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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O capital no séc XXI: rendas pra que te quero!

Postagem originalmente publicada em Uma estranha e gigantesca ave sobre Barcelona (blog) em 11-10-2026

Linkedin 16-01-2026, por Nicolas Gold, Univ. of California, College of the Law, S Francisco
https://www.linkedin.com/pulse/rent-economy-just-annoying-dangerous-nicolas-gold-ebrpc

The Rent Economy Is Not Just Annoying. It Is Dangerous

Imagem: LinkedIn / Nicolas Gold
A growing share of the modern economy, especially online, is shifting from value creation to rent extraction. This is often described as a consumer problem: subscriptions instead of ownership, rising fees, limited choice, and the sense that you are never finished paying.

That description is accurate, but incomplete. The deeper problem is macroeconomic. An economy increasingly organized around rents rather than productivity is structurally hostile to long-term growth.

For individuals, the shift is obvious. Software is rented, not bought. Media is licensed, not owned. Platforms charge for access to markets, audiences, and even visibility. Switching costs rise quietly. Prices increase incrementally. Exit becomes expensive.

This is not primarily because products are improving faster. It is because control over access has become the business model.

In economic terms, rents are returns above competitive levels. They arise not from creating new value, but from controlling scarce assets, choke points, or barriers to entry. In today’s economy, those assets are often digital: platforms, networks, data, standards, and ecosystems that others must pass through to participate.

Because rents are captured without proportional new output, they are redistributive by design. Income flows upward to asset owners and intermediaries rather than being shared through wages, competition, or lower prices.

At this point, it is useful to draw an uncomfortable comparison. Economically, rents and taxes share a basic similarity: both are compulsory payments that reduce disposable income and shape behavior. The difference is not how they are experienced, but how they are justified. Taxes earn legitimacy when they are predictable, rule-based, and used to finance public goods and long-term capacity. Rents offer no such justification. They are extracted privately, without accountability, reciprocity, or obligation to reinvest in collective welfare. That is precisely why erratic, toll-like charges feel so corrosive, and why societies that rightly scrutinize taxes should be at least as skeptical of private rent extraction, which often imposes comparable costs with far fewer benefits.

Over time, the consequences are predictable. Income concentration weakens demand, as a growing share of earnings accrues to those least likely to spend it. Investment shifts toward defending moats rather than improving productivity. Capital rewards lock-in, leverage, and control more than innovation. Competition erodes. Entry slows. Innovation still occurs, but its gains diffuse more slowly and are increasingly captured by gatekeepers.

The economy may continue to show profits and even headline growth. But that growth is increasingly the result of reallocating existing surplus rather than expanding it.

Digital markets amplify these dynamics. Network effects favor winner-take-most outcomes. Data advantages compound. Marginal costs fall, but prices remain sticky. Platforms begin to resemble private market governors, setting terms rather than competing on them.This is why rent-based systems often appear stable and successful until they are not. They can sustain high profits and concentration for long periods while quietly eroding the foundations of broad-based growth. When adjustment finally comes, it does not arrive as a gentle correction. It arrives as slower growth, rising instability, and abrupt efforts to reassert control over systems that have already hardened. By then, the costs of unwinding them are far higher than the costs of preventing them.

The shift toward rents is therefore not just a consumer grievance. It is a system-level warning. An economy that prioritizes extraction over creation does not merely frustrate individuals. It undermines its own capacity to endure.

[destaques À beira do urbanismo]

2026-10-14

domingo, 4 de outubro de 2026

Associação Internacional da Moradia Social !!

The Guardian 30-09-2026
https://www.theguardian.com/world/2026/sep/30/how-europes-housing-crisis-is-fuelling-a-new-movement


How Europe’s housing crisis is fuelling a new movement

Foto (detalhe) Javier Soriano / AFP / O Globo

(..) It was billed as one of the largest real-estate events in Europe, attracting as many as 15,000 people ranging from investment firms to developers. But as the District trade show and summit got under way last week in Madrid, housing campaigners from 140 organisations across the globe turned up, intent on holding their own “counter-summit” to push back against the idea of housing as a financial asset.

(..) At the Madrid counter-summit, campaigners launched a pan-European alliance to demand indefinite rental contracts and rent control across the continent. Earlier this month, dozens of organisations launched the European Citizens’ Initiative, calling on people to sign their petition for EU-level measures to protect tenants, curb speculation and convert empty buildings into homes. “In every European country, in every major survey, and across all age groups, housing emerges as the number one concern of citizens,” the initiative notes. “We see and feel it every day: workers who can no longer afford the city they build, young people who cannot leave their parents’ home, tenants pushed out of their neighbourhoods after renovation, empty buildings while people sleep on the street.


2026-10-04

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Financeirização e renda do solo: aula prática

Isto É Dinheiro 22-08-2026 / Redação
https://istoedinheiro.com.br/mercado-luxo-imobiliario-sp-atinge-90-mil-metro-quadrado

Mercado de luxo imobiliário em SP atinge R$ 90 mil por m²

Foto: Isto É Dinheiro 
O mercado imobiliário de altíssimo padrão da cidade de São Paulo estabeleceu um novo patamar histórico de preços. O valor do metro quadrado em empreendimentos ultra-exclusivos alcançou a marca de R$ 90 mil, consolidando uma trajetória de valorização que acumula alta de 181,3% desde as fases iniciais de lançamento. Um dos maiores exemplos desse movimento é o projeto 280 ART Boulevard, da Benx, onde a referência inicial do metro quadrado saltou de R$ 32 mil para os atuais R$ 90 mil, registrando rentabilidade anualizada de 25,8%.

Essa escalada expressiva evidencia uma mudança fundamental no perfil e nas motivações de compra dos investidores de alta renda. A precificação tradicional por metro quadrado perde espaço para a valoração de ativos que não podem ser replicados. Elementos como grandes dimensões territoriais na malha urbana já adensada, afastamento arquitetônico em relação às vias públicas e vistas panorâmicas permanentes tornaram-se os reais vetores de precificação.

A dinâmica desse nicho opera à margem dos solavancos da macroeconomia tradicional. Enquanto os segmentos de média e baixa renda sofrem os impactos da Selic e do custo do financiamento habitacional bancário, o público do ultra-luxo atua predominantemente com capital próprio. Essa característica protege as incorporadoras focadas no nicho contra taxas de inadimplência e garante uma liquidez acelerada nas fases de pré-lançamento.

Analistas ressaltam, contudo, que os percentuais de valorização refletem o avanço nominal dos preços de tabela das incorporadoras. Eles não configuram retorno líquido imediato para o investidor individual, uma vez que não descontam a inflação do período, a incidência de impostos (como o ITBI e Ganho de Capital), emolumentos cartorários e custos de manutenção do imóvel.

Orientações Práticas para Imóveis de Ultra-Luxo

Para investidores que buscam preservação de patrimônio ou valorização de capital no segmento de altíssimo padrão em São Paulo, é necessário adotar critérios rigorosos antes da alocação:
  • Mapeamento de Escassez Irreplicável: Dê preferência a projetos situados em terrenos com metragens difíceis de serem reunidas novamente na cidade (como eixos Jardins, Itaim Bibi, Faria Lima e Vila Nova Conceição) ou que possuam vista definitiva para áreas protegidas/parques.
  • Cálculo do Retorno Real Liquido: Ao projetar a rentabilidade, deduza do ganho nominal o imposto sobre ganho de capital (de 15% a 22,5%), o ITBI (3% em São Paulo), as taxas de intermediação imobiliária e o custo de carregamento (condomínio e IPTU) durante o período de vacância.
  • Análise do Perfil das Incorporadoras: Verifique se o projeto possui estrutura de “torre boutique” com poucas unidades, garantia de baixa concorrência interna para futuras revendas e liquidez pré-testada na fase de pré-lançamento.
  • Comparativo com Fundos Imobiliários (FIIs): Avalie o custo de oportunidade entre a aquisição direta do imóvel físico (menor liquidez, maior barreira de entrada) e a compra de cotas de FIIs com portfólios corporativos prime, que oferecem isenção de imposto de renda sobre proventos para pessoas físicas [Destaques PJ]
2026-09-02

domingo, 22 de março de 2026

A financeirização de tudo desde 1870

JORDÀ O et al., “The Rate of Return on Everything, 1870–2015". Federal Reserve Bank of San Francisco, 2017
https://www.frbsf.org/wp-content/uploads/wp2017-25.pdf

Clique na imagem para ampliar

Abstract

This paper answers fundamental questions that have preoccupied modern economic thought since the 18th century. What is the aggregate real rate of return in the economy? Is it higher than the growth rate of the economy and, if so, by how much? Is there a tendency for returns to fall in the long-run? Which particular assets have the highest long-run returns? We answer these questions on the basis of a new and comprehensive dataset for all major asset classes, including—for the first time—total returns to the largest, but oft ignored, component of household wealth, housing. The annual data on total returns for equity, housing, bonds, and bills cover 16 advanced economies from 1870 to 2015, and our new evidence reveals many new insights and puzzles. Keywords: return on capital, interest rates, yields, dividends, rents, capital gains, risk premiums, household wealth, housing markets.

(..)

Major findings. We summarize our four main findings as follows.
1. On risky returns, r risky
Until this paper, we have had no way to know rates of return on all risky assets in the long run. Research could only focus on the available data on equity markets (Campbell, 2003; Mehra and Prescott, 1985). We uncover several new stylized facts. In terms of total returns, residential real estate and equities have shown very similar and high real total gains, on average about 7% per year. Housing outperformed equity before WW2. Since WW2, equities have outperformed housing on average, but only at the cost of much higher volatility and higher synchronicity with the business cycle. The observation that housing returns are similar to equity returns, yet considerably less volatile, is puzzling. Diversification with real estate is admittedly harder than with equities. Aggregate numbers do obscure this fact although accounting for variability in house prices at the local level still appears to leave a great deal of this housing puzzle unresolved. Before WW2, the real returns on housing and equities (and safe assets) followed remarkably similar trajectories. After WW2 this was no longer the case, and across countries equities then experienced more frequent and correlated booms and busts. The low covariance of equity and housing returns reveals significant aggregate diversification gains (i.e., for a representative agent) from holding the two asset classes. Absent the data introduced in this paper, economists had been unable to quantify these gains.
One could add yet another layer to this discussion, this time by considering international diversification. It is not just that housing returns seem to be higher on a rough, risk-adjusted basis. It is that, while equity returns have become increasingly correlated across countries over time (specially since WW2), housing returns have remained uncorrelated. Again, international diversification may be even harder to achieve than at the national level. But the thought experiment suggests that the ideal investor would like to hold an internationally diversified portfolio of real estate holdings, even more so than equities.
2. On safe returns, r safe
(..)
2026-03-22

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Fictitious capital, real estate

Times Brasil 05-02-2026, por Cauê Rigmonti
https://timesbrasil.com.br/brasil/investigacao-revela-uso-de-terras-de-ronaldinho-para-inflar-ativos-do-banco-master/

Investigação revela uso de terras [*] para inflar ativos do Banco Master

(..) As investigações indicam que o Banco Master atuava por meio do Fundo City 02 — veículo no qual era o único cotista — para conceder empréstimos a empresas. Na sequência, essas companhias transferiam a maior parte dos recursos para fundos geridos pela Reag Investimentos, instituição que, assim como o Master, foi posteriormente liquidada pelo Banco Central.


Uma parte relevante dessas operações tinha início com a emissão de CRIs, títulos bastante utilizados no mercado de capitais. Esses papéis são estruturados a partir de créditos do setor imobiliário, como financiamentos ou receitas futuras de aluguel, que são agrupados e transformados em instrumentos de renda fixa.

Na prática, o mecanismo permite antecipar recursos para projetos imobiliários. As empresas recebem o capital imediatamente para viabilizar obras, enquanto os investidores que compram os CRIs são remunerados com juros ao longo do tempo.

Em agosto de 2023, a Base Securitizadora — citada nas investigações envolvendo o Banco Master — estruturou uma emissão de R$ 330 milhões em CRIs em favor da S&J Consultoria. Como garantia, foram apresentadas notas comerciais vinculadas ao desenvolvimento de áreas em Porto Alegre (..)

No sistema financeiro, o volume de ativos é um dos principais indicadores de solidez e capacidade de alavancagem. Ao registrar esses títulos como parte do patrimônio de seus fundos, o grupo elevava artificialmente seus números, apresentando ao mercado e aos reguladores uma estrutura patrimonial mais robusta do que a sustentada por ativos reais ou de alta qualidade.

Para os investigadores, o objetivo da estratégia seria fortalecer os indicadores do Banco Master, ampliando sua atratividade junto a investidores e reforçando sua imagem de solidez, ainda que os recursos circulassem internamente, sem impacto concreto na economia. Nesse contexto, os terrenos funcionariam apenas como elemento formal para viabilizar a captação.

Enquanto os CRIs eram negociados no mercado financeiro e inflavam os balanços da instituição, as áreas permaneciam sem obras ou qualquer tipo de desenvolvimento.

As empresas citadas nas apurações são alvo de investigações da Polícia Federal e foram atingidas por mandados autorizados pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o magistrado, o volume total de CRIs emitidos pela Base Securitizadora sob suspeita alcança aproximadamente R$ 1 bilhão. (..)

2026-02-22

____
[*] As referências ao ex-atleta Ronaldinho Gaúcho foram aqui propositalmente omitidas para que o sensacionalismo não desvie o foco do assunto - uma relevante descrição das engrenagens da indústria de produtos financeiros e sua relação com os imóveis em geral e a renda do solo urbano em particular.


domingo, 28 de dezembro de 2025

Capitalismo (parasitário) de rendas

Vida Imobiliária / Notícias 23-12-2025, por Felipe Ribeiro https://vidaimobiliaria.com/noticias/investimento/investimento-imobili%C3%A1rio-global-dever%C3%A1-aumentar-15-no-pr%C3%B3ximo-ano/

Investimento imobiliário global deverá aumentar 15% no próximo ano
Em 2026, o investimento imobiliário global deverá voltar a ganhar escala, ultrapassando novamente a fasquia de um bilião de dólares, o equivalente a cerca de 850 mil milhões de euros, o que representa um crescimento de 15% face a 2025. De acordo com o mais recente outlook da
Savills World Research, divulgado na publicação Impacts, este nível de investimento será alcançado pela primeira vez desde 2022.

A região EMEA [Europa, Oriente Médio e África] deverá assumir um papel de destaque nesta recuperação, com um crescimento estimado de 22%, para um volume de 300 mil milhões de dólares. Ainda assim, as Américas mantêm-se como o principal motor do investimento global, com um total projetado de 570 mil milhões de dólares, dos quais 530 mil milhões concentrados nos Estados Unidos.

No recorte setorial, os escritórios deverão regressar ao centro das decisões de investimento. A Savills antecipa que cerca de um quarto do volume global em 2026 seja canalizado para este segmento, sinalizando uma inversão de ciclo após vários anos marcados por incerteza. (..)

2025-12-28
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*CASE Karl E, “The Value of Land in the United States: 1975–2005”. In Ingram G K e Hong Y (Eds) Land Policies and Their Outcomes. Toronto: Lincoln Institute of Land Policy 2007, pp. 127-148
https://www.lincolninst.edu/app/uploads/legacy-files/pubfiles/2119_1441_LP2006-ch06-The-Value-of-Land-in-the-United-States-1975-2005_0.pdf


domingo, 30 de novembro de 2025

Financeirização ou capitalismo de rendas?

Público 18-09-2025, por Bruna Santos
https://www.publico.pt/2025/09/18/p3/cronica/bolha-imobiliario-nao-vai-rebentar-2145996

A bolha do imobiliário não vai rebentar

O anúncio de Luís Montenegro sobre 1300 milhões de euros para habitação acessível parece responder à lógica elementar da crise habitacional: mais procura que oferta exige mais construção. Esta abordagem aparentemente óbvia ignora uma transformação fundamental: a habitação deixou de ser um bem de primeira necessidade para se tornar um activo financeiro no sentido estrito. (..)

Os dados portugueses são absolutamente devastadores: nos últimos dez anos, o preço médio das casas mais do que duplicou, enquanto os salários cresceram marginalmente, frequentemente abaixo da inflação real. Esta disparidade não é acidental nem temporária — é o resultado directo da financeirização do mercado de habitação. (..)

A habitação tornou-se uma reserva de valor global, equiparável a acções, obrigações ou ouro. As nossas cidades competem agora directamente com outras capitais europeias pelos fluxos de investimento internacionais. Um apartamento vale o que vale não porque os portugueses conseguem pagar esse preço, mas porque investidores internacionais consideram esse preço competitivo face às alternativas de investimento globais. (..)

*

"Financeirização" vem se tornando um mantra, uma palavra-ônibus que explicaria por si só o drama das famílias que não encontram moradia minimamente próxima às fontes de emprego ao alcance do seu nível de rendimentos. 

Para a autora do artigo acima, o aumento de mais de 100% do preço da moradia em Portugal nos últimos dez anos, em face de "um crescimento apenas marginal dos salários", se explicaria por ter a moradia deixado de ser um "bem de primeira necessidade" para se tornar "um ativo financeiro em sentido estrito". Segundo ela,

"um apartamento vale o que vale não porque os portugueses conseguem pagar esse preço, mas porque investidores internacionais consideram esse preço competitivo face às alternativas de investimento globais".

Eu pergunto: quando foi que a habitação "deixou de ser um bem de primeira necessidade"? Não me consta que o acesso à moradia em Portugal tenha sido, algum dia, garantido pelo Estado a todos os cidadãos que não pudessem, ou não quisessem, obtê-lo pela via do mercado.
 
E quem são os "investidores internacionais" que consideram competitivos preços da moradia que a maioria dos portugueses não consegue pagar? Obviamente, os grandes proprietários, ou controladores, estrangeiros de imóveis residenciais em Portugal.

E por quê esses preços seriam "competitivos"? Porque outros demandantes de moradias portuguesas que não os trabalhadores portugueses estão econômica e juridicamente aptos e dispostos a pagá-los; são eles, com suas ofertas, não os "investidores ", que determinam esse preços.

E quem são esses demandantes? Segundo uma enxurrada de artigos da própria imprensa portuguesa e até mesmo um relatório da União Europeia, um considerável contingente de estrangeiros endinheirados - do Brasil e norte da Europa, principalmente - interessados em comprá-las para seu uso, ou para alugar e vender a outros estrangeiros endinheirados para os quais Portugal é uma magnífica opção de aposentadoria longe dos rigores do inverno norte-europeu, de férias de verão, turismo em geral, estadia de curta duração e nomadismo digital.

Artigo publicado na Veja em junho de 2024 [1] nos diz que as políticas de atração de imigrantes dos anos precedentes geraram um contingente de 800 mil estrangeiros residentes no país, “desencadeando uma espiral de alta de preços como nunca se viu”: aluguel médio de 2.500 euros em Lisboa, o mais alto da Europa naquele momento segundo a multinacional Housing Anywhere. E mesmo com as limitações impostas pelo governo (extinção dos incentivos fiscais para estrangeiros e do Golden Visa, que concedia cidadania a quem investisse no país; regulação e taxação do aluguel rotativo), os preços continuaram nas alturas, com seus típicos efeitos: deslocamento das famílias de baixos rendimentos para as periferias, multiplicação da população de rua e aumento expressivo da ‘geração canguru’ - adultos que moram com os pais. 

E onde, afinal, entra a "financeirização"? 

Em postagem anterior deste blog, escrevi:

A moradia – assim entendo - é financeirizada desde que passou a ser produzida para o mercado, pela simples razão que são poucos os que podem comprá-la sem financiamento ao menos parcial de seu preço. Tradicionalmente, os contratos de hipoteca preveem que o próprio imóvel é a garantia do empréstimo para a sua aquisição. (..)

A financeirização da moradia deu um salto de qualidade quando, com a desregulamentação de fins do século passado, generalizou-se nos EUA e Inglaterra a prática dos empréstimos bancários garantidos pelo imóvel residencial para a compra de bens de consumo, viagens, universidade etc. Famílias com rendimentos estagnados, e até decrescentes, passaram a consumir… o valor futuro de suas casas!

E uma vez re-hipotecados os imóveis em troca de liquidez a curto prazo, os título de dívida passaram a ser vendidos pelos bancos a credores de que os devedores nunca tinham ouvido falar, nos mais diversos países – a pirâmide financeira que desmoronou em 2007, levando milhões de pequenos investidores, boa parte deles trabalhadores cooptados para a mítica 'república dos pequenos proprietários’, à perda de seu capital, isto é, de suas próprias moradias que, afinal, eram o lastro de tudo! [2]

Acrescentaria agora que, depois da II Guerra Mundial - bem antes, portanto, do 'salto' acima mencionado - o emprego dos imóveis residenciais também como ativos financeiros tornou-se uma prática social generalizada nos países ricos, e mais tarde até nos intermediários, como o Brasil, respondendo pela ascensão dos trabalhadores qualificados ao status de 'classe média'. A valorização da casa própria a longo prazo e seu legado aos descendentes como bem de capital estão na base do Sonho Americano, do Estado do Bem-Estar europeu - ainda que em menor medida [3] - e, já no século XXI, de uma parte cada vez mais significativa do programa brasileiro Minha Casa Minha Vida.

O que se está chamando, porém, de "financeirização" na história recente de Portugal é o fato de que, depois da crise de 2008 e da consequente queda abrupta dos juros, a oferta de moradia para estrangeiros endinheirados e portugueses enriquecidos tornou-se um negócio lucrativo o suficiente para atrair o interesse tanto de grandes imobiliárias sediadas no EUA, Europa e Ásia quanto de capitais de investimento - o capital 'em estado puro' - que circulam pelo mundo à espera de oportunidades de valorização. [4] 

Até a explosão da crise habitacional, Portugal vinha desfrutando, mesmo sob governos social-democratas, de uma lufada tão bem recebida quanto temerária de enriquecimento à base de rendas estrangeiras - aliás registrada com alguma constância neste blog. 

Ainda que favoreça a especulação de preços pela via da retenção da oferta, e que deva por isso ser combatida pelos sindicatos e movimentos de moradia no âmbito da União Europeia, não é a concentração da propriedade imobiliária em mãos de um pequeno número de capitalistas a causa dos fabulosos aumentos de preços de que estamos falando. Foi o incentivo português à captura de rendas pagas por estrangeiros, sob a forma, por exemplo, dos Vistos Gold, e de uma legislação correspondentemente permissiva, que tornou as moradias dos país um alvo preferencial das grandes imobiliárias e dos capitais de risco.    

Não se trata de que a moradia em geral é tratada, em Portugal como em todos os países do mundo, como "ativo financeiro", deixando de ser - como já li em algum lugar - "valor de uso"; pois se a moradia deixa de ser "valor de uso", não pode se tornar "ativo financeiro": qual imobiliária ou especulador compraria um apartamento que seus potenciais clientes não possam usar? 

Apartamentos bem conservados e bem localizados - relativamente às expectativas da demanda - se tornaram ativos privilegiados na economia contemporânea porque, ao passo que a rentabilidade do investimento em produtos industriais não portadores de qualidades ‘exclusivas’, reais ou imaginárias, tende mais ou menos rapidamente, por força da concorrência, à taxa média de lucro do segmento, o solo que ancora os bens imobiliários os 'condena' a aumentos automáticos de preços, de compra-venda e de aluguel, resultantes de externalidades socialmente criadas como o crescimento do PIB e dos rendimentos familiares, a expansão continuada que torna urbanas as terras suburbanas e periféricas, o aumento da escassez relativa das melhores localizações e, vale lembrar, a própria concentração da riqueza nacional e planetária a puxar para cima, o tempo todo, as ofertas de preço de compra e aluguel de parte substancial do estoque.

Imóveis não encarecem na escala hoje registrada em Portugal por terem se tornado ativos financeiros da classe média ou propriedade de capitalistas do ramo imobiliário. Capitalistas do mundo inteiro passaram a adquiri-los em grande quantidade por duas razões. A primeira, de ordem geral: imóveis são bens duráveis que, a depender da localização, mesmo  depois de totalmente amortizados  continuam a gerar lucro excedente (renda) ao investimento / gasto em conservação, administração e impostos - e tanto mais renda quanto mais valorizada e escassa a terra-localização. O que nos leva à segunda razão: a notável discrepância, no âmbito da União Europeia, de características climáticas e níveis de rendimento familiar entre países setentrionais e mediterrâneos, notadamente Portugal.    

Quanto à crítica, com a qual compartilho, de que a moradia não vem sendo tratada como "bem de primeira necessidade", considero que os últimos governos portugueses não cuidaram, como deveriam, de - no mínimo - dirigir a proporção que fosse necessária do arrecadado com as rendas estrangeiras para a construção, em terrenos centrais e pericentrais das grandes cidades legalmente reservados para tal fim, de moradias ao alcance dos rendimentos do trabalhadorado português. Afinal, que outra coisa poderia significar, em se tratando do direito à habitação, o termo "social-democracia"?

*

Em suma, a restrição de acesso à moradia urbana pela via do mercado compreende dois tipos: absoluta e relativa. A absoluta - fenômeno típico dos países pobres e intermediários - consiste na incapacidade das famílias de poucos rendimentos de ofertar o preço abaixo do qual não interessa a nenhum proprietário urbano alugar seu imóvel - que dirá aos incorporadores produzi-los -, restando-lhes a moradia 100% social a cargo do Estado ou a informalidade. A relativa consiste na sujeição compulsória das famílias de rendimentos suficientes à “filtragem” da competição pelos imóveis / localizações urbanas disponíveis, restando às menos afortunadas as moradias suburbanas com algum espaço ou os apartamentos de dimensões mínimas e/ou estado precário nas áreas centrais ‘degradadas’.

Não é a 'financeirização', vale dizer o seu emprego como ativo financeiro, que encarece a moradia. Parte substancial do estoque de moradias formais das grandes metrópoles já desempenha, há muitas décadas, o duplo papel de residência da família proprietária e seu principal ativo financeiro de longo prazo. É a inexorável valorização relativa desse estoque, derivada tanto da concentração dos rendimentos das famílias abonadas quanto da disputa - local, regional, nacional e internacional - dos demandantes de residências rotativas e estacionais pela terra-localização urbana, que converte as moradias em ativos, digamos, para-financeiros de importância crucial na economia global contemporânea.
 
A 'financeirização da moradia' é o sintoma, não a doença.

*

PS: A edição deste domingo do jornal La Vanguardia publica matéria intitulada “Catalunya inicia los trabajos sobre la prohibición de la compra de vivienda para invertir”. [5]

'Aquisição de residências para fins de investimento' me soa como um bem-sucedido esforço de interpretação do jargão urbanístico 'financeirização da moradia'. No entanto, ainda que a extinção da compra-venda de residências para fins de investimento capitalista faça sentido como horizonte de política urbana - medidas socializantes são urgentes, creio, em todos os âmbitos da vida econômica global -, há que considerar: 

(1) que além de fonte de rendimentos regulares para milhões de pequenos proprietários, a moradia, na condição de 'casa própria', se torn0u a forma mais difundida de capitalização, vale dizer de 'investimento', da classe média como um todo, aí incluído um enorme contingente de trabalhadores qualificados, no futuro de suas famílias; 

(2) que a proposta implica uma intervenção na economia de mercado muito mais profunda que o mero controle dos alugueis, com repercussões sobre toda a cadeia produtiva da construção civil e seus derivados, além do financiamento bancário. 

Medidas dessa natureza teriam de ser implantadas num âmbito geopolítico muito maior, com amplo apoio político e conhecimento de causa da sociedade organizada, de maneira progressiva para fins de controle de impactos e, o mais importante, de cima para baixo economicamente falando. Seria um erro crasso empurrar para o mesmo balaio os grandes capitalistas imobiliários nacionais e estrangeiros e a pequena-burguesia em geral - no caso, os pequenos proprietários catalães. 

Não há que ter ilusões: nenhuma medida econômica que afete significativamente o funcionamento de qualquer segmento do mercado mundial, vale dizer dos oligopólios que o controlam - e o imobiliário é hoje, indiscutivelmente, um dos mais importantes - poderá estabilizar-se a curto e médio prazos. A 'desfinanceirização da moradia' supõe a 'desmercantilização do solo urbano', somente concebível como uma de um conjunto de medidas transitórias à socialização da economia planetária, algo que está acima das forças de cada cidade, e mesmo cada país, isoladamente - e que transcende, como tema, o escopo deste blog. 

Cuidemos, por ora, de entender os efeitos das políticas de controle dos alugueis já aplicadas em muitas cidades para, quem sabe, expandi-las com mais conhecimento de causa e apoio político; de aplicar limites nacionais à concentração da propriedade imobiliária residencial; de taxar as rendas fundiárias excedentes aos ganhos de capital 'normais', ou 'médios', da propriedade imobiliária; e, tão importante quanto tudo isso, de criar, em caráter de urgência, a Associação Internacional da Moradia Social!

*
Para ilustrar os pontos de vista desta postagem, reproduzo abaixo trechos de matérias recentemente publicadas sobre o tema na imprensa portuguesa de negócios.

Portugal é o país da União Europeia (UE) onde os preços das casas estão mais sobrevalorizados e onde o turismo mais contribuiu para essa sobrevalorização. A conclusão é de um relatório da Comissão Europeia que estima que os preços da habitação em Portugal estão sobrevalorizados em 35%. (..) O relatório aponta vários motivos para o aumento dos preços das casas na UE, desde logo o êxodo urbano e o abrandamento da construção de novas habitações. (..) Em contrapartida, há um indicador que tem contribuído para a subida dos preços das casas em Portugal - o turismo. Segundo o relatório, “a nível nacional há indícios de que Portugal é o país onde o turismo teve o maior impacto nos preços das habitações”, designadamente com o crescimento de plataformas de partilha de casas, que tem pressionado os preços de arrendamento e de compra de imóveis “em algumas localizações privilegiadas, como os centros históricos”. [“Portugal é o país com as casas mais sobrevalorizadas da UE - e dar benefícios fiscais 'alimenta o aumento dos preços'". CNN Portugal 16-10-2025, por BCE] https://cnnportugal.iol.pt/habitacao/habitacao-em-portugal/portugal-e-o-pais-com-as-casas-mais-sobrevalorizadas-da-ue-e-dar-beneficios-fiscais-alimenta-o-aumento-dos-precos/20251016/68f0e59ed34ee0c2fed15173
 

 “Notícias recentes têm referido estudos em que o preço das casas sobe mais em zonas de maior aumento de construção. (..) A explicação, longe de ser um mistério, reside numa força económica muito simples e poderosa: a procura. E, neste momento, a procura é uma maré que levanta todos os barcos, até os que ainda estão no estaleiro. (..) Ainda que menos vigorosa do que há uns anos, também assistimos à pressão do turismo e Alojamento Local (AL). O sucesso do turismo transformou milhares de habitações em unidades de curta-duração, retirando-as do mercado de arrendamento (..) especialmente nos centros urbanos. (..) Os programas de Regime de Residentes Não-Habituais e Vistos Gold, embora revistos, atraíram um fluxo significativo de investidores e reformados com alto poder de compra, segmentando uma parte do mercado para um nível de preços superior. (..) o mercado não pode servir apenas o segmento de luxo. (..) Uma abordagem interessante poderia ser o modelo 1/3+1/3+1/3 em novos empreendimentos de média/grande  dimensão, com incentivos para que 1/3 da área seja destinada a habitação acessível (com preços controlados), 1/3 a preços de mercado intermédios, e 1/3 ao segmento superior. Isto evitaria a segregação social e garantiria que o crescimento beneficia todos. ["Mais cimento, mais confusão? A procura é que manda no Mercado Imobiliário". Observador 14-11-2025, por Rute Xavier] https://observador.pt/opiniao/mais-cimento-mais-confusao-a-procura-e-que-manda-no-mercado-imobiliario/

Foi fundada há quase 120 anos nos EUA e tem mais de 3.000 agências espalhadas por mais de 45 países. Falamos da rede imobiliária Coldwell Banker (CB), que aterrou em Portugal em 2017 e tem atualmente uma operação de 12 agências e cerca de 250 colaboradores. Em entrevista ao idealista/news, Frederico Abecassis, CEO da CB Portugal, revela que o seu “portefólio diversificado no segmento residencial de luxo” tem valorizado. (..) “Entre os principais mercados emissores no segmento prime e ultra-luxo destacam-se os EUA (…), o Brasil, países do Norte da Europa como Países Baixos, Suécia e Dinamarca, bem como o Reino Unido (…). [“Segmento de luxo em Portugal continua a demonstrar grande dinamismo”. Idealista 19-11-2025, por Frederico Gonçalves] https://www.idealista.pt/news/imobiliario/habitacao/2025/11/19/72227-segmento-de-luxo-em-portugal-continua-a-demonstrar-grande-dinamismo

2025-11-30
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NOTAS

[1] “Por que explodiu a procura por imóveis em Portugal, elevando as cifras”, Veja 04-06-2024, por Paula Freitas

[2] "Financeirização da moradia ou concentração da propriedade?" À beira do urbanismo 16-08-2023, por Pedro Jorgensen
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2023/08/financeirizacao-da-moradia-ou.html

[3] “Habitação na Europa: é maior o número de proprietários ou de arrendatários?”. Euronews 13-05-2024
https://pt.euronews.com/business/2024/05/13/habitacao-na-europa-e-maior-o-numero-de-proprietarios-ou-de-arrendatarios

[4] “Residential demand shifts mainly with demography and is less buffeted by the business cycle. People will still need somewhere to sleep: you can’t digitalise a bed. And in an era of low interest rates, steady rental income becomes more attractive.” [“Big British companies are entering the rental market”. The Economist 28-08-2021]
https://www.economist.com/britain/2021/08/28/big-british-companies-are-entering-the-rental-market

[5] “Catalunya inicia los trabajos sobre la prohibición de la compra de vivienda para invertir”. La
 Vanguadia 30-11-2025, por Maite Gutierrez
https://www.lavanguardia.com/economia/20251125/11300809/catalunya-inicia-trabajos-sobre-prohibicion-compra-vivienda-invertir.html

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Capitalismo (parasitário) de rendas

Monitor Mercantil 18-11-2025, por Redação
https://monitormercantil.com.br/setor-imobiliario-no-mercado-de-capitais-cresce-75-em-9-meses/

Setor imobiliário no mercado de capitais cresce 7,5% em 9 meses

Imagem: Freepik
Em nove meses, o volume financeiro do setor imobiliário dentro do mercado de capitais foi de R$ 697 bilhões (dezembro/2024 a setembro/2025), crescimento de 7,5%. Os fundos de investimento imobiliário (FII) tiveram aumento de 5,9% e um patrimônio líquido de R$ 370 bilhões.

Enquanto o mercado de certificados de recebíveis imobiliários (CRI) apresentou aumento de 9,6% no período (R$ 245 bilhões). O volume financeiro total do mercado de capitais variou 12% em 2025, saindo de R$ 15,3 trilhões para R$ 17,2 trilhões.

Composição da carteira: 60% das necessidades de liquidez estão em fundos de renda fixa; 60% do total investido estão em bens imóveis; em segundo lugar aparecem os CRI e CRA, com 19% do total; do total investido em bens imóveis, 86% estão em bens imóveis para renda.

Os dados citados estão na 2ª edição do Boletim Setor Imobiliário da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O relatório é produzido pela Superintendência de Securitização e Agronegócio (SSE) da autarquia e publicado trimestralmente. Detalha a evolução da participação do setor imobiliário no mercado de capitais, com destaque para o desempenho dos FIIs e dos CRIs. As informações são coletadas a partir de dados do Portal de Dados Abertos da CVM, do Sistema Fundos.NET e dos relatórios internos de ofertas cadastradas no Sistema SRE da autarquia. A data-base da primeira edição do Boletim é junho/2025.


2025-11-18

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Portugal: capitalismo de rendas vs. moradia

The Guardian 25-06-2025
https://www.theguardian.com/commentisfree/2025/jun/25/lisbon-europe-portugal-golden-visa-capital-investors-short-term-rentals

“Over the past decade, Lisbon has undergone a dramatic transformation – from one of the most affordable capitals in Europe to the most unaffordable.

Between 2014 and 2024, house prices in the city rose by 176%, and by more than 200% in its central historic districts. The home price to income ratio, a key indicator of housing affordability, reflects this shift with stark clarity: today, Lisbon tops Europe’s housing unaffordability rankings. This trend extends to the national level. In 2015, Portugal ranked 22nd out of 27 EU countries for housing unaffordability. Today, it ranks first. In a country where 60% of taxpayers earn less than €1,000 a month, finding a rental below that price in the Portuguese capital is only possible if you’re willing to live in 20 sq metres – or less.

To understand how Lisbon reached this point, we need to look back to the years following the 2008 global financial crisis. As part of its shock plan to revive the economy, Portugal embraced a strategy of aggressive liberalisation, aiming to put Lisbon – and the country – on the global map for real estate investment and tourism. (..)”

2025-06-25

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Preços em alta, como [quase] sempre


In America, Australia and parts of Europe, property markets have shrugged off higher interest rates
O artigo acima projeta um novo ciclo de aumentos de preços imobiliários em países do mundo dito ‘desenvolvido’, com base em causas que eu diria essencialmente conjunturais. Mas que dizer das causas ‘estruturais”?

Num valioso texto produzido para os cursos do Lincoln Institute of Land Policy, já divulgado neste blog, o economista e avaliador colombiano Oscar Borrero assim resume o que chama de comportamento “estrutural” dos preços da terra urbana, por oposição ao “cíclico”: 

“(..) la tierra urbana siempre se valoriza, es decir crece por encima de la inflación. Es la resultante de las leyes de oferta y demanda. (..) ante una demanda creciente [(a) crecimiento económico de la ciudad: industria, comercio, servicios, etc. y (b) El aumento poblacional vegetativo y migratorio] y una oferta escasa [la única manera de aumentar la oferta es incrementar los perímetros de las ciudades], los precios suben en términos reales, es decir por encima de la inflación. Lo cual da como resultado la valorización continua de los terrenos urbanos.” [1] 

Considerando que a população e a economia urbanas continuam a crescer concentradas em uma quantidade limitada de megalópoles planetárias, parece-me razoável supor que o preço relativo das localizações centrais e pericentrais - tanto mais escassas quanto mais se expande “o perímetro das cidades”, vale dizer a área de influência dos centros urbanos principais - continue também crescendo, como ensina Borrero, a despeito da descentralização relativa e desigual imposta pelo trabalho a distância.

Chama também a atenção que a matéria traga o subtítulo “nos EUA, Austrália e partes da Europa, o mercado imobiliário ignorou a elevação das taxas de juros” - uma característica típica do mercado chamado ‘de alto padrão’. Mesmo não sendo economista nem avaliador, eu me aventuro a sugerir um fator estrutural não considerado por Borrero e, aliás, nunca mencionado em publicações da imprensa especializada - a persistente concentração dos rendimentos e do patrimônio, que faz do mercado imobiliário de alto padrão uma espécie de ‘círculo virtuoso’:

“(..) a irrefreável concentração de riqueza que marca a economia do século XXI tem o dom de retroalimentar a espiral de valorização dos imóveis mais luxuosos e bem localizados mesmo em um cenário global de baixo crescimento, estagnação dos salários e precarização do trabalho. (..) quanto mais renda concentram os ricos do mundo inteiro, mais se dispõem a pagar por imóveis de alto padrão em Nova York, Los Angeles, Miami, Londres, Paris, Hong Kong, Dubai, Vancouver, Sydney, Lisboa, São Paulo e Rio de Janeiro, na expectativa razoável de que não faltará quem lhes cubra a parada a qualquer momento em que queiram vendê-los” [2]

E para além do comportamento estrutural dos preços, teríamos aqui também um forte componente do que Borrero chama de ‘comportamento cíclico’:

“(..) La tierra es un recurso escaso y su mercado está interrelacionado directamente con el mercado de la construcción, por tanto su comportamiento no escapa los ciclos económicos y de la edificación; de hecho sigue muy de cerca los ciclos de la construcción y estos a su vez los de la economía. (..)”

A combinação dos comportamentos estrutural e cíclico dos preços imobiliários pode ser observada nos gráficos abaixo, do S&P / Case-Shiller Home Price Index, para dois intervalos temporais diferentes. Nos EUA, o índice de preços tem forte queda com a Grande Recessão de 2008, mas as linhas de tendência 1991-2017 e 200o-2023 são inequivocamente ascendentes (clique nas imagens para ampliar).



2024-07-17

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[1] BORRERO Oscar, “Formación de los precios del suelo urbano”. Lincoln Institute of Land Policy, EAD, s/ data.
https://drive.google.com/file/d/12719bJhO6ztK8uQ2cj6MhJzEwVuiH6Vv/view?usp=sharing

[2] “Círculo Virtuoso II". À beira do urbanismo 10-12-2017, por Pedro Jorgensen  https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2017/12/circulo-virtuoso-ii.html.

domingo, 17 de março de 2024

Ouro, bitcoins e… residências!

SAPO Human Resources 10-03-2024
https://hrportugal.sapo.pt/numero-de-ultramilionarios-aumentou-quase-5-a-nivel-mundial-imagina-quantos-ha-em-portugal/
“(..) Os dados são retirados do The Wealth Report, um estudo anualmente concebido pela Knight Frank que reúne as mais importantes tendências e perspectivas globais do mercado imobiliário – desde 2021 que a imobiliária com sede em Londres está associada à portuguesa Quintela e Penalva. (..) 

Para os investidores, a rentabilidade do mercado residencial foi crucial para estes resultados, com a rentabilidade no investimento do mercado residencial a crescer 3,1%. Houve ainda outros sectores a apresentar resultados positivos a nível global, como o ouro, que subiu 15%, e as Bitcoin, que subiram 155%, invertendo grande parte das perdas sofridas em 2022. (..)”

2024-03-17


quarta-feira, 6 de março de 2024

Especulação transnacional

NSC Total 01-03 2024
https://www.nsctotal.com.br/colunistas/dagmara-spautz/como-a-crise-no-mercado-imobiliario-dos-eua-impulsiona-balneario-camboriu-e-rio-de-janeiro


"O mercado imobiliário brasileiro tem índices de valorização superiores a outros países e, além da atratividade da diferença cambial, cada vez mais, tem se tornado alvo para os americanos, assim como para investidores de outros países", diz o especialista em mercado imobiliário Renato Monteiro (..) Segundo ele, no último ano foi observado um aumento de 20% na procura de estrangeiros por imóveis no Brasil. A expectativa é que a busca seja ainda maior em 2024.

Segundo a Sort Investimentos, (..) as principais regiões que têm sido alvo de investidores dos EUA estão no litoral brasileiro. (..) Itapema registrou 19,52% de valorização anual – um recorde. Itajaí, também ao lado de Balneário Camboriú, registrou no último levantamento da Fipezap a terceira melhor valorização do país, com 13,35%.

Já no Rio de Janeiro, o destaque para Búzios. A cidade, com pouco mais de 26 mil metros quadrados, é apontada como a bola da vez do mercado imobiliário nacional, com projeção de valorizar em até 100% os imóveis nos próximos quatro anos. 

2024-03-06