segunda-feira, 4 de março de 2013

Bogotá: do zoneamento inclusivo à incorporação inclusiva


O arquiteto e urbanista Antônio Veríssimo enviou-nos um alerta para um relevante artigo de autoria do advogado colombiano Juan Felipe Pinilla, publicado em 19/02/2013 no site do CIDER (Centro Interdisciplinario de Estudios sobre Desarrollo - Universidade de Los Andes), sobre o debate em curso naquele país a respeito da expansão da política de destinação obrigatória de uma porcentagem de solo útil à produção de habitação social de maneira a abranger todos os processos de transformação construtiva urbana.

Para esclarecimento do leitor leigo, digamos que, se aplicada no Rio de Janeiro a regulamentação proposta pelo governo de Bogotá, em vez de empreendimentos de classe média-alta e alta na zona sul e empreendimentos subsidiados pelo programa Minha Casa Minha Vida nas zonas norte e suburbana, poderíamos ter unidades subsidiadas mescladas em empreendimentos imobiliários em todos os bairros da cidade.

Como demonstrou o próprio Veríssimo, com toda clareza, em seu artigo "Habitação, Emprego e Mobilidade: subsídios para o debate sobre a localização da HIS na cidade do Rio de Janeiro", publicado neste blog [1]em nossa cidade a habitação subsidiada pelo programa Minha Casa Minha Vida é maciçamente relegada aos subúrbios e zonas distantes do centro metropolitano.

Tal política é corroborada pelo maior projeto de renovação urbana da Metrópole, o Porto Maravilha, em cuja versão atual inexiste qualquer provisão para cotas de habitação social.


Como já dito por este blogueiro em outro artigo, cabe à Caixa Econômica Federal, proprietária da totalidade dos direitos edilícios do Porto, reverter essa situação. Nada justifica que deixe de fazê-lo, dado o manifesto compromisso do Governo Federal com a distribuição da renda nacional e a redução da desigualdade social no país. 

Segue a tradução livre de trechos do artigo de Juan Felipe Pinilla. Os leitores de origem hispano-americana e brasileiros interessados na íntegra do texto podem acessá-lo pelo link [2].

2013-03-04

A disputa entre os governos nacional e distrital pela localização da habitação social 

Juan Felipe Pinilla [3] 

J.F Pinilla
Em  25 de janeiro último, o Governo Nacional expediu um decreto regulamentar (..) que, nas palavras do porta-voz da pasta da Habitação, tinha como único objetivo facilitar a oferta de solo para habitação social (HIS) e entregar aos prefeitos municipais critérios claros sobre a forma de cumprimento da destinação obrigatória de solo para HIS em projetos de urbanização ou renovação urbana. Contudo, a Secretaria de Habitação do Distrito Capital expediu um comunicado em que advertia: “Ministério da Habitação expede decreto na contramão da política  de habitação do plano de desenvolvimento do Distrito e da autonomia municipal”.

Em suas declarações e referindo-se à forma como a administração de Bogotá apresentou o conteúdo e alcance do decreto, o ministro Vargas Lleras sentenciou, em seu tom habitual: “Não é verdade quer as normas expedidas pela Nação segreguem a população mais pobre”. (..)

Por trás dessa discussão está a provisão incluída pelo prefeito Petro em seu Plano de Desenvolvimento no sentido de estabelecer que qualquer processo de transformação do território da cidade (quer se chame urbanização, construção, renovação ou consolidação) deve contemplar uma porcentagem de 20% de solo destinado à habitação de interesse prioriário (HIP). Ou seja, esta medida supõe que qualquer processo de construção na cidade deve contribuir com a provisão de solo para HIP, seja por meio da localização no próprio sítio, de sua transferência a outro lugar da cidade ou mediante o pagamento de uma compensação em dinheiro. Para dar vida a esta novidade do Plano de Desenvolvimento, o governo Distrital se obrigou, no próprio plano, a expedir uma regulamentação que definisse e precisasse a forma de operação do mecanismo.

A grande novidade dessa medida não é impor a destinação obrigatória de uma porcentagem de solo útil à provisão de habitação social – que já se vem aplicando na cidade e no país em projetos localizados em solos sujeitos a processos de urbanização – mas torná-la extensiva a todos os processos de transformação construtiva que ocorra na cidade e, em especial, àqueles onde se substituem casas por edifícios. (..)

Depois de fazer uma análise detalhada, judiciosa e desapaixonada do decreto do governo nacional, a conclusão é claríssima: o objetivo fundamental deste decreto não é senão impedir que o Distrito Capital consiga a regulamentação de seu Plano de Desenvolvimento e possa, assim, avançar em sua aposta de construção de HIP em zonas centrais da cidade. (..)

Em conclusão, a audácia do Plano de Desenvolvimento de Bogotá sucumbiu à incapacidade do próprio Distrito de avançar rapidamente em sua regulamentação e deu a oportunidade  para que, uma vez mais, o Ministério da Habitação – muito próximo e sob influência do sindicato da construção e dos grandes construtores bogotanos – a pretexto de regulamentar a lei, tentasse fechar a porta a inovações locais destinadas a modificar uma tendência muito generalizada, em Bogotá como no resto do país, que consiste em partir do pressuposto de que a única opção de localização da habitação social é em zonas distantes e periféricas das cidades, tendo em vista os altos preços do solo nas zonas centrais. Para a administração de Bogotá, a causalidade é outra: os preços das zonas centrais estão tão altos justamente porque não há encargos e obrigações urbanísticas exigíveis a muitos desses solos e, portanto, uma forma de reduzir os preços e propiciar a geração de habitação social é estender a obrigação de provisão de solo para habitação social a todo tipo de processo de transformação da cidade.

Esperemos que, para bem da cidade e para a transformação de seus padrões de urbanização e construção, esta disputa não obstaculize as intenções do governo de Bogotá de promover uma profunda mudança na regulação das condições e obrigações a que, no futuro, estarão sujeitos os processos de transformação da cidade construída, onde não apenas se intensificará a concentração de atividade construtiva mas onde não poderá repetir a forma como se adensaram bairros como Chapinero, El Chico e Santa Bárbara, derrubando casas e construindo edifícios sem qualquer melhoria da infraestrutura viária, de espaço público e de equipamentos públicos. 

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NOTAS

[1] http://www.abeiradourbanismo.blogspot.com.br/2012/02/habitacao-emprego-e-mobilidade.html

[2] http://cider.uniandes.edu.co/Noticias/2013_01/Pelea_VIS_202013.asp

[3] Juan Felipe Pinilla é advogado formado pela Universidade de los Andes, Bogotá, com mestrado em Política Territorial e Urbanística pela Universidade Carlos III de Madrid. Atualmente é pesquisador e consultor em temas de políticas de solo, propriedade e direito urbano e professor da Faculdade de Direito da Universidade de los Andes.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Bombeiro, dinheiro e... pipeiro!


Segunda-feira 25 de fevereiro, início de tarde de calor intenso na Rua Gavião Peixoto quase esquina com Mariz e Barros, Niterói. Um velho caminhão-pipa está aboletado na faixa exclusiva dos ônibus abastecendo uma lavanderia.

Não atrapalha ninguém. A rua está quase vazia. Mas a cena me parece insólita. A revolução dos transportes de Niterói potencialmente derrotada pela contra-revolução da falta d’água.

Vendo-me de máquina fotográfica em punho, o pipeiro se apressa em dizer que está autorizado a parar em qualquer lugar da cidade.

Eu não  duvido. Falta d’água crônica é questão de segurança nacional.

Notifique-se, pois, a população que a pipa d’água passou a ter, no trânsito de Niterói, status similar ao dos caminhões do corpo de bombeiros e dos carros-fortes de transporte de valores. E que ela veio para ficar.

2013-03-01

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O coeficiente de aproveitamento e a valorização do solo

A Outorga Onerosa do Direito de Construir (direta ou via CEPACs) é uma das modalidades monetárias de recuperação da valorização do solo para fins de financiamento da infraestrutura e das redes de serviços urbanos que estão na raiz dessa mesma valorização.

Para ser transparente e eficaz, ela tem, ou deveria ter, como pedra de toque o conhecimento de quanta valorização é criada pela indústria da incorporação imobiliária e quanta valorização a municipalidade se propõe a recuperar – quer seja em um empreendimento isolado, em um bairro em expansão e até numa cidade inteira em dado exercício fiscal.

R$ 1 milhão recuperado da valorização do solo em um único empreendimento imobiliário residencial pode representar 50% ou 5% dessa valorização – a exata diferença entre uma política consistente e outra pífia de recuperação de mais-valias (esta, mais provavelmente, uma política pública de doação de mais-valias) – a depender, obviamente, do montante da renda total gerada pela intensidade de uso do terreno e da valorização proporcionada pelo acréscimo de edificabilidade.


Sem que se saiba quanta renda e quanta valorização há para ser recuperada, é impossível, creio, avaliarem-se as políticas municipais de recuperação da valorização do solo por intensificação do uso da terra. Sem que se saiba quanta renda e quanta valorização são geradas nos empreendimentos imobiliários, é impossível, creio também, avaliar-se a efetividade do instituto da Outorga Onerosa do Direito de Construir.

Este artigo apresenta um modelo simplificado de cálculo da valorização baseado no conceito de valor residual do solo e no esquema de repartição da renda da terra discutido no artigo anterior desta série.

Sua utilidade prática é propiciar estimativas rápidas do efeito do acréscimo de edificabilidade sobre a renda gerada pelo solo em um empreendimento imobiliário e apoiar a construção de  uma metodologia eficaz de análise, cálculo e previsão de receitas da Outorga Onerosa do Direito de Construir nas cidades brasileiras – uma questão, a meu juízo, ainda em aberto por motivos que serão discutidos na última postagem desta série.

Intensificação do uso do solo e rentabilidade
Como qualquer outro ramo da indústria, a incorporação imobiliária é movida pela busca incessante de acréscimos de rentabilidade. Isto se dá pelas vias normais do aumento da produtividade do trabalho e do ganho de escala, mas, em especial, pela intensificação do uso desse insumo absolutamente peculiar que é a terra urbanizada. (Para uma visão geral do tema, recomendo a leitura, neste mesmo blog, do artigo "A braços com as peculiaridades da mercadoria terra urbana  http://abeiradourbanismo.blogspot.com.br/2012/01/bracos-com-as-peculiaridades-da.html.)

A intensificação do uso da terra urbanizada se dá de duas maneiras combinadas: pelo aumento da quantidade de m2 edificados, via o aumento do número de pavimentos e da taxa de ocupação do terreno, e pelo aumento do número de unidades imobiliárias que essa quantidade contém, via a redução de seu tamanho médio. Ao passo que a primeira modalidade multiplica a quantidade de produto imobiliário por m2 de terreno, a segunda promove a valorização relativa da unidade de produto (m2 privativo). A resultante de seus efeitos associados é a valorização do m2 de terreno.

O aumento da quantidade de unidades propiciada pela redução das respectivas metragens não aumenta, evidentemente, a quantidade de m2 privativos à venda, mas aumenta o seu preço médio muito mais que proporcionalmente ao seu custo médio. É este preço médio que, totalizado em Valor Geral de Vendas e subsequentemente “drenado” dos custos totais do empreendimento (construção e comercialização + custo de capital), transforma-se em valor residual (acrescido) do terreno. Deduzidos deste último o preço pago ao antigo proprietário e os encargos impostos pela municipalidade (Outorga Onerosa do Direito de Construir, obrigações urbanísticas etc.), resta ao incorporador um lucro imobiliário líquido (objeto da sua atividade) acrescido pela redução do tamanho das unidades. É por isso que a entidade abstrata “metro quadrado privativo” é a coisa mais concreta que existe em toda a indústria da incorporação imobiliária, aí incluídos o ferro, o cimento e o tijolo.

Na medida de sua sanção, a cada momento e lugar, pela legislação urbanística e pelos demandantes de produtos imobiliários, as duas dimensões da intensificação do uso do solo são inseparáveis na busca da indústria da incorporação por acréscimos de rentabilidade.

O Coeficiente de Aproveitamento dos terrenos
O padrão urbanístico de medida da quantidade edificada é o Coeficiente de Aproveitamento do terreno (CA), chamado, no Rio de Janeiro, Índice de Aproveitamento do Terreno (IAT).

O Coeficiente de Aproveitamento do terreno é o número que expressa a quantidade de m2 construídos, ou a construir, num terreno, como múltiplo da metragem do próprio terreno. Para esclarecimento do leitor leigo, isto significa que se o máximo Coeficiente de Aproveitamento vigente para um terreno de 1.000m2 é 2,5 o incorporador está autorizado a nele soerguer até 2.500 m2 de construção.

Por ter sido criado pelos urbanistas-arquitetos como mecanismo de controle da volumetria das construções e da densidade edificada na cidade, o CA exprime a relação entre os m2 brutos totais de construção, geralmente expurgados de uma série de elementos ditos não-computáveis (varandas externas, vagas de garagem etc.) e a metragem total do terreno.

Dado, porém, que está referido à quantidade de m2 construídos, esse padrão de medida só afere a primeira das duas dimensões da intensificação do uso da terra acima mencionadas, o que o torna insuficiente para o estudo do aproveitamento econômico do solo.

Para discutir o principal efeito econômico da intensificação do uso do solo, qual seja, a sua própria  valorização, proponho utilizarmos uma variante do Coeficiente de Aproveitamento do terreno que denomino “líquido”, isto é, o número que expressa a relação entre a quantidade total de produto imobiliário (m2 privativos ofertados no mercado) e a metragem total do terreno.

Por que usar o coeficiente líquido?
Porque a rentabilidade de um empreendimento, da qual deriva o valor do solo-localização, só pode ser medida pela relação receita/custo da unidade de produto colocado à venda no mercado. Só essa relação é capaz de exprimir  a  rentabilidade proporcionada pela operação simultânea das duas modalidades de intensificação do uso do solo acima descritas.

Tal unidade de produto é o m2 privativo, portador direto, em frações ideais, iguais e proporcionais, dos principais elementos constitutivos da economia do empreendimento: o Valor Geral de Vendas (VGV), o custo total de construção e comercialização, a Taxa Mínima de Atratividade (TMA, ou retorno líquido mínimo esperado) e, finalmente, a renda da terra (sobrelucro), igual ao resíduo da dedução, ao VGV, dos custos totais de construção e da TMA. 

É da relação entre a receita e o custo total de construção e comercialização contidos em 1m2 privativo que derivam os parâmetros de  rentabilidade, bruta e líquida, de qualquer empreendimento.

O m2 privativo é, portanto, a unidade de produto que resume todos os elementos essenciais ao estudo da renda e da valorização do solo na indústria da incorporação, cruciais para o desenho de políticas de recuperação da valorização do solo.

O m2 bruto é um indicador indireto, bastante imperfeito e problemático, da rentabilidade do empreendimento e da renda do solo gerada: para obter 1m2 de mercadoria pronta para a venda, o incorporador precisa realizar 1*n metros brutos de construção. Em outras palavras, não se pode atribuir ao m2 bruto de construção um preço e um custo médios que não sejam, por sua vez, função da “unidade de produto industrial de bens imobiliários”, o m2 privativo.

Por isso, sempre que os Coeficientes de Aproveitamento NÃO forem usados para estabelecer uma proporção da renda total – caso em que o multiplicador 1*n manterá constante a proporção – uma transformação prévia é obrigatória.

Para complicar, o m2 bruto de construção a que se refere o Coeficiente de Aproveitamento do terreno é, em geral, por motivos de administração urbanística que não cabe discutir aqui, afetado por um sem número de elementos ditos não-computáveis que variam de cidade em cidade – deformando ainda mais o cálculo da valorização e sua comparabilidade.

Recapitulando
Figura 1 (Clique na imagem para ampliar)
Revisitemos a estrutura de um empreendimento imobiliário multifamiliar sob o ângulo da formação e distribuição da renda da terra.

Figura 2 (Clique na imagem para ampliar)
A figura 1 exprime a formação da renda total, a figura 2 a repartição da renda entre os agentes privados envolvidos na incorporação, a figura 3 o esquema dessa repartição quando entra em cena a municipalidade impondo um encargo sobre a renda da terra.
Figura 3 (Clique na imagem para ampliar)

Aqui, é fundamental observar a distinção entre valor residual, preço e valor de mercado do terreno. Em qualquer empreendimento imobiliário, o preço de transação do terreno é o "termo de repartição" de seu valor residual (renda) entre o incorporador e o proprietário (conforme o poder de barganha de cada um) - depois de deduzidos eventuais encargos impostos pela municipalidade. O valor de mercado, por sua vez, é a medida de referência dos preços efetivamente praticados em cada localidade. 

Vale recordar, também, que a reivindicação da coletividade a uma cota na repartição da renda total  provém de que 100% da renda da terra gerada em qualquer empreendimento imobiliário  não é, salvo eventuais inovações, "lucro do investimento produtivo", mas sobrelucro gerado pelo privilégio (direito de propriedade) de exploração exclusiva de fatores extrínsecos ao capital de  investimento, a saber, a localização do terreno no espaço urbanizado.

O Coeficiente de Aproveitamento Líquido e o cálculo da valorização.
Figura 4 (Clique na imagem para ampliar)
Reportando ao modelo geral da incorporação imobiliária, onde a renda gerada se obtém por subtração sucessiva dos custos totais (de construção + comercialização e retorno de capital) ao VGV e admitindo-se que cada m2 líquido (privativo) contém frações iguais e proporcionais das quantidades de valor deduzidas, podemos estabelecer o gráfico da Figura 4, em que o VGV, o Retorno Bruto (RB)[i] e o Valor Residual (VR, ou seja, a renda) aparecem como funções lineares do que chamamos de Coeficiente de Aproveitamento Líquido (CAL).

Concentremo-nos, agora, no exame  da variação do Valor Residual segundo a variação do Coeficiente de Aproveitamento Líquido, crucial para o entendimento do instituto da Outorga Onerosa do Direito de Construir.

Figura 5 (Clique na imagem para ampliar)
C2 é o “coeficiente de aproveitamento de serviço” de um dado empreendimento, que produz o seu VGV, o seu Retorno Bruto (RB) e a renda total (o valor residual VR). Havendo demanda apta a pagar o custo de produzir uma edificação multifamiliar e gerar uma Taxa Mínima de Atratividade (TMA), o coeficiente de serviço será, quase sempre, o máximo que a legislação urbanística permite construir.[ii]

C1 é um coeficiente de aproveitamento qualquer, que nos fornecerá valores proporcionais do Valor Geral de Vendas (VGV), Retorno Bruto (RB) e Valor Residual, ou simplesmente, Renda (VR).

A expressão algébrica da Figura 6, deduzida pelo método da semelhança de triângulos, nos dá a valorização do terreno (acréscimo de valor residual) resultante do acréscimo de coeficiente de aproveitamento líquido C2-C1.

Em outras palavras, a valorização é simplesmente a diferença entre o valor residual do terreno se aplicado, para dado empreendimento, o coeficiente de aproveitamento líquido C1 e o valor residual do mesmo terreno se aplicado o coeficiente de aproveitamento líquido C2.

Aplicando o Coeficiente Líquido a um caso real
Consideremos o caso de um empreendimento real, situado à rua Duque Estrada no. 39, bairro de Santa Rosa, Niterói, lançado em 2010.

O problema, aqui, consiste em estabelecer a valorização - como proporção do Valor Residual (renda total) - do acréscimo de edificabilidade do CA Líquido "de serviço” C2, aplicado pelo empreendedor de acordo com a normativa urbanística em vigor, sobre o CA C1=2 (definido pela norma como “básico” para fins da Outorga Onerosa do direito de Construir e aqui tomado como "líquido"). 

A tabela de preços no prospecto de lançamento contém os seguintes dados: Total de unidades: 80; total de m2 privativos: 6661,28. Área do terreno: 1084,21m2.

A Figura 7 nos mostra o cálculo da valorização.

Comparemos, agora, esse resultado com a valorização obtida com o uso do coeficiente de aproveitamento de terreno tal como definido na legislação urbanística.

Considerando que, para um mesmo empreendimento, a proporção m2 brutos de construção/m2 privativos é, por definição, constante, essa discrepância de 5 pontos percentuais sobre o VR no cálculo da valorização provém, obviamente, da cota de m2 brutos construídos ditos "não computáveis". Contudo, isso não garante que o cômputo dos m2 construídos totais nos dê a valorização correta. Por quê?
  
O m2 bruto distorce o cálculo da valorização
Porque o m2 bruto não tem preço no mercado e não pode, por si mesmo, refletir o  balanço receita total/custo total que está na raiz da  rentabilidade do empreendimento.

A tendência da incorporação residencial contemporânea é o aumento progressivo da taxa m2 brutos/m2 privativos, caso em que o senso comum é tentado a deduzir ora que o uso do m2 bruto “exagera” a valorização, encarecendo, por conseguinte, as obrigações impostas pela municipalidade a essa valorização, como é o caso da Outorga Onerosa do Direito de Construir, ora que a municipalidade está “deixando de arrecadar” com a Outorga Não-Onerosa de uma grande quantidade de elementos não-computáveis de construção.

Ambas as deduções são, no entanto, mera ilusão de ótica.

É preciso considerar que, na conta decisiva, a da rentabilidade do empreendimento, o m2 bruto representa somente o lado do custo e que, em geral, a quantidade de m2 brutos de construção aumenta em troca da redução da área útil de cada unidade e do correspondente aumento do número de unidades, mais do que compensando com receita o aumento do custo por m2 privativo colocado à venda no estande. Em suma, o aumento do custo total de construção está a serviço do aumento mais que proporcional da receita total, o VGV, e consequentemente, da rentabilidade do empreendimento. 

Eis porque o melhor padrão de medida da valorização do solo na incorporação imobiliária é o Coeficiente de Aproveitamento Líquido: a valorização é uma proporção da renda e esta o resíduo da dedução de todos os custos ao preço de venda do m2 privativo.  Somente a relação entre o preço de venda e o custo total por unidade de produto (m2 privativo) é capaz de traduzir o efeito simultâneo das duas modalidades de intensificação do uso do solo – o aumento da quantidade de m2 construídos e o aumento da quantidade de unidades à venda por n m2 construídos – sobre a sua valorização.

Discutindo a validade do modelo
O modelo acima descrito é um análogo do procedimento recomendado por Carlos Morales Schechinger:

Se o que se quer é calcular o incremento do preço, ou mais valia, deve-se aplicar o mesmo cálculo duas vezes, primeiro um [cálculo] residual a partir da mercadoria a que se poderia dedicar o terreno antes do fato gerador da mais-valia e outro que parta da mercadoria que se poderá aplicar depois do fato gerador. (grifo nosso). [iii]

Por que análogo? Porque o procedimento proposto por Morales é a aplicação in totum do método residual dedutivo de avaliações imobiliárias, muito mais completo e preciso do que o nosso modelo para o estudo individualizado do efeito da variação do coeficiente de aproveitamento sobre o valor residual do terreno. Com efeito, a relação receita-custo por m2 privativo de um edifício de 4 pavimentos não pode ser igual à de um edifício de 8 pavimentos.

O problema é: como aplicar o modelo de avaliação residual dedutivo ao cálculo da valorização por acréscimo de edificabilidade em mercados urbanos de centenas de empreendimentos e centenas de milhares de m2 privativos produzidos anualmente?

Ora, da mesma maneira como, em um edifício de 12 pavimentos-tipo, todos os preços de apartamentos de diferentes tamanhos e posições de coluna e andar são subsumidos pelo incorporador, para fins de análise de rentabilidade do empreendimento e de suas perspectivas de negócios (VGV, retorno bruto, velocidade de vendas, etc), a um preço médio do m2 privativo, o estudo da valorização do solo por acréscimo de edificabilidade em larga escala também requer tomar a valorização por acréscimo de edificabilidade como função (linear) da quantidade de m2 privativos médios ofertados.

O modelo aqui sugerido é uma simplificação do método residual dedutivo de avaliação de terrenos baseado em edificações ideais inteiramente constituídas de m2 privativos (médios) tais como considerados pelos incorporadores em seus cálculos comerciais. [iv]

Como qualquer modelo operacional, ele deposita a sua expectativa de validade no benefício/custo, e conseqüente legitimidade social, contidos no grau de precisão de seus resultados. Na produção imobiliária em larga escala, governa a padronização. Sem a padronização de custos, preços e produtos, sem o VGV, o CUB e o preço médio do m2 privativo, a grande indústria de bens imobiliários simplesmente não poderia existir. De forma análoga, sem métodos generalizantes de avaliação imobiliária as cidades não poderiam arrecadar o IPTU e os avaliadores não poderiam estimar a "cota de terreno" no valor total dos imóveis residenciais de diferentes bairros da cidade.

Sem um modelo de cálculo da valorização e estimativa da renda do solo gerada na indústria da incorporação imobiliária capaz de simplificar, padronizar e outorgar transparência e comparabilidade à aplicação da OODC nas cidades brasileiras,esse  instrumento de financiamento urbano dificilmente  poderá ser aplicado de se maneira razoavelmente homogênea e generalizada à escala nacional.

Conclusão
Para fins do estudo da valorização da terra urbana por acréscimo de edificabilidade, medida como proporção do valor residual (renda total), a precisão recomenda o uso do Coeficiente de Aproveitamento Líquido do terreno (m2 privativos produzidos /m2 totais de terreno), por ser este o indicador de intensificação do uso do solo diretamente associado à  rentabilidade do empreendimento.

Isso não invalida, contudo, o uso tradicional do m2 bruto de construção, que, como vimos, também expressa de maneira razoavelmente aproximada a proporção do valor residual do solo implicada. Para fins de comparabilidade (entre cidades, por exemplo) será sempre necessário, no entanto, conhecerem-se a taxa m2brutos/m2 privativos e a taxa m2 totais construídos/m2 totais construídos computáveis.

Mais importante é estabelecer que a valorização se apresenta como proporção do valor residual do terreno (VR) em função da variação do seu coeficiente de aproveitamento.

A próxima postagem desta série será, portanto, dedicada ao problema crítico da estimativa da renda (VR) nos empreendimentos imobiliários. De sua solução depende a possibilidade de construir-se uma ferramenta de análise, cálculo e previsão de receitas da Outorga Onerosa do Direito de Construir baseada no princípio da  natureza residual do valor do solo para aplicação em larga escala.

2013-02-23
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NOTAS

[i] Deixaremos para o próximo artigo desta série (que tratará da estimativa da renda) o desenvolvimento das propriedades da Curva de Retorno Bruto, de grande interesse, sob vários aspectos, para o estudo tanto do negócio imobiliário como dos problemas da organização espacial urbana.

[ii] Quando discutirmos, na postagem dedicada à estimativa da renda, a curva de retorno bruto, mostraremos em que circunstâncias o máximo aproveitamento econômico de um terreno não corresponde ao seu máximo aproveitamento urbanístico.

[iii]  Morales Schechinger, Carlos, “Algunas reflexiones sobre el financiamiento de las ciudades con suelo urbano”, Texto preparado em 2007 com base nos materiais introdutórios desenvolvidos em 2005 para diversos módulos do curso a distância “Financiamiento de las ciudades latinoamericanas con suelo urbano”, ministrado em quatro edições pelo Lincoln Institute of Land Policy de março de 2005 a janeiro de 2007. Tradução livre do blogueiro.

[iv] Na verdade, é deste mesmo modelo que deriva - como já demonstrei algebricamente em 
"Contribución al estudio de la 'Outorga Onerosa do Direito de Construir' (Brasil): contenido económico y fórmulas de cálculo" (maio 2007)
(http://abeiradourbanismo.blogspot.com.br/2007/05/contribucion-al-estudio-de-la-outorga.html ) e voltarei a discutir no último artigo desta série – o método de cálculo da OODC chamado “do terreno virtual”. A diferença, crucial, é que o método aqui proposto permite estimar a  valorização e, consequentemente, determinar o seu  subproduto, a OODC, como proporções da renda total (valor residual do terreno antes de descontada a OODC), ao passo que o “método do terreno virtual” propõe calcular a OODC como função de uma variável que depende da própria OODC, qual seja, o valor venal do terreno - uma circularidade teoricamente problemática e geradora de sérias distorções.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Legado olímpico se aprende na escola

O Dia 22-02-2013

Banco Imobiliário de Paes leva um 'revés'

Fonte: Internet
Rio - A brincadeira da Prefeitura do Rio, que lançou uma versão especial do jogo Banco Imobiliário divulgando as obras de Eduardo Paes e distribuindo 20 mil exemplares a escolas municipais, está sendo reprovada até mesmo por profissionais de Educação da rede pública carioca, além de pedagogos de outros estados. (...) "Achamos inadequado. Não só pela questão política, mas também pelos erros de informação, como dizer que o valor de um imóvel em Deodoro é maior do que em Copacabana ou na Barra”, criticou a coordenadora pedagógica de uma das escolas, que pediu anonimato por medo de represálias.

Olimpíadas, bancos, imóveis.

Algum adulto brasileiro ainda tem dúvida sobre o conteúdo do "legado olímpico"? Sobre o significado do epíteto "Cidade Olímpica"? Sobre o alcance da ideia da "oportunidade olímpica"? Sobre a natureza dessa força estranha que compele os governantes - gregos, troianos, cretenses e tebanos - a se curvarem, agradecidos e embasbacados, à sua presença?

Se tem, recomendo consultar suas crianças. Elas já aprenderam. Na escola.

2013-02-22

sábado, 26 de janeiro de 2013

Precariedade gentrificada

The Guardian 23-01-2013, por Jonathan Watts
The Rio favela transformed into prime real estate

Wealthy buyers are snapping up plots of land in Vidigal after authorities pushed out drug gangs

Imagem: Internet
Until recently, this hillside shanty town was dominated by drug gangs and widely considered off-limits among both the local and foreign middle class.

But the favela is undergoing a transformation. The police have taken control of the streets and with the gangs no longer deciding who enters their territory, rental prices have surged more than threefold in three years. Wealthy buyers are snapping up the prime plots, real estate firms are opening offices and more outsiders are moving in.

The most high-profile conflict here now is not been between rival gangs, but between two European investors who are tussling over a prime plot. Andreas Wielend, an Austrian engineer, bought a dilapidated home in 2009 and turned it into a hostel and nightclub. It is now famed for breathtaking views and holding dub and electronic music nights that attract several hundred customers to party until dawn. The change is dramatic, but not entirely for the better, says Wielend. (..)

2013-01-26

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

E o Caio Martins, Rodrigo? Axel?

O Fluminense 18/01/2013
http://www.ofluminense.com.br/editorias/cidades/niteroi-e-comite-olimpico-em-parceria-para-inserir-cidade-nos-jogos-de-2016#

Niterói e Comitê Olímpico em parceria para inserir cidade nos Jogos de 2016

(..) O prefeito Rodrigo Neves se encontrou com o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, quando foi acertada a criação de um grupo de trabalho que vai avaliar as potencialidades e necessidades do município para receber delegações, turistas e equipamentos com vistas à preparação e à aclimatação de atletas para os Jogos Olímpicos. “Temos ótimos lugares para receber os atletas, como a Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (Andef), o Clube Naval de Charitas, o Iate Clube Brasileiro, a AABB e a Ilha de Mocanguê”, enfatizou Rodrigo. (...)

“O destino do Complexo Esportivo Caio Martins é a oportunidade de o COB e os responsáveis federais e estaduais pela organização dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro demonstrarem a seriedade e honestidade de seus propósitos desportivos.

E também de governantes e parlamentares mostrarem que o interesse público lhes fala mais alto do que as centenas de milhões que, como todos sabem e alguns esperam avidamente, poderiam brotar, como lava incandescente, do solo que ele ocupa.

A cidade de Niterói tem todo o direito de considerar que a completa reestruturação física e gerencial do Caio Martins é a única opção legítima para administradores federais, estaduais e municipais que se digam honestamente empenhados em fazer com que os Jogos Olímpicos de 2016 deixem um legado desportivo e urbanístico.” (..) *

2013-01-23
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* "Legado olímpico é a reestruturação do Caio Martins", À beira do urbanismo 30-11-2011
http://abeiradourbanismo.blogspot.com.br/2011/12/legado-olimpico-e-reestruturacao-do.html

domingo, 20 de janeiro de 2013

Força estranha

UOL Olimpiadas 30-04-2012

Prazo para inscrições acaba e Nuzman é o único candidato à presidência do COB até 2016

Anos atrás, 
Fonte: Internet
num debate realizado na Associação Brasileira de Imprensa sobre
o processo de preparação da cidade do Rio de Janeiro para o Panamericano de 2007,  um conhecido político e administrador público ligado à área de transportes, extasiado com a explanação do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro sobre a importância do PAN para o desenvolvimento do Rio e o fabuloso legado que ele deixaria para a cidade, exclamou: — Ah, por que não decidimos de uma vez deixar ao Comitê Olímpico a tarefa de governar a cidade?

Oratória? Vaticínio? Só sei que diariamente eu me pergunto sobre a estranha natureza desse poder que tem o Comitê Olímpico Internacional de fazer com que todos os governantes do planeta se curvem, mais ou menos voluntariamente, aos seus desígnios! 

2013-01-20

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A César o que é de César




Olhando com atenção, 
o Palácio do Cebolão 
mais parece  
uma pobre citação.


2013-01-11

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Paulistana 2: Meia-noite na Bela Vista

Fonte: Blog do Diego*
Em breve estada num hotel decadente da Bela Vista, durante duas noites meu sono foi embalado pelo burburinho de vozes e o retinir de talheres vindos  de uma velha casa contígua.


Na terceira e última noite, ávido por uma refeição que me confortasse o estômago, desci à rua, dei a volta em três quarteirões, até descobrir uma promissora sopa de abóbora no mesmíssimo restaurante cuja algaravia entretinha o meu sono.

Levei ali um tempo razoável, mas que, no final, resumiu-se ao breve interregno de uma sucessão de fotogramas que trago na lembrança. Enquanto, no fundo da sala, um casal retrô se beijava furiosamente alheado do mundo, ao meu lado, junto à janela, um curioso quarteto formado por jovens espectros de Mário Pedrosa, Pagu, André Breton e Frida Khalo apreciava beatificamente os vinhos da casa expelindo, a cada cinco minutos, embevecidos monossílabos. Eu  juro que vi passar em dado  momento, esvoaçando, o anjo da Libelu.

Admirado, terminei vagarosamente o meu repasto, despedi-me da cena e retornei ao meu quarto de hotel para sonhar um sonho comezinho.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Paulistana 1: O pão nosso de cada dia

Inauguração da Avenida Paulista em 1891.
Aquarela de Jules Martim*
Encontros extraordinários só me acontecem em Botafogo e Ipanema, nunca em Bangu ou Belford Roxo. Sempre que alguém me diz, “Puxa, como este mundo é pequeno”, eu respondo: “Nós é que somos poucos”.

Para não me deixar mentir, quis o acaso que, numa breve e quase anônima estada de três dias numa metrópole de mais de 20 milhões de habitantes, terceira ou quarta maior aglomeração urbana do planeta, cruzei, na entrada de um centro comercial da Avenida Paulista, como se fosse um evento absolutamente corriqueiro, com a urbanista mais famosa do Brasil.

Ela não me reconheceu, por certo – eu não sou, decididamente, uma figura popular. Fato é, creiam-me, que o encontro extraordinário ocorreu, tão inexorável como seria se frequentássemos, toda manhã, a mesma padaria. 

Mundo pequeno, mesmo! Botafogo, Ipanema e Jardim Paulista.


2013-01-05