quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Dezessete milhões por um cinema tombado?

Na primeira página d’O Fluminense de hoje, 07-12, o prefeito de Niterói aparece rindo de orelha a orelha (o reitor da UFF nem tanto) por conta do fechamento de um acordo pelo qual  o antigo Cinema Icaraí, um imóvel privado tombado, é “transferido” à UFF por “cerca de" 17 milhões de reais. Segundo o jornal, 10,6 milhões serão pagos pela UFF com recursos disponibilizados pelo MEC, e “aproximadamente” 6,5 milhões - que, diz o jornal , exultante, “segundo o prefeito já estariam disponíveis no orçamento municipal”, pela prefeitura.

Você estranhou, leitor, os “aproximadamente” e “cerca de”? Eu também. Em frente, porém.

Esclarece O Flu que “os [cerca de] 17 milhões serão pagos ao proprietário do imóvel, a construtora Koppex, de Fernando Policarpo”, que não aparece na foto. Que estaria fazendo na ocasião? Chorando? Gargalhando? Esfregando as mãos?

Eu mesmo saudei a notícia da adoção do cinema pela UFF, ontem, num breve comentário no Facebook, em que dizia, um tanto eufórico: “UFF para prefeito de Niterói!”, mas dizia também que uma pulga se pusera atrás da minha orelha sussurrando: “Perguhhhhnta quanto custohhhu, quem está pagahhhndo e quem está recebehhhndo”.

Porque ria o prefeito? Porque ama a ciência e a cultura? Por que ama Niterói? Ou porque 17 milhões de reais públicos saíram voando por aí- o equivalente, quem sabe, à renda da terra que seria gerada por um edifício residencial de 17 pavimentos... no terreno do Cinema Icaraí?

Atenção, leitores. O que importa para os “investidores” imobiliários e seus intermediários não são os espigões, nem o retorno “normal” de capital, mas o lucro extraordinário que eles geram em forma de renda da terra!

Há um detalhe, porém. Se a edificação estava tombada, na melhor das hipóteses o seu aproveitamento econômico só poderia se dar em usos como... cinema, teatro, casa de espetáculos etc, e mesmo assim, mediante vultosos  gastos em reformas e instalações COMPATÍVEIS COM O TOMBAMENTO, que teriam de ser abatidos, junto com depreciação, despesas correntes e retorno de capital, das receitas estimadas no horizonte de projeto, para calcular o excedente de renda disponível para a aquisição do imóvel. Este seria, grosso modo, o seu "valor de mercado".

O acordo firmado significa que, feitas todas as contas, chegou-se à conclusão de que qualquer investidor que decidisse montar, no antigo Cinema Icaraí, um negócio COMPATÍVEL COM O TOMBAMENTO DA EDIFICAÇÃO, auferiria, além do retorno “normal” de capital, um lucro extraordinário em forma de renda da terra equivalente ao de um edifício residencial de 17 pavimentos!!!

Pergunta-se: se espetáculos são tão bom negócio em Niterói, porque então o Cinema Icaraí já não virou, há décadas, uma... Estação de Cinema? Um Moulin Rouge Icaraí? Teria sido perfeito: bem ao lado do Petit Paris! (Quem se lembra?)

Como não sou especialista em avaliações, sou obrigado a dizer: o Cinema Icaraí NÃO PARECE valer 17 milhões ! A viúva PODE TER SIDO assaltada!

Ou será que ela decidiu, generosa que é, compensar o proprietário do cinema pelo abuso “desses insensíveis que vivem prejudicando os proprietários para proteger o patrimônio cultural?”

Com a palavra, os leitores. De minha parte, eu gostaria de ver entrar em cena o Ministério Público e seus avaliadores profissionais e recomendaria, como Deep Throat a Bob Woodward em Todos os Homens do Presidente: “Follow the money”.


2011-12-07


3 comentários:

  1. Permita-me comentar não o negócio do Cine Icaraí, mas as fotos laterais, com a perimetral e o elevado Paulo de Frontin. Entre a derrubada estética da Perimetral, e a de qualidade residencial dos moradores da P. de Frontin, para mim a segunda seria mais importante. Mas quem ousaria dizer que vai demolir o viaduto da P. de Frontin. E então, por que fazê-lo na perimetral?

    ResponderExcluir
  2. esse sorriso é porque ele deve ter tido umas "alegrias" extras com essa venda. e o proprietario vai ficar muito agradecido a ele, e com certeza fará grossas doaçoes pra sua campanha ano que vem..

    ResponderExcluir
  3. Grande Pedro,

    todas as vezes que medirmos as habitações e as edificações culturais/sociais pelo preço de mercado, teremos essas aberrações no preço destes imóveis. Temos que mudar isso! Moradia n é mercadoria! Um abraço

    ResponderExcluir