quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Cidades 'planejadas’: mito e realidade - notas


As 'cidades planejadas' constituem um capítulo obrigatório, de grande interesse para o estudo da conturbada relação entre o planejamento urbano e o mercado de bens e serviços urbanos. Com edições e acréscimos, esta postagem reúne textos e passagens já aqui publicados sobre o assunto, agrupados em três subtemas a serem desenvolvidos na medida do tempo disponível.
Fonte: RUBIRA FG [*]
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A cidade ex novo como núcleo histórico

O estudo das cidades ex novo da época moderna importa menos pela fama que carregam de ‘cidades planejadas’ - no sentido moderno do termo elas não são nem mais nem menos planejadas do que quaisquer outras cidades - do que pelo testemunho que nos dão das possibilidades, limites e contradições envolvidas no processo de planejamento urbano.

Uma dessas contradições diz respeito à natureza singular de seu ‘núcleo histórico’. Abrangendo o Centro propriamente dito e o perímetro urbano definido no projeto de urbanização original, ele não costuma ser valorizado, às vezes sequer
reconhecido, como tal, pelos munícipes e suas instituições. Sendo ‘moderno’, não pode ser ‘histórico’.

Em textos acadêmicos e não acadêmicos, 'cidade planejada' quase sempre se refere a alguma urbe construída 'do zero' - quer sobre um autêntico vazio rural, quer sobre algum núcleo rural ou litorâneo pré-existente. Sua marca distintiva é a existência de um traçado.

Na verdade, o ‘plano’ de uma cidade nova pode tanto consistir em pouco mais do que um simples tabuleiro, como no caso de Teresina e Aracaju - disputadas como "mais antiga cidade planejada do Brasil" - quanto, no outro extremo, em um conjunto urbano totalmente edificado e rigidamente regulado, como no caso de Brasília. O mais das vezes, no entanto, verificam-se situações intermediárias: um trama projetada de vias e praças públicas, acompanhada de um conjunto de regulações básicas relativas ao zoneamento, ocupação do solo e preservação de áreas verdes - o caso de Maringá.

O certo é que, em 100% dos casos, o crescimento da cidade nova transborda o limite originalmente estabelecido e novos ciclos regulatórios e de obras públicas - viárias, principalmente - têm início, para dar conta, dentre outros, do próprio processo de expansão urbana. Não raro, esse transbordamento é concomitante à execução do projeto original, pela via do assentamento não devidamente programado dos trabalhadores envolvidos em sua construção. E invariavelmente, pode-se dizer, os novos ciclos de planejamento se enquadram na definição de Benevolo:

De modo geral, a técnica urbanística aparece com atraso relativamente aos acontecimentos que tem por missão controlar e tem um caráter curativo. [Benevolo L, Le Origini dell’Urbanistica Moderna, 1963]

É assim que as "cidades planejadas", independentemente de sua posição na escala da modernidade, se convertem em núcleos históricos de suas próprias transfigurações metropolitanas, caracterizados não pela antiguidade dos conjuntos edificados remanescentes - geralmente reciclados, lá onde existem, para uso geral sob a tutela de programas especiais de proteção e conservação - mas pelos atributos técnicos, funcionais e artísticos de componentes ainda plenamente operacionais como o traçado, os parques e áreas verdes, os centros cívico e administrativo etc., mais ou menos bem adaptados aos primeiros ciclos de sua vida útil.

Estou postulando que o núcleo planejado de uma metrópole fundada no século XX pode ser tão 'histórico' e prenhe de significados e tradições quanto qualquer Centro Histórico declarado Patrimônio da Humanidade pelas Nações Unidas! Depende, talvez, do que o observador entende por “história” e do que busca no qualificativo que lhe corresponde.


Cidades ex novo x Grandes Projetos Urbanos

Diria o senso comum que a construção de uma nova capital é, por definição, um grande projeto urbano. Mas pode não sê-lo na acepção que o urbanismo contemporâneo dá ao termo, grafado o mais das vezes com iniciais maiúsculas ou referido pela sigla GPU/GUP.

Em geral, os modernos GPUs são intervenções - como prefere Garay [1] - de grande escala e elevada complexidade nas cidades existentes. Grandes Projetos Urbanos constroem, ou reconstroem, pedaços de cidade dentro da grande cidade, quase sempre incorporando acréscimos de valor do solo gerados pela própria intervenção à equação de seu financiamento.

Não se trata de filigrana conceitual: os Grandes Projetos Urbanos contemporâneos são importantes condutores do circuito financeiro global, precipuamente destinados, na maioria dos casos, a gerar oportunidades de negócios imobiliários e seus acessórios por meio da urbanização e comercialização de solo público com potencial de valorização derivado das qualidades intangíveis da própria metrópole. A reivindicação da urbanização autofinanciada com recursos da renda do solo, mesmo quando mais publicitária que real, é um sinal inequívoco de que as motivações estratégicas geralmente associadas, inclusive a de “incentivar a economia”, não lhes bastam como fonte de legitimação e enraizamento no ideário coletivo.

Cidades ex novo, embora relativamente comuns à escala dos séculos, são excepcionalidades no campo do urbanismo, resultantes de processos de colonização de natureza diversa, de políticas estatais de desenvolvimento territorial, do enfrentamento de catástrofes naturais e sociais e do que poderíamos chamar de 'repaginação' do poder político em situações, reais e imaginárias, de clivagem histórica. Ou de combinações dessas circunstâncias.

Cidades ex novo também podem, com certeza, surgir como empreendimentos explicitamente comerciais, como no caso da rede urbana do Noroeste paranaense (Londrina, Apucarana, Maringá etc.). E não está excluído, muito ao contrário, que a construção de uma nova capital, ainda que por sólidas 'razões de Estado', seja terreno fértil para a proliferação de operações especulativas:

"Confesso nunca ter visto lugar tão deprimente. Partes do Capitólio e da mansão presidencial ainda em construção e nada mais. Trabalhadores morando em barracos que, quando da minha última visita à cidade, em 1806, estavam ainda intactos - e ocupados. Eu especulei com terras como todo mundo, incluindo o general Washington, que acabara de comprar dois lotes perto do Capitólio. Adquiri um terreno próximo à Casa Branca. Uma loucura! Homens a cavalo no meio da mata escura com mapas nas mãos apontando para chão e dizendo: "Aqui fica a esquina da rua tal com a rua tal. Pertinho do Capitólio. Vou construir aí uma casa - não, um hotel”. Mas no final, quem investiu nesses pântanos ganhou rios de dinheiro." VIDAL, Gore, Burr: A Novel (Vintage International) (English Edition).

Contudo, e apesar de que pode ser às vezes difícil distinguir, na governança da classe proprietária dominante, o interesse geral das ambições particulares, não há que duvidar que a construção de uma cidade é, em qualquer caso, um evento muito mais complexo, historicamente significativo e carregado de contradições do que a renovação de um perímetro urbano. 
Ao passo que aqui predomina o binômio engenharia financeira / arquitetura urbana, com eventuais elementos de preservacionismo edilício e proteção social, lá se impõe uma matriz infinitamente mais ampla de aspectos envolvidos e problemas por resolver, como são a justificação histórica, econômica e política da proposta, o processo de decisão, a disputa pelo lugar, a seleção do plano urbanístico, a mobilização de recursos financeiros, materiais e humanos, o soerguimento de uma nova economia urbana, a construção da estrutura de administração e governo etc., culminando no nó górdio do próprio assentamento: um novo bairro internacional no Centro da metrópole pode não ter uma única moradia 'sub-mercado', ou mesmo residência alguma de caráter permanente; uma nova capital jamais, ainda que o projeto não a tenha previsto e a construção não a tenha realizado. Na cidade estarão todos, inclusive os 'sem cidade'.


Cidades ex novo , centralidade e vantagens de aglomeração

A despeito das sólidas evidências proporcionadas pelo espetacular crescimento das grandes cidades dos EUA, nos projetos de urbanização de fins do século XIX a noção de ‘centro urbano’ ainda é basicamente governada pela ideia tardo-barroca de ‘centro cívico’, local de agrupamento das edificações ligadas às principais instituições dos poderes temporal e religioso: no ‘urbanismo dos traçados’, devidamente embrulhado na racionalidade geométrica puramente abstrata da organização espacial positivista; nas cidades-jardins, organizado ao redor do parque central howardiano. 

Quer seja por conservadorismo, reformismo ou vanguardismo, constitui uma característica do urbanismo dedicado ao projeto da cidade ex novo a negação do centro comercial e bancário como aspecto chave, incontornável, da organização espacial e dinâmica expansiva da cidade capitalista.

A localização do centro comercial e bancário é um aspecto crítico da cidade ex novo. Ele raramente se estabelece no lugar preconizado, e em nenhum caso da forma como imaginada, pelo projetista da ‘cidade planejada’, em parte porque essa localização depende de movimentos históricos pouco previsíveis como a evolução da tecnologia e da economia dos transportes - tipicamente a obsolescência da estação ferroviária central -, em parte porque os projetistas tendem a desconsiderar o fato de que, como já explicava o economista- avaliador estadunidense Richard Hurd em 1903, "o centro se forma ao redor do ponto de contato com o mundo exterior e se expande, ou desdobra, na direção determinada pela preferência de localização residencial das camadas de alta e média renda". [2] 

Salvo quando rigidamente imposto pelo ‘projeto de cidade’, como em Brasília, na urbanização de mercado o centro comercial e bancário há de ocupar o lugar mais adequado aos negócios, não aos critérios técnicos, pretensões estéticas e ideais filosóficos do projetista.

A contradição mais notória entre a racionalidade arquitetônica das cidades ex novo e as leis da economia urbana capitalista envolve a rede de acessibilidade: ao passo que a ‘economia da ocupação do solo’ tende à generalização da rede local reticulada, a ‘economia da localização’ comanda a formação de um sistema radial-concêntrico de artérias urbanas e meios de transporte. Não por outra razão encontramos, nos projetos de cidades ex novo e planos de reurbanização de grande escala, avenidas radiais que convergem para o centro cívico, tido pelos projetistas como a forma mais elevada, ou funcionalmente relevante, da centralidade urbana.

Uma segunda contradição, mais sutil mas não menos relevante, é a que opõe o padrão de compacidade da rede de ruas residenciais às vantagens de aglomeração esperadas pelos negócios no centro comercial urbano. Nas palavras de Hurd:

"Há quem pense que quanto mais larga mais valorizada é a rua, devido à maior capacidade de tráfego. Mas em uma rua comercial, a largura é praticamente irrelevante (..). A pouca largura facilita o intercâmbio entre os dois lados, o que é de alguma forma vantajoso para os negócios quando não implica em limitação à altura dos edifícios". [2]

A história da formação das metrópoles capitalistas indica que a ‘desordem’ do centro não planejado - onde prevalece o máximo grau de concentração espacial dos negócios - é sensivelmente mais eficaz do ponto de vista da economia urbana do que a ordem urbana determinada pelos ‘projetos de cidade’, com ruas largas, canteiros centrais, quadras regulares e lotes relativamente grandes. Uma hora de caminhada pelo centro comercial de uma cidade de crescimento ‘orgânico’ permite ao residente percorrer uma quantidade e variedade substancialmente maiores de lojas e prestadores de serviços do que nas ‘cidades planejadas’.

Ainda que o crescimento das cidades esteja determinado, no essencial, por fatores relacionados à economia regional e nacional, parece razoável supor que a dispersão espacial determinada pelo projeto da cidade planejada seja um fator inibidor da formação e desenvolvimento de seu centro urbano.


2026-02-18

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NOTAS

[*] RUBIRA Felipe Gomes, “Análise multitemporal da expansão urbana de Maringá-PR durante o período de 1947 a 2014 envolvendo o Parque Municipal do Cinquentenário e as principais áreas verdes do município”. Caderno de Geografia, v.26, n.46, 2016 DOI 10.5752/p.2318-2962.2016v26n46p333

[1] Garay, Alfredo, “El Montaje de una gran intervención urbana”, em Lungo, Mario (comp), Grandes Proyectos Urbanos, San Salvador: UCA Editores, 2004, p. 76

[2] HURD R M, Principles of City Land Values. New York, Record and Guide 1903
https://archive.org/.../principlesofcity.../page/n4/mode/1up

[3] Idem.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O estranho caso do Dr. Barbalho

Terra 11-02-2026
https://www.terra.com.br/noticias/crise-no-brasil-atrai-investimentos-imobiliarios-para-os-eua,57a049a17a797af32bd2533937b079b8o4in5h6e.html

Crise no Brasil atrai investimentos imobiliários para os EUA

C. Barbalho é um típico capitalista brasileiro, incorporador imobiliário e investidor em títulos da dívida pública.

De dia ele saúda publicamente pela imprensa de negócios o programa governamental Minha Casa Minha Vida, de aquisição de moradias a juros subsidiados pelo governo, como a salvação do setor imobiliário em face da baixa capacidade de endividamento da classe média, resultante das estratosféricas taxas básicas de juros fixadas pelo Banco Central para fins de controle da inflação numa economia em crescimento
a despeito do cenário internacional adverso. 

De noite, após 3 doses de Royal Salute 62 Gun, ele se regozija com as estratosféricas taxas básicas de juros fixadas pelo Banco Central para fins de controle da inflação numa economia em crescimento
e critica acaloradamente o governo pelas redes sociais por promover programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha vida, consumidores de gastos públicos que irão causar, com toda certeza, uma grave crise fiscal.

Montagem: À beira do urbanismo
Por via das dúvidas, ele prefere investir boa parte da sua suada fortuna nos Estados Unidos, onde a governança é previsível porque o Executivo está sujeito ao sistema de  freios e contrapesos (checks and balances), inexiste crise fiscal porque o Banco Central (Federal Reserve) pode emitir quanto dólares forem necessários (quantitative easing) para salvar Bancos Masters insolventes e, last but not least, o próprio Presidente cancelou todos os gastos públicos que não se destinem a: (1) caçar imigrantes de casa em casa nos estados e cidades que não votam no seu partido; (2) encobrir suas reinações (grab'em by the pussy) com o mega-traficante sexual J Epstein; (3) premiar os compradores de Trump$$Memecoins; (4) financiar os rega-bofes de Mar-a-Lago.

2026-02-15

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Copan rotativo

BBC Brasil 09-02-2026, por Vítor Tavares
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cre2pxrw1l9o


'Vivendo em um hotel': a disputa pela transformação do 'maior edifício residencial do Brasil' em Airbnb

(..) Dos 1.160 apartamentos do Copan, mais de 200 hoje já são destinados ao aluguel de curta temporada, especialmente pela plataforma Airbnb, a mais popular do gênero, segundo a administração do condomínio. (..) O número de apartamentos disponibilizados para aluguel de temporada faz com que o prédio tenha hoje um número de unidades de hospedagem semelhantes a de hotéis de médio porte, como a movimentada unidade da rede Ibis que fica na Avenida Paulista, [com] 236 quartos. (..)

Hoje, o Copan tem 1.112 moradores, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no último Censo. Mas a estimativa mais recente da administração do condomínio é bem superior: seriam 3.500 residentes, número que pode incluir pessoas cadastradas como moradoras sem morar ali de fato (..) um número bem menor do que os 5 mil divulgados antigamente pela própria administração do condomínio e replicados em muitas reportagens sobre a magnitude do Copan. O cálculo mais modesto do IBGE — que corresponde a menos de uma pessoa por apartamento em média — já sinaliza um esvaziamento do edifício para moradia fixa. Com a valorização dos imóveis, está mais caro viver de aluguel ali. (..)

Enquanto algumas das cidades mais visitadas mundo, como Barcelona, têm aprovado leis restritivas em relação ao Airbnb, São Paulo tem visto se espalhar pelo Centro e bairros mais cobiçados novos edifícios que atraem compradores justamente com a proposta de fazer dinheiro com o imóvel por meio do aluguel por temporada.

Mas as discussões entre urbanistas, moradores e governos têm caminhos diferentes. A crise de moradia em cidades da Europa é causada por uma combinação de turismo, aluguel de curta duração, limites à verticalização e preservação histórica. Já em São Paulo, a última atualização do Plano Diretor, de 2023, busca atrair novos moradores para adensar regiões como o Centro, incentivando construção de novas moradias, serviços e empregos perto dos eixos de transporte público. Para incentivar essas novas moradias, há prédios financiados pelo programa Minha Casa Minha Vida e com incentivos fiscais da Prefeitura. Há denúncias, porém, de que alguns prédios não estão servindo como residência, e sim como hospedagem temporária. "Com esses aluguéis por temporada, a gente tem uma diminuição cada vez maior do número de pessoas vivendo nesses eixos de transporte, nessas zonas onde as construções novas foram cada vez mais sendo permitidas", avalia Maíra Rosin [moradora do Copan, historiadora e doutora em Arquitetura e Urbanismo com pesquisas sobre o Centro de São Paulo]. (..)

Hoje, está em andamento no Congresso um projeto de lei (PL 4/2025), do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que trata da reforma do Código Civil, em que são contemplados especificamente os aluguéis por temporada. (..) O Airbnb informa que acompanha atentamente as discussões legais e defende ser "importante diferenciar a locação por curta temporada dos meios de hospedagem, que seguem regras próprias. Locar um imóvel residencial por curtos períodos não configura atividade comercial, nem sujeita o proprietário às obrigações de estabelecimentos hoteleiros", diz a empresa. (..)


2026-02-11

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Bonduki 2024: verticalização e adensamento

BONDUKI N, "O adensamento populacional é necessário, mas verticalização precisa ter limites e respeitar a memória e o ambiente de São Paulo"Estudos Avançados 38 (111), 2024


Montagem: À beira do urbanismo
(..) O debate entre cidades compactas e cidades dispersas é clássico no urbanismo. O senso comum, o mercado imobiliário e até mesmo alguns especialistas relacionam cidades compactas a aglomerações mais verticais e cidades dispersas a aglomerações mais horizontais. Análises de situações concretas, no entanto, mostram que essa relação não é, necessariamente, assim tão direta. 

Para muitos, o adensamento, a verticalização e a concepção de uma cidade mais compacta são sinônimos de especulação imobiliária. Para outros, os opositores da verticalização são pessoas ou organizações egoístas, chamados do NIMBY “not in my backyard” (“não em meu quintal”) e defendem a máxima verticalização possível, argumentando que seria a única forma de adensar a cidade. 

O fato é que uma cidade mais compacta, menos dispersa e mais densa pode ser obtida sem, necessariamente, aceitar uma verticalização sem limites, em qualquer lugar, a qualquer custo. Cidades como Paris e Barcelona são densas e compactas sem serem verticais. Já São Paulo, apesar do intenso processo de verticalização, em especial nos bairros mais bem estruturados do quadrante sul e sudoeste, a área urbana do município (excluindo a zona rural) tem uma baixa densidade demográfica, em torno de 110 habitantes por hectare. Se considerarmos apenas o chamado centro expandido, podemos dizer que São Paulo é um exemplo de verticalização sem adensamento.

O censo de 2022 (IBGE, 2024) confirmou uma situação que se observa desde os aos 1980, mostrando que distritos muito bem localizados em termos de infraestrutura, serviços e empregos e que têm bairros fortemente verticalizados, com empreendimentos voltados a média e alta rendas, têm baixa densidade demográfica. Esses distritos, situados no centro expandido (ou na Macroárea de Urbanização Consolidada, de acordo com a divisão estabelecida no Plano Diretor Estratégico), têm densidade populacional inferior à média da cidade, como Lapa (73,5 hab./ha), Pinheiros (77,8 hab./ha), Moema (89,9 hab./ha), Itaim Bibi (101,1 hab./ha) e Mooca (101,9 hab./ha). 

Por outro lado, vários distritos não verticalizados com o padrão convencional do mercado imobiliário formal paulistano têm alta densidade demográfica. 

São distritos que apresentam grande concentração de favelas e loteamentos irregulares e estão localizados nas periferias, ou na Macroárea de Redução da Vulnerabilidade Urbana e Social. Distritos como Cidade Ademar (203,7 hab./ha), Capão Redondo (196,3 hab./ha), Sapopemba (195,8 hab./ha), Campo Limpo (187,7 hab./ha) e Lageado (184,6 hab./ha) têm densidade populacional muito superior à média da cidade e mais que o dobro dos distritos com maior verticalização, nos bairros de alta e média renda. 

Ambos os padrões são inadequados. O alto adensamento nos distritos periféricos, em geral resultante do autoempreendimento das moradias, sem assistência técnica, em favelas e loteamentos irregulares, é indesejável, porque ele se caracteriza por uma péssima qualidade urbanística e edilícia.

O sistema viário é insuficiente, caracterizado por ruas e vielas estreitas, ausência de calçadas; inexistência de praças e áreas livres; falta de recuos entre as construções, gerando moradias inacabadas e insalubres, sem iluminação e ventilação; e adensamento construtivo precário de média altura (de três a cinco pavimentos), com a sobreposição de lajes sem projeto estrutural. A casa própria se mistura com moradias alugadas e/ou cedidas, em muitos casos cômodos com banheiros coletivos. Cada vez mais os loteamentos irregulares, as favelas e os cortiços se assemelham e estão mesclados nos territórios periféricos.

Já nos distritos do centro expandido, que concentram 70% dos empregos formais da cidade, um conjunto de fatores gera um adensamento construtivo com baixo adensamento populacional. Ocupado por uma população de alta e média alta rendas, mais idosa e majoritariamente branca, as famílias são menores e ocupam moradias de maior dimensão. 

Por isso, os empreendimentos imobiliários voltados para esse segmento têm alto adensamento construtivo, mas baixo adensamento populacional, com extensas áreas condominiais privadas e, em geral, no modelo decorrente da Lei de Zonemaneto de 1972, só alterada no Plano Diretor de 2014, uso exclusivamente residencial, o que torna necessário que outros imóveis sejam destinados aos usos não residenciais.

Ademais, em vários desses distritos, coexistem Zonas Exclusivamente Residenciais (ZER), de ocupação unifamiliar horizontal, com lotes grandes e famílias cada vez menores, o que as caracteriza como verdadeiros vazios demográficos em regiões de alto padrão urbanístico. Distritos como Morumbi (38,1 hab./ha) e Alto de Pinheiros (49,8 Hab./ha), onde esse modelo predomina, têm as menores densidades demográficas da zona urbana da cidade e estão decrescentes.

Entre 2010 e 2022, a perda de população no Alto de Pinheiros foi de 13,7%, e no Morumbi, 7,0%. Reverter a perda de população em ZER é urgente. A análise da dinâmica demográfica da cidade em um largo prazo mostra que nem sempre verticalização gera adensamento populacional. Em 1980 e 2000, quando estava em vigor o zoneamento de 1972, todos os distritos do centro expandido de São Paulo sofreram um forte esvaziamento. Na década de 1990, 55 dos 96 distritos da cidade tiveram redução da população, e em seis o decréscimo alcançou de 2,5% a 4,0% ao ano. Por outro lado, todos os distritos periféricos, assim como maioria dos municípios da região metropolitana que ficam no entorno de São Paulo sofreram grande crescimento demográfico que chegou a alcançar no máximo 13% ao ano.

Nesse período, a redução da população ocorreu nos dez distritos do centro histórico e bairros centrais, onde o processo imobiliário estava estagnado, mas também em todos os distritos onde o mercado imobiliário foi dinâmico e provocou verticalização. Prédios mais altos não garantiram adensamento populacional no centro expandido, que concentra 69% dos empregos do município. (..)

2026-02-04