sábado, 2 de junho de 2018

PIU / São Paulo: gestão privada da cidade?

Labcidade 25-05-2018 por Paula Freire Santoro e Flávia NunesProjetos de Intervenção Urbana (PIUs) em São Paulo: transferência de terras para exploração comercial por terceiros

Imagem: Prefeitura de São Paulo
Um novo instrumento está sendo largamente utilizado na política urbana de São Paulo: o Projeto de Intervenção Urbana (PIU). Em uma de suas versões, a do PIU dos terminais, concessionários privados podem definir áreas e imóveis no entorno dos terminais de ônibus que desejam desapropriar para explorar comercialmente. Além de alargar para a exploração privada um instrumento (desapropriação) que era de uso exclusivo do Estado, e com fins estritamente de promover obras e equipamentos públicos, a atuação através de PIUs se dá de forma fragmentada e muito pouco transparente. Com processos decisórios cada vez mais enxutos, os projetos de intervenção urbana (PIUs) buscam afastar o debate público na elaboração e implantação de projetos que provocam transformações significativas nas áreas onde são implantados.


Nos últimos dois anos, a Prefeitura de São Paulo colocou 35 Projetos de Intervenção Urbana (PIUs) em debate, sendo que alguns deles foram oriundos de propostas dos proprietários de glebas, através de Manifestações de Interesse Privado. Se aprovados, podem afetar cerca de 102 km² ou quase 10% de toda área urbanizada da cidade. São muito fragmentados, de distintos tamanhos e tipos, que podem ser organizados em alguns grupos: (..) 

2018-06-02

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Em se plantando tudo dá

Segs 17-05-2018, por Deivid Souza

Impulsionando retomada, agropecuária influencia positivamente mercado imobiliário
 
Montagem: à beira do urbanismo
Imagens originais: Internet
Se ao longo de três anos de crise o agronegócio foi o responsável para que o PIB brasileiro não alcançasse resultados ainda piores, com um crescimento de 13% em 2017, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), este setor da economia é também o grande propulsor da atual retomada do crescimento do País. E isso traz influência positiva em outros setores, um deles é o mercado de imóveis.

Dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) apontam que os estados ligados ao agronegócio, entre eles Goiás, estão puxando a recuperação do mercado imobiliário no Brasil desde 2017. Em virtude dessa influência do agrobusiness, segundo a Abecip, a Grande Goiânia registrou um crescimento no número de lançamentos de 12,5%, enquanto que nacionalmente a queda foi de 13%. E tem mais: [segundo] dados da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi-GO), as vendas de imóveis no estado de Goiás cresceram 127% em 2017 quando comparadas ao ano anterior. O volume de negócios chegou a R$ 2,5 bilhões.

2018-05-28

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Compromisso com a sustentabilidade

G1 Goiás 17-05-2018, por Vanessa Martins

Roberto Carlos diz que empreendimento de luxo em Goiânia do qual é sócio será 'o melhor possível'
Família goiana entrevistada
 pelos incorporadores garante
 que o Horizonte Flamboyant
 é um produto que atende à sua
 demanda de sustentabilidade:
mamãe vai trabalhar de cozinheira
 e papai de zelador, enquanto os
pequenos ficam em casa,
amarrados ao pé da mesa,
 ouvindo o Rei Roberto cantar
 "Vou  chegar mais cedo em casa"
free Family Clip Art
O projeto é o primeiro, perto do Parque Flamboyant, em seis anos e já vendeu mais de 40 das 152 unidades antes do lançamento. O empreendimento de luxo fica em uma área de cerca de 4 mil metros quadrados e tem apartamentos de 177 e 204 metros quadrados, localizado na região nobre do Jardim Goiás, na Avenida H.
"Sou muito detalhista em tudo que eu faço, olho tudo pessoalmente. Digo que se não fosse cantor e compositor seria engenheiro ou arquiteto. Tenho um paixão pela área", declarou.
(..) Um dos sócios do empreendimento, Guilherme Pinheiro destacou que um dos principais chamativos da obra é exatamente a série de novidades sustentáveis. “O Horizonte é um produto que, mesmo sendo de alto padrão, atende à demanda da sustentabilidade. (..)”

(..) “Pensamos o tamanho dos apartamentos baseado em entrevistas com a família goiana. Além disso é um projeto novo, versátil, temos o maior lobby de entrada da cidade, elevadores exclusivos para todas as torres. É um empreendimento criado para o alto padrão goiano”, detalhou.

2018-05-24


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Belgrado Waterfront II

Estado de S Paulo 03-05-2018, por Barbara Surk / NY Times
http://internacional.estadao.com.br/noticias/nytiw,plano-para-construir-a-dubai-dos-balcas-irrita-moradores-de-belgrado,70002291828

Plano para construir a Dubai dos Balcãs irrita moradores de Belgrado

“Queremos restaurar a antiga glória de Belgrado, fazer dela uma cidade grande e respeitável novamente, depois dos anos de vergonha que vieram com os conflitos e guerras”, disse o prefeito de Belgrado, Sinisa Mali.


Antes do começo da construção, há dois anos, 231 famílias foram realocadas por causa do projeto, mas algumas se recusaram a sair. Certa noite, cerca de 30 homens mascarados com tacos de beisebol e ferramentas pesadas apareceram no local. Ao amanhecer, vários prédios residenciais e comerciais tinham sido demolidos para permitir o início das obras.

O ataque de 2016 chocou os sérvios, que levaram sua raiva às ruas, denunciando o que afirmavam ser práticas corruptas da elite. Os protestos se transformaram nas maiores manifestações contra o governo desde que uma revolta popular derrubou o poderoso Slobodan Milosevic, em 2000.

(..) Os primeiros proprietários dos prédios residenciais a serem concluídos em breve deverão pagar até 7 mil euros por metro quadrado, em um país com um salário médio mensal de 375 euros. Ao todo, 5.700 residências e oito hotéis serão construídos no empreendimento, na área entre o rio e as ferrovias.
Placas de cimento foram colocadas ao longo do rio para formar um calçadão repleto de escorregadores para crianças, um ancoradouro, um restaurante, uma ciclovia e uma fileira de cartazes gigantes que mostram os prédios a serem construídos nos próximos 30 anos. Entre estes, o maior shopping center dos Balcãs.

“Estamos tentando fazer tudo novo, sem romper os laços da cidade com o passado”, disse Mali. Mas Bojan Kovacevic, presidente da Academia de Arquitetos da Sérvia, chamou o empreendimento de “crime contra o planejamento urbano”.

2018-05-21

Leia também

“To Build Dubai of the Balkans, Serbia Deploys Bulldozers and Baseball Bats”. NY Times 29-04-2018, por Barbara Surks

“Controversy surrounds Belgrade Waterfront development”. BBC online 21-06-2016, por Guy Delauney

“Belgrade's 'top-down' gentrification is far worse than any cereal café”, The Guardian 10-12-2015, por Alex Eror

“Belgrade Waterfront - the dark side of 'urban renewal'. Open Democracy 26-11-2015, por Marko Aksentijevic

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Apontamentos: Navascués 1969 - Soria dos pés para a cabeça

Estes apontamentos são parte de um processo de estudo compartilhado. À beira do urbanismo está à disposição dos autores cujo trabalho aqui se comenta para suas considerações.

NAVASCUÉS PALACIO Pedro, "La Ciudad Lineal de Arturo Soria". Arquivo Digital UPM: Villa de Madrid n. 28, 1969, p. 49-58
http://oa.upm.es/7682/1/Villa_28.pdf


Clique na imagem para ampliar
Ao contrário do que se costuma encontrar nas fontes não especializadas, e por vezes até nas acadêmicas, Navascués situa, neste texto de 1969, a Ciudad Lineal de Soria y Mata no contexto da acelerada e problemática expansão geográfica, populacional e edilícia de Madri de fins do século XIX: ao iniciarem-se, em 1857, os trâmites de seu ensanche, a cidade ainda convivia com o cinturão de muros e portas erguido na década de 1800 com a fútil pretensão de deter os exércitos de Napoleão.

O estudo de Navacués nos permite apreciar a realização de Soria "dos pés para a cabeça", isto é, como projeto de urbanização antes que como utopia, mais exatamente especulação, urbanística, ambiguidade que a define, quem sabe ao lado da cidade-jardim howardiana, como híbrido histórico: pode-se discutir se é o programa de reforma social que para poder sair à luz se adapta às exigências da nascente indústria da suburbanização ou se é esta que, ainda debutante, se apresenta aqui e ali em trajes de colônia semi-rural destinada ao aperfeiçoamento físico e moral das classes laboriosas. 

Com o devido registro da primazia atribuída por Soria ao problema da locomoção, “do qual derivam todos os demais problemas da urbanização”, Navascués nos remete a um programa urbanístico supreendentemente complexo envolvendo elementos de economia espacial, de sociologia urbana, de planejamento urbano, de gestão de serviços públicos, de financiamento e empreendedorismo privado, de desenho urbano, de arquitetura residencial.

O artigo finaliza com uma discussão sobre o “estatuto” de Ciudad Lineal na Madri do último quarto do século XX e as opções de planejamento e projeto ao alcance da Administração: o fato de que “infelizmente, à parte o traçado pouca coisa resta da primitiva Ciudad Lineal” não a torna menos digna de um tratamento à altura da fama que ostentam o seu modelo e o seu projeto na história do urbanismo moderno. 

2018-05-16

Acesse o artigo de NAVASCUÉS pelo link
http://oa.upm.es/7682/1/Villa_28.pdf

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Pergunte ao Dr Mercado

BBC Brasil 10-05-2018, por Letícia Mori

Por que existem tantos prédios abandonados em São Paulo?

(..) "O centro de SP está em piores condições que os de todas as grandes cidades da América Latina", diz o arquiteto e urbanista Álvaro Luis Puntoni, professor da Faculdade de Arquitetura da USP e da Escola da Cidade. "A região é um retrato da degradação."

(..) Para a arquiteta Nadia Somekh, professora emérita da Faculdade de Arquitetura do Mackenzie e ex-diretora do DPH (Departamento de Patrimônio Histórico), o problema é que "não há priorização para questão da habitação" por parte do poder público. "Não há recursos, não há gestão adequada. Tem que mudar o foco. Há muito investimento em asfaltamento, que dá voto com a classe média, e em limpeza urbana, porque as pessoas não têm educação ambiental." 

Puntoni também acredita que é preciso dar mais atenção à questão da função social. "A lei deveria ser aplicada. Em Portugal, se um edifício fica 5 anos abandonado, ele automaticamente passa para o governo", exemplifica. Ele também diz que a solução para o déficit habitacional passa, necessariamente, pelo reaproveitamento dos prédios abandonados. (..)

*

A foto ilustrativa da matéria mostra um edifício que, embora decrépito e em precárias condições de habitabilidade, está claramente ocupado.

O problema, por outro lado, não é que haja muitos edifícios abandonados, mas que existam nas grandes cidades populações inteiras para as quais os edifícios abandonados aparecem como solução de moradia – algo que não tem, a meu ver, solução no âmbito do urbanismo ou das
políticas urbanas, ainda que estas possam e devam intervir para dar o indispensável suporte às famílias ocupantes como para salvaguardar, na medida do possível, o interesse coletivo em face das prerrogativas dos proprietários dos imóveis.

Em São Paulo mesmo, conforme artigo veiculado no Arch Daily de 01-0-2018 [1] a prefeitura anuncia “um programa de locação social para abrigar moradores de rua em edifícios desocupados do centro da cidade em troca de benefícios aos proprietários dos imóveis, que poderão ter suas dívidas de IPTU abatidas e deixarão de pagar o IPTU Progressivo para imóveis vazios”.

Não me parece claro que ajudar proprietários a conservar a titularidade de frações de solo que ancoram benfeitorias economicamente irrecuperáveis é melhor política do que ajudar a municipalidade a adquiri-las, ainda que progressivamente, pela via da execução fiscal. Até porque a ocupação de edifícios abandonados não atende mais do que precária e provisoriamente à necessidade habitacional de ninguém. 

O processo de deterioração física e funcional que leva edifícios, quadras, às vezes regiões urbanas inteiras – como em Detroit –, ao status real ou aparente de "abandonado” é por vezes referido como “espiral de desvalorização”, um tema de economia e sociologia urbana de grande relevância e não menor complexidade com o qual este blog contribuirá reunindo, na página Arquivos de Política Urbana, material disponível na internet.

2018-05-11
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sábado, 5 de maio de 2018

Ocupar é dar uso, habitar é preciso

Marco Zero 28-03-2018, por Luiz Carlos Pinto et al. 

Centro em Disputa

Dívidas de R$ 346 milhões de IPTU expõem abandono e cobiça no Centro do Recife

ocupação Marielle Franco, do Movimento de Trabalhadores Sem Teto, colocou o dedo na ferida: há uma acirrada disputa pelo centrão do Recife. Cerca de 200 famílias ocuparam o edifício SulAmerica, de propriedade da Empresa Nacional de Hotéis LTDA na segunda-feira, 19. Localizado na Praça da Independência, 91, o edifício tem seis pavimentos e faz uma curva suave na direção da Avenida Dantas Barreto, bairro de Santo Antônio.
Mapa dos imóveis com dívidas do
 IPTU acima de R$ 500 mil na RPA1
Fonte: Marco Zero


A escolha de um imóvel desocupado no centro não foi aleatória. O edifício tem dívidas acumuladas no valor preciso de R$ 1.507.771,03, dos quais R$ 1.416.641,17 inscritos na dívida ativa do município. Está entre as 30 maiores dívidas de um total de 3.740 imóveis devendo o imposto na Região Político Administrativa 1 (RPA1) – que compreende Santo Antônio e mais 10 bairros. O edifício estava desocupado há mais de 10 anos, portanto sem cumprir a função social exigido pela Constituição brasileira.

Tornou-se lugar comum afirmar que o centro da cidade do Recife está abandonado. Na verdade ele tem partes abandonadas – lugares fora das ideias que conduzem o planejamento urbano da cidade –, e partes que têm sido cobiçadas pelo mercado e apoiadas pelo poder público, com investimentos e incentivos. Para esses lugares há ideias, mobilização, planos, projetos, maquetes e negociações.
(..)

O valor da dívida na RPA 1 é comparável ao que a atual gestão municipal estima angariar em 2018 em toda a cidade – cerca de R$ 382 milhões. É também equivalente ao custo de construir mais de 4 mil unidades habitacionais no padrão do Programa Minha Casa, Minha Vida. Imagine um investimento desse montante no centrão da capital pernambucana – praças, esgotamento, habitação, boulevards, escolas. (..) 

2018-05-05

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Missão: Tudo é possível

The Guardian 29-04-2018, por Robert Booth e Frankie Crossley

Nearly 100 London councillors have links to property industry
Ravi Govindia, Wandsworth Council
Elected by the Conservative Council Group in 2011
Councillor since 1982
Montagem: à beira do urbanismo
Some of the councils with the highest levels of hospitality or declared interests in property companies are producing levels of affordable housing that fall short of the London Mayor’s 35% target in the capital. In Wandsworth, where 17 councillors declared interests or entertainment with property companies, 19% of new homes built between 2013 and 2016 were affordable. In the City of London, where 12 councillors declared interests, only 3% were affordable.

Ravi Govindia, the leader of Wandsworth, strongly denied any link, stating that 1,700 affordable homes will be completed in the next three years and that “to suggest that we are not playing our part in delivering the low-cost housing London needs is complete and utter fallacy”.

Govindia, who is director of a gorilla safari business, was entertained by property companies 11 times in 2016 and the first half of 2017 including at Simpsons in the Strand and the Ned. He said: “It is important that we engage with property companies, housing associations and senior government officials so that they better understand our housing needs and priorities.” Govindia said he was “wholly open and transparent in my dealings”. 

2018-05-02

Acesse o Relatório Anual de Monitoramento do Plano de Londres 2015-16 pelo link
https://www.london.gov.uk/sites/default/files/amr_13.pdf

terça-feira, 24 de abril de 2018

Gente pra morar que é bom...

Extra online 18-04-2018, por Pedro Zuazo
Imagem: Internet
Porto Maravilha vai ganhar roda-gigante inspirada na London Eye
 

A empresa Gramado Parks, que venceu licitação para explorar um terreno no Porto Maravilha, pretende construir uma roda-gigante na Zona Portuária do Rio. A atração será uma réplica reduzida da London Eye, tradicional atração turística da Inglaterra, que tem 135 metros de altura — a versão carioca terá 88 metros. O equipamento será instalado em um espaço com 2.459,26m² de área, situado ao lado do AquaRio.
O certame ocorreu no último dia 9 e teve apenas duas empresas participantes. (..)

2018-04-24

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Cidades ex novo vs. Grandes Projetos Urbanos

Plano Aarão Reis para 
Belo Horizonte 1895

Diria o senso comum que a construção de uma nova capital nacional ou estadual / provincial é, por definição, um grande projeto urbano. Mas pode não sê-lo na acepção que o urbanismo contemporâneo dá ao termo, grafado o mais das vezes com iniciais maiúsculas ou referido pela sigla GPU/GUP.

Em geral, os modernos GPUs são intervenções - como prefere Garay [*] - de grande escala e elevada complexidade nas cidades existentes. Grandes Projetos Urbanos constroem, ou reconstroem, pedaços de cidade dentro da grande cidade, quase sempre incorporando acréscimos de valor do solo gerados pela própria intervenção à equação de seu financiamento.

Não se trata de filigrana conceitual: os Grandes Projetos Urbanos contemporâneos são importantes condutores do circuito financeiro global, precipuamente destinados, na maioria dos casos, a gerar oportunidades de negócios imobiliários e seus acessórios por meio da urbanização e comercialização de solo público com potencial de valorização derivado das qualidades intangíveis da própria metrópole. A reivindicação da urbanização autofinanciada com recursos da renda do solo, mesmo quando mais publicitária que real, é um sinal inequívoco de que as motivações estratégicas geralmente associadas, inclusive a de “estimular a economia” regional ou nacional, não lhes bastam como fonte de legitimação e enraizamento no ideário coletivo.

Cidades ex novo , embora relativamente comuns à escala dos séculos, são excepcionalidades no campo do urbanismo, resultantes de processos de colonização de natureza diversa, de políticas estatais de desenvolvimento territorial, do enfrentamento de catástrofes naturais e sociais e do que poderíamos chamar de "repaginação" do poder político em situações, reais e imaginárias, de clivagem histórica. Ou de combinações dessas circunstâncias.

Cidades ex novo também podem, com certeza, surgir como empreendimentos explicitamente comerciais, como no caso da rede urbana do Noroeste paranaense. E não está excluído, muito ao contrário, que a construção de uma nova capital, ainda que por sólidas “razões de Estado”, seja terreno fértil para a proliferação de operações especulativas. 

Contudo, e apesar de que pode ser às vezes difícil distinguir, na governança da classe proprietária dominante, o interesse geral das ambições particulares, não há que duvidar que  a construção de uma cidade é, em qualquer caso, um evento muito mais complexo, historicamente significativo e carregado de contradições do que a renovação de um perímetro urbano. Ao passo que aqui predomina o binômio engenharia financeira / arquitetura urbana, com eventuais elementos de preservacionismo edilício e proteção social, lá se impõe uma matriz infinitamente mais ampla de aspectos envolvidos e problemas por resolver, como são a justificação histórica, econômica e política da proposta, o processo de decisão, a disputa pelo lugar, a seleção do plano urbanístico, a mobilização de recursos financeiros, materiais e humanos, o soerguimento de uma nova economia urbana, a construção da estrutura de administração e governo etc, culminando no nó górdio do próprio assentamento: um novo bairro internacional no Centro da metrópole pode não ter uma única residência submercado, ou mesmo residência alguma; uma nova capital jamais, ainda que o projeto não a tenha previsto e a construção não a tenha realizado. 

Na cidade estarão todos, inclusive os “sem cidade”. 

2018-04-18

______
[*] GARAY Alfredo, “El Montaje de una gran intervención urbana”, em LUNGO Mario (comp), Grandes Proyectos Urbanos, San Salvador: UCA Editores, 2004, p. 76

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Bens públicos, negócios privados

Valor Econômico 10-04-2018, por Rodrigo Carro

Galeão dá início a investimento imobiliário 
Montagem: à beira do urbanismo
Imagens originais: Internet
Num momento de sobreoferta de espaços comerciais no Rio de Janeiro, a concessionária RIOgaleão deu início a um projeto de desenvolvimento imobiliário para aproveitar uma área superior a 900 mil m2 no entorno dos terminais do Aeroporto Internacional Tom Jobim e ao longo da sua principal avenida de acesso.
Um primeiro contrato foi assinado para a instalação de dois novos hotéis da rede Accor no prédio que já abrigou a sede da Infraero no Rio. Com base em dois estudos sobre o potencial imobiliário da área, a concessionária privada espera atrair até R$ 1,3 bilhão em investimentos, incluindo um shopping center e um hospital.

O projeto se tornou viável a partir da publicação da portaria de número 143 pelo Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil, em abril do ano passado. Ajustada posteriormente por outra portaria (nº 323), a 143 permite aos aeroportos concedidos estabelecer contratos comerciais com prazo maior que a duração da concessão. (..) 

2018-04-12

quinta-feira, 22 de março de 2018

Gosto não se discute

G1 09-03-2018, por Em Movimento (Informe Publicitário)

Saiba por que espaços menores tornaram-se atrativos

Montagem; Àbeiradourbanismo
“A gente percebeu que o prédio é uma continuação da casa da pessoa. Em vez do jeito antigo, que projetava prédios desconexos, com salões de festas ociosos e espaços que ninguém usava, enxergamos o prédio como algo que faz parte da casa da pessoa”, explica Alexandre Frankel, CEO da Vitacon, incorporadora que no ano passado anunciou em São Paulo o lançamento dos menores apartamentos da América Latina, com 10m².

(..) A arquitetura interna das unidades é funcional, com espaços prontos para receber móveis práticos e com utilidades diversas: sofá-cama, paredes que viram mesas, portas de correr e todo tipo de estrutura para otimizar o espaço, como degraus para armazenar sapatos. A única divisória entre cômodos é a separação do banheiro.

“Quando as pessoas compram um apartamento assim, o que elas esperam é ganhar tempo. Ela vai passar menos horas no trânsito, por ser em regiões centrais, e então sobra mais tempo para fazer o que importa. Ela não gasta com manutenção, ela economiza tempo na limpeza. A vida fica mais prática e funcional, e bem mais interessante”, afirma Frankel.

2018-03-22

Leia neste blog

"O Coeficiente de Aproveitamento e a valorização do solo",
https://abeiradourbanismo.blogspot.com.br/2013/02/o-coeficiente-de-aproveitamento-e.html

"A braços com as peculiaridades da mercadoria terra urbana"
http://abeiradourbanismo.blogspot.com.br/2012/01/bracos-com-as-peculiaridades-da.html

quinta-feira, 15 de março de 2018

Eterno vilão

Portal Plural 14-03-2018, por Sílvio Brasil
https://portalplural.com.br/2018/03/14/iptu-sera-cobrado-no-cemiterio/

IPTU será cobrado no cemitério
Famílias terão que pagar taxa anual no valor de R$ 150,00 para manter o jazigo de seus entes

Montagem: À beira do urbanismo
Imagem original: Internet
2018-03-15

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Renda da terra pra que te quero

GauchaZH 28-02-2018, por Dagmara Spautz

Avança projeto de alargamento da praia em Balneário Camboriú. Obra deve custar R$ 105 milhões  

Início das obras ainda depende de licenças ambientais e da captação de recursos para financiar o investimento. 
(..) Nos últimos meses, o prefeito buscou apoio junto ao governo do Estado e levou o projeto ao presidente Michel Temer (PMDB). A mais recente aproximação foi com o BNDES, que é uma das opções de financiamento. A prefeitura pretende quitar o possível empréstimo com a arrecadação vinda da outorga de espaços públicos na Praia Central, como quiosques. (..) Se tudo correr bem, a expectativa é positiva: corretores estimam que os imóveis da cidade tenham uma valorização de até 15% com o alargamento da faixa de areia.

Clique na imagem para amplia

Salvador? Recife? Fortaleza? Belém? 

Não. Balneário Camboriú, município da região catarinense do Vale do Itajaí com população de 135 mil (!) habitantes em 2017, 47o. PIB municipal do país em 2014 e 145o. em rendimento médio per capita em 2010; recém-afamado como lugar dos edifícios mais altos e do m2 mais caro do país.

Precisa ir a Brasília esmolar 100 milhões para alargar a praia arruinada pela sombra dos arranha-céus? A serem pagos com aluguel de quiosques?

Para que serve a Outorga Onerosa do Direito de Construir vigente na cidade? Ou considerando, como admitem os cobiçosos corretores, que “os imóveis da cidade tenham uma valorização de até 15% com o alargamento da faixa de areia”, porque não financiá-lo com o tradicionalíssimo instituto da Contribuição de Melhoria?

2018-02-28

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Devagar quase parando

Exame 27-02-2018, por Adriana Belisário / Agência Pública

Porto Maravilha corre o risco de parar em 2018

Projetos licenciados no Porto Maravilha
Clique na imagem para ampliar
Bruno Fonseca/Agência Pública
Prefeitura diz que serviços na região podem ser suspensos por falta de dinheiro

A crise econômica atracou nos últimos anos no cais do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro (RJ). Às vésperas de completar nove de seus 30 anos de vida, a operação ficou refém do seu gigantismo e enfrenta dificuldades para pagar o consórcio formado pela Odebrecht, OAS e Carioca Engenharia, que faz obras e serviços como limpeza de ruas e coleta de lixo na região. Em entrevista exclusiva, Antônio Carlos Mendes Barbosa, presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (CDURP), admite a possibilidade do projeto ficar sem caixa este ano.

(..) Para Mendes Barbosa, tudo vai depender do Fundo de Investimento Imobiliário do Porto Maravilha, controlado pela Caixa Econômica Federal (CEF). “Quem comprou os terrenos e/ou Cepacs têm o compromisso de dar liquidez”, diz ele, referindo-se à obrigação de a CEF garantir recursos. “Tenho conversado tanto com gestores quanto com cotistas do fundo sobre isso”, completa.

O combustível para mover as engrenagens do Porto Maravilha é a venda dos Certificados do Potencial Adicional de Construção (Cepacs) pelo fundo da CEF, que comprou todos os títulos da prefeitura, em lote único, em 2011 por R$ 3,5 bilhões. A compra usou recursos dos trabalhadores (FGTS), com a expectativa de revendê-los mais caros no mercado para empreendedores interessados em aumentar a quantidade de andares de seus imóveis na região.

Segundo o fluxo planejado, os Cepacs pagariam as empreiteiras, que se tornaram responsáveis não só por obras como também por serviços que no resto da cidade são realizados pela prefeitura, como a coleta de lixo. O problema é que foram poucos os compradores, e os Cepacs estão encalhados.

Não há novos projetos licenciados com consumo de Cepacs no Porto Maravilha desde meados de 2015. (..) 

2018-02-27

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

No déficit, com teto

Arch Daily 01-02-2018, por Romullo Baratto
https://www.archdaily.com.br/br/887962/sao-paulo-destinara-edificios-desocupados-do-centro-para-moradores-de-rua
São Paulo destinará edifícios desocupados do centro para moradores de rua
Edifício Prestes Maia
A prefeitura de São Paulo pretende dar início a um programa de locação social para abrigar moradores de rua em edifícios desocupados do centro da cidade, em troca de benefícios aos proprietários dos imóveis, que poderão ter suas dívidas de IPTU abatidas e deixarão de pagar o IPTU Progressivo para imóveis vazios.


O sistema de locação social existe, na realidade, desde 2004, e atende atualmente 903 famílias em seis edifícios, que pagam valores até 15% de suas rendas em troca de moradia permanente, sem, contudo, obterem a propriedade dos imóveis - que permanece com a prefeitura. O novo programa já tem em vista 370 imóveis elegíveis e pretende disponibilizar mil novas unidades.

Uma das principais questões com esse tipo de programa é a manutenção e administração dos conjuntos. A iniciativa da prefeitura testará diferentes modelos de administração predial: em um dos edifícios haverá gestão direta da própria Cohab, outro será gerido por uma Organização Social, outro ficará sob responsabilidade de uma empresa privada e uma outra unidade será autogerida pelos próprios moradores.

Para fazer parte do programa, os edifícios deverão passar por reformas e adequações custeadas pelos proprietários, valor que poderá posteriormente ser abatido das dívidas de IPTU.

Embora seja um iniciativa necessária e muito bem-vinda na cidade, não basta, já que a demanda é muito superior às metas da prefeitura, alcançando, segundo estimativas, vinte mil pessoas que atualmente vivem nas ruas da capital paulista.

2018-02-02

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Fortaleza capital das OUCs

Diário de Nordeste 08-01-2018, por Vanessa Madeira  Capital é cidade com mais Operações Urbanas Consorciadas no Brasil

Por meio da parceria entre o poder público e a iniciativa privada, Fortaleza tem passado por transformações urbanas com impactos diretos e indiretos no cotidiano dos moradores das mais diversas regiões da cidade. Com a realização de Operações Urbanas Consorciadas (OUC), instrumento urbanístico previsto no Estatuto da Cidade, áreas degradadas ou com grandes demandas sociais e físicas recebem investimento e vivenciam mudanças que vão desde a construção de vias e implantação de árvores à geração de empregos.

Mecanismos do tipo começaram a ser adotados em Fortaleza nos anos 1990. Hoje, com sete operações consolidadas - abrangendo os bairros Papicu, Jóquei Clube, Praia do Futuro, Canindenzinho, Siqueira, Luciano Cavalcante, Mucuripe e Sapiranga - a Capital cearense supera São Paulo e Rio de Janeiro e é considerada a cidade com o maior número de parcerias nesse modelo no Brasil, conforme aponta a Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma). Para o próximo ano, outras 14 novas áreas com potencial para a criação de OUCs devem ser anunciadas. (..)  

Consulte o Relatório de Desenvolvimento Ouc Maceió Papicu, Prefeitura de Fortaleza / Quanta
 
2018-01-10

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Solo fértil II - adubar é preciso

NY Times 03-01-2018, por Jonathan Mahler

The Case for the Subway

It built the city. Now, no matter the cost — at least $100 billion — the city must rebuild it to survive

(..) The subway’s importance to the city begins with a single, durable economic principle: Cities create density, and density creates growth. Economists call the phenomenon agglomeration. Not only does geographical proximity reduce costs, but it also facilitates the exchange of knowledge and spurs innovation. It’s a principle that holds true for better and worse and regardless of the industry. 
(..) If the story of the subway is the story of density, it is also the story of land — and more to the point, the story of land value. Before the first tracks had even been laid, real estate speculators were gobbling up farmland and empty lots along the proposed route and then quickly flipping their parcels at huge premiums to builders. When the subway recovered from its last major crisis, it again began throwing off enormous returns for the owners of the land above it. From 1993 to 2013, the average price for a co-op or condo in TriBeCa rose from $182 per square foot to $1,569. In the process, prime real estate in Manhattan was transformed from a place where people lived and built businesses into a high-yield investment in which absentee owners parked their money and watched it grow. (..)

2017-01-04

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Solo fértil

Mail online 05-12-2017, por Ruairi Casey

As UK land value hits 5 trillion pounds, calls for new tax rise

Montagem: à beira do urbanismo
Imagens originais: creative commons
(..) Land is worth 5 trillion pounds ($7 trillion) and makes up more than half of Britain's value, the Office for National Statistics (ONS) said.

"Pretty much all of the problems in our housing system can be tracked back to the land market and the fact that land prices are outrageously high," Toby Lloyd, head of policy at the housing charity Shelter, told the Thomson Reuters Foundation. "It's making housing absolutely, appallingly unaffordable."

Average British house prices have more than doubled in the past two decades, and more than quadrupled in London. But average wages have risen by only a fraction of that amount. By separating the value of buildings and land for the first time, the ONS showed that land value grew much faster than other assets, such as houses and machinery. (..)

2017-12-13

domingo, 10 de dezembro de 2017

Círculo virtuoso II

Terra Brasil 06-12-2017, por DINO
Imóvel de alto padrão pode ser boa opção de investimento

Notícias publicadas todos os dias na imprensa comum e especializada dão conta de que o imóvel de alto padrão é uma ótima - senão a melhor - opção de investimento. E não só no Brasil. Por que?

Porque a irrefreável concentração de riqueza que marca a economia do século XXI tem o dom de retroalimentar a espiral de valorização dos imóveis mais luxuosos e bem localizados mesmo em um cenário global de baixo crescimento, estagnação dos salários e precarização do trabalho.

Velhos e novos, verdadeiros e falsos, físicos e jurídicos, quanto mais renda concentram os ricos do mundo inteiro, mais se dispõem a pagar por imóveis de alto padrão em Nova York, Los Angeles, Miami, Londres, Paris, Hong Kong, Dubai, Vancouver, Sydney, Lisboa, São Paulo e Rio de Janeiro, na expectativa razoável de que não faltará quem lhes cubra a parada a qualquer momento em que queiram vendê-los. 

Imóveis de alto padrão são o melhor veículo de investimento na concentração mundial da riqueza.

Meu palpite é que os cortes fiscais previstos na nova Lei de Impostos de Trump, que beneficiam principalmente os americanos verdes, maduros e podres de ricos, servirão de combustível extra para acelerar a espiral de preços imobiliários e a gentrificação dos grandes centros urbanos globais

2017-12-10