segunda-feira, 20 de junho de 2011

A cidade da música II: “Mambo da Cantareira”, Gordurinha (1960)

Só mesmo vendo como é que dói
Só mesmo vendo como é que dói
Trabalhar em Madureira
Viajar na Cantareira
E morar em Niterói.

Ê Cantareira, ê Cantareira, ê Cantareira
Vou aprender a nadar
Ê Cantareira, ê Cantareira, ê Cantareira
Eu não quero me afogar.


Para ouvir a música, clique em









Na época em que Gordurinha compôs o Mambo da Cantareira, trabalhar em Madureira e morar em Niterói era, ainda mais do que hoje, uma combinação “origem-destino” um tanto improvável. 

Na matriz O-D IplanRio de 1995 (PTM), Niterói e Madureira aparecem como os mais importantes bairros/municípios geradores de viagens diárias e zonas de destino dentre as mais concorridas, depois do Centro, mas com pouquíssimos deslocamentos entre si.

Como, porém, estamos falando de poesia urbana, não de planejamento ou ciência, só nos resta reconhecer que a rima de Gordurinha é tão feliz e exata que é como se os milhares de niterioenses que atravessam diariamente a Baía de Guanabara pegassem o trem da Central na Praça XV e desembarcassem, em tropel, no calçadão de Madureira.

Inventor do samba-rock com “Chiclete com Banana” e autor de obras muito populares no terceiro quarto do século passado, como “Súplica Cearense”, “Baiano Burro Nasce Morto” e “Orora Analfabeta”, Valdeck Artur de Macedo, que era baiano e magro, na verdade nunca morou em Niterói, mas sim em Belford Roxo, ex-distrito de Nova Iguaçu hoje transformado em município, um lugar urbano que já teve fama de excepcionalmente violento.

Faroeste de mito ou de verdade, Belford Roxo é a expressão acabada da periferia metropolitana do Rio de Janeiro e o Mambo da Cantareira uma sátira plangente e carnavalesca, afiada como um bisturi, das atribulações do seu morador, obrigado a grandes deslocamentos diários que, hoje como há 50 anos, tomam-lhe uma parte substancial do tempo da sua vida.

Estação da Cantareira, incendiada em 1959
Neste caso particular, o trem da Central, personagem de tantas criações artísticas cariocas, dá lugar a uma raríssima aparição do transporte marítimo metropolitano na figura da antiga barca da Cantareira. 

Foco de uma importante revolta urbana em 1959, a Cantareira (já sob o controle acionário da Frota Barreto) desapareceu, e com ela as suas antigas embarcações, substituídas na década de 1970 pelas lanchas da STBG e mais tarde pelas grandes barcas da CONERJ, batizadas com os nomes de bairros da classe média e alta do Rio de Janeiro e Niterói - Gávea, Ipanema, Urca, Icaraí e Santa Rosa. 

Se dependesse de Gordurinha, elas com certeza se chamariam Olaria, Encantado, Pendotiba, Caramujo e... Madureira!



Para os leitores  não familiarizados com a geografia do Rio de Janeriro