quarta-feira, 27 de julho de 2022

Gestão Pública da Valorização do Solo Urbano: Estudos de Caso

Empreendimentos Paço Real e terreno público da Av. Rotary Internacional
(Texto para discussão no âmbito do GT do PRI de São Cristóvão)
https://drive.google.com/file/d/1U5Coh0OI_y5VhQMAmsCrOAo5Xkuk2ptT/view?usp=sharing

Por Antônio Augusto Veríssimo, Arq., junho de 2008


O presente trabalho tem por objetivo apresentar estudos de caso que demonstram o potencial do mercado imobiliário para a geração de recursos para o financiamento de intervenções públicas em áreas de renovação urbana. 

O conceito que orienta este trabalho é o da Gestão Pública da Valorização do Solo Urbano que pressupõe que o poder público tem o direito - e mesmo o dever - de recuperar para a coletividade parte da valorização imobiliária gerada por ações coletivas, tais como alterações na norma urbanística, investimentos públicos e outras ações de caráter público ou particular, que hoje são apropriados de forma privada, reinvestindo-a em melhorias urbanas.

Os fundamentos legais para esta recuperação estão presentes no texto do Estatuto da Cidade, nos incisos IX e XI do Artigo 2º que determina, como diretriz da Política Urbana, a justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do processo de urbanização e a recuperação dos investimentos do Poder Público de que tenha resultado a valorização de imóveis urbanos.

Os casos em estudo são os empreendimentos Paço Real, localizado no Bairro de São Cristóvão, na Rua Euclides da Cunha n.º 243/281 e um estudo de viabilidade econômica para um terreno público municipal situado junto às instalações da Imprensa Oficial na Av. Rotary Internacional (ver ilustrações 1 e 2).

Para o cálculo da valorização agregada ao imóvel foi utilizado o método residual, também denominado método involutivo, seguindo os procedimentos constantes da apostila do Curso de Engenharia Legal ministrado pelo Professor Engenheiro Sérgio Antonio Abunahman [1].

O método utilizado

Para a utilização do método residual ou involutivo, também conhecido como do máximo aproveitamento eficiente, é necessário que se elabore inicialmente um estudo de viabilidade, com base na legislação vigente, buscando-se o aproveitamento máximo do terreno, ou seja, é necessária a realização de um estudo prévio arquitetônico que leve em conta o maior e melhor uso para o terreno, sob o ponto de vista legal e econômico. É necessário também um bom conhecimento das demandas e do preço de mercado para os produtos unitários equivalentes que permitem este maior e melhor uso no local, que podem ser: unidades habitacionais (apartamento ou casas); unidades comerciais (lojas ou escritórios) ou usos mistos que combinem apartamentos e lojas, ou escritórios e lojas ou edificações para indústrias ou serviços, se for o caso. 

Conhecendo-se o número máximo de unidades passíveis de serem produzidas e comercializadas no local, com base no estudo arquitetônico e de mercado efetuado, bem como seu valor de comercialização, pode-se determinar o produto geral de vendas - PGV, ou seja, o resultado em termos financeiros a ser apurado após a venda no mercado de todas as unidades produzidas. 

Conhecido o PGV esperado é possível iniciar os estudos para a verificação da viabilidade econômica do empreendimento. (Continua)

Acesse o artigo completo em PDF pelo link
https://drive.google.com/file/d/1U5Coh0OI_y5VhQMAmsCrOAo5Xkuk2ptT/view?usp=sharing

2022-07-27

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Kriedte 1987: Cidade e proto-industrialização

KRIEDTE P, “La ciudad en el proceso de protoindustrialización europea". Manuscrits: Revista d’història moderna No. 4-5, 1987, pp. 171-208
https://ddd.uab.cat/record/39321

York, Inglaterra 1611

“(..) en Sedan en el siglo XVIII se limpiaba la lana, se tundian las piezas y se sometían los paños al acabado final. Mientras que los paños se batanaban y también, en parte, se tejían en los suburbios de Sedan, la fabricación de hilo, en su totalidad, y la tejeduría, en su mayoria, se localizaban en el campo, en los alrededores menos o más cercanos a Sedan, respectivamente. Valenciennes halló en el prometedor comercio del blanqueo, que se habia expandido rapidamente en el siglo XVIII, una relativa compensación al desplazamiento de la tejeduría hacia el campo. También el comercio de la indiana, una de las manufacturas que se habian desarrollado con más rapidez durante el siglo XVIII, tenia generalmente su emplazamiento en la ciudad. Hay que mencionar aqui las prensas de indiana de Manchester, Rouen, Mühlhausen, Augsburgo y Chemnitz. Junto a esto existian importantes excepciones como las prensas de indiana en Cartalloid o la de Oberkampf en Jouy.

Por tanto, la ciudad cedió partes particularmente intensivas del proceso productivo como la hiladuria y la tejeduria al campo, pero se reservó, aparte de la dirección del proceso, aquellas partes, que al precisar una menor intensidad de trabajo, podian, consecuentemente, centralizarse y de las que dependia de forma decisiva la calidad del producto. Ocasionalmente, la pérdida parcial de la función urbana siguió avanzando hasta una pérdida total, cuando, con el abandono del comercio junto con la manufactura, la ciudad perdió no solo su función como centro de producción, sino también como centro de organización y de distribución. Esto ocurrió sobre todo allí donde surgieron centros de producción, similares a los urbanos, en el entorno de una ciudad determinada, que se hicieron independientes de aquellas en todos los aspectos. York, que durante la Edad Media habia sido el centro de producción de paños de lana más importante de Yorkshire y que habia perdido esta posición en el siglo XV en favor de la manufactura pañera rural y expansiva en West Riding, pudo mantener en principio sus funciones comerciales, pero también las perdió hacia el 1700. En los alrededores de Colonia surgieron con Solingen y Remscheid (pequeña siderurgia), por un lado, y con el valle del Wupper (Wuppertal), Lennep, Krefeld y Mühlheim am Rhein (lino, paño y seda), por otro lado, las primeras metrópolis manufactureras de la comarca renana totalmente independientes. (..)”


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https://ddd.uab.cat/record/39321

2022-07-20

 

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Atkins 1998: Cidade e proto-industrialização

ATKINS P J et al, “Chapter 12: Urbanization and Proto-industrialization”, in People, Land and Time. London: Hodder Arnold 1998
https://www.academia.edu/10684390/Urbanization_and_proto_industrialization

“(..) In the twelfth century most industry was urban-based. Weavers, iron and lead workers, coopers, leather workers, potters and other craftsmen used local raw materials and served the local market. From about 1300 to 1700 the link between towns and industry became more tenuous as entrepreneurs took up opportunities in the countryside, and gradually regions developed specialisms such as a particular type of cloth or metalwork. One factor was organization. In urban areas the craft guilds regulated production and sought to protect the interests of their members, but they also had a stifling effect upon innovation and acted to keep out newcomers. In contrast, in the countryside there were few restrictions. Such was the shift in the centre of gravity of manufacturing that the prosperity of some towns was seriously threatened. Technology was also important. Human muscle power was the main input in urban workshops but from the mid fourteenth century on there was a greater use of water power and wood charcoal as fuel. In the textile industry, for instance, the water-driven fulling mill was adopted from the thirteenth century as a labour-saving device for cleaning and finishing woollens. Mendels (1972) and other writers have argued that a set of conditions existed in the early phase of industrialization that were very similar in the establishment of rural centres of manufacturing throughout western Europe. These may be conveniently summarised in three points: 

· Small-scale domestic production, using patriarchally-directed family labour, was cheap and flexible. It made use of the time available between tasks on the farm. The fit with the daily rhythms of livestock farming was better for this than arable areas where the seasonal peaks of ploughing, sowing, weeding, harvesting and threshing left little spare time.

· Such dual economies were characteristic of areas of harsh environment where the industry provided a welcome supplement to agricultural income. They were also encouraged where there were limited resources for expansion, for instance where commons were stinted.

· Rural industry also seems to have been popular in regions with a rapidly growing population, for instance where inheritance practices stipulated the division of a father’s properties equally among his sons. This partible inheritance anchored population to the land but impoverished successive generations as the average size of farms declined. Population also grew where manorial control was weak and unable to prevent immigration. In these sorts of areas industry was a means of providing work for the underemployed. 

Since many rural industrial economies were distant from both their raw materials and their markets, they relied upon intermediaries, often urban-based merchants who organized channels of assembly and distribution and who could deal with the transport of bulky commodities. Some merchants came to control the quality and quantity of output by their clients in a sophisticated putting-out system. This involved an increasing investment by the merchant until s/he owned the raw materials and machinery used in the rural workshop, reducing the craftsmen and their families almost to wage labour. The concentration of economic power in the hands of a few wealthy merchants was sometimes a precursor to the industrial capitalism of a later age, but there were exceptions.
Not all of the proto-industrial regions fulfilled the conditions listed by Mendels. Neither of the textile-producing regions of Suffolk or south Yorkshire, for instance, could be called marginal agricultural economies. Nor can we say that all proto-industrial regions were longterm successes leading to the development of factory-based industrialization and large scale urban growth. Some did, as in the Lille district of north eastern France and the lower Rhineland of Germany (Pounds 1985). Others waned and returned to agriculture, leaving only traces of their former glory. The textile villages of the Suffolk-Essex border are the classic example of this latter phenomenon, where it is frankly difficult to believe on present inspection that they were once hives of industry, and other areas of vigorous proto-industry have declined, such as the textile districts in northern Italy, Catalonia (Spain) andL ód_ (Poland). Some hearths of the Industrial Revolution, such as the north east of England or south Wales, had little or no tradition of rural industry and started as it were from scratch in the eighteenth and nineteenth centuries.

The landscape impact of proto-industry was minimal. The energy needed was derived from wind or water, or just from human or animal muscle power. Where wood or charcoal were employed, for instance in iron smelting, renewable resources were drawn upon in the shape of managed woodlands (Chapter 6). Mining technology was primitive, leaving only the remains of bell pits or adits, and the miners operated in small groups so that workings were localized and superficial. The dual economies of farming and textile industries would have merged into their rural background, with only minor architectural modifications such as spinning galleries or well-lit weaving sheds to show. The only major landscape modifications came in those districts which went on to participate in the Industrial Revolution, and the evidence of their early beginnings have often been obliterated. (..)

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https://www.academia.edu/10684390/Urbanization_and_proto_industrialization

2022-07-13

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Financeirização da (última) moradia

Valor Investe 14-06-2022
https://valorinveste.globo.com/produtos/fundos-imobiliarios/noticia/2022/06/14/fundo-imobiliario-de-cemiterios-tem-rentabilidade-de-68percent-de-janeiro-a-maio-de-2022.ghtml

“(..) Em maio, 47% dos fundos imobiliários tiveram um desempenho positivo, segundo o estudo da Smartbrain. Entram no estudo fundos com mais de três meses de existência e pelo menos 30 negociações no período do recorte. No mês, dois deles conseguiram um retorno superior a 20%. 

O primeiro lugar no ranking de maio ficou com o Diamante (DAMT11B), que teve uma valorização de 26,67% e tem shopping e lojas na composição. O segundo lugar ficou com o Brazilian Graveyard and Death Care (CARE11), com uma valorização de 22,25%. E em terceiro ficou o que investe em recebíveis, o Hectare CE FII (HCTR11), com alta de 8,38% no mês. (..)”


2022-07-06

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Cidades novas no Brasil: Palmas, TO

BOTTURA Roberto e VARGAS Heliana C, “O projeto de Palmas TO frente as teorias urbanas revisionistas pós 1945”. Vitruvius / Arquitextos, ano 21, out. 2020
https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/21.245/7923


Clique na imagem para ampliar
Todo estudo que se debruce sobre uma cidade nova tem diante de si a oportunidade de observar alguns fenômenos em um contexto que evidencia de forma mais latente as contradições entre o projetado (desejado) e o realizado (materializado). Aqui, o objeto de análise é Palmas, capital do então recém-criado estado brasileiro do Tocantins, concebida por arquitetos e inaugurada no final do século 20 a toque de caixa em um movimento de ocupação da região norte do país.

Seu projeto é formado por um Plano Básico / Memória a cargo do escritório goiano GrupoQuatro, cujos responsáveis costuram diversos discursos na busca de certa originalidade urbanística, que resultou numa proposta de cidade que nos instiga a decifrá-la. Considerando o ano de projetação/inauguração, 1989, junto aos objetivos com que os arquitetos a idealizaram, Palmas se insere cronologicamente e teoricamente em um contexto de revisão dos dogmas funcionalistas da Carta de Atenas.

(..)

Parte-se da hipótese de que o projeto de Palmas representa um interessante paradoxo, ao reforçar paradigmas da cidade modernista, embora no discurso do plano a negasse plenamente. Conforme descrito em seu memorial, buscava-se revogar atitudes radicais racionalizadoras, bem como setorizações e imposições contra a natureza. No entanto, o traçado, o arranjo das funções e as espacialidades construídas resultaram numa cidade de uma tediosa quadrícula cartesiana em que a falta de usos combinados, a monotonia da repetição, a negação da rua e da calçada e a total priorização do transporte motorizado individual terminaram por moldar o inverso do que se pretendia.

Desta forma, o objetivo do presente trabalho é avaliar o projeto urbano de Palmas a partir das contradições entre as teorias funcionalistas do urbanismo moderno e as respectivas teorias revisionistas que emergem pós 1945. (..)

2022-07-01

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Vem aí o Cimento Verde-Amarelo

Construa Negócios 21-06-2022
Construtoras reclamam de preço de cimento ao governo

Empresários da construção voltaram a levar ao governo as queixas da indústria sobre o preço do cimento. A pressão do setor contra os reajustes foi forte nos últimos anos e deve voltar a crescer nos próximos meses.

Em reunião com o Ministério da Economia na semana passada, o SindusCon-SP (sindicato da construção civil) diz que entregou um documento sobre o impacto da escalada do produto nos custos das obras.

A entidade afirma que também relatou ao secretário-adjunto de advocacia da concorrência, Alexandre Messa, que as cimenteiras têm enviado às construtoras muitos avisos de novas tabelas de preços.

No documento levado ao órgão, a entidade aponta que as altas do cimento, superiores à variação do INCC (Índice Nacional de Custo da Construção), afetam os valores de concreto, argamassas e blocos.

Os aumentos provocam desequilíbrio econômico-financeiro nos contratos, encarecem a execução das obras públicas e ameaçam programas de governo como o Casa Verde e Amarela, segundo o SindusCon.

2022-06-29

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Aluguel e rendimento familiar: uma nota

Folha de S Paulo 09-06-2022
https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2022/06/aluguel-compromete-38-da-renda-familiar-em-sp-diz-pesquisa.shtml


Não será a diferença de 11% o ágio, ou “imposto sobre a pobreza”, que as famílias de menor rendimento pagam à propriedade por não terem acesso ao financiamento imobiliário? 

A regra geral do mercado de alugueis residenciais parece ser a de que, quanto mais baratos os imóveis em termos nominais, mais caros em termos reais, isto é, mais pesam sobre o orçamento das famílias; não por acaso, a razão entre o valor médio do aluguel e o valor médio de compra-venda dos apartamentos de tamanho similar é sistematicamente maior nos bairros menos valorizados.

Fonte: Àbeiradourbanismo

E dado que “38% do rendimento mensal em aluguel” provavelmente não inclui condomínio e IPTU, que nas áreas formais são parte do pacote, é provável que o peso da moradia (de aluguel) sobre o orçamento das famílias de baixos rendimentos não seja inferior a 40%.

2022-06-22

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Home equity loans once more

The Guardian 09-06-2022, por Bob Kerslake

Right to Buy (Direito de Compra) é um instituto em vigor no Reino Unido (salvo Escócia desde 01-08- 2016 e País de Gales desde 26-01- 2019), que dá aos inquilinos das moradias do Estado e de algumas cooperativas habitacionais o direito de comprar, com grande desconto, os imóveis em que residem. Para os inquilinos de imóveis cooperativados construídos com subsídio público após 1997, existe também o Right to Acquire (Direito de Aquisição), com um desconto menor. De 1980 a 1997, mais de 1.700.000 moradias sociais foram vendidas no marco dessa política, tida como uma das principais causas da drástica redução da quantidade de moradia social no Reino Unido, que caiu de quase 6,5 milhões de unidades em 1979 para cerca de 2 milhões em 2017, e como o fator principal do aumento de 15% no índice de casa própria, que passou de 55% dos domicílios em 1979 para 71% em 2003 (63% em 2017 na Inglaterra). [1]

A privatização pulverizada dos estoques de habitação social do Reino Unido no âmbito das reformas econômicas thatcheristas foi um componente-chave da política de sustentação do nível de consumo à base de empréstimos pessoais lastreados na expectativa de valorização do solo nas grandes metrópoles.

Este é um aspecto central de O Mundo em Queda Livre (2009), livro de J Stiglitz, ex economista-chefe do Banco Mundial, sobre a debacle financeira de 2008. Nele se lê que a indústria do refinanciamento hipotecário foi uma forma de os estadunidenses "tomarem emprestado e consumir como se os seus rendimentos estivessem crescendo". [2]

O mesmo juízo reaparece, com uma análise mais ampla e historicamente situada, no livro Rethinking the Economics of Land and Housing, dos britânicos Ryan-Collins, Lloyd e Macfarlane [3]:

“(..) no Reino Unido e nos EUA, os empréstimos pessoais garantidos pelas residências (EGR) produziram um aumento do consumo: quanto maior o valor da garantia, maior o nível de consumo. (..) Desde a desregulamentação do crédito na década de 1970, a EGR contribuiu de forma importante para a demanda do consumidor no Reino Unido, ainda que somente nos períodos de alta dos preços da moradia (..). Tanto Margaret Thatcher (1979-92) quanto Tony Blair (1997-2007) desfrutaram, em seus mandatos, grandes booms de consumo parcialmente impulsionados pelo EGR, que contribuíram significativamente para o crescimento do PIB. A década anterior à crise financeira registrou níveis sem precedentes de EGR, com proprietários valendo-se do aumento dos preços das residências para tomar mais empréstimos e consumir mais. O sociólogo Colin Crouch (2009) descreveu o fenômeno como uma espécie de 'keynesianismo privatizado': ao passo que no período 1950-70 a demanda foi sustentada pelo Estado pela via da expansão fiscal, no período 1980-2007,  de declínio dos salários médios, ela foi alimentada pela dívida hipotecária”. [4]
 
Não surpreende que, como explica Muellbauer no prefácio da obra, "no longo prazo, as famílias altamente endividadas [tenham ficado] vulneráveis ​​à queda dos preços imobiliários". [5] Nos EUA, o colapso financeiro de 2008 significou que "pelo menos 10 milhões de pessoas perderam suas casas, quase 9 milhões perderam seus empregos e, quatro anos depois, 46,5 milhões viviam na pobreza [6].

2022-06-15

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NOTAS

[1] WIKIPEDIA: "Right to Buy"

[2] STIGLITZ J, O Mundo em Queda LivreOs Estados Unidos, o mercado livre e o naufrágio da economia mundial. Trad. José Viegas Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Cap. 1: A formação da crise

[3] RYAN-COLLINS, LLOYD e MACFARLANE, Rethinking the Economics of Land and Housing. Zed Books 2017, edição do Kindle, p. 146.

[4] “(..) in the UK and the US, the home-equity withdrawal [HEW] channel boosts consumption as existing homeowners are able to finance higher consumption on the back of higher collateral values. (..) Since the credit deregulation of the 1970s HEW has made important contributions to consumer demand in the UK but only in certain periods when house prices have been rising (..). Both Margaret Thatcher (1979–92) and Tony Blair (1997–2007) enjoyed major consumption booms partially driven by HEW, with equity withdrawal contributing significantly to GDP (..) in both their tenures. The decade before the financial crisis saw unprecedented levels of home equity withdrawal as homeowners used rising house prices to increase their borrowing to fund consumption. The sociologist Colin Crouch (2009) has described this as a form of ‘privatised Keynesianism’, with the large injections of mortgage debt via equity withdrawal propping up consumer demand in the face of declining median wages, in contrast to the state supporting demand via fiscal expansion as in the 1950–70 period.”

[5] MUELLBAUER J, "Foreword", em RYAN-COLLINS, LLOYD e MACFARLANE op. cit.
 
[6] “The financial crisis hit 10 years ago. For some, it feels like yesterday”. Los Angeles Times 15-09-2018, por Colleen Shalby

domingo, 12 de junho de 2022

Rio de Janeiro, por Luiz Behring

 

Imagem e texto: Luiz Behring
Sorte de Fotógrafo

Já estava a alguns minutos fotografando, e havia feito algumas fotos, todas medíocres. E é nessas horas, que o anjinho e o diabinho, começam a sussurrar nos meus ouvidos.

- Vamos embora, essa foto já foi feita.

- Nada disso! Fica! Quem sabe o inesperado acontece?

- Que besteira! Vamos!

E foi em algum momento desses, que percebi uma garça branca se aproximando pela direita. Posicionei a câmera no enquadramento previamente decidido e esperei um ou dois segundos para fazer a foto.

Mas foi aí, exatamente aí e antes de tirar os olhos do visor que meu quadro foi literalmente invadido por um bando de Biguais.

Fiz uma sequência de disparos com um frio no estomago e sem respirar. Estava usando uma zoom regulada em 300mm, o que é um ângulo muito restrito. Um espanto!

Nesses momentos, sempre me lembro de um amigo que não está mais aqui. E sempre que eu contava sobre alguma foto e dizia que havia tido sorte em consegui-la, ele me enterrompia e dizia.

- Isso não é sorte não Bhering! Isso é sorte de fotógrafo! Isso só acontece por seu desejo e persistência!

Abraços Antonio Cleber!!!

2022-06-16

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Associação da Moradia Social: urgente!

O Globo 07-06-2022
https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2022/06/projeto-que-permite-um-imovel-como-garantia-de-varias-dividas-pode-virar-pesadelo-para-familias-pobres.ghtml

A moradia é, por motivos óbvios, 'financeirizada' desde que começou a ser produzida para o mercado.

Ocorre, porém, que a faculdade que tem o solo urbano em geral, e muito especialmente o das grandes metrópoles planetárias do século XXI, de se valorizar continuamente mesmo em períodos recessivos, tornou a moradia objeto prioritário de desejo de gestores de capital de investimento, de mega-imobiliárias que operam na compra-venda e no aluguel, de bancos que emprestam a juros variáveis tendo o imóvel como garantia e de mercadores de títulos de dívidas imobiliárias. Todos operando num ambiente de negócios intrinsecamente especulativo e cada vez mais desregulamentado e internacionalizado.

A “financeirização da moradia” é, portanto, um aspecto ineludível da economia de mercado contemporânea. Creio ser impossível cogitar o seu fim à margem de um programa econômico e político de transição para uma economia planetária social e ambientalmente sustentável, essencialmente planejada.

Mas medidas defensivas imediatas são possíveis, e cada vez mais urgentes. Tudo considerado, a criação de uma Associação Internacional da Moradia Social, com seções em todos os países, seria um fato para lá de auspicioso.

2022-06-08


quarta-feira, 1 de junho de 2022

A gente quer inteiro, não pela metade

O Globo 30-05-2022 
https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2022/05/chuvas-em-pernambuco-para-especialistas-falhas-no-planejamento-urbano-e-na-resposta-a-crise-explicam-tragedia.ghtml
My News 29-05-2022
https://canalmynews.com.br/mais/sobe-para-56-o-numero-de-mortes-registradas-em-pernambuco-vigilancia-em-saude-do-estado-aponta-70-obitos-urbanista-explica-culpa-nao-e-das-chuvas/


Toda vez que ocorre uma tragédia socioambiental urbana no Brasil, os jornalões vêm com a mesma lenga-lenga: “falta planejamento”!

Não conheço os “especialistas” consultados pel’O Globo, mas acho que não faz a menor diferença: é muito possível que o editor tenha selecionado, em seus depoimentos, aspectos técnicos secundários e frases que eludem questões constrangedoras, ou mesmo que as perguntas críticas sequer lhes tenham sido feitas.

Não me espantaria, considerando que a foto que ilustra a matéria mostra um automóvel de boa qualidade trafegando por uma avenida alagada, e não, como seria de esperar, os efeitos da enxurrada em uma área de risco densamente ocupada por habitações.

Por isso justapus à imagem d’O Globo uma foto publicada no MyNews, seguida do trecho de um depoimento digno de ser lido.

É preciso insistir: não falta planejamento. Todas as grandes cidades brasileiras dispõem de instituições de planejamento de grande tradição e pessoal técnico altamente capacitado. Faltam, sim, condições materiais e políticas para que o planejamento urbano possa produzir efeitos relevantes e não apenas “migalhas para os pobres”, como recém denunciou a urbanista e professora Nadia Somekh*.

Falta gasto público em infraestrutura urbana e moradia social; faltam impostos sobre a renda fundiária, incluído o capital investido em rendas fundiárias, para financiá-las; falta intervenção estatal no mercado de terras e benfeitorias para permitir o acesso dos trabalhadores às localizações centrais e pericentrais já urbanizadas. E faltam, sobretudo, rendimentos que permitam às famílias trabalhadoras ter acesso à moradia de qualidade como quaisquer outros cidadãos. 

Nada disso é simples de fazer no plano técnico e menos ainda no político. Mas eu diria que a primeira providência é deixarmos, os planejadores e os trabalhadores,  de nos contentar com migalhas.

2022-06-01

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NOTA

[*]“'O que o Plano Diretor deu aos pobres foi migalha', diz urbanista”. Folha de S Paulo 25-05-2022
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2022/05/o-que-o-plano-diretor-deu-aos-pobres-foi-migalha-diz-urbanista.shtml

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Sesmaria do Campo de Marte

Folha de S Paulo 30-5-2022
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2022/05/empresario-diz-ser-dono-de-parte-da-area-do-campo-de-marte-e-do-anhembi.shtml

“O processo de disputa do Campo de Marte entre União e Prefeitura de São Paulo, ação iniciada em 1958, teve desfecho no STF (Supremo Tribunal Federal) em março, com a extinção de cerca de R$ 25 bilhões em dívidas do município. Mas outra briga pela área está a caminho.

O empresário Adilson de Souza Bezerra, 51, afirma que parte do aeroporto é dele. Mas não só. Bezerra diz que também tem direito de propriedade sobre um pedaço do Complexo do Anhembi.

Amparado em documentos que remontam ao século 19, Bezerra levou essa reclamação ao Tribunal de Justiça de São Paulo e ao STJ (Superior Tribunal de Justiça). Mais recentemente, fez nova investida no Supremo para tentar interferir na disputa. A corte ignorou a reclamação, alegando que a ação já estava em estágio avançado e próxima ao acordo bilionário entre prefeitura e União. (..)

A documentação apresentada por Bezerra tem mais de 300 páginas, e sua autenticidade não foi contestada pelos tribunais. (..)”

2022-05-25

quarta-feira, 18 de maio de 2022

MEC, marco cívico no.1 do Rio de Janeiro

Extra online 17-05-2022
https://extra.globo.com/noticias/rio/tombamento-do-palacio-capanema-impede-venda-25511580.html

Elegante e plebeu, combinação perfeita de edificação e praça pública em meio às sóbrias ruas-corredor da Esplanada do Castelo - expansão republicana do Centro do Rio de Janeiro planejada por Alfred Agache na década de 1920 -, o MEC (originalmente MES*), oficialmente denominado Palácio Gustavo Capanema, é com certeza uma das mais belas e relevantes criações da arquitetura modernista em todo o planeta.

E considerando o papel de proa da arquitetura - como do futebol, da música e do carnaval - na construção (tardia) da nacionalidade brasileira na cena global de meados do século XX, ouso dizer que o MEC, criação coletiva de Lúcio Costa, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Ernani Vasconcelos, Jorge Machado Moreira e Oscar Niemeyer, é o mais importante marco cívico edificado do Rio de Janeiro, à altura das Bachianas de Villa-Lobos, dos dribles de Mané Garrincha e dos desfiles das Escolas de Samba na Av. Pres. Vargas.

Em tempos de emergência climática e democrática, não importa o mérito jurídico da decisão: com ou sem razão, sua excelência está mais do que certa em tirar o MEC do alcance da metralhadora giratória de Bolsonaro-Guedes, ídolos de uma burguesia tão ignorante e mesquinha que é incapaz de reconhecer, que dirá compreender, valorizar e proteger, as raras façanhas históricas de seu regime social. 

Só não entendo o motivo pelo qual o Instituto dos Arquitetos do Brasil, muito especialmente a sua seção carioca, não está movendo uma ruidosa campanha internacional não simplesmente em defesa do MEC, mas por sua transformação em sede de alguma instituição à altura do seu valor: Museu Internacional da Arquitetura Modernista, Sub-sede da ONU na América Latina, Paço das ONGs do Brasil ou algo que o valha.

E ainda que o Programa Reviver Centro, da prefeitura do Rio de Janeiro, esteja compreensivelmente concentrado em atrair empreendimentos imobiliários residenciais para esta parte da cidade, não é admissível que a correta destinação e o pleno aproveitamento do MEC para uso e desfrute da cidadania não seja, a essa altura, o símbolo maior de sua revivescência como centro urbano.   

Clique na imagem para ampliar
2022-05-18
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* Ministério da Educação e Saúde (1943). 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Mumford 1961: mercado de terras, transportes públicos, metrópole capitalista


MUMFORD L (1961), “Capítulo XIV - Expansión Comercial y Disolución Urbana, 4. Los especuladores y el trazado de la ciudad”. La Ciudad en la Historia, Logroño (Esp): Pepitas de calabaza Ed., pp.701-709.
https://docs.google.com/document/d/1YJlJh-DVrn1LAcDp6WAF1saV_TlAAnjj79lR2ac1llQ/edit?usp=sharing

(..) La ampliación del trazado en damero con propósitos de especulación y el sistema de transportes públicos fueron las dos principales actividades que dieron predominio a las formas capitalistas en las ciudades en desarrollo del siglo XIX. Las diligencias públicas fueron seguidas por los ferrocarriles, las balsas de vapor, los puentes, los tranvías eléctricos, los subterráneos y los trenes elevados, aunque no siempre en el mismo orden cronológico. Cada nueva ampliación de la ciudad, cada nuevo aumento de población, podían justificarse como seguro contra la inversión excesiva en estos servicios públicos y como una garantía más del aumento general de los valores inmobiliarios, no solo dentro de los límites de la ciudad, sino incluso en los territorios circundantes, que no formaban parte del municipio. Una economía en expansión reclamaba una población en expansión; y una población en expansión requería una ciudad en expansión. El firmamento y el horizonte eran los únicos límites. En términos puramente comerciales, desarrollo numérico era sinónimo de mejora. El censo de población bastaba para establecer la jerarquía cultural de una ciudad. Pronto seremos testigos de los resultados finales de este proceso con la formación de Megalópolis.


Al estimar la necesidad de nuevos subterráneos en Nueva York, por ejemplo, hace casi medio siglo, el ingeniero de la Comisión de Servicios Públicos proporcionó el enunciado clásico de este planteamiento: «Necesariamente todas las líneas deben estar trazadas hacia el objetivo: Manhattan. Toda línea de tránsito que lleve gente a Manhattan aumenta su valor en bienes raíces. En consideración a su situación geográfica y comercial, el valor de la propiedad en la isla de Manhattan debe aumentar exactamente en la misma medida en que aumente la población en el territorio circundante». (..)

Ni siquiera había entrado en la nueva mente urbana la idea de que una ciudad no podría controlar su crecimiento sin controlar el desarrollo de sus tierras y que ni siquiera podría dejar espacio para sus mismos edificios públicos, en las ubicaciones convenientes, a menos que pudiera adquirir tierra mucho antes de que surgiera la necesidad concreta de ella. La noción misma de control público fue tabú desde el comienzo. Cuando se trataba de ganancias, se consideraba, con fidelidad a la teoría capitalista clásica, que los intereses privados eran superiores a los intereses públicos. Cierto es que los poderes del Estado o el municipio no fueron nunca rechazados completamente por la empresa capitalista. Ávidamente, el capitalismo reclamaba grandes subvenciones y subsidios, o directamente regalos enormes, como los que promovieron en su origen los ferrocarriles del Oeste y como los que ahora, con no menor imprudencia, subvencionan los transportes aéreos y coches privados.

Así, la ciudad, a partir de comienzos del siglo XIX, no se consideró una institución pública sino una empresa comercial privada que se administraría de cualquier manera, siempre que pudiera aumentar el rendimiento del capital y promover la subida de los valores inmobiliarios. (..)

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2022-05-11

 

domingo, 8 de maio de 2022

Solo urbano: escassez e planejamento (2)

Aqui o liberal considera não os planejadores ou o sistema de planejamento, mas os proprietários recalcitrantes como agentes da escassez!!

No filme Aquarius, do diretor Kleber Mendonça Filho, a personagem Clara, interpretada por Sônia Braga, recusa-se a vender para uma incorporadora o seu apartamento, localizado em um condomínio. Seus vizinhos do edifício, por outro lado, topam o negócio. Em artigo para o Estadão, o economista Pedro Fernando Nery retrata o caso através de uma lente oposta à narrativa cinematográfica: Clara, ao invés de heroína, que resiste ao capital imobiliário sem escrúpulos ou respeito pela paisagem litorânea de Recife, é, na verdade, a vilã. Ao barrar o redesenvolvimento do pequeno edifício de 18 unidades em uma torre com mais unidades e mais área, ela estaria impedindo o aumento da oferta imobiliária na cidade em uma região bem localizada, empurrando potenciais futuros moradores para mais longe. (..) (Anthony Ling, ArchDaily em parceria com Caos Planejado)

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Acesse, neste blog, "Escassez e planejamento" pelo link
https://abeiradourbanismo.blogspot.com/2022/04/solo-urbano-desmistificar-escassez.html

2022-04-08

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Mumford 1961: para a história da renda da terra urbana


MUMFORD L (1961), “Capítulo XIV - Expansión Comercial y Disolución Urbana, 2. La nueva libertad”. La Ciudad en la Historia, Logroño: Pepitas de calabaza Ed., pp.689-697

(..) Muchos esfuerzos se hicieron a fin de reducir el ritmo de traspaso de la tierra municipal y feudal a la propiedad individual; pero el hecho es que este cambio prosiguió sin interrupción y fueron desapareciendo las posesiones feudales, con deberes recíprocos entre terrateniente e inquilino, siendo remplazadas por la propiedad comercial, sin más obligación que el pago de impuestos. Stow nos ha dado una descripción gráfica del proceso: en Shoreditch había

«una hilera de decorosas casitas con jardines para pobres familias venidas a menos, instaladas en ellas por el prior de dicho hospital (St. Mary Spittle), cada una de las cuales pagaba un alquiler de un penique por año para las navidades [...] pero, después de la supresión del hospital, estas casas, por falta de reparaciones, se arruinaron tanto en unos cuantos años que se las llamaba Rotten Row (La Hilera Podrida) y las pobres y maltrechas [...] casas fueron vendidas, por una pequeña cantidad de dinero, pasando de Goddard a Russell, un pañero, quien las reconstruyó y las puso en alquiler con buenas tarifas, cobrando también grandes multas a los inquilinos, casi tanto como le había costado adquirir y reconstruir las casas».

No bien se aceptaron los principios de apropiación capitalista, exentos de todo sentido de responsabilidad social, los cuchitriles contaron con autorización para prosperar. Avenel, el autor del tratado histórico clásico sobre Money and Prices, señala un nítido punto culminante en el siglo XVI. A partir de entonces, en Francia, los alquileres urbanos suben y exigen una parte desproporcionada del presupuesto del trabajador urbano. El cambio concreto debió de producirse en muchos lugares, en Londres, por ejemplo, antes del siglo XVI: de otra manera no podríamos explicamos esas líneas indignadas en Pedro el Labrador: «Compran casas, se hacen propietarios; si vendieran honradamente no edificarían tan alto». En el siglo XVI Robert Crowley confirmaba esta observación en sus versos sobre «Rent Raisers» (Los que suben los alquileres):

Un hombre que tenía tierras de diez libras por año

inspeccionó las mismas y las alquiló caro;

de modo que con diez libras hizo una veintena

de libras más por año que lo que otro antes hiciera. 

Los nuevos centros comerciales, con sus poblaciones cada vez mayores, fijaron el ritmo para la intensificación del uso de la tierra; y cuanto más limitada era la cantidad de tierra disponible, debido a la constricción natural, como en el caso de la montañosa Génova, o debido al monopolio privado, como en Viena o Londres, más altos eran los alquileres y mayores las posibilidades de beneficio mediante usos degradados y antisociales. Lo que las compañías navieras descubrieron en el siglo XIX, con su explotación de los pasajeros de proa, ya lo habían descubierto mucho antes los propietarios de terrenos: las ganancias máximas no se obtenían facilitando comodidades de primera clase para los que podían pagarlas a buen precio, sino hacinando en tugurios a aquellos cuyos peniques eran más escasos que las libras para un rico.

Antes de mediados del siglo XIX ya había muchas partes de Londres, Nueva York y París de las que se podía decir con seguridad: cuanto peor la vivienda, mayor la renta total de la propiedad. El único límite para esta feliz realización, consistente en estrujar a los pobres para lucrarse con sus necesidades, surgió cuando el costo del delito, el vicio y la enfermedad en el tugurio, reflejado en impuestos, empezó a aminorar la ganancia neta obtenida de los alquileres. En Londres esto no se produjo hasta la época victoriana, cuando se efectuó en el municipio una eliminación de cuchitriles al por mayor, en parte para adquirir nuevo espacio para la expansión comercial, pero también en parte para eludir la creciente carga de la ley de pobres de la parroquia.

La transformación de las antiguas casas más espaciosas en inquilinatos apelmazados, donde toda una familia - y a menudo más de una família - podía hacinarse en un solo cuarto, no bastaba para dar cabida a la población creciente de las ciudades más «prósperas». Era necesario construir nuevos barrios que aceptaran desde el comienzo estas condiciones abyectas como norma.

Según la autobiografía de Roger North, la edificación para especular comenzó en gran escala en Londres con las empresas del doctor Barbone después del Gran Incendio de 1666. La disminución de viviendas que se produjo entonces le brindó una oportunidad favorable. (..)


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https://drive.google.com/file/d/1Yod5uoMLzdER_xuYXLvv7diIuzm0ZVB9/view

2022-05-04 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Apontamentos: Correia da Silva e a centralidade urbana

CORREIA DA SILVA J O, “4.2.1 Urban Rents and Land Use” (excerto de “History of Spatial Economic Theory”, pp 47-48), em BACKHOUSE R, History of Economic Thought, Programa de Doutoramento em Economia, Faculdade de Economia do Porto, Universidade do Porto S/DATA
https://docs.google.com/document/d/1zbj2l8KUv4gQHpDrLZg0fLoA7P7cjSI3yQV-xMmgVdw/edit?usp=sharing

Estes apontamentos são parte de um processo de estudo compartilhado. À beira do urbanismo está à disposição dos autores cujo trabalho aqui se comenta para suas considerações.

Montagem: Àbeiradourbanismo 
Chama a atenção nesse excerto que seu autor, depois de observar que os modelos espaciais da tradição de Von Thunen têm o defeito de assumir como dado algo que está por ser esclarecido, no caso a formação do centro urbano, afirme que isso não é tão importante porque, afinal, não se pode esperar que os modelos expliquem tudo! E como para provar que a gênese do centro urbano é problema de pouca monta, recorda que muitas cidades não só não têm um centro único perfeitamente definido como podem ter vários, como Los Angeles, cujas 16 “cidades periféricas eclipsam seus dois centros”.

O problema aqui é que a policentralidade não nega nem esvazia a centralidade, fenômeno basilar da organização do espaço: ao contrário, o manifesta e reafirma em condições particulares, ou certo estágio, de desenvolvimento. Nessa questão estou com VILLAÇA, para quem, “nas regiões metropolitanas em geral, inclusive nas norte-americanas, continua a existir um centro tradicional, seja o de Chicago, de São Francisco ou de Nova Iorque, que é mais desenvolvido que os demais e por isso pode, e deve, ser chamado de ‘principal’”. E tenho dúvidas de que, como diz Gottdiener 1985 e parece admitir o próprio Villaça, a polinucleação “tenha como uma de suas consequências ou manifestações o enfraquecimento dos centros principais como aglutinadores do espaço metropolitano”. [1] 

A tendência à dispersão, nos países ricos - não por acaso corriqueiramente chamados de "centrais" -, de subcentros e cidades satélites ao redor dos grandes polos metropolitanos do século XX, resulta precisamente da concentração da riqueza nacional e global em suas áreas de influência, levando a que se expandam a ponto de formar conglomerados urbanos como a Grande Londres (quase diria a Inglaterra inteira), a Grande Paris e a Grande Tóquio, o triângulo Ruhr-Bruxelas-Amsterdam e seu análogo Houston-Dallas-San Antonio, os corredores Boston-Washington D.C, Quebec-Toronto, Osaka-Kioto e Xangai-Nanquim etc. Ao invés de "enfraquecimento", a polinucleação poderia significar a integração das grandes cidades em estruturas múltiplas ainda mais centralizadoras dos fluxos de riqueza global.

Retornando à metrópole, penso que o "modelo americano" não exprime leis de organização espacial urbana distintas das que vigoram no resto do mundo. As diferenças de rendimento familiar determinam, desde os primórdios da urbanização de mercado, tanto a forma geral da distribuição sócio-espacial, que é a ocupação residencial das áreas pericentrais pelas famílias mais desafogadas e a periferização do conjunto inversamente proporcional aos rendimentos, quanto suas manifestações particulares, como a formação de enclaves periféricos de elevados rendimentos com baixa densidade (jardins e alphavilles) e pericentrais de trabalhadores precarizados (cortiços) em alta densidade - configuração antagônica à forma geral da distribuição sócio-espacial, mas compatível com a lei fundamental da economia do espaço: rendas fundiárias decrescentes com a distância ao centro principal e aos subcentros. [2]

Vejo o “modelo americano” vigente, pode-se dizer, há quase um século, como situação-limite da forma geral centro-periferia nas especialíssimas circunstâncias históricas, geográficas e culturais de sua expansão capitalista, que inverte, relativamente à Europa Ocidental, Japão e países intermediários como Brasil, México e Argentina, o foco do poder de preempção locacional das camadas sociais aptas a aceder à moradia pela via do mercado. Dentre essas circunstâncias, cito: (1) uma classe média excepcionalmente numerosa, que inclui a totalidade da pequena burguesia e um enorme contingente de trabalhadores urbanos com significativos excedentes de rendimentos sobre as necessidades básicas; (2) um imaginário social que conserva a propriedade privada da terra de fronteira como ideal de liberdade individual e realização familiar; (3) uma numerosa coleção de cidades expandindo-se sobre terras de baixo preço relativo por m2; (4) o Estado provedor de uma vasta estrutura de acessibilidade automotiva movida a gasolina barata; (5) um setor bancário relativamente descentralizado e apto a oferecer crédito em massa a baixíssimo custo para o financiamento de automóveis e moradias; (6) uma formidável base industrial capaz de produzir tudo isso em tempo recorde.

De volta ao início, parece-me tão correto Villaça em dizer que o caráter polinucleado da metrópole estadunidense contemporânea é, em Gottdiener, "uma simples observação empírica, não uma teoria" [3] quanto Silva em sugerir - ainda que de passagem - que a gênese do centro de negócios da metrópole capitalista ainda está por ser explicada no domínio da economia espacial alonso-thuneniana. 

2022-04-27

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[1] VILLAÇA Flavio, Espaço Intra-Urbano no Brasil. FAPESP São Paulo 2001, p. 245.

[2] “(..) Lo que las compañías navieras descubrieron en el siglo xix, con su explotación de los pasajeros de proa, ya lo habían descubierto mucho antes los propietarios de terrenos: las ganancias máximas no se obtenían facilitando comodidades de primera clase para los que podían pagarlas a buen precio, sino hacinando en tugurios a aquellos cuyos peniques eran más escasos que las libras para un rico. (..)” MUMFORD L [1961], La Ciudad em la Historia. Logroño: Pepitas de Calabaza Ed 2012, p. 695

[3] VILLAÇA Flavio, op.cit., p. 38

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Apontamentos: Faria et al - Urbanismo e Urbanização em Ribeirão Preto

FARIA R, MIRANDA A L e RIZZATTI H (Orgs), Urbanismo e Urbanização em Ribeirão Preto - história e desenvolvimento. Editora FAU-UnB (a ser publicado)

Estes apontamentos são parte de um processo de estudo compartilhado. À beira do urbanismo está à disposição dos autores cujo trabalho aqui se comenta para suas considerações.


Para além do valor intrínseco de cada contribuição individual, Urbanismo e Urbanização em Ribeirão Preto, cuja publicação está sendo anunciada para breve, há de ser um livro de grande relevância e utilidade para o estudo historicamente orientado da organização espacial urbana no Brasil.

Começo tirando o chapéu para a clarificação do título, “Urbanismo e Urbanização", objetos distintos, embora permanentemente entrelaçados, que a arraigada tradição idealista da história e da crítica urbanística reitera em confundir. Para ser ainda mais didático, eu diria “Urbanização e Urbanismo”. 

Nas palavras de FARIA,

(..) produto de um trabalho coletivo que se iniciou com a realização de um Seminário em fevereiro de 2020 no Centro Cultural Palace de Ribeirão Preto (..), com este livro nos colocamos no debate político sobre Ribeirão Preto a partir de nossos campos disciplinares. (..) Arquitetura, Urbanismo, História, Geografia, Planejamento Urbano-Regional são os lugares profissionais que estão na base estrutural de um conjunto de olhares cujas críticas trazem também um projeto-ideia de transformação dessa mesma realidade.

O livro contém nove artigos de autores diversos, organizados em três partes definidas pelas principais fases do processo urbanizatório - entendido como combinação de crescimento “espontâneo” e ação governamental. São elas:

PARTE A - Ribeirão Preto no Séculos XIX e XX: história, urbanismo e urbanização.

PARTE B - Ribeirão Preto no Séculos XX: planejamento e política urbana A COHAB-RP na produção do espaço urbano em Ribeirão Preto (SP).

PARTE C - Ribeirão Preto no Século XXI: planejamento estratégico, periferização e metropolização.

Imediatamente interessado na transição do núcleo urbano original, reconhecido como vila em 1871, para os primórdios da metrópole contemporânea, digamos até o ano de 1930, pude extrair, de uma rápida pesquisa de autores participantes do projeto, uma pequena coleção de ótimos materiais como a preciosa Tese de Doutorado de Débora ZAMBONI, 
A Territorialidade do Capital: da fazenda ao condomínio, desenhando a cidade (UFABC 2018), [1] e uma série de escritos de Adriana Capretz Borges da SILVA, pesquisadora da história dos bairros oriundos do Núcleo Colonial [Agrícola] Antônio Prado, tema de sua Dissertação de Mestrado (UFSC 2002) e do livro Campos Elíseos e Ipiranga: memórias do antigo Barracão, [2] - além de textos de autores não relacionados à publicação.

Ambas as pesquisas lançam luzes sobre a rápida conversão das pequenas propriedades rurais provenientes da colonização agrícola de fins do século XIX em loteamentos suburbanos proletários e semi-proletários da metrópole nascente, e a consequente diferenciação norte-sul que passa a caracterizar, daí em diante, a sua configuração sócio-espacial

Apesar das significativas diferenças, o processo de incorporação dos lotes do Núcleo Colonial Antônio Prado à malha (sub)urbana de Ribeirão Preto suscita de imediato o caso de Erechim - RS, cidade “planejada” nascida, em 1910, da transformação do 5o Distrito de Passo Fundo em colônia agrícola também destinada a imigrantes europeus. Um estudo comparado da história dessas duas cidades pode ser o passo seguinte à publicação, em breve neste blog, de um artigo sobre a cidade de Erechim - mais exatamente sobre a incorporação do Plano Torres Gonçalves ao processo de expansão urbana impelida pelo mercado de terras, benfeitorias e serviços.

Encerro esta nota com duas passagens de SILVA que, embora aparentemente irrelevantes, tocam num ponto que me parece crucial:

Havia três acessos do núcleo colonial para o núcleo urbano já existente, que era chamado de “cidade” (..). A Sede [área verde da figura abaixo] (..) foi concebida com a finalidade de constituir um prolongamento da “Cidade” e, por este motivo, esses lotes eram denominados “urbanos”. [3]
Embora a autora não mencione a fonte dessas informações, as aspas deixam pouca margem para dúvida: trata-se de um fragmento da nossa história urbana incrustado na linguagem. Permito-me especular que, por ocasião da criação do núcleo Antônio Prado, o “centro”, entidade geográfica distintiva da transformação das cidades mercantis-escravistas brasileiras em metrópoles, grandes e pequenas, ainda não existia para os ribeirão-pretanos; surgiria, nas décadas seguintes, do próprio processo de suburbanização a norte e oeste da "cidade" principalmente, mas também, em alguma media, a sul e leste. Vejamos se o livro nos esclarece.

2022-04-20
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[1] ZAMBONI D P, A territorialidade do capital: da fazenda ao condomínio, desenhando a cidade. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Planejamento e Gestão do Território da Universidade Federal do ABC. Santo André, 2018.
http://lepur.com.br/wp-content/uploads/2019/01/Debora-Prado-Zamboni_Tese_2018.pdf

[2] SILVA A C B, Campos Elíseos e Ipiranga: memórias do antigo Barracão. Ribeirão Preto SP: Editora COC 2006

[3] MANHAS A C e MANHAS M P, “Traçado urbano e funcionamento do núcleo colonial Antônio Prado em Ribeirão Preto SP 1887. I Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica, Paraty, Maio 2011, p. 6.
https://www.ufmg.br/rededemuseus/crch/simposio/CAPRETZ_ADRIANA_E_MANHAS_MAX_PAULO.pdf

domingo, 17 de abril de 2022

"Operários de Brumadinho"

Fonte: https://arteforadomuseu.com.br/operarios-de-brumadinho/
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Mercado Municipal de São Paulo - Rua Cantareira - Centro Histórico de São Paulo, São Paulo - SP, Brasil. Artista: Mundano. Ano 2020 

“O mural ‘Operários de Brumadinho’ é uma homenagem às 272 vítimas, além do rio Paraopeba e tudo que vive a partir dele. O mural é uma releitura da emblemática obra “Operários” da Tarsila do Amaral e foi pintada com lama tóxica que a Vale ainda não retirou de lá. A pintura de 800m2 é uma forma de lembrar e pedir justiças todos os dias. Mas parece que aprendemos quase nada com essa destruição e tantas outras , afinal, no meio de uma pandemia agora querem privatizar a água, um direito humano básico e universal. Isso é autodestruição! Água não se vende, água se defende !” (Mundano)

2022-04-17