha de retalhos de parcelamentos reticulados de distintos tamanhos e padrões projetuais, tendo ao centro, ou em área contígua ao centro de negócios, remanescentes das cidades pré- e proto-capitalistas. 

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Retornando ao artigo, a ideia de que “o grid está em declínio” me parece uma dedução meramente circunstancial relacionada, se tanto, às práticas correntes da indústria estadunidense dos loteamentos suburbanos - que orientam a parte final do texto. Relativamente a qualquer outro país, o grid não pode estar em declínio nos EUA: ele é o marco regulador, indelével e indestrutível até onde alcança a perspectiva histórica, de seu singular processo de urbanização, simbolizado nas icônicas imagens de aglomerados de arranha-céus em meio a vastos reticulados urbanos de baixíssima densidade.

Ft. Worth, Texas, década de 1950

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NOTAS

[1] Britannica 1963 V 5 p 816, “City Planning”

[1a] MUMFORD L (1961), “Capítulo XIV - Expansión Comercial y Disolución Urbana, 4. Los especuladores y el trazado de la ciudad”. La Ciudad en la Historia, Logroño (Esp): Pepitas de calabaza Ed., pp.701-709. [300-304 no link abaixo]
https://istoriamundial.files.wordpress.com/2013/11/la-ciudad-en-la-historia_lewis-mumford.pdf

[1b] ABRAMO P (2001) Mercado e Ordem Urbana: do caos à teoria da localização residencial. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil 2001, pp. 65-87

[2] JORGENSEN P, “Porto Alegre cidade radiocêntrica (1)”. À beira do urbanismo (blog) 09-04-2019. https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2019/04/porto-alegre-cidade-radiocentrica-1.html

[3] HURD R M, Principles of City Land Values. New York, Record and Guide 1903
https://archive.org/.../principlesofcity.../page/n4/mode/1up

[4] BURGESS E W, “The Growth of the City: An Introduction to a Research Project", em BURGESS, E W e PARK R E, The City:Suggestions for Investigation of Human Behavior in the Urban Environment, The University of Chicago Press, 1984: Chicago e Londres
http://shora.tabriz.ir/Uploads/83/cms/user/File/657/E_Book/Urban%20Studies/park%20burgess%20the%20city.pdf

[5] BURGESS E W, "Urban Areas", em SMITH e WHITE, Chicago, An Experiment in Social Sciences Research, Chicago: University of Chicago Press 1929, pp 113-138

[5a] DICROCE L et al 2008, “Implementación de un Modelo de Calidad de Vida Urbana (MCVU). Caso de estudio: Chivilcoy”. IDEHAB, Universidad Nacional de La Plata.
http://sedici.unlp.edu.ar/handle/10915/94194

[5b] SABATINI F (2003),”La segregación social del espacio en las ciudades de América Latina”. Documentos del Instituto de Estudios Urbanos y Territoriales, Serie Azul Nº 35, Julio 2003, p. 25.

[6] JORGENSEN P, “Porto Alegre cidade radiocêntrica (1)”. À beira do urbanismo (blog) 09-04-2019. https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2019/04/porto-alegre-cidade-radiocentrica-1.html

[6a] [4] VILLAÇA F, Espaço Intra-Urbano no Brasil Cap 5 “A estrutura urbana básica”, p. 132.

[7] HURD R M, Principles of City Land Values. New York, Record and Guide 1903
https://archive.org/.../principlesofcity.../page/n4/mode/1up


2023-02-22