terça-feira, 19 de novembro de 2013

A bolha imobiliária e o colapso financeiro: observações a propósito de Case, Karl E., "Housing, Land, and the Economic Crisis"



O mercado imobiliário esteve no centro da crise financeira e econômica que recém sacudiu, e a ainda assombra, os Estados Unidos e a Europa, devastando as vidas de milhões de assalariados e pequenos empresários que ficaram sem seus empregos, seus negócios e - last but not least - suas casas. 

Em O Mundo em Queda Livre[i], o ex-economista-chefe do Banco Mundial Joseph Stiglitz descreve a crise de 2008-2009 como o colapso de um surto de consumo - vital para a sustentação das economias norte-americana e mundial em um cenário de estagnação do rendimento dos estadunidenses – financiado por uma vasta pirâmide de operações financeiras, de alcance mundial, com “pacotes” de hipotecas lastreadas pela expectativa do aumento acelerado e indefinido dos preços imobiliários. Para Stiglitz, a indústria do financiamento hipotecário se converteu em um maná consumista, uma forma de os estadunidenses "tomarem emprestado e consumir como se os seus rendimentos estivessem crescendo". 



EUA: Execuções hipotecárias iniciadas e concluídas abr2005-jun2013.
Fonte: http://www.realtytrac.com/content/foreclosure-market-report/july-2013-us-foreclosure-market-report-7833

Pouco se tem escrito, no entanto, sobre o papel particular do mercado imobiliário e da renda da terra na economia dita “financeirizada”, que, na concepção do economista espanhol Nacho Alvarez Peralta,[ii] investigador do Instituto Complutense de Estudios Internacionales – ICEI, “restabeleceu a rentabilidade econômica [em franco declínio] na década de 1970 à custa de uma enorme acumulação de ativos fictícios que constituem, no entanto, direitos efetivos sobre valores a serem futuramente produzidos na economia real - um divórcio entre o âmbito financeiro e o produtivo [que] não pode jamais se consumar nem é sustentável a longo prazo.”[iii] 


Não é esta uma descrição perfeita, apenas invertida no espelho do espaço-tempo, do processo por meio do qual as instituições bancárias e financeiras norte-americanas, em parceria com o seu Banco Central "independente",  induziram os trabalhadores do país a "torrar" em carros, mobília e viagens o valor de expectativa de suas residências?
 
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Uma interessante contribuição ao estudo da relação entre o mercado imobiliário, a renda da terra e a crise financeira de 2009 – ainda que não destinado a uma abordagem sistêmica da questão – é o artigo “Housing, Land, and the Economic Crisis”, de Karl E. Case, publicado na edição de Land Lines - revista do Lincoln Institute of Land Policy - de janeiro de 2010[iv]., o auge da crise, quando ainda era imensa a incerteza quanto às tendências dos preços imobiliários, do nível de emprego e dos próprios desenvolvimentos políticos nos Estados Unidos: ocupar Wall Street surgia, então, como uma inquietante palavra de ordem.

O link para acessar o artigo é http://www.lincolninst.edu/pubs/1732_Housing-Land-and-the-Economic-Crisis.

Case, professor de Economia do Wellesley College, de Massachusetts, classifica a crise de fins de 2009 como um desastre econômico de vastas proporções cujas raízes remontam à resposta dada pelo FED ao rápido declínio das indústrias de alta tecnologia e à crise do mercado de capitais de 2000/2001: redução da taxa básica de juros de 6,5% em janeiro de 2001 para 1,75% em fins de 2002.

O barateamento do crédito aparece como o principal responsável pelo aumento abrupto do número de unidades residenciais lançadas anualmente – de 1,52 milhões em outubro de 2001 para mais de 2 milhões no fim de 2003 – e por uma incrível aceleração da rotatividade do estoque – de 5,2 milhões de unidades anuais vendidas no começo de 2001 para 7 milhões em 2005. 

Fonte: Case, Karl E., “Housing, Land, and the Economic Crisis”, em Land Lines, Janeiro de 2010

Case afirma que “durante a expansão do crédito, a indústria das hipotecas” – turbinada, como sabemos, por uma intrincadíssima rede de transações financeiras globais envolvendo recebíveis securitizados, com centro em Wall Street – “tornou-se altamente lucrativa, recolhendo mais de 100 bilhões de dólares em taxas em 2003 e (segundo Greenspan e Kennedy) 200 bilhões em 2004”.

Sua apreciação do papel do boom imobiliário na economia estadunidense não parece diferir em essência, da de Stiglitz: "Sem dúvida, o mercado de imóveis residenciais manteve a economia fora da recessão durante os anos turbulentos dessa década".

Com base no Índice de Preços de Imóveis S&P Case-Schiller - cuja fundamentação e metodologia têm, no artigo, uma relevante explicação -, Case estima que, entre 2000 e 2005, o valor total dos imóveis residenciais nos Estados Unidos aumentou cerca de 10 trilhões de dólares (de 14 trilhões para 24 trilhões), mais ou menos igualmente repartido entre construções e [renda do] solo. Ou seja, o valor da terra urbana (de uso residencial, somente) nos Estados Unidos teria sido acrescido, naquele período, em cerca de 1 trilhão de dólares anuais (equivalente, grosso modo, à totalidade do PIB mexicano da época).

Um trilhão de dólares anuais em acréscimo de renda do solo residencial urbano é, por definição, o paraíso terrenal de todo adepto da recuperação de mais valias imobiliárias para fins de financiamento da infraestrutura e serviços públicos. Metade desse montante seria suficiente para financiar, por exemplo, um vasto programa governamental de renovação da infraestrutura e desenvolvimento de tecnologia limpa nos EUA – reivindicação recorrente nos escritos do economista Paul Krugman.


É impossível não pensar, como por reflexo, que um imposto "georgiano"[v] sobre essa fabulosa valorização fundiária teria tido a dupla função de financiar a renovação da infraestrutura e da tecnologia no país e poupar a massa dos cidadãos estadunidenses das patranhas especulativas dos bancos e instituições de financiamento imobiliário – com consequências positivas, econômicas e políticas, para o mundo inteiro.

A propósito, a posição de Case sobre as responsabilidades pelo colapso é, cumpre dizer, no mínimo ambígua: “Não se pode estabelecer uma clara divisão de responsabilidades entre o setor privado e as GSEs (‘Entidades Ligadas ao Governo’, i.e., Fannie Mae, Freddie Mac, Ginny Mae e Federal Housing Administration) pela expansão da bolha imobiliária.”[vi] Mais ainda, nessa questão Case flerta explicitamente com a ladainha privatista de que os bancos e financeiras foram vítimas do governo, ao dizer, por exemplo, que “um fator adicional teve um claro papel em tudo isso: o empenho do governo federal em propiciar a ricos e pobres, indistintamente, o acesso à casa própria”.[vii]   

Nessa questão o blogueiro prefere os argumentos apresentados por Stiglitz no livro citado e bem resumidos na frase: “Muitos banqueiros acusam o governo – cuspindo no prato em que comem – de não ter impedido a sua própria ação”. Em alguma – mais de uma, com certeza – ocasião de que não me recordo exatamente, Paul Krugman assimilou a atitude dos bancos e instituições financeiras norte-americanas em face da crise por eles mesmos criada à do indivíduo que mata os próprios pais e pede absolvição invocando a condição de órfão. 

A síntese final de Case sobre as causas da crise é: “No fim das contas, o que levou ao desastre foi uma combinação de concorrência desenfreada no setor privado, entusiasmo irracional e o que acabou se revelando como má supervisão regulatória”. Embora tímida, não deixa de ser uma admissão da necessidade de regulação pública do mercado financeiro em geral, e do imobiliário em particular – sem a qual, aliás, a própria ideia da recuperação da valorização do solo, diretriz fundamental de Land Lines, deixaria de ter sentido.

Enfim, o artigo, de apenas seis páginas e fartamente ilustrado com gráficos e tabelas, pela importância do tema justifica amplamente os dez minutos que o leitor gastará para lê-lo. 

O link para acessar o artigo é http://www.lincolninst.edu/pubs/1732_Housing-Land-and-the-Economic-Crisis.

 



[i] Stiglitz, Joseph, O Mundo em Queda Livre – Os Estados Unidos, o mercado livre e o naufrágio da economia mundial. Trad. José Viegas Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Cap. 1: A formação da crise


[iii] Ib., p. 6.

[iv] Case, Karl E., “Housing, Land, and the Economic Crisis”, em Land Lines, Janeiro de 2010. Cambridge: Lincoln Institute of Land Policy.

[v] Escritor, economista e político estadunidense (1839 –1897), autor de Progresso e Pobreza (1879), defensor da supressão dos impostos sobre as atividades produtivas em favor da taxação integral da renda da terra, um bem natural irreprodutível cuja propriedade exclusiva, além de um privilégio imerecido e economicamente injustificável, seria um obstáculo ao pleno desenvolvimento da indústria e a causa fundamental da pobreza.  

[vi] Ib., p. 12.


[vii] Ib., p. 12.





2013-11-19

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