segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Obsolescência não programada

Publicado no Ideação / BID online
20-07-2020, por Nora de Duren e René Osorio
Favela-Bairro: Avaliação de resultados 10 anos depois

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Lições aprendidas

Fonte: Ideação
 

O desenho dessas intervenções pode resistir ao tempo, desde que os materiais que requerem manutenção mínima sejam escolhidos e incorporem um elemento de despesas recorrentes para o reparo regular da infraestrutura, enfatizando recursos adicionais para áreas montanhosas e densamente povoadas. Para melhores resultados, é importante envolver e educar os moradores na preservação das intervenções, reconhecendo que os bairros intervenientes atraem mais pessoas e, portanto, isso aumenta a demanda pela infraestrutura construída. É importante entender que as intervenções construídas não são sustentáveis ​​em bairros que enfrentam violência local crônica, ou em locais onde há uma notável ausência de autoridades ou governo, uma vez que exigem monitoramento constante de todas as partes interessadas para garantir a durabilidade dos projetos.

 

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“Associar às intervenções urbanas ações efetivas relacionadas às políticas sociais, dando a ambas o caráter de permanência”, como propõe a propósito desse relatório um comentário compartilhado no Facebook, era, até onde sei, a ideia dos urbanistas que criaram e dirigiram o programa Favela-Bairro.

Mas 
nesse caso a ideia não bastou. Componentes de "superestrutura" como regularização fundiária, por exemplo, não saíram do papel. Não sei nem se era viável, apesar dos consultores do BID o considerarem crítico para a patrimonialização do esperado aumento de preços e a formação de um mercado formal de imóveis

Para além do clássico problema da descontinuidade por mudanças de governo, programas compensatórios como o Favela-Bairro são diretamente afetados pelos ciclos econômicos e, o que é pior, podem ter seus efeitos positivos drasticamente reduzidos, ou até anulados, em épocas de crise como a que estamos vivendo.

Se a obsolescência se instala em áreas cada vez mais extensas da cidade formal, onde as poupanças privadas e as rendas de aluguel mal bastam para frear a deterioração dos imóveis, que dirá em comunidades pobres recém-urbanizadas que sequer chegaram perto de atingir o pretendido status de "bairros" – quaisquer que sejam as nuances com que os definamos por oposição a “favela”.

Para evitá-lo precisaríamos de 20 anos ininterruptos de Favela-Bairro em cada comunidade, com políticas sociais combinadas a obras públicas e, o que é fundamental, aumento significativo e sustentável do nível de rendimento das famílias.


2020-11-30