quarta-feira, 15 de julho de 2009

Cidades novas no Brasil: Belo Horizonte, por Arrais


Publicado na Revista UFG
Junho 2009 / Ano XI nº 6, por Cristiano Alencar Arrais*

Belo Horizonte, a La Plata brasileira: entre a política e o urbanismo moderno
O objetivo deste trabalho é analisar o processo de construção da cidade de Belo Horizonte através de uma comparação com as experiências de reformulação urbanística e de construção de cidades novas de meados do século XIX, em especial, La Plata, capital da província de Buenos Aires. Minha hipótese é que o trânsito de ideias acerca do processo de planejamento urbano, apesar de não reconhecido pelo projetista de Belo Horizonte, pode ser considerado também, como um trânsito de ideários políticos que se veem representados na malha urbana. Este trânsito não indica apenas uma transferência de modelos (urbanísticos, arquitetônicos, artísticos), mas uma tentativa de atualização das antigas elites políticas a uma modernidade formal. Além disso, essa adesão não significou abandono, ruptura com o passado, mas incorporação plástica daquele mundo social no ambiente hierarquizado das novas cidades. O termo aqui utilizado para tratar do fenômeno de construção de núcleos urbanos, “novas cidades”, refere-se de forma geral a comunidades “planificadas e criadas conscientemente em resposta a objetivos claramente formulados”, pressupondo, “a existência de uma autoridade ou organização suficientemente efetiva para assegurar o lugar, reunir os recursos necessários e exercer um controle contínuo até que a cidade alcance um tamanho viável” (Galantay, 1977: 15).
Belo Horizonte insere-se nesta definição pelo fato de – ao contrário das sucessivas intervenções urbanas executadas em várias cidades, tanto na América quanto na Europa, como no caso de Paris, Barcelona e algumas cidades coloniais brasileiras – ter sua origem num ato criador ex-nihilo. A cidade sustenta ainda em seu plano o sonho de construção de uma cidade harmônica, cuja tradição remonta às utopias urbanas de Platão, Campanella, Morus. etc. (Freitag, 2001; Kohlsdorf, 1996) e consagram o ideal de controle da natureza e dos homens num só movimento.
Outra tradição remota tem suas raízes no projeto de cidade ortogonal. Com forma pré-estabelecida por normatizações da Leye das Índias, as cidades coloniais da América espanhola assumiam a forma do traçado quadriculado que tinha no centro a Plaza Mayor “cuja largura correspondesse pelo menos a dois terços do cumprimento (...). A praça servia de base para o traçado das ruas: as quatro principais sairiam do centro de cada face da praça. De cada ângulo sairiam mais duas, havendo um cuidado de que os quatro ângulos olhassem para os quatro ventos” (Holanda, 1995: 97). Resquício da tradição clássica romana de estabelecimento de cidades – através das linhas mestras (cardo e decumanus) que serviam como referência para o desenvolvimento futuro da rede urbana – as aglomerações criadas na América a partir do século XVII exerciam uma função muito mais que estética. Procuravam estruturar a vida social, econômica, militar e política da povoação através do estabelecimento de sua ordenação mental.2 Atravessar o Atlântico e afastar-se da Europa significava afastar-se da concepção da cidade orgânica medieval. Aplicando o princípio da tabula rasa, tais centros urbanos deveriam permitir a representação espacial do corpo social, ou ao menos, sua expectativa. Por isso é que, para Rama:
A transladação da ordem social a uma realidade física, no caso da fundação das cidades, implicava o desenho urbano prévio mediante as linguagens simbólicas da cultura sujeitas à concepção racional. Mas se exigia desta que, além de compor um desenho, previsse o futuro. De fato, o desenho devia ser orientado pelo resultado que se haveria de obter no futuro, conforme o texto real diz explicitamente. O futuro que ainda não existe que é apenas sonho da razão, é a perspectiva genética do projeto. (Rama, 1985: 27) 
(Continua)
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* Professor adjunto de Teoria e Metodologia da História da UFG.

2009-07-15